quarta-feira, 8 de setembro de 2010

8 de Setembro de 1264. O duque Boleslav V proclama o Estatuto de Kalisz, que protege os judeus

Boleslav, o Piedoso

O Estatuto de protecção aos judeus proclamado na cidade de Kalisz pelo duque Boleslav V, o Piedoso (ou, segundo outras fontes, o Casto), no dia 8 de Setembro de 1264, é a mais antiga carta outorgada aos judeus da Polónia.

O "Estatuto de Kalisz" garantia a todos os judeus a liberdade de trabalho, comércio e movimentos.

Alguns artigos:

Art. 1. Em qualquer caso respeitante aos bens ou à pessoa de um judeu, um cristão não será admitido a testemunhar contra ele, a menos que o seu testemunho seja acompanhado do de um judeu.

Art. 10. Se um cristão mata um judeu, será punido, e todos os seus bens serão confiscados.

Art. 12. Um judeu pode ir onde quiser. Deverá pagar em todo o lado os impostos locais e as taxas que oneram o seu comércio, mas se nada mais que aquilo que é imposto aos habitantes locais.

Art. 31. É absolutamente proibido acusar os judeus de beberem sangue humano (…).

Art. 35. Se um judeu em aflição pedir socorro à noite e os seus vizinhos cristãos não se derem ao incómodo de o socorrer, a cada um desses cristãos será imposta uma multa de 30 szelags.

Art. 37. Os judeus são livres para comprar e vender qualquer coisa (…).

Fonte: "História Universal dos Judeus" (ed. Contexto), p. 118-9.

Como a imprensa laica ajudou Fátima

No P2 ("Público") de hoje, um texto sobre a imprensa na I República e Fátima. "Foi a imprensa republicana que mais ajudou a divulgar o fenómeno de Fátima, através das polémicas e dos ataques dirigidos ao fenómeno. Ali se traduzia um conflito de mentalidades, opondo o racionalismo à crença e à religiosidade popular", escreve António Marujo.


Também pode ser lido on-line, aqui.

A Arca e o Titanic

Um amador solitário construiu a Arca. Vários profissionais construíram o Titanic.

Diálogo, liberdade e fundamentalismos

O arcebispo de Milão pediu um lugar de culto para o Islão (ver aqui). Um leitor do meu blogue, nos comentários, vê tal atitude como sendo “relativismo e modernismo”, pois “fora da Igreja não há salvação”. Talvez não saiba que um padre foi excomungado (ou seja, posto fora da comunhão da Igreja) por defender a literalidade desse princípio (ver aqui), embora mais tarde tenha havido reconciliação.

De qualquer forma, a atitude de intolerância face às outras religiões não é lá muito católica. O diálogo inter-religioso ficou consagrado no II Concílio do Vaticano, principalmente no documento “Nostra aetate”, que afirma em relação ao islamismo: “Se é verdade que, no decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, este sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens” (aqui). A atitude do cardeal Tettamanzi insere-se, sem dúvida, na procura de liberdade para todos os homens.

O contrário será, por exemplo, a atitude de Terry Jones, pastor da igreja carismática cristã Dove World Outreach, com sede na Florida, Estados Unidos.

“Este senhor está a organizar um evento que está a alertar o exército americano e até a NATO: o dia internacional da queima do Corão, precisamente a 11 de Setembro, no dia em que se assinalarão os nove anos dos ataques à Torres Gémeas” (li aqui).

Acima do nosso medíocre universo quotidiano

É claro que Deus nos fala: pela natureza, pela arte, pela Escritura, evidentemente, por tudo o que desperta em nós um sentimento de transcendência, por meio de tudo aquilo que se eleva acima do nosso medíocre universo quotidiano.

Michel Tournier (1924-…)

A fé aumenta a consciência

Pintura de Zhiwan Cheung

“Se a fé aumenta a nossa consciência, não é porque, em primeiro lugar e principalmente, por testemunho autorizado, nos ensina verdades objectivas; mas porque ela nos faz simpatizar, real e profundamente, com um ser, enquanto nos une à vida de uma pessoa, enquanto nos inicia, por meio do pensamento amante, a outro pensamento e a outro amor”.

Citação de Maurice Blondel lida na página 92 de “A Fé como resposta de Sentido” (ed. Paulinas), de Rino Fisichella.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

7 de Setembro de 1159. É eleito o Papa que reconhece Portugal

Papa Alexandre III recebe um embaixador. Fresco Spinello Aretino, de 1407, no Palazzo Pubblico de Siena

Alexandre III (Orlando, ou Rolando, Bandinelli, 1020 – Civita Castellana, 1181), eleito no dia 7 de Setembro para suceder a Adriano IV, foi o Papa que pela bula “Manifestis probatum” (23 de Maio de 1179) reconheceu a existência do Reino de Portugal.

Este Papa castigou Henrique II de Inglaterra, que tinha mandado assassinar o bispo Thomas Becket, e convocou o III Concílio de Latrão, que estabeleceu que os papas devem ser eleitos por dois terços dos cardeais, regra que basicamente ainda se mantém, além de condenar doutrinas cátaras.

Segundo algumas opiniões, terá sido Alexandre III que lançou a primeira pedra da Catedral de Notre Dame. Outros dizem que foi o bispo Maurice de Sully.

Documentário provocador antes de Bento XVI aterrar

Mark Dowd

Bento XVI visita o Reino Unido de 16 a 19 de Setembro. A BBC passa no dia 15 à noite o documentário “Bento: tribulações de um Papa”, de Mark Dowd, um homossexual e ex-frade dominicano que acusou o Papa de estar “equivocado” na crítica da homossexualidade.

Isto é “viés institucional anticristão” da emissora pública? O cardeal Keith O’Brien, arcebispo das dioceses escocesas de St. Andrews e Edimburgo, considera que sim e acrescenta que, além disso, a emissora tem reduzido os programas de informação religiosa e dá mais destaque a ateus como Dawkins do que aos 40 milhões de cristãos da ilha.

Talvez os 40 milhões de cristãos mais ou menos convictos não estejam assim tão interessados em programas religiosos. Os 9 milhões de católicos portugueses não dão lá grandes audiências aos programas religiosos dos canais nacionais. Mas o "timing" do documentário é tipicamente uma questão de audiências. Nem a BBC, que diz que o documentário é equilibrado, está imune a tal guerra.

Cardeal pede lugar de culto para o Islão

Diz D. Tettamanzi, cardeal, arcebispo de Milão, no “La Repubblica”:

"Deve ser garantido um lugar de culto ao Islão".

Responde Roberto Maroni, ministro do Interior italiano:

"Não sou construtor de mesquitas".

O pedido do cardeal de Milão parece que não agradou às autoridades políticas. É um facto a registar. Facto maior é ter partido de chefe dos católicos de Milão um pedido essencial para a liberdade religiosa. Parece-me que este pedido de uma voz que se faz ouvir diz muito do cristianismo e do Ocidente. Facto maior, ainda, seria, por exemplo, na Arábia Saudita, um líder muçulmano pedir igrejas para os católicos. Mas isso é condicional demasiado improvável.

"Brilhe o vosso rosto", um textinho de Teilhard de Chardin

A recente dispensa de Deus por parte de Hawking, necessária por questões de marketing, pois somos seres movidos a desejo e os livros precisam de ser vendidos, provocou respostas serenas por parte de teólogos, um ou outro bispo e poucos cientistas. Na verdade, já ninguém realmente crente leva a mal que não se encontre Deus na ponta do bisturi (ou a alma, como dizia um célebre cientista português), antes do Big Bang ou na ponta dos dedos flácidos do primeiro ser humano. Deus, para ser Deus, é mais toda-a-parte. Não se contenta com pouco. Mas não abusa da nossa capacidade de recepção e, vá lá, do nosso desejo, pelo que não se impõe. O cientista e padre Teilhard de Chardin (1881-1955, na imagem) sabia bem disso.

Brilhe o vosso rosto

Senhor, nós sabemos e pressentimos
que vós estais em toda a parte
envolvendo-nos.
Mas parece existir um véu nos nossos olhos.
Fazei que de toda a parte
brilhe o vosso rosto.

Teilhard de Chardin

Revoltar-se

Revoltar-se contra a tirania é obedecer a Deus.

Thomas Jefferson (1743-1826)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Torres Queiruga sobre Hawking: Ele tem a sua razão, mas demonstra pouca competência na filosofia

Excerto da uma entrevista ao teólogo Andrés Torres Queiruga.

Qual sua opinião sobre a afirmação de Hawking que Deus não é necessário para a criação do Universo e que o Big Bang foi uma conseqüência inevitável das leis da física?

Queiruga - A frase como tal, sendo tomada na pura pluralidade, não é nova. Quer dizer que para a física Deus evidentemente não é necessário. Já o dissera Laplace: para explicar a astronomia não se necessita da hipótese de Deus. O que se passa é que Hawking, como já em outras ocasiões, porém desta vez com mais força, na medida em que são confiáveis os dados da imprensa, faz uma afirmação desmesurada que sai totalmente do campo da física. Ele tem sua dose de razão, porque para explicar “cientificamente” como se constitui e funciona o universo desde sua origem, é feita uma pergunta científica, à qual responde a ciência. Porém, quando ele dá o salto para a pergunta por que aparece o universo, ele está ingressando num mundo filosófico, no qual demonstra muito pouca competência.

Ler tudo em português aqui.
E em espanhol aqui.

D. Manuel Clemente entrevistado pelo "Público"

D. Manuel Clemente deu uma entrevista ao P2 (“Público”), por intermédio de Teresa de Sousa. Pode ser lida on-line aqui. Às vezes parece um monólogo, porque basta deixar falar o Bispo do Porto para termos um texto que valha a pena ser lido. Com os bons entrevistados, os bons entrevistadores falam pouco. Para o caso de a entrevista deixar de estar on-line, copio-a na íntegra para este blogue.



Frei Bruno Cadoré, sucessor de S. Domingos

Frei Bruno Cadoré

Os dominicanos têm um novo geral desde domingo, 5 de Setembro: Bruno Cadoré, 56 anos, francês, pediatra de formação, doutorado em Medicina e Teologia, especialista em Bioética. Sucede ao argentino Carlos Azpiroz Costa.

A eleição decorreu após a Missa do Espírito Santo, presidida por Timothy Radcliffe, em Roma, e na presença de uma relíquia do fundador, Domingos de Gusmão. Um osso da cabeça.

Radcliffe, que também já foi a primeira figura da ordem, disse que os dominicanos precisam de um mestre que os ajude a caminhar na verdade, que saiba infundir esperança e que tenha especialmente alegria, a alegria de S. Domingos, porque sem alegria não existe ensinamento.

Depois da eleição, os frades enviaram um fax informativo à Santa Sé. Os dominicanos têm o privilégio de não precisarem de confirmação superior.

Li no Unisinos e confirmei aqui.

Bento XVI "green" no Reino Unido

Texto atento do embaixador britânico em Portugal, que costuma ir para o trabalho de bicicleta (os guarda-costas vão atrás, de carro), sobre Bento XVI e as preocupações com as alterações climáticas. No DN de hoje.

Vem!

Poema de um dos maiores poetas desta religião, do séc. XIII, quando o Ramadão deste ano está a chegar ao fim.

Vem!

Ó tu, que és único como o sol, vem!
Sem ti, o jardim e as filhas empalidecem, vem!
O mundo sem ti é pó e cinzas.
Este banquete, estes regozijos sem ti perdem o vigor, vem!

Rumi

(outro poema de Rumi aqui)

Vontade criadora e ética

Eu nunca falo em filosofia em “Deus”, mas da universal vontade de vida que se manifesta à minha consciência de duas formas: como vontade criadora fora de mim e como vontade ética em mim.

Albert Schweitzer (1875-1965)

domingo, 5 de setembro de 2010

Comer sem ofender a Deus

Alheira grelhada

Ao almoço, a mãe italiana diz ao filho:
- Se não comeres a sopa toda, eu mato-te.

A mãe judaica diz:
- Se não comeres a sopa toda, eu mato-me.

A anedota é contada por Elena Loewenthal, num artigo do “La Stampa” (03-09-2010) sobre o livro de Giuliana Ascoli Vitali-Norsa, “La cucina nella tradizione ebraica” [“A cozinha na tradição hebraica”] (Ed. La Giuntina, 416 páginas). Lido aqui.

Como se sabe, a Bíblia está cheia de regras alimentares, o que levou os judeus (os cristãos aboliram-nas) a usar toda a criatividade na cozinha de modo a não faltarem ao texto bíblico. “(…) Foram justamente os vínculos que atraíram a fantasia e despertaram o talento da dona de casa que, destrincando-se nessa selva de proibições, soube criar nos quatro cantos do mundo não uma, mas milhares e diversas cozinhas judaicas, ricas de sabores e de perfumes”, diz Elena Loewenthal.

“A comida hebraica é, de fato, tão delimitada pelas proibições quanto capaz de se difundir na geografia física e humana: em todos os lugares em que chegou, a diáspora de Israel absorveu usos, sabores e ingredientes. Os judeus da Europa Central, exterminados pelo nazismo, alimentavam-se com bortsch [sopa de beterraba] e guisados, gengibre e a inevitável gelatina de pé de vitelo com ricas doses de alho”.

Em Portugal é inevitável pensar nas alheiras, aqueles enchidos feitos de carne de galinha (ou de outras aves), mas com temperos tão apurados que se assemelham aos enchidos de porco – o que era óptimo para enganar a Inquisição no teste da prova de carne de porco.

Por que razão Deus não se importa de estar ausente do Big Bang

Cartune do "Público" de ontem (03 de Setembro de 2010).

Bento Domingues escreve sobre Frei João Domingos

De regresso às páginas do "Público", após as férias, Bento Domingues escreve sobre o dominicano João Domingos, missionário excepcional em África que morreu no dia 9 de Agosto, em Lisboa, onde se encontrava para ser operado.

Resistência


Neste universo enlouquecido onde tudo acaba por se confundir, eu tenho a impressão de que o próprio Deus resiste e diz-nos: "Eu estou aí. Não temais".

François Mauriac (1885-1970)

E se a resposta a todas as questões for uma fórmula?

Bento XVI e Stephen Hawking em Outubro de 2008, num encontro do Papa com cientistas, no Vaticano. Sobre este encontro, ler aqui.

Um diz que não há lugar para Deus na criação. Outro diz que não há contradição entre acreditar em Deus e a ciência empírica. Parece que ambos têm razão. Talvez até estejam a dizer a mesma coisa. Deus nunca aparecerá nas fórmulas, teorias, hipótese e certezas da ciência. No dia em que isso acontecer, deixa de ser matéria de fé. E passa a estar fechado no mundo. Coisa de que Deus, manifestamente, não gosta, a não ser nas hipóteses de José Rodrigues dos Santos, um Deus natural (aqui).

Mesmo que a ciência responda a tudo, tudo, tudo do “como” (que é o seu objectivo), ainda faltará responder a tudo, tudo, tudo do “porquê” (que sai-lhe do seu campo). “Por que é que existe o tudo em vez do nada?” Mas se responder também à questão do “porquê”, faltará a do “para quê”. E se responder a todas essas questões terá depois de responder a esta: Onde arranjar sentido para o que andamos aqui a fazer?

Deus, pessoa, e a fé, que com ela nos relaciona, sempre nos deixam mais alternativas e matérias para discussão do que se a resposta for uma fórmula.

Blogue: Cristo e Liberdade

Este blogue é católico, embora reconheça que o mais importante é ser cristão. Cristão é substantivo. Fundamental. Católico é adjectivo. Acrescento. Pelo menos na minha maneira de ver. Por isso, chamo a atenção para um blogue protestante que veio ao meu encontro. É de um jornalista, paulistano, de ascendência portuguesa, formado em Teologia Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tem como título Cristo e Liberdade.

Realço três artigos, relativamente longos, que encerram novidades. Num fala-se de Agostinho de Hipona e a evolução dos seres vivos. Noutro, aborda-se a cultura e a arte no protestantismo. Noutro, por último, fala-se de teólogas feministas. Informativo. A seguir.

sábado, 4 de setembro de 2010

Lágrimas de Eros

Franz von Stuck, "Adáo e Eva", c. 1892
Título:

Escreve Pedro Mexia no "Público" de hoje, a pretexto da exposição intitulada "Lágrimas de Eros", no museu madrileno Thyssen-Bornemisza:

«A cultura do optimismo sexual não compreende o conceito de “lágrimas de Eros”. Bataille explica porquê: desvalorizámos a componente religiosa da sexualidade. E agora há aspectos que nos escapam. É fácil dizer que o cristianismo condena a sexualidade; mas é preciso percebermos que o interdito religioso é a suprema homenagem ao erotismo, e também um elo de ligação entre o sagrado e o profano. A sexualidade, tal como o divino, é alguma coisa que excede a simples realidade, é uma dimensão visceral que violenta o nosso conforto quotidiano. E isso não nasceu com o cristianismo: Bataille lembra que os cultos dionisíacos eram cultos do trágico. O que mudou, desde os gregos, foi o avanço do sujeito individual, que cultiva um utilitarismo hedonista indiferente ao religioso. Muita gente vive hoje como se houvesse sexualidade sem tragédia. Como se houvesse Eros sem lágrimas».

Pode-se conhecer a exposição aqui.
E aqui pode-se espreitá-la mesmo.

4 de Setembro de 1781. É fundado El Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Angeles del Río de Porciúncula

O governador espanhol Felipe de Neve fundou no dia 4 de Setembro de 1781 El Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Ángeles del Río de Porciúncula (A Povoação de Nossa Senhora Rainha dos Anjos do Rio de Porciúncula), terra hoje conhecida simplesmente por Los Angeles. O nome original remete para a terceira igreja reparada por Francisco de Assis (Porciúncula, Porziuncola).

O sul e oeste dos EUA, nas partes que faziam parte do México, ou pelo menos da colonização espanhola (Los Angeles passou para os EUA em 1848), sofreram grande influência dos franciscanos, como é o caso da cidade de San António, no Texas.

Os três atacantes de Bento XVI

Há três inimigos de Bento XVI, segundo os livros recentemente publicados na Itália e nos EUA e um artigo de Sandro Magister, aqui.

São eles:

- o inimigo externo, primeiro e principal, são as correntes de opinião e os centros de poder hostis à Igreja e a este Papa;

- o segundo são os católicos – entre os quais há não poucos sacerdotes e bispos – que vêem Bento XVI como um obstáculo ao seu projecto de reforma “modernista” da Igreja;

- o terceiro inimigo são os funcionários da cúria vaticana que em vez de ajudar o Papa o prejudicam, por incapacidade, por ignorância ou também por se oporem a ele.

Retirei isto daqui. Mas requer uma leitura crítica. O Papa não é ordinariamente infalível. E nem toda a gente anda mal intencionada.

Anselmo Borges: Madre Teresa e o tempo

Texto de Anselmo Borges no DN de 4 de Setembro de 2010


Se Madre Teresa de Calcutá fosse viva, teria feito cem anos na passada semana. De facto, A. Gonxha Bojaxhiu, mais tarde Madre Teresa de Calcutá, nasceu no dia 26 de Agosto de 1910, em Skopje (Albânia), actual capital da República da Macedónia. Mas diria mais tarde: "Realmente nasci no dia em que um leproso abandonado na rua morreu nos meus braços e me disse: 'Vivi como um cão, mas parto deste mundo como um anjo'".

Religiosa das Irmãs de Nossa Senhora de Loreto, deixou a Congregação, após uma experiência mística, em 1946, na qual teve a inspiração de dever entregar-se inteiramente ao serviço amoroso dos mais pobres entre os pobres, nos quais via o próprio Jesus.

A antiga professora começou então o que alguns chamaram o "magistério evangélico" de acudir a Jesus nos mais necessitados. Nasceu daí a Ordem das Missionárias da Caridade, hoje com mais de 700 casas em todo o mundo e um total de 5000 religiosas, que conta também com um imenso número de voluntários, que, seguindo o seu exemplo, dedicam parte do seu tempo a cuidar de doentes terminais recolhidos nas ruas, mães necessitadas, crianças deficientes.

Recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1979. No seu discurso, desafiou os presentes a irem ao encontro dos que também no Ocidente são apanhados pela pobreza não só de bens materiais, mas também de amor e atenção.

Nas suas casas, não se faz discriminação: são atendidos tanto os cristãos como os hindus, os budistas, os muçulmanos ou outros.

Tornou-se uma das pessoas mais admiradas do mundo por crentes e não crentes. Junto ao túmulo vêem-se permanentemente pessoas de diferentes condições sociais e credos. Madre Teresa de Calcutá é verdadeiramente uma santa global e ecuménica. Não se percebe como é que o Vaticano ainda procura um "milagre" para a canonização, quando os únicos milagres são os do amor e esses já estão presentes na obra de Madre Teresa. O mesmo se poderia dizer do nosso Padre Américo.

Para mostrar a sua atitude face à vida, o jornalista Jesus Bastante, sintetizou, no estilo pergunta-resposta, o que chamou o "testamento" de Madre Teresa:

O dia mais belo? Hoje. A coisa mais fácil? Equivocar-se. O maior obstáculo? O medo. A raiz de todos os males? O egoísmo. O maior erro? A guerra. A distracção mais bela? O trabalho. A pior derrota? O desalento. Os melhores professores? As crianças. A primeira necessidade? Comunicar. O pior sentimento? O rancor. A pessoa mais perigosa? A que mente. A via mais rápida? O caminho certo. A maior satisfação? O dever cumprido. O melhor remédio? O optimismo. A mais bela de todas as coisas? O amor. As pessoas mais necessárias? Os pais. O mais imprescindível? O lar. O melhor presente? O perdão. O sentimento que mais te bloqueia? A tristeza. O que te faz mais feliz? Ser útil aos outros. A força mais poderosa do mundo? A fé. O maior mistério? A morte. A sensação mais agradável? A paz interior.

Depois, como lema de vida, reflectindo sobre o tempo: "Vou passar pela vida só uma vez. Por isso, alguma coisa boa que possa fazer ou alguma amabilidade que possa ter com um ser humano devo fazê-la agora, pois não passarei outra vez por aqui."

No início de um novo ano lectivo e do retomar das lutas diárias, incluindo as políticas, é um lema urgente para todos.

Aí ficam também as palavras do Padre António Vieira sobre os pecados do tempo: "Uma das coisas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os ministros é dos pecados do tempo. Porque fizeram o mês que vem o que se havia de fazer o passado; porque fizeram amanhã o que se havia de fazer hoje; porque fizeram depois o que se havia de fazer agora; porque fizeram logo o que se havia de fazer já. Tão delicadas como isto hão-de ser as consciências dos que governam, em matérias de momento. O ministro que não fez grande escrúpulo de momentos não anda em bom estado; a fazenda pode-se restituir, a fama, ainda que mal, também se restitui, o tempo não tem restituição alguma".

Árvores e gaiolas

"Árvore da Vida", de Gustave Klimt

Deus ama os pássaros e inventa as árvores. O homem ama os pássaros e inventa as gaiolas.

Jaques Deval (1890-1972)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Stephen Hawking versus "Inimigo Público"

Stephen Hawking diz que Deus não é preciso para o universo existir. "No novo livro, intitulado «O Grande Desígnio» e que estará à venda a partir de 9 de Setembro, precisamente uma semana antes da visita do papa Bento XVI à Grã-Bretanha, o astrofísico sustenta que a ciência moderna não deixa lugar à existência de um Deus criador do Universo", li no Económico, por exemplo (aqui).

Mas o "Inimigo Público" (IP), respigando a notícia dos portugueses que colaboraram na descoberta de um sistema solar (aqui, por exemplo), desmente o cientista inglês. A notícia do IP:

Umas ideias sobre a bem-aventurança eterna

Deus adapta-se ao ser humano, limitando a sua divindade. E o ser humano adapta-se também a Deus, pela dignidade da nossa criação à sua imagem e semelhança.
Deus, por Si mesmo, só Ele e mais ninguém é suficiente em plenitude – e até bem mais do que isso! – para satisfazer a vontade e o desejo do espírito humano.
Toda a criatura racional tem duas faculdades principais: conhecer e amar, ambas criadas por Deus, ambas dirigidas a Deus.
Quem tiver olhos, por dom da graça, que veja, pois sentir tudo isto é bem-aventurança eterna.

Adaptação de um excerto do capítulo IV da obra “A Nuvem do Não Saber”, texto místico de um anónimo inglês do séc. XIV, publicado recentemente em português pelas edições Assírio & Alvim.

3 de Setembro de 590. Eleição do Papa Gregório I

Gregório I, num Antifonário do convento de Sant Gallen (Suíça)

Gregório I, que antes de ser Papa, eleito no dia 3 de Setembro de 590, foi prefeito de Roma e monge beneditino, é um dos grandes papas da história. Por isso tem o cognome de “Magno”, como Leão e poucos mais. (Há quem diga que João Paulo II também é Magno, mas ainda é cedo para saber se vai colar.)

Devem-se a este Papa, o primeiro com um passado monástico, três façanhas principais:

- o envio dos primeiros missionários para as Ilhas Britânicas (que viriam a ser, até aos primeiros séculos do segundo milénio, uma áreas cristãs mais dinâmicas);

- a compilação dos sete pecados mortais (ou capitais), a partir de tradições orientais

- a promoção do tipo de canto que ficou conhecido precisamente pelo seu nome: gregoriano.

Obama e a teologia da libertação

Obama e Glenn Beck

A fé de Obama obceca alguns norte-americanos. Já se disse que ele é muçulmano (e foi prontamente desmentido), que segue o frade medieval Joaquim de Fiore (ver aqui), e agora que é um adepto da teologia da libertação.

Glenn Beck, apresentador da Fox News, além de dizer que o presidente dos EUA é um “racista contra os brancos”, afirma que acredita na salvação colectiva, o que configura uma “grave perversão”.

No seu programa, Glenn Beck passou um vídeo em que Obama afirma:

“E reconhecendo que a minha fé permanece ligada à fé deles, que a minha salvação individual não acontecerá sem a salvação colectiva do país… É porque tens uma obrigação para contigo, porque a salvação individual depende da salvação do país”.

A seguir, o apresentador comenta, referindo-se a líderes religiosos, incluindo Bento XVI: “Ok. Isto não é Cristianismo. A minha salvação não está ligada à tua salvação. Isto é uma grave, grave perversão. É teologia da libertação”.

A transcrição do programa televisivo poder ser lida aqui. A parte da teologia da libertação está mais para o final.

Novas dos Templários

Mais pormenores da reunião conimbricense dos Templários, no "Diário As Beiras" de 2 de Setembro.

Como resolver o medo


Não há outro remédio para o medo do que atirar-se de corpo inteiro na vontade de Deus.

George Bernanos (1888-1948)

Templários na Lusa Atenas

Sabia que ainda há templários. Uma vez encontrei um no Porto (já o referi aqui), que só não me mostrou coisas secretas (documentos? vestes? a espada? o tesouro dos Templários?) porque, por princípio, não gosto de conhecer coisas secretas.

Agora o "i" (de 2 de Setembro) vem dizer que se reúnem 250 deles, de 50 países, no próximo fim-de-semana, em Coimbra. Para quando uma reunião de servos da gleba? E outra de argonautas?

Descubra os erros


Nesta breve, quantos erros há?
Três, sem qualquer esforço da imaginação.
1. Hildegarda de Bingen não é santo mas sim santa. Nasceu no ano de 1098, em Bermersheim, na actual Alemanha, e morreu em 1179, no Mosteiro de Rupertsberg, Bingen. Beneditina, foi mística, compositora, pregadora, naturalista, médica e escritora.
2. “Papa invoca pecados antigos?” Para quê? Para seu auxílio? Os novos não chegam? Não devia ser antes “evoca”, no sentido em que lembrar os erros também é pedagógico?
3. Pedofilia no antetítulo? Fala-se de Bento XVI e de pecados e pensa-se logo em pedofilia? Não há outros tipos de pecados? Lendo o texto de Bento XVI – o que pode ser feito aqui, por exemplo – percebe-se bem que o enfoque está na obediência à autoridade eclesial, à semelhança da Hildegarda, e não na questão dos pecados, os quais, como é claro, existiram em todas as épocas.
A notícia era do JN de 2 de Setembro de 2010.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Vittorio Messori sabe falar alemão? É provável que não

Explicação de Andrea Tornielli no “IlGiornale” de 31-08-2010 sobre o novo livro-entrevista de Ratzinger:

O novo livro ainda não tem um título oficial. A hipótese de trabalho neste momento é "Luz do mundo", mas é possível que mude. Quando o Papa decidiu aceitar essa proposta? Em Novembro de 2008, durante um encontro ocorrido às margens da audiência geral, Vittorio Messori propôs que Bento XVI "actualizasse" o livro "A fé em crise?" [“Diálogos sobre a fé”, na versão publicada em Portugal - na imagem, a primeira edição]: "Dê-me apenas três dias", disse o escritor. Ratzinger não disse não, mas brincou dizendo: "Para mim, agora, até três horas são difíceis...". A ideia, naquele momento impraticável, não deve, porém, ter-lhe desagradado. E assim, há alguns meses, quando Seewald propôs um novo diálogo, respondeu-lhe que sim.

(Li na Unisinos, aqui.)

Peter Seewald entrevista Ratzinger pela terceira vez

Peter Seewald

Nota do director da Sala de Imprensa da Santa Sé, P.e Federico Lombardi:

"Na semana dos dias 26 a 31 de Julho, em Castelgandolfo, o Santo Padre manteve com o jornalista alemão Dr. Peter Seewald uma série de conversas, respondendo às suas perguntas sobre vários assuntos, analogamente ao que já havia ocorrido outras duas vezes no passado, com o mesmo jornalista, quando o Cardeal Joseph Ratzinger era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. As conversas ocorreram em língua alemã.
A publicação do livro está prevista para tempos muito breves (antes do final do ano em curso), em italiano e em alemão e, se possível, também em outras línguas.
Como é conhecido, os direitos relativos às publicações do
Santo Padre são detidos pelaLivraria Editora Vaticana, que publicará também a edição italiana".

Os dois primeiros livros referidos na nota estão publicados em Portugal:
* O Sal da Terra. O Cristianismo e a Igreja Católica no limiar do Terceiro Milénio, ed. Multinova, 1997;
* Deus e o Mundo. A Fé Cristã Explicada por Bento XVI, ed. Tenacitas, 2006.

1 de Setembro de 1159. Morre o único papa inglês

Adriano IV de cavalo, sob um baldaquino, e Frederico I, ajoelhado

Adriano IV (Nicholas Breakspear) nasceu por volta de 1100 e foi Papa de 4 de Dezembro de 1154 a 1 de Setembro de 1159. Foi o único inglês a sentar-se no trono de Pedro. No seu pontificado defendeu a primazia do papado sobre o imperador, desafiando Frederico I, Barbarossa (ou Barba Ruiva).

Bernard Bro versus Bernanos

Explicar Deus a um homem, tendo-lhe apenas lido as Escrituras, é como descrever a cidade de Benares não a tendo visto senão no mapa.

Bernard Bro (1925-…)


A palavra de Deus é um ferro em brasa.

George Bernanos (1888-1948)

Weisel em Buchenwald

Ontem citei uma frase de Élie Weisel para começar o dia. Não imaginava que, começando a ler “10 ateus que mudaram de autobus”, iria encontrar referências ao judeu de origem romena que vive nos EUA. Diz na página 14 que “tinha 12 anos quando, uma noite, chegou num vagão de gado ao campo de extermínio de Auschwtitz”.
Élie Weisel, li no mesmo livro, foi o primeiro a usar o termo “Holocausto” para nomear o inominável da exterminação nazi. Mais umas investigações, agora on-line, e dei com uma fotografia de Élie Weisel aos 16 anos, no dia 16 de Abril de 1945, em Buchenwald. Uma imagem muito conhecida. Já todos a devemos ter visto dezenas, centenas de vezes. Weisel está na segunda fila a contar de baixo. É o sétimo a contar da esquerda, aquele que está junto ao pilar.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...