quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Nunca te detenhas - Texto de Madre Teresa de Calcutá

Amanhã faz 100 anos que nasceu Agnes Gonxha Bojaxhiu, mais tarde conhecida por Madre Teresa de Calcutá. Recordo-a com este texto.

Nunca te detenhas

Tem sempre presente que a pele vai ficando enrugada, que o cabelo se torna branco, que os dias se vão convertendo em anos, mas o mais importante não muda! A tua força interior e as tuas convicções não têm idade. O teu espírito é o espanador de qualquer teia de aranha. Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida. Atrás de cada trunfo, há outro desafio.

Enquanto estiveres vivo, sente-te vivo. Se sentes saudades do que fazias, torna a fazê-lo. Não vivas de fotografias amareladas. Continua, apesar de alguns esperarem que abandones. Não deixes que se enferruje o ferro que há em ti. Faz com que, em lugar de pena, as pessoas sintam respeito por ti. Quando, pelos anos, não consigas correr, trota. Quando não puderes trotar, caminha. Quando não puderes caminhar, usa a bengala. Mas nunca te detenhas!

Madre Teresa de Calcutá

A equipa de comunicação do Papa funciona mal


Paolo Rodari

Oito horas antes de Bento XVI pronunciar o discurso na Universidade de Regensburg, no dia 12 de Setembro de 2006, que incluiu a citação de Manuel II Paleólogo, que dizia que o Islão é uma religião violenta e que teve como consequência sacudir o mundo islâmico, os jornalistas, lendo-o enquanto tomavam o café da manhã, entenderam que aquela única frase podia dar margem a perigosos mal entendidos e tornar-se potencialmente explosiva. Assinalaram rapidamente tal possível efeito à sala de imprensa papal, mas nada foi mudado.

Esta e outras crises mediáticas beneditinas são abordadas num livro de dois vaticanistas italianos, Paolo Rodari e Andrea Tornielli ("Attacco a Ratzinger", Ed. Piemme).

Outros dos casos abordados são a nomeação do bispo polaco Wielgus, “com cheiro de espionagem”, a excomunhão revogada do bispo negacionista Williamson, as palavras em África sobre os preservativos destinados a aumentar o problema da SIDA, a difícil gestão do escândalo sobre a pedofilia na Igreja, o inédito confronto entre cardeais (Schönborn, de Viena, e Angelo Sodano, o ex-secretário de Estado do Vaticano).

Estes casos, diz um artigo no “La Repubblica” de 23 de Agosto copiado para o sítio Unisinos (aqui), revelam que “a hierarquia não possui, embora isso possa parecer estranho, uma verdadeira estratégia comunicativa. Falta uma direção abrangente. E ela limita-se, depois, a tapar as rachadelas, a apagar os incêndios, a desativar bombas que já explodiram”.

Os autores do livro citam um cardeal do interior dos "Sagrados Palácios" que resume assim o contexto comunicacional que circunda o Bento XVI: “Ataques de todos os tipos. Uma vez, diz-se que o Papa se expressou mal; outra, fala-se de erro de comunicação; outra ainda, de um problema de coordenação entre os escritórios curiais; outra, de inadequação de certos colaboradores. Quer saber a minha impressão? Não há uma equipa que o sustente adequadamente, que previna que ocorram certos problemas, que reflita sobre com responder de modo eficaz. Que procure passar, expandir a sua mensagem autêntica, muitas vezes distorcida. Assim, a pergunta mais frequente tornou-se esta: quando será a próxima crise?”
Andrea Tornielli

Nunca sem Ele


Às vezes, por Deus, muitas vezes contra Ele, mas nunca sem Ele.

Élie Wiesel (1928-...)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A boa eternidade - Um texto de Romano Guardini

Na nossa vida,
que é uma caminhada para a morte,
nós pressentimos, ó Senhor,
a tua calma eternidade.
As coisas começam, têm o seu tempo e acabam.
Ao princípio do dia,
sentimos já que ele mergulhará na noite.
E toda a felicidade
já nos previne acerca do sofrimento futuro.
Edificamos a nossa casa
e fazemos a nossa obra
e sabemos que ela se arruinará.
Mas tu, Senhor,
vives e nada de transitório te toca.
Tu és o novo por essência
e não conheces saciedade.

De nada precisas.
Nada te falta. És tudo.
Tua é a essência de toda a glória.
O centro da tua eternidade
está onde Tu, ó Pai, e Tu, ó Filho,
estais juntos um do outro
na intimidade do Espírito Santo.
Nessa calma está o teu amor e a tua paz.
Nela está a tua pátria, ó Deus Bendito!
Quando o tempo se cumprir,
também lá será a minha pátria.
Dá-me a certeza disso.
Faz com que o desejo
nunca morra no meu coração,
a fim de que, quando a vida mudar,
eu permaneça unido àquilo que dá
medida e sentido a todas as coisas.
Toca o meu espírito
com o sopro da tua eternidade,
para que eu realize bem a minha obra
no tempo e possa, um dia,
levá-la para o teu Reino eterno. Ámen.

Romano Guardini

Italiano de nascimento, Romano Guardini (Verona, 1885 – Munique, 1968), estudou e ensinou na Alemanha. Com a ascensão do nazismo, este padre ordenado em 1910 viu-se afastado do ensino universitário. Reflectindo sobre a liberdade individual e a sociedade transformada pela tecnologia, com uma visão compreensiva do mundo, Guardini foi percursor do II Concílio do Vaticano e um dos grandes teólogos do séc. XX.

Ainda Jorge Luis Borges, no dia dos seus 111 anos

Dizia ele, referindo-se ao pai, Guillermo: “O pai sempre com as suas piadas contra a fé. Na noite passada disse que Jesus era como os Gaúchos, que não querem comprometer-se, e que por isso pregava em parábolas” (conto “O outro”, terceiro volume das Obras Completas, na Teorema, página 11).

Circula na Internet o poema “Instantes”, atribuído a Jorge Luis Borges. Cito excertos, na versão que António Alçada Baptista apresenta nas suas memórias (“Pesca à linha…”):

“Se eu pudesse viver novamente a minha vida
Na próxima trataria de cometer mais erros
Não tentaria ser perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido.
(…)
Iria a lugares onde nunca fui,
Comeria mais sorvetes
E menos favas,
Teria mais problemas reais e menos imaginários.
(…)
Se pudesse voltar a viver
Começaria a andar descalço no princípio
Da Primavera
E continuaria descalço até ao fim do Outono.
(…)

Na realidade, este poema não é de Jorge Luis Borges, que nunca utilizaria a palavra favas, mas de Nadine Stair (aqui), conforme li numa entrevista de 2006 a María Esther Vázquez, colaboradora de Borges (aqui).

Conferência de Borges em 1977 sobre a cegueira e as cores, as memórias e a sorte que teve em ler numa só noite artigos de enciclopédia sobre Dreyser, dos druidas e dos drusos.

Moisés no Twitter

Ontem copiei para aqui uma anedota sobre a mãe de Moisés. Hoje leio que estão a reescrever a Bíblia (800 mil palavras) para o Twitter. E exemplifica-se com Moisés.

Chris Juby, de Durham (Inglaterra), escreve 1190 tweets diários. Há outros projectos semelhantes na Europa e nos EUA. Um deles é o Twible, de Jana Riess. Consiste em reescrever o Antigo Testamento em forma de piadas. A história de Moisés, por exemplo, no Êxodo, capítulo dois, é reduzida para: “É porreiro descer o Nino num cesto, mas quem é esta rapariga egípcia a quem é suposto que eu chame mãe?”

A ideia, diz Jana Riess, começou quando se interrogou sobre o que o jornal humorístico “The Onion” teria a dizer a respeito da Bíblia.

A notícia está em português do Brasil aqui e em inglês aqui.

Ascendência portuguesa de Jorge Luis Borges

Torre de Moncorvo

“Nada ou pouco sei dos meus maiores portugueses: os Borges”, escreveu Jorge Luís Borges. António Alçada Baptista, que em “A pesca à linha. Algumas memórias” (ed. Presença, 1998) dá conta das três vindas do escritor argentino a Portugal, diz que a frase é mais reveladora da rejeição de Espanha do que uma efectiva ascendência portuguesa. “Julgo que é nesse processo mais vasto do seu inconsciente [de recusa da Espanha] que deve radicar-se o seu portuguesismo de que tanto se orgulha”.

De qualquer forma, diz-se que um ascendente de Jorge Luis Borges era de Torres de Moncorvo. A Wikipedia tem: “Segundo um estudo de Antonio Andrade, Jorge Luis Borges tem ascendência portuguesa: o bisavô de Borges, Francisco, teria nascido em Portugal em 1770 e vivido na localidade de Torre de Moncorvo, situada no Norte de Portugal, antes de emigrar para a Argentina, onde teria casado com Cármen Lafinur”.

Alçada Baptista afirma que Jorge Luis Borges nunca chegou ir a Torre de Mocorvo. Porém, explicou ao português como -se como via a terra dos antepassados, «na encosta de um monte, rodeado de pinhais». "Neste ano de 1997 [ano de escrita do livro de memórias], Torre de Moncorvo prestou-lhe uma homenagem merecida. Inaugurou a Avenida Jorge Luis Borges, com a presença do Presidente da República. Sei que continuam as investigações, em troca de correspondência com a família, para localizar esse antepassado militar que foi para a Argentina, contratado para aquelas guerras. Ainda não foi localizado”, escreve Alçada Baptista (pág. 123).

Procurando na Internet Antonio Andrade, o estudioso referido na Wikipedia, encontra-se que António Júlio Andrade é bibliotecário em Torre de Moncorvo e director do jornal «Terra Quente». "Homem que se ocupa dos arquivos, ele tem procurado Francisco Borges em todo o tipo de registos e correspondências. Alguns dos documentos que descobriu são inéditos e permitem uma indicação mais precisa da sua origem. Que pode muito bem estar no Morgadio do Mindel, o mais antigo de que há conhecimento na comarca de Moncorvo, pertencente a uma outra família Borges muito anterior à de Felgueiras", diz o sítio Geneall.net (aqui).

Neste sítio afirma-se, também, que o argentino D. Luis Guillermo de Torre, parente de Jorge Luis Borges e membro da Comissão Heráldica da Argentina, forneceu dados biográficos fundamentais sobre Francisco Borges. Os dados contradizem as datas da Wikipedia, mas confirmam a ascendência portuguesa . Francisco Borges terá sido baptizado numa das paróquias de Moncorvo, talvez em 1782 (e não 1770). "Era filho de Manuel António Cardoso e de Maria Antónia. Ignora-se o apelido da mãe, que se supõe ser Borges. Chegou ao Rio da Prata em 1817, na expedição do general Lecor. Casou em Montevideu, em 3 de Fevereiro de 1829, com a argentina Carmen Lafinur».

24 de Agosto de 1899. Nasce Jorge Luis Borges

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo nasceu em Buenos Aires, no dia 24 de Agosto de 1899, e morreu em Genebra, onde está sepultado, no dia 14 de Junho de 1986.

Julgava-se de ascendência portuguesa, embora tal seja difícil confirmar. Entre os seus temas literários preferidos estavam os sonhos, labirintos, espelhos, bibliotecas, escritores fictícios e livros fictícios, religião, Deus. Concebia o paraíso como uma biblioteca: “Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca”.

Ser era crente, não o era à maneira ortodoxa. Mas a temática religiosa está amplamente presente na sua obra. Já aqui foi referido o conto “Um teólogo na morte” e há aquele hino à tolerância e ao pluralismo que é o conto “Os teólogos”, em “O Aleph”. São só exemplos.

Borges escreveu uma nota biográfica, irónica, para publicar numa enciclopédia a ser publicada em 2074 em Santiago do Chile, considerando-se um escritor secundário. Começa assim:

“Borges, José Francisco Isidro Luís — Escritor e autodidacta, nascido na cidade de Buenos Aires, então capital da Argentina, em 1889. Não é conhecida a data da sua morte, dado que os jornais — género literário da época — desapareceram ao longo de vastos conflitos de que os historiadores regionalistas hoje nos dão conta. As suas preferências foram para a literatura, a filosofia e a ética. Aquilo que do seu trabalho chegou até nós informa-nos suficientemente sobre o primeiro ponto, ao mesmo tempo que deixa entrever incuráveis limitações”.

Note-se que o seu nome e a data de nascimento estão errados.

Em aberto


Tentar conceber Deus é aclarar a fé. Mas crer não é ver. Deus permanece à distância e em aberto.

Karl Jaspers (1883-1969)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Quem foi a mãe de Moisés?

A mãe testa os conhecimentos do seu filho, que anda na catequese:

- Quem foi a mãe de Moisés?

- A filha do faraó.

- É isso que te ensinam na catequese? Vê se fixas de uma vez por todas que a filha do faraó foi a mulher que o salvou das águas.

- Ó mãe, então não percebeste que isso foi o que ela contou?

Para um dicionário católico pós-crise actual (1). Clericalismo

Clericalismo – Mentalidade elitista e respectivos padrões de comportamento que considera que os clérigos são intrinsecamente superiores aos outros membros da Igreja, pelo que merecem deferência automática.

Consequência lógica - A passividade e a dependência são a sina dos leigos.

Consequência cultural - Na Irlanda diz-se, quando alguém comete um erro: "Até a um bispo isso podia acontecer" (li aqui).

Consequência catastrófica - Os abusos sexuais. O clericalismo dos leigos e dos clérigos impede que se questionem as acções do clero.

Baseado nas declarações de Michael Kelly, vice-editor do jornal "Irish Catholic", lidas aqui.

A novidade de Marilyn intelectual - mas não para os jovens cristãos

António Tabucchi escreveu no prefácio de “Fragments”, livro que compila pequenos textos de Marilyn Monroe: “No interior deste corpo vivia a alma de uma intelectual e poeta de que ninguém tinha um pingo de suspeita”.

O livro vai sair no dia 12 de Outubro em França e a seguir em mais dez países. No “Ípsilon” de sexta-feira passada (20 de Agosto de 2010, aqui) comenta-se a obra com espanto. “Marilyn, a intelectual” é o título do texto. Parece que há uma surpresa geral sobre os gostos literários da actriz, que além de escrever poesia, lia Beckett, Joyce, Shaw, Steinbeck, entre outros. O autor do texto do suplemento do “Público” ainda refreia os ânimos ao afirmar que não é totalmente inédito o conhecimento da intelecutalidade de Norma Jean, já que em 1999 o seu exemplar de “Ulisses”, de James Joyce, foi leiloado na Christie’s, mas o tom é de admiração geral.

Ora, lendo a notícia, lembrei-me de uma pequena história lida em tempos num livro de uma editora católica. Copio-a.

Embora os estúdios cinematográficos a tenham explorado utilizando a imagem da loira tonta e explosiva, Marilyn Monroe (1926-1962) em muitas ocasiões demonstrou que era uma mulher autodidacta dotada de uma inteligência subtil. Além disso, todos ficaram surpreendidos ao descobrir quale era o seu prazer preferido: a leitura. James Joyce, Tennessee Williams, Alexandre Dumas, Truman Capote, Tolstoi, a Bíblia…

Numa conferência de imprensa, um jornalista, convencido de que aquela informação era apenas um truque, perguntou-lhe se era verdade que ela se tinha proposto para protagonizar “Os Irmãos Karamazov” numa futura versão cinematográfica.

Ela respondeu: “Não, não, não quero interpretar o papel dos irmãos, mas o de Gruchenka, a protagonista da novela”.

A história é contada em “O bom humor de homens célebres”, de Alfonso Francia, um livro com histórias de gente famosa para debater valores éticos em grupos de jovens cristãos. Esta história tinha como finalidade fazer notar a diferença entre a imagem transmitida e realidade concreta das figuras públicas. Aparência e essência. Embrulho e conteúdo.

O livro foi publicado em Portugal, pelas edições São Paulo (actualmente Paulus) em 1997, mas a edição original espanhola é de 1995. Daí que tenha de concluir: o que agora causa admiração em alguns intelectuais, já há muito tempo era do conhecimento de alguns grupos de jovens cristãos.

Deus e a liberdade humana

Quando se mutila a liberdade do homem, esta liberdade que Deus criou e que o liga a ele, mutila-se precisamente aquilo pelo qual Deus, indirectamente, se anuncia.

Karl Jaspers (1883-1969)

domingo, 22 de agosto de 2010

22 de Agosto de 1241. Morre o Papa que não gostava de gatos

Gregório IX (Ugolino di Conti) foi papa de 19 de Março de 1227 até 22 de Agosto de 1241. Gregório IX continuou a política de centralização e supremacia papal em relação aos principais reinos europeus, às heresias (criando a inquisição papal – já existia uma versão da inquisição no sul de França para combater os cátaros) e aos judeus (decretando a doutrina da submissão dos judeus).

Canonizou Domingos de Gusmão, fundador dos dominicanos, António de Lisboa e Francisco de Assis, fundador dos franciscanos, tendo sido amigo pelo menos destes dois últimos.

Numa carta de 1232, “Vox in Rama”, Gregório IX escreveu que os gatos são instrumento do mal, símbolo de heresia, o que, além de ser mau para os gatos, foi péssimo para os humanos. Os ratos que espalharam as pulgas com bactérias da peste negra encontraram as populações europeias pouco apetrechadas de gatos.

Uísque católico

Fiquei hoje a saber que há whiskey católico. Foi lendo a croniquinha de Miguel Esteves Cardoso no “Público”. Fala do whiskey (assim, em “irish english) que Samuel Beckett bebia. “Sempre se disse de Beckett que era bebedor do whiskey da Irlanda do Norte (…)”. Supunha-se que bebia Bushmills, um whiskey protestante. “No entanto - afiança o cronista - nos últimos meses de vida dele, num lar de terceira idade de Paris chamado Tiers Temps, aqueles que o visitaram não viram Bushmills: só Jamesons e Tullamore Dew. Jamesons é o whiskey católico da Irlanda. Tullamore Dew é o whiskey irlandês que os irlandeses não têm clima para apreciar” (sic).

Esta confessinalidade dos uísques faz-me lembrar aquela anedota dos ateus irlandeses, que são sempre ou ateus católicos ou ateus protestantes.

Apesar da repetição da palavra Jamesons, não há um whiskey com esse nome. Há, sim, uma marca sem "s" final.

Ver para crer

Pequena história contada por António Alçada Baptista (1927-2008) em “A pesca à linha. Algumas memórias” (ed. Presença), pág. 192.

Dizem que, em Angola, um dos programas de televisão de mais sucesso é um concurso, chamado “Quem sabe, sabe…” É assim: há dois grupos. Um deles diz metade de um provérbio e o outro grupo tem que o completar.

Acho que este concurso dá lugar a inovações raras nos provérbios portugueses. (É de assinalar que só há provérbios portugueses!) Contaram-me três ou quatro mas eu só fixei este:

Um grupo diz: “Ver para crer…”

E logo o outro: “Como São Tomé… e Príncipe”.

O pó das nossas certezas

“Creio em Ti, Deus em devir, Deus movimento, Deus presente, mas ao mesmo tempo futuro. Deus que nos liberte e também nos ajude a desembaraçar-nos do pó das nossas certezas” (Claude Simon).

Esta frase aparece num livro sobre o que significa acreditar e evangelizar no mundo actual. Neste caso, mundo actual quer dizer França, que é um dos países mais descristianizados da Europa, apesar de os autores do livro, provavelmente, não gostarem do termo.

O livro em questão é "La sortie de la religion, est-ce une chance?" [A saída da religião é uma oportunidade?], de Michel Gigand, Michel Lefort, Jean-Marie Peynard, José Reis e Claude Simon (Ed. L’Harmattan, 193 páginas). Tem por base a experiência dos padres operários da região dos Calvados (Baixa Normandia, norte de França). Muita gente da Igreja não gostará do livro. Afirma coisas como “Sim, nós cremos que não haja outro lugar para encontrar Deus a não ser a humanidade”. E: “O cristianismo é a religião da saída da religião” (frase já neste blogue usada). E ainda: "Deus não será totalmente Deus enquanto a humanidade não estiver realmente de pé, autenticamente humana".

O artigo sobre o livro pode ser lido aqui em francês. Mas cheguei lá por uma tradução portuguesa, aqui.

Via Sacra

Deus esgota-se,
através da espessura infinita
do tempo e do espaço,
para chegar à alma
e seduzi-la.
Se ela deixar que lhe arranquem,
pelo espaço de um relâmpago que seja,
um consentimento puro e inteiro,
Deus conquistou-a.

E quando ela se tornou
uma coisa que lhe pertence inteiramente,
abandona-a.
Deixa-a completamente sozinha.
Então ela, por sua vez,
às apalpadelas,
deve atravessar a espessura infinita
do tempo e do espaço,
à procura daquele que ama.
É assim que a alma
refaz em sentido inverso
a viagem que Deus fez
até chegar a ela.
A Cruz é isto.

Simone Weil (1909-1943)

Problema ou mistério?

Deus não é um problema a resolver, mas um mistério a descobrir.

Jean Lafrance ( 1905-1974)

sábado, 21 de agosto de 2010

O Adão de Margaret Atwood

A escritora canadiana Margaret Atwood publicou em 2009 o livro “The Year of the Flood” [“O ano do dilúvio”]. Ainda não está traduzido em português (mas está Órix e Crex - o Último Homem”, de que a obra acima referida é sequela). Li no Ípsilon da última sexta-feira que a história decorre num tempo em que as espécies estão a transformar-se a uma enorme velocidade, “um sinal inequívoco da iminência de uma catástrofe”. “Adam One, o chefe da seita «Os Jardineiros de Deus», devotada à fusão da ciência com a religião e à preservação de toda a vida animal e vegetal, é o herói (…)”.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...