terça-feira, 21 de setembro de 2010

Faça você mesmo sua igreja!

Todos os dias surgem quatro novas igrejas nos EUA. E também devem fechar algumas. Mas parece que para alguns é uma forma de ficar rico. Pode-se arranjar um certificado de reverendo na Internet. No "Expresso" de sábado passado (19 de Setembro), a pretexto do pastor que queria queimar o Alcorão.

Todo-Poderoso cativo

Deus não é o Todo-Podereoso dominador, é o Todo-Poderoso cativo, cativo das liberdades que ele criou no cimo do mundo para que o mundo possa culminar no amor.

Abbé Pierre (1912-2007)

Oração contra ídolos e demónios

Senhor,
a ninguém mais queremos agradar,
nem ao espírito da raiva,
nem ao espírito da tristeza,
nem ao espírito da cobiça,
nem ao demónio ou a um dos seus ajudantes.
Ao teu apelo respondemos:
“Vê, somos teus”.
E isto queremos comprovar pelas nossas obras.
Fizemos a nossa promessa
e a ninguém mais obedeceremos,
pois somente tu és nosso Deus.
Não reconhecemos nenhum outro deus,
nem o estômago, como os glutões, cujo deus é a barriga,
nem o ouro, como os avarentos,
nem a avareza, que é idolatria.
Não reconhecemos qualquer outra coisa como Deus,
nem a colocamos à mesma altura de Deus.
O nosso Deus é aquele que está sobre tudo,
que tudo trespassa e em tudo está.

Orígenes (185-254 d.C.)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

20 de Setembro de 1586. O jesuíta John Ballard é morto por participar numa conspiração contra a rainha de Inglaterra

Daniel Craig faz de John Ballard no filme "Elizabeth"

John Ballard, padre jesuíta, participou numa tentativa de assassínio da rainha Isabel I de Inglaterra, que ficou conhecida por “Babington Plot”, “Conspiração de Babington”, porque liderada por Anthony Babington. Depois do assassínio da rainha protestante, a Espanha deveria ajudar Maria Stewart, rainha da Escócia, a ficar com o trono da Inglaterra. A conspiração é descoberta, John Ballard e os colegas são presos, torturados e executados e tudo isto contribui para o fim da rainha católica. Maria Stewart já estava presa havia uma série de anos, mas com a ligação à conspiração, surgiu finalmente um pretexto para a sua execução pelo crime de traição em 1587.

Tolkien, Newman e Bento XVI

Quem é o autor da estátua de John Henry Newman que esteve na cerimónia da beatificação? Pode ser vista na notícia do “Correio da Manhã”, na segunda página, imediatamente abaixo. O autor é Tim Tolkien. E como o nome sugere, é da família do autor do “Senhor dos Anéis”, J.R.R. Tolkien (1892-1973). Bisneto.

Não sei se o Papa gosta de ler Tolkien. Dele li em tempos comentários a C.S. Lewis, amigo de Tolkien, mas todo ele anglicano. Mas a relação no meio disto tudo não tem a ver com gostos literários, pelo menos directamente. É que Tolkien, o bisavô, foi estudante do oratório fundado por John Henry Newman, em Birmingham. Nasceu dois anos depois da morte do cardeal, mas foi aluno do irmão Francis Morgan, um protegido de Newman.

Se Tolkien era um católico convicto (até preferia a missa em latim, aqui), deve-o também a Newman e ao seu Oratório de São Filipe de Neri.

Notícia da BBC com Tim Tolkien, aqui.

Para já, a viagem foi um sucesso


A imprensa é unânime em reconhecer que a viagem de Bento XVI ao Reino Unido foi um sucesso. Porém, se a unanimidade à volta da polémica, antes da viagem, não estragou a primeira visita de Estado do pontífice católico, é de questionar se o sucesso significará algo, efectivamente, a longo prazo, para os cristãos britânicos e para todos os outros que seguiram com atenção esta viagem crucial. Eu só espero que sim. As notícias aqui copiadas são do "Correio da Manhã" de hoje (20 de Setembro de 2010).

Mesmo nos momentos difíceis

Cada acontecimento, qualquer que seja, é como uma apalpadela de Deus. Cada facto, cada coisa que se produz, quer ela seja feliz, infeliz ou indiferente do nosso ponto de vista particular, é uma carícia de Deus.

Simone Weil (1909-1943)

domingo, 19 de setembro de 2010

Retratos de John Henry Newman

A National Portrait Gallery, em Londres, tem 32 representações de John Henry Newman (uma escultura, dois óleos e diversas fotos e desenhos, alguns deles quase caricaturas). Podem ser vistos aqui 23 desses 32 “retratos”. Fica-se com uma uma ideia muito plástica do padre feito cardeal por Leão XIII (mas não bispo).

Dois livros de Newman no dia da sua beatificação

1. “Apologia”, das edições Verbo, publicado em português em 1974 (aqui apontado, há tempos), de título completo “Apologia Pro Vita Sua”, é uma história das suas convicções religiosas em cinco capítulos, terminada no dia 26 de Maio de 1864. O autor ainda viveria mais 26 anos, até 11 de Agosto de 1890.

Newman descreve as influências na sua educação, como cresce a sua consciência religiosa, o que escreveu e porquê, a aproximação à Igreja Católica (por via da história e principalmente dos Padres da Igreja – teólogos dos primeiros séculos), mas também o ambiente cultural da Inglaterra e da Igreja anglicana do séc. XIX e até uma defesa contra o que pensavam alguns católicos.

Uma frase: “Desde que sou católico, já me têm por vezes acusado de relutância em fazer conversões; e os protestantes têm deduzido, do facto, que não tenho muita pressa de as fazer. Agir de modo diferente seria contrário à minha maneira de ser; mas, além disso, seria esquecer as lições que recebi na experiência das minha história passada” (pág. 147).

2. “Ensaio a favor de uma Gramática do Assentimento”, de 1870, publicado em português pela Assírio & Alvim, em 2005, é um estudo sobre a aquisição da certeza no conhecimento religioso e teológico, uma espécie de introdução à lógica religiosa que não descura a razão, por quem “aderiu a um realismo ontológico, sereno e crítico”, segundo expressão de Artur Mourão, que escreve na introdução a esta obra que Newman é “uma glória das duas Igrejas, um herói do pensamento cristão e um dos grandes mestres da língua inglesa na prosa, na oratória e sobretudo na controvérsia”.

Na contracapa, Joseph Ratzinger, que hoje como Bento XVI presidiu à beatificação (notícia aqui), conta que quando em 1947 continuou os seus estudos em Munique encontrou “no professor de Teologia Fundamental um culto e apaixonado seguidor de Newman” que lhe deu a conhecer a “Gramática do Assentimento”. E remata: “Com isto ele pôs nas nossas mãos a chave para inserir na teologia um pensamento histórico, ou melhor: ele ensinou-nos a pensar historicamente a teologia, e precisamente desta forma, a reconhecer a identidade da fé em todas as suas mutações”.

Bento Domingues: A profundidade dos sexos

Crónica de Bento Domingues no Público de 19 de Setembro. A pretexto de um livro de livro de Fabrice Hadjadj recém-publicado em português, do qual se afirma que requer uma leitura integral e não saltitante (Oliveira Martins insistiu), o dominicano diz que há “confusões” e “lugares-comuns não criticados, em torno da chamada moral sexual da Igreja”. Nas palavras de Hadjadj: “Qualifica-se sempre de tabu aquilo de que se tagarela sem restrições, remete-se para o inconsciente o que se divulga nos quiosques”.

Bento Domingues diz que o autor francês de nome árabe, judeu de nascimento e católico por conversão, é contra o “chamado neognosticismo”, que gera “deboche e castração”, e termina com uma afirmação que não sei bem o que quer dizer: “Os sexos, relativos entre si, na sua profundidade, podem viver, na carne cheia de espírito e no espírito incarnado, a resistência a todas as tentativas técnicas ou pseudo-espirituais do pós-humano”. As perguntas a que gostava que respondesse, para me esclarecer, são estas: Onde está o neognosticismo? Dentro ou fora da Igreja? Nos dois espaços? Onde estão as formas de castração? Dentro ou fora da Igreja? (O deboche só devia estar fora da Igreja). O que é tentativa técnica do pós-humano: reprodução sem sexualidade? Sexualidade sem humano? E o que é tentativa pseudo-espiritual do pós-humano? E o que é pós-humano? É pós-uma-certa-ideia-de-ser-humano ou também pode ser pós-esta-vida? Há vivências da sexualidade preconizadas pela Igreja que se enquadram no pós-humano?

A crónica de 13 de Junho referida no texto de Bento Domingues de hoje ser lida aqui.

Ventos contrários

Deus serve-se dos ventos contrários para nos conduzir ao porto.

Charles de Foucauld (1848-1931)

sábado, 18 de setembro de 2010

Baptizar extraterrestres

Lendo uns blogues, uns jornais, uns sítios e uns livros, podemos fazer, por vezes, as mais incríveis relações. Não é que a que eu vou fazer seja especial, mas tem a sua graça de coincidência. Vejamos. Hoje de manhã leio a crónica de Anselmo Borges no jornal (leio-a primeiro no papel e só depois a copio do DN digital). Fica-me na mente a ideia de desenvolver uma resposta ao argumento da pequenez humana na imensidão do universo (ou pluriverso, como alguns defendem) enquanto sinal do alheamento de Deus para com a questão humana e, presume-se, da própria inexistência de Deus. Ao mesmo tempo, penso hoje várias vezes em John Henry Newman, um teólogo das minhas preferências há muito tempo. Como se sabe, vai ser beatificado em Birmingham, amanhã, numa celebração presidida por Bento XVI. Ora hoje, em Birmingham, está um velho conhecido deste blogue, Guy Consolmagno, cujo livro “A Mecânica de Deus. Como os Cientistas e os Engenheiros entendem a Religião” esteve várias semanas na montra deste blogue (ver aqui e aqui, por exemplo).

Consolmagno é jesuíta e astrónomo. Foi à terra onde viveu Newman dar uma conferência no British Science Festival, evento que não está relacionado com a visita papal, como é óbvio. Por estes dias afirmou que estaria disposto a baptizar um extraterrestre, “se este assim o desejasse” (li aqui).

Ele explica melhor: “Desde a Idade Média, a definição daquilo que é dotado de uma alma é aquilo que possui inteligência, livre arbítrio, liberdade de amar ou não, liberdade de tomar uma decisão”. Nesse sentido, “toda a entidade – e não importa quantos tentáculos tenha – tem uma alma”. Sendo inteligente, qualquer criatura pode ser filha de Deus pela admissão no baptismo (desde que não seja alérgica à água, como no filme quanto a mim sofrível de Shyamalan, mas de mensagem baptismal, "Sinais": uns extraterrestres que se assemelham ao diabo das apresentações medievais e que só são destruídos pela água, enquanto o pastor passa por uma crise de fé... Está assim explicada a ilustração deste texto, a qual nada tem a ver com Consolmagno).

O que é que isto tem a ver com a questão do grão cósmico que é o ser humano? Muito. Primeiro, podendo não estar só, isso não causa problema teológico de maior (questão há muito debatida). Depois, afirmar a solidão humana no universo pode, afinal, ser apenas um sinal das limitações de quem faz a afirmação. Por outras palavras: é demasiado que o não sabemos sobre o ser humano, o universo e Deus para fazer afirmações peremptórias.

Há, contudo, a questão da missão única da humanidade no universo, já que foi a parte de vida inteligente (supondo que podem existir outras) em que encarnou Jesus Cristo, o Filho de Deus. Mas essa é outra história.

Um textinho de Newman em vésperas de ser santo

Retrato de John Henry Newman
na National Portrait Gallery, em Londres

Conduz-me,
Generosa Luz,
No meio da escuridão que me rodeia.
Conduz-me a Ti!
A noite é toda ela trevas
E estou muito longe de casa.
Conduz-me a Ti!
Guarda meus pés.
Não peço para ver
A paisagem distante.
Um passo é suficiente para mim.

Universo demasiado grande para o ser humano

Um dos argumentos dos novos ateus com origem em áreas científicas consiste no sublinhar da incongruência da afirmação cristã da centralidade do ser humano no universo ou na negação de que universo tenha como finalidade a vida do ser humano.

O raciocínio é mais ou menos este: Segundo os cristãos, o mundo foi criado por Deus para o ser humano. Ora, havendo uma pluralidade de sistemas solares, galáxias e conjuntos de galáxias, a milhões de anos-luz de distância, com milhões de outros planetas e, sabe-se lá, com quantas formas de vida, e até de outros universos, que sentido fará dizer que tudo isto foi feito a pensar no ser humano? Ou dizer que a intenção de Deus era criar a humanidade? Nenhum. Logo, Deus não existe. Resta o acaso.

Este raciocínio (ao qual alude Anselmo Borges no terceiro parágrafo do seu texto de hoje, aqui), para além de partir de uma afirmação duvidosa (pois para os cristãos a centralidade da totalidade, incluindo o universo, está em Deus; na Criação, o ser humano tem alguém acima dele; e nada exclui que haja outros seres inteligentes pelo universo fora - se forem inteligentes, Deus também é para eles) e de chegar a uma conclusão não implicada nas premissas (em vez de afirmar a não-existência de Deus poder-se-ia afirmar antes o não conhecimento dos desígnios de Deus, o que, admita-se, pode não satisfazer lá muito), tem um preconceito contra o ser humano. Desconsidera as suas capacidades para conhecer o mundo. Talvez o universo não seja assim tão grande com o passar dos anos. Como também o mundo se tornou pequeno.

Há 500 anos, se alguém dissesse que um dia seria possível levar pelo ar, a mil km/h, meio milhar de pessoas, dir-lhe-iam que estava a delirar (e poderiam mandá-lo para a fogueira se tal cheirasse a bruxaria ou a diabolices). E ninguém teve esse sonho. Todos os projectos de voo (de Ícaro a Leonardo da Vinci) eram individuais. Hoje, as distâncias intergalácticas parecem impossível de conquistar. Mas não se sabe como será amanhã.

Anselmo Borges: Hawking e Deus

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (18 de Setembro de 2010):


Ainda não a li, mas posso supor que a nova obra de Stephen Hawking, escrita em conjunto com o físico norte-americano Leonard Mlodinow, “The Grand Design” (“O grandioso plano”), terá um êxito enorme, como há anos aconteceu com o seu bestseller “A Brief History of Time” (“Uma breve história do tempo”).

Hawking, que sofre há décadas dessa terrível doença do foro neurológico que dá pelo nome de esclerose lateral amiotrófica, é um astrofísico de renome mundial, detentor até há pouco da célebre Cátedra Lucasiana de Matemáticas da Universidade de Cambridge, outrora ocupada por Isaac Newton, e que deu contributos fundamentais no domínio da física teórica, nomeadamente em questões de cosmologia, buracos negros e gravitação quântica.

Nesta obra, afirma que as novas teorias da física podem explicar de modo cabal o aparecimento do universo, tornando supérfluo o papel de um Deus criador. Segundo “The Times”, escreve que, "o universo pôde criar-se a si mesmo - e de facto fê-lo - do nada. A criação espontânea é a razão de existir algo, de existir o universo, de existirmos nós". Concretamente, a descoberta do primeiro planeta extra-solar ajudaria a desmontar a visão de Newton, que afirmava o Deus criador, pois o universo não poderia surgir do caos. A descoberta abre a possibilidade de outros planetas e outros universos, que seriam redundantes, se a intenção de Deus fosse criar o homem.

Estas afirmações de Hawking percorreram mundo e foram saudadas concretamente pelo bem conhecido biólogo e ateu militante Richard Dawkins, que declarou que "o darwinismo expulsou Deus da biologia, mas na física persistiu a incerteza. Mas agora, Hawking deu-lhe o golpe de misericórdia".

Remetendo para tudo quanto tenho aqui escrito sobre o tema, gostaria de fazer uma reflexão breve sobre os dois pontos em causa: um referido à religião e o outro à ciência.

Quero lembrar que frequentemente a razão de becos sem saída neste domínio se situa na própria compreensão da religião.

Por exemplo, houve por vezes uma leitura literal do Génesis, que relata a criação do universo e do homem. É evidente que essa leitura só pode levar a posições ridículas. Exemplos disso são a datação do começo do universo há 6000 e poucos anos - assim pensou o bispo Ussher -, o primitivismo do aparecimento de Adão a partir da modelação do barro, a história da costela para o aparecimento de Eva, a incompatibilidade da criação e da evolução.

Hoje, felizmente, tomou-se consciência de que a Bíblia não é um livro de ciência, mas um livro religioso e o que se refere à criação é um mito, mas um mito que dá que pensar, como disse Paul Ricoeur. A sua finalidade é dar uma resposta de fé à pergunta do porquê e para quê últimos do universo e do homem: devem a sua existência, em última instância, ao desígnio do Deus pessoal e transcendente, que cria por amor a partir do nada.

O outro ponto da reflexão diz respeito à ciência. É claro que a ciência metodicamente não precisa de Deus. Por outro lado, não tem capacidade nem para afirmar nem para negar a sua existência.

Quando um cientista quer, a partir da ciência, afirmar que não há Deus, contradiz-se e entra em paralogismos, pois ultrapassa as suas competências enquanto cientista. De facto, a ciência não pode fazer afirmações sobre a realidade na sua ultimidade. Por exemplo, há Deus ou não?, o homem é livre?, com a morte acaba tudo ou a vida continua? A razão dessa impossibilidade está em que estas questões não são enquadráveis no método empírico-matemático, não são objecto de experimentação.

Religião e ciência são perfeitamente compatíveis, desde que respeitem os seus domínios de competência. A religião não tem respostas para questões científicas. A ciência não responde à problemática dos valores e a questões como: porque há algo e não nada?, qual é o sentido último da existência?

Assim se compreende que haja cientistas agnósticos, ateus e crentes. Também os crentes não habitam todos no asilo da ignorância e da superstição.

Fé evidente

Os desejos de sinais de Deus, de provas, de incentivos evidentes para a fé não diferem muito da provocação de Woody Allen:

Se pelo menos Deus me quisesse conceder um sinal da sua existência... Se Ele me depositasse um bom maço de dinheiro num banco suíço, por exemplo.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Livro italiano para fazer bom uso do ateísmo

Saiu na quinta-feira, em Itália o livro “Senza Dio. Del buon uso dell’ateismo” (“Sem Deus. Sobre o bom uso do ateísmo”), de Giulio Giorello, que parece uma obra saudavelmente provocadora, ralvez ao estilo de “Being good without God”, de Greg Esptein, mas mais continental, ou seja, com mais História e Filosofia.

O "Corriere della Sera" (reflectido aqui) diz que “Senza Dio” não é um livro de ateísmo baixo ou vulgar, “daquele género que crê libertar-se do problema com fórmulas ou frases”, mas que procura um caminho, uma opção de vida, a de não ter nenhuma autoridade acima de si. Outro aspecto do ateísmo aqui afirmado consiste não em se livrar de Deus, mas daqueles que falam frequentemente muito à toa em seu nome, e que dão força aos argumentos do ateísmo vulgar.

O autor considera-se um “ateu protestante”. No entanto, não quer demonstrar a ausência do Ser Absoluto, mas antes definir uma existência sem ele, mas com arte, ciência, liberdade. Um ateísmo não dogmático que serve também para crentes cansados de fundamentalismos.

O cardeal Martini, no mesmo “Corriere della Sera”, escreve que não compartilha de todos os pontos de vista do autor (o cardeal havia-o convidado para a cátedra dos não-crentes quando era arcebispo de Milão) mas que o livro pode ser útil para entender a mentalidade de um ateu. Diz ainda que é uma escrita emotiva, alicerçada em exemplos da história. E a história da Igreja tem tantos. Maus (que o autor aponta, desta e doutras religiões) e bons (que deveriam ser considerados). Critica, também, que a recusa de Deus se faça em nome do mal do mundo.

Crise que mina a identidade sacerdotal católica

O Papa reconheceu a caminho de Edimburgo que o combate à pedofilia dos sacerdotes não foi eficaz. O Vaticano e os bispos não foram suficientemente “vigilantes, velozes e decisivos”.

Se a solução está na vigilância, velocidade e decisão, temo que os casos se perpetuem. Se a actuação do Vaticano e dos bispos incide sobre a repressão – é o que as palavras permitem concluir –, pouco se avançará.

Na realidade, podemos perguntar por que é que tantos não foram vigilantes, velozes e decisivos. O Vaticano não tem possibilidade de ser vigilante, veloz e decisivo para o mundo inteiro. Só sabe o que lá chega. Só é vigilante na medida em que os bispos o são. E por que é que os bispos não foram vigilantes, velozes e decisivos nestes casos todos? Não foram porque não querem nem podem ser. Se o bispo é pai da diocese e dos seus padres, como o padre é pai da sua comunidade – é o que os católicos entendem dos seus pastores, apesar da exortação de Mateus 23 (“Não chameis pai ninguém…”) –, como poderá o bispo denunciar os seus próprios filhos? Não pode, ainda que etimologicamente "bispo" provenha de uma palavra grega que significa algo como supervisor, aquele que vê por cima... vigilante.

O jesuíta Xavier Dijon escreveu na “Civiltà Cattolica” (revista dos jesuítas italianos e que funciona quase como órgão oficial do Vaticano) que entre um bispo e um padre existe um vínculo comparável ao que une os familiares e, desta maneira, “não é justo” impor-lhe a obrigação da denúncia à justiça nos casos de abusos sexuais.

Não faz sentido aplicar a obrigação da denúncia “a pessoas da Igreja relacionadas por um vínculo que resulta digno de consideração até para as autoridades civis” (li aqui).

E D. Manuel Martins, bispo, emérito de Setúbal – sabe com certeza o que significa ser bispo para os padres – escreveu no “Página 1” (17-09-2010), da Rádio Renascença: “O bispo vê-se nos seus padres, gosta deles como filhos ou irmãos, procura todos os meios para estabelecer com os padres uma relação de natural e agradável amizade, dá-lhes sempre o primeiro lugar no calendário das suas preocupações. Ele sabe que nos seus planos pastorais pode ter que deixar muitas alíneas para se encontrar pessoalmente com os seus padres. Os encontros canónicos podem ser pouco. A maior desgraça que pode acontecer a um pai é perder o coração do filho. Se as coisas acontecerem assim, o padre sente o bispo consigo, gosta de encontrar, não foge dele”.

Perante isto há solução possível para a crise da pedofilia? O que o Papa disse serve? A meu ver, não. Com uma igreja clerical que exige a consagração da sexualidade dos seus pastores, o bispo não pode ser polícia do padre a quem impõe as mãos e consagra. Esta crise mina a identidade sacerdotal católica.

Uma notícia do Papa sem escândalos nem polémicas no título

No diário "i" de 17 de Setembro de 2010.

Grande design de Deus

Uma menina de cinco anos está a desenhar numa folha de papel.
- O que é que estás fazer? – Pergunta o irmão mais velho.
- Deus.
- Mas não se sabe como é Deus…
- Hás-de ficar a saber quando eu acabar o meu desenho.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...