O erro das falsas filosofias é precisamente fazer de Deus um objecto, pretendendo captálo pela inteligência. Conhecer Deus não é contê-lo na minha inteligência, mas reconhecê-lo, pelo contrário, como medido por Ele.
Jean Daniélou (1905-1974)
O erro das falsas filosofias é precisamente fazer de Deus um objecto, pretendendo captálo pela inteligência. Conhecer Deus não é contê-lo na minha inteligência, mas reconhecê-lo, pelo contrário, como medido por Ele.
Jean Daniélou (1905-1974)


“Esses médicos são um rosto grande e nobre do Ocidente. São pessoas que ainda acreditam que têm uma missão no mundo, fato não tão comum no Ocidente. São pessoas que acham justo arriscar a vida para ajudar os outros, assim como a agir em áreas pouco seguras, distantes dos seus próprios países. São pessoas que, tendo os meios para isso, sentem uma dívida de solidariedade para com um povo que versa em condições impossíveis. «Estamos aqui para ajudar as pessoas», teriam respondido a quem desaconselhava a viagem através de uma área perigosa".
Excerto de uma crónica de Andrea Riccardi sobre os oito médicos ocidentais assassinados no Afeganistão. O texto do fundador da Comunidade de Santo Egídio saiu originalmente no "Corriere della Sera" (aqui) e foi traduzido para português do Brasil (aqui).

Maria Filomena Mónica escreveu há tempos uma crónica juntando dados bíblicos sobre Adão e Eva, dados científicos sobre a origem e a genética do ser humano e uma alusão inconsequente a Mark Twain. A propósito, o livro de Twain está publicado em português na Coisas de Ler, 2007, mas é sempre mais aristocrático citá-lo em inglês.
O texto da socióloga tem piada, como quase sempre tem piada interpretar um texto bíblico conhecido ao pé da letra e confrontá-lo com os conhecimentos actuais. É resultado é um humor mais ou menos eficaz, mesmo que o homem nunca tenha lutado contra os dinossauros. E aí não sabemos se se trata de um dos habituais disparates/distracções de Maria Filomena Mónica, se de metonímia.
O texto "Salvem o Adão" pode ser lido aqui. (Foi-me sugerido por Fernando Correio da Oliveira, do Estação Cronográfica.)


Termina hoje na cidadezinha de Paraty, no sul do estado do Rio de Janeiro, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Entre muitos outros, estão lá Robert Crumb, que certamente falou do seu livro do Génesis aos quadradinhos (aqui apontado e nos textos circundantes). E Terry Eagleton (aqui referido). O reputado crítico literário que acredita em Deus e em Marx afirmou: "Dawkins é um racionalista fora de moda. Imagina que o Deus do século XVII é o mesmo Deus de Abraão. Confunde tudo, pensa que crer em Deus é algo tão questionável quanto crer em extraterrestres". Sítio da Flip aqui.

O actual bibliotecário da Santa Sé, cardeal Raffaele Farina, afirma que Joseph Ratzinger, quando tinha 70 anos, em 1997, queria tornar-se o bibliotecário da Biblioteca Vaticana.
Já era sabido que ao completar 75 anos pedira a reforma e que João Paulo II a recusara. Ratzinger queria regressar à Alemanha para viver o resto dos seus dias rodeado de livros e fazer as suas investigações.
Agora sabe-se que chegou a desejar ser o bibliotecário-mor do Vaticano (notícia em italiano aqui).

O Papa visita o Reino Unido de 16 a 19 de Setembro. Talvez não seja a viagem mais polémica. E sabe-se que o catolicismo está a crescer no Reino Unido. Mas deve ser a viagem com mais polémicas. Primeiro, foi Dawkins que disse que queria prender o Papa por causa dos abusos sexuais do clero católico. Depois foi o custo da viagem para os cofres do Estado. Agora é o custo de participar nas celebrações. Uns falam do “bilhetes para a missa”, os responsáveis dizem que se trata de uma colaboração para as despesas. Quem não pode pagar entra na mesma.
Seja uma coisa ou outra, aqui fica o que se aconselha a pagar:
- Missa em Glasgow – 20 libras
- Celebração em Hyde Park, Londres – 6 libras
- Celebração em Cofton Park, Birmingham – 25 libras.
Prevê-se que a visita custe 14,5 milhões de euros - custos que estão a ser escrutinados ao pormenor na imprensa inglesa.
Sítio oficial da visita aqui.

A cidade de Albi, no sudoeste de França, perto de Toulouse, foi classificada pela Unesco como Património Mundial. É o 34.º sítio francês a integrar a lista.
Albi é a terra dos albigentes, ou cátaros, surgidos no séc. XII e combatidos por uma cruzada ordenada por Inocêncio III em 1209, com o apoio da dinastia dos Capetos (reis de França), que assim alargou o seu poder.

Mundanizando-se, o homem humaniza o mundo e humaniza-se a si próprio, autorrealiza-se. Ao mesmo tempo que elabora os produtos de que precisa, aperfeiçoa a natureza e forma-se a si mesmo
Entre as muitas características que nos distinguem dos outros animais, como a linguagem duplamente articulada, a autoconsciência, o pensamento abstracto, a orientação para o mundo como um todo e a capacidade de distanciamento da imediatidade no espaço e no tempo, a elaboração de teorias científicas, a avaliação segundo juízos morais, está também o trabalho. O homem também se define como homo faber. Karl Marx viu bem: "O homem diferencia-se dos animais a partir do momento em que começa a produzir os seus meios de vida."
Enquanto o animal colhe o que a natureza lhe oferece, o homem transforma-a. Trabalha para satisfazer as suas necessidades, estabelecendo uma relação de intercâmbio com a natureza: obtém dela o que lhe falta e, por outro lado, ao transformá-la, transforma-se a si mesmo. Mundanizando-se, o homem humaniza o mundo e humaniza-se a si próprio, autorrealiza-se. Ao mesmo tempo que elabora os produtos de que precisa, aperfeiçoa a natureza e forma-se a si mesmo teórica e praticamente.
Com a complexificação do mundo do trabalho, assiste-se à sua divisão e a uma teia, também ela complexa, de relações laborais e sociais, configuradoras da identidade própria. Percebe-se a importância decisiva desta configuração, quando se pensa em quem já não encontra trabalho e cai no desemprego: não só não tem meios de subsistência como é marginalizado, sentindo-se inútil por não contribuir para a realização do bem comum.
No trabalho, é preciso considerar um duplo aspecto. Por um lado, forma a pessoa e contribui para a realização da sociedade - deve-se pensar num sentido abrangente do trabalho: trabalha o agricultor, o construtor, o engenheiro, o médico, o professor, etc. -, mas, por outro, o trabalho apresenta-se como fardo e castigo, como diz a próprio étimo: tripalium, instrumento de tortura.
Neste contexto, aparece o ócio, que provém do latim otium, vinculado a scholê, no grego - é daqui que provém escola. Aqui, ócio significa estar livre dos negócios da política e das actividades económicas, para poder dedicar-se à contemplação, à festa, à alegria e à busca da verdade. Como diz Platão, os filósofos "desfrutam do tempo livre e preparam os seus discursos em paz e em tempo de ócio. Apenas os preocupa alcançar a verdade". Vemos aqui a síntese da importância que Platão atribuía ao ócio, vinculando-o à liberdade (ter tempo livre e ser livre), à verdade, que deve ser procurada sem a pressão do tempo, e à filosofia enquanto procura livre da verdade.
A questão, na antiguidade, é que só os livres se podiam dedicar ao ócio da liberdade, pois os escravos encarregavam-se das tarefas materiais - aliás, ainda hoje, nos preceitos da Igreja se fala em "trabalhos servis". Por isso, Aristóteles viu bem que era necessário o bom governante criar condições para a contemplação, observando que o tirano procura que ninguém tenha ócio.
Na modernidade, esbate-se o espírito da verdade como contemplação, para vincular ciência, domínio da natureza e utilidade. Francis Bacon marca essa viragem: "o que é mais útil na prática é ao mesmo tempo o mais verdadeiro na ciência" e: "scientia est propter potentiam" - a ciência é por causa do domínio. E, lentamente, com a segunda revolução industrial, chegou-se ao oxímoro da "indústria do ócio".
Onde está o predomínio: no trabalho ou no ócio? Como conclui Gabriel Amengual, inspirador deste texto, se se puser o acento no trabalho, então o ócio pode tornar-se um simples meio para o trabalho - descansar para recuperar forças e trabalhar, como se o homem fosse feito apenas para produzir e trabalhar. Se o decisivo for o ócio, então o trabalho acaba por ser considerado negativo e frustrante, pois é puro negócio, negação do ócio, e paradoxalmente, o ócio não passa de "compensação para a frustração do trabalho".
Afinal, trabalho e ócio são complementares e o homem tem de ser visto de modo harmonioso e pleno, nas sua múltiplas dimensões: "A dimensão laboral e cultual-cultural, social e pessoal, activa e contemplativa, produtiva e artística, a dimensão do dever e a do desejo, a determinação e a liberdade."
Texto de Aselmo Borges no Diário de Notícias, de 7 de Agosto de 2010 (aqui).

Neil Armstrong, o primeiro humano a pôr os pés na Lua, nasceu no dia 5 de Agosto de 1930. Depois dele, mais 11 pessoas desceram dos módulos à superfície lunar.
Armstrong foi escuteiro em jovem e suponho que seja cristão, embora não saiba ao certo a sua confissão. De certo que não é católico. Já se teria ouvido falar disso cá por estas bandas. Talvez seja ateu.
Certo é que – e é por isso que o lembro aqui – não é muçulmano. Desde os anos 80 do século passado que tem corrido um boato. É mais ou menos assim: Quando Armstrong caminhava na Lua ouviu uns sons que não entendeu. Mais tarde, no Egipto ouvir os mesmos sons e disse: “Foi isto que eu ouvi na Lua”. Um amigo diz-lhe que aquilo que estava a ouvir era a invocação muçulmana para a oração (adhan). E
O boato tem sido permanentemente desmentido. Em 2005, numa conferência na Malásia o astronauta voltou a dizer que não ouviu nada na Lua nem se converteu ao Islão (aqui).

Peter cresceu na Chicago de Al Capone. Foi piloto na II Guerra. Sobrevoou Nagasáqui. Depois tornou-se padre carmelita e conheceu todas as revoluções da América Latina com Betty, freira e enfermeira. Agora, num dos bairros mais violentos de Juárez, vivem o que realmente se passa na guerra do narco.
Texto de Alexandra Lucas Coelho, em Ciudad Juárez, no "Público" de ontem, para ler aqui.
Um excerto:
(...) Em 1973, começaram uma pequena comunidade católica em Washington, e em breve recebiam refugiados do golpe de Pinochet, missionários que já não podiam trabalhar lá e chilenos que tinham estado no Governo de Salvador Allende. "A nossa casa tornou-se um lugar onde chegava gente vinda do Chile, da Argentina, da Bolívia, a fugir de ditaduras que os EUA apoiavam."
Pelo meio, Peter e Betty ou viajavam pelos EUA a falar sobre a América Latina, ou viajavam pela América Latina, a "tentar ver em que lugares os EUA não estavam a fazer coisas boas". E do Chile ao Paraguai, passando pela Argentina, o que pensavam era: ""Mas isto são governos fascistas. E os EUA apoiam estes governos. Então devemos ter fascistas no nosso governo." Voltámos com essa mensagem."
Fizeram orações de protestos e uma invasão pacífica da Casa Branca.
Os EUA mandavam dinheiro a Somoza, o ditador da Nicarágua. Reagan dizia que os sandinistas eram marionetas da URSS. E entretanto desaparecia gente na América do Sul. E eram mortos padres na América Central.
Betty, que tem estado a ouvir suspensa como se fosse a primeira vez, conta um diálogo que tiveram na fronteira para entrar em El Salvador. "Perguntaram a Peter: "É padre?" Ele respondeu: "Sou professor." O que não era mentira. E eles disseram: "Ainda bem, porque aqui os padres estão a ser mortos.""

Casa onde viveu o Cura d'Ars
“Se o bom Deus tivesse encontrado um sacerdote mais miserável do que eu”, dizia sempre o Cura d’Ars, “seria a ele que teriam acontecido todas estas coisas maravilhosas”. Talvez o mundo, na França e em outros lugares, também tenha saudade de uma Igreja assim. Que não pretende ditar leis; que não se lamenta dos tempos ruins.
Ars não é um lugar para agitações. Poucas casas, mergulhadas num campo tranquilo, as carmelitas, o convento das clarissas, a estrada que faz a curva ao redor da igreja do Cura Jean-Marie Vianney, santo padroeiro dos párocos. Lá dentro, quase sempre há alguém. As pessoas chegam sozinhas, em pequenos grupos, em comitivas. Um fluxo contínuo e discreto. Quase meio milhão de peregrinos por ano, “a cada ano um pouco mais, e, entre eles, mais de oito mil sacerdotes”, acrescenta padre Jean-Philippe Nault, jovem reitor do santuário. Esse aumento tem-se registrado nos últimos tempos, depois que, por décadas, São João Maria Vianney parecia ter caído no esquecimento. Na década de 1980, nasceu a Société Jean-Marie Vianney: padres que não querem ter nenhuma espiritualidade particular, a não ser a que vem da própria ordenação sacerdotal, para a salvação das almas. Este ano, jubileu dos 150 anos da morte do santo, o “programa” é sempre o mesmo. Sem horário, na igreja é sempre possível confessar e celebrar missa, “pousar o peso dos próprios pecados e saborear um gole de misericórdia. A qualquer hora, das seis e meia da manhã até a noite”. Dentro de pouco tempo, abrirão uma capela para a adoração perpétua do Santíssimo Sacramento. Foi o povo da cidadezinha que pediu. Há dez anos – conta padre Nault – nem era possível imaginar uma coisa dessas.
Quando Jean-Marie chegou à cidade, em fevereiro de 1818, a Igreja da França saía das ruínas da Revolução. A paróquia de Ars era como uma terra desolada. “E ele fez apenas o que qualquer padre, normalmente, pode fazer: oração, catequese, confissão, celebração da eucaristia, auxílio aos pequenos e aos pobres”, repete o bispo Bagnard. “No minúsculo buraco em que o recolheram, por ser incapaz”, escreve René Laurentin, “ele atraiu multidões em escala nacional. Sem querer, fundou um centro de peregrinação”. Ainda hoje, não é preciso organizar nada. As pessoas vêm sozinhas. “É um santo pobre”, não pára de dizer o padre Nault, “e encontrar um pobre não dá medo. Como quando encontramos Teresinha. Ou Bernadete. Esses santos nos dizem: se você é pobre, eu sou mais do que você. Somos pobres juntos, diante do Senhor. Você reza por mim, e eu por você”.
“Se o bom Deus tivesse encontrado um sacerdote mais miserável do que eu”, dizia sempre o Cura d’Ars, “seria a ele que teriam acontecido todas estas coisas maravilhosas”. Talvez o mundo, na França e em outros lugares, também tenha saudade de uma Igreja assim. Que não pretende ditar leis; que não se lamenta dos tempos ruins. Que deixa apenas se apresentar no horizonte a espera do milagre. “Já nos disseram tanta coisa, ó Rainha dos Apóstolos. Perdemos o gosto pelos discursos. Não temos mais altares, a não ser os teus. Não sabemos nada, além de uma oração simples” (Charles Péguy).
Este texto foi retirado da revista 30 Giorni, aqui.

Jean-Marie Vianney (Lyon, 8 de Maio de 1786 – Ars-sur-Formans, 4 de Agosto de 1859) foi pároco de Ars, cura.
Quando iniciou o seu percurso eclesiástico era tido como mentalmente incapaz ou perto disso. Mas o seu zelo pastoral rapidamente o tornou famoso e procurado por gente de todos os cantos de França. Nos últimos anos da sua vida atendia centenas de pessoas por dia para na confissão e para direcção espiritual. Diz-se que confessava 80 mil pessoas por ano, passando por vezes 14 horas seguidas no confessionário.
Foi a figura tutelar no Ano Sacerdotal (entre Julho de 2009 e Junho de 2010), e passou de patrono dos párocos a patrono dos padres. Ainda que alguns considerem que o Cura d’Ars é alguém muito marcado por uma espiritualidade rural, intelectualmente pouco exigente (ainda que sincera), que já não existe em lado nenhum na sociedade contemporânea.

Manuel Gonçalves Cerejeira (Vila Nova de Famalicão, 29 de Novembro de 1888 - Lisboa, 2 de Agosto de 1977) foi o décimo patriarca de Lisboa, de 18 de Novembro de 1929 a 10 de Maio de 1971. Participou no II Concílio do Vaticano, construiu o Seminário dos Olivais e criou a Universidade Católica.
Por vezes, pensou-se que Cerejeira e Oliveira Salazar (conheceram-se em Coimbra, no Centro Académico de Democracia Cristã) foram como com unha e carne. Até havia anedotas sobre isso. “Cerejeira mais Oliveira igual a Limoeiro”.
Na realidade, houve muitas tensões, pelas convicções de um na defesa da Igreja e do outro na do Estado. Livros recentes desmontam essa conivência pacífica. Um aqui referido, de Irene Pimentel.
Deve ser da míngua de material noticiável. Quase duas páginas ocupadas com a preocupação da Santa Sé com os jogos da liga italiana à hora da missa, no JN de hoje.
Quanto a isso, embora me pareça uma preocupação sem grande sentido (porque cada um faz o que quer) em relação a um facto muito significativo em termos pastorais (troca-se facilmente, pelos vistos, a missa pela assistência a um jogo de futebol; por acaso, já ouvi um padre dizer, antes do jogo começar: "Está na hora de missa") e que devia levar, em primeiro lugar, a questionar as celebração litúrgicas, até se compreende.
Já as pretensões do Cardeal Bertone – formar uma equipa que represente o Vaticano – não devem ser para levar a sério. E eu costumo acreditar na imprensa escrita. Ou então é para levar 8 ou 9 a zero todos os jogos.
Por outro lado, se o Cardeal acha que pode formar uma equipa representativa do Estado do Vaticano com jogadores de diversas nacionalidades (o Vaticano é o único Estado do mundo em que não nascem cidadãos), captados nos colégios e seminários espalhados pelo mundo, arrisca-se a que aumentem as pressões dos que acham que os responsáveis do Vaticano devem ser chamados aos tribunais devido aos crimes clericais espalhados pelo mundo.
Outra pretensão que eu nem sei qualificar: a bola como meio de levar ao mundo a doutrina de Cristo.
Deve ser a isto que chamam “silly season”.
Esta é de António Alçada Baptista (1927-2008). Conta a certa altura, em "A cor dos dias", como Albino Terezo Genoveno, que era de perto de Alcobaça, perdeu a fé.
“A dúvida instalou-se na alma quando morreu o sacristão. Pensou: «Então aquele, na intimidade divina, a mexer nos paramentos, tu cá tu lá com o Altíssimo, e morre-me!» Com as dúvida nas entranhas, ela avantajou-se quando ouviu o padre dizer numa prática: «Caim matou Abel e fugiu para a terra dos vizinhos». Aí disse para dentro: «Dos vizinhos?! No tempo de Caim e Abel não havia vizinhos!»”
Teodósio II promulgou no dia 3 de Agosto de 435 um édito imperial que exilou o bispo Nestório num mosteiro de Hibis, no Egipto.
Nestório (386-451) foi patriarca de Constantinopla de 10 de Abril de 428 a 22 de Junho de 431, altura que o primeiro Concílio de Éfeso condenou as suas ideias. Nestório afirmava que em Jesus Cristo havia duas pessoas, a humana e a divina (há é duas naturezas), pelo que Maria era Christotokos (“Mãe de Cristo”), mas não não “Theotokos (“Mãe de Deus”). Em Éfeso, Nestório foi derrotado pela facção liderada por Cirilo de Alexandria. Nestório foi viver para o mosteiro e regressou à ordotoxia. Mas subsistiram igrejas nestorianas até aos dias de hoje no Oriente, principalmente na Síria e no Irão. Algumas têm vindo a integrar-se na Igreja Católica.


Os jesuítas continuam a ser a “primeira potência religiosa da Igreja”, escreve José Manuel Vidal no “Religión Digital”, a propósito do dia de Inácio de Loiola, aqui assinalado ontem.
Há no mundo 18.815 jesuítas (no sítio português da Companhia diz-se que “a Província Portuguesa da Companhia de Jesus é formada por 237 jesuítas; destes, 160 encontram-se em Portugal e 21 estão noutros países; 56 pertencem à Região de Moçambique”; dados de 2010, aqui). “A Companhia continua a ser a referência intelectual e de máximo prestígio na Igreja católica. Prestígio social e eclesial. Hoje, alguém dizer que estudou nos jesuítas é um título de nobreza e cria currículo. Conseguiram conservar a sua imagem de marca, numa sociedade em que a credibilidade social e a influência se joga fundamentalmente neste âmbito. E, no seio da Igreja, continuam a representar a imagem da moderação e do Vaticano II. Continuam onde os colocou Arrupe: na fronteira”. Ler mais aqui.


Jean-Luc Nancy
“O «bem-aventurados» do Evangelho não quer tanto dar felicidade ou satisfação quanto indicar um caminho para sair da angústia. As Bem-aventuranças não designam felicidade, mas um comportamento, uma disposição geral da vida humana que foge ao mesmo tempo da angústia e da resignação”, diz o filósofo francês Jean-Luc Nancy ao jornal “La Croix” de 23 de Julho de 2010.
É uma fonte de água geladinha esta entrevista sobre as Bem-Aventuranças no meio destes dias tórridos (hoje nem tanto). E dias eclesialmente confusos. Só sobre as Bem-Aventuranças. Fala de limpidez e pureza.
O filósofo diz que não é um texto que tenha por hábito frequentar. Ele é mais Kant, Hegel, Kant, Heidegger e Lacan. Mas fala das Bem-Aventuranças como não vi mais ninguém nos tempos recentes. No início parece que já conhecemos o trajecto da interpretação. “Boas intenções adocicadas”. Mas como vem num jornal católico é de supor que a interpretação não seja tão redutora. “Algo radicalmente diverso”.
Jean-Luc Nancy: “Digamos que o entendo principalmente como uma promessa de felicidade, mas que sempre contém o risco de ser uma falsa promessa. É certamente o texto bíblico para o qual me ponho imediatamente numa perspectiva crítica e desconfiada, porque [o texto d] as Bem-aventuranças tem todas aquelas características daquela palavra que dá alívio, que lapida as arestas, que elimina os obstáculos. Concentram, a meu ver, quanto há de difícil e de que suspeitar na mensagem cristã. Vê-se nas mesmas demasiado facilmente uma “boa vontade”, cheia de boas intenções que ficam longe daquilo que, com Kant, se pode definir uma “vontade boa”. As Bem-aventuranças colocam-nos sempre diante de um dilema: ou se trata de um pacote de boas intenções adocicadas, deveras edulcoradas, que procuram seduzir os leitores e os ouvintes com uma espécie de entorpecimento de sua vigilância, como um ópio dos povos particularmente poderoso, ou então se trata de algo radicalmente diverso...”
O “algo radicalmente diverso” está nisto: “As Bem-aventuranças, todas juntas, são o amor. E o amor cristão é um paradoxo completo. É o impossível por excelência e, ao mesmo tempo, como diz Freud, é a única resposta que está na altura da violência humana”.
E nisto, sobre o “coração puro”: “A purificação do coração é a purificação de todos os pesadumes, de todos os domínios e, no limite, de todos os significados do mundo. O “coração puro” é aquele que se mantém à distância de toda a máquina do mundo, o que não significa que se mantenha “fora” do mundo. Nem é atraído pela máxima recompensa que poderia consistir neste “ver Deus”, como forma de participação no poder ou no domínio, ligada ao desejo de ser admitido junto a Deus. Não se é “feliz” por uma recompensa, o que continuaria sendo da ordem do “mundo”, mas se é “feliz” de não estar encerrados “dentro”.
Não sei se o coração de Jean-Luc Nancy é puro. Mas é relativamente novo. Pelo menos nele. No início dos anos 1990, teve problemas com o coração original e ganhou um novo. E quando recuperava, teve de lutar contra um cancro. A história deste período contou-a em “L’intrus”. Isto não é dito na entrevista, mas permite olhar com mais acuidade para o final da entrevista:
“Sem dúvida, para compreender o que é um «coração puro» é preciso voltar àquele amor que consiste em ver o outro como outro. Trata-se precisamente de ver, isto é, de estar na relação, sem nada que se possa agarrar. Não se «vê» um objecto, se «vê» uma abertura, uma evasão em direcção ao outro. O que requer o amor senão uma purificação do coração? Uma purificação das minhas expectativas, para que eu possa ver o outro como outro. É verdadeiramente através do cristianismo que o amor se torna este reconhecimento da absolutez integral da pessoa. O amor remete àquilo que nós absolutamente não podemos agarrar. Talvez seja isto «ver Deus». Não ver um ser atrás de outros seres, mas ver que todo ser é absoluto, incomensurável”.
A entrevista foi traduzida para português aqui.

Martin Buber (1878-1965)
O neto do rabi Baroukh, brincava às escondidas com um colega. Mas quando a criança encontra um bom esconderijo, o colega abandona o jogo. A criança corre então, a soluçar, para os braços do avô. Queixa-se com grandes berros do mau colega, que não quis procurá-lo quando ele estava tão bem escondido. E o rabi Baroukh conclui: “É exactamente isso que diz Deus. «Eu escondo-me e ninguém me quer procurar»”.
Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...