sexta-feira, 9 de julho de 2010

"Veni, Sancte Spiritus", poema de Stephen Langton

Vitral na Basílica de São Pedro

Início do hino composto por Stephen Langton:

Veni, Sancte Spiritus,
et emitte caelitus
lucis tuae radium.

Veni, pater pauperum,
veni, dator munerum
veni, lumen cordium.

Consolator optime,
dulcis hospes animae,
dulce refrigerium.


E a tradução, completa, em português (que não corresponde bem à versão acima reproduzida):

Vinde, ó santo Espírito,
vinde, Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.

Vinde, Pai dos pobres:
na dor e aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.

Benfeitor supremo
em todo o momento,
habitando em nós
sois o nosso alento.

Descanso na luta
e na paz encanto,
no calor sois brisa,
conforto no pranto.

Luz de santidade,
que no Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.

Sem a vossa força
e favor clemente,
nada há no homem
que seja inocente.

Lavai nossas manchas,
a aridez regai,
sarai os enfermos
e a todos salvai.

Abrandai durezas
para os caminhantes,
animai os tristes,
guiai os errantes.

Vossos sete dons
concedei à alma
do que em Vós confia:

Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu alegria.

9 de Julho de 1228. Morre Stephen Langton, o homem que dividiu a Bíblia em capítulos

Stephen Langton morreu no dia 9 de Julho de 1228, aos 78 anos. Foi arcebispo de Cantuária. Langton sofreu a oposição do rei João Sem Terra e teve de passar seis anos no exílio, em França. Novamente em Inglaterra, juntou-se aos nobres na redacção de um documento contra as arbitrariedades do rei, a Magna Carta.

Este motivo seria suficiente para recordar Stephen Langton, mas há outros dois, mais curiosos. Langton é o autor do hino “Veni, Sancte Spiritus”, que é proclamado todos os anos na missa de Pentecostes, a chamada Sequência.

E foi Langton que dividiu a Bíblia em capítulos. Fê-lo quando era professor na Sorbonne, em Paris. Teve tanto êxito que a sua divisão foi logo assumida pelos professores parisienses e depois pelo resto da cristandade. No século XVI, Jacob ben Jayim publicou uma Bíblia Hebraica (o basicamente o Antigo Testamento dos cristãos) em Veneza que assumiu a mesma divisão. Passou a ser a referência para o judaísmo.

A Bíblia dividida por Langton está na Biblioteca Nacional de Paris. Tem o número 14.417.

Entrevista ao padre exorcista

Há dias aludi aqui a um livro sobre demónios. O autor esteve em Portugal e deu uma entrevista ao "i". Há muita gente que leva a sério a questão, a começar pelo entrevistado, claro. Sinceramente, não sei como é possível.


Leitura matutinas: A questão do sentido

O mundo em que vivemos já está carregado de significados; frequentemente, o homem não faz e pergunta sobre o sentido das coisas, porque a encontra já formulada e apropria-se dela porque pertence ao contexto cultural em que está inserido. Há evidências tais que desembocam num sentir comum quase natural que impede o surgimento de um sentido pessoal independente do que é património de todos. Todavia, falar de sentido equivale a pôr uma questão que, pela sua própria natureza, tem carácter universal. Não se pode enfrentar o problema do sentido da vida, relegando-o para o sentir de uma única pessoa; se esta pergunta tiver sentido, deve ter sentido para todos. O mesmo vale quando se enfrenta a vida. O sentido da vida não pode ser despedaçado em vários actos que compõem a existência quotidiana; deve, em primeiro lugar tocar toda a vida e não somente um acto singular.

Rino Fisichella in "A fé como resposta de sentido", ed. Paulinas, 21.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Joga-se futebol no céu?

Dois padres muito amigos têm uma paixão comum: o futebol. Posto que discutiam sobre se há futebol no céu, fazem um pacto. O primeiro que morrer deve aparecer ao outro para lhe revelar se se joga futebol no outro mundo.

Um deles morre e cumpre a promessa, manifestando-se em sonhos ao amigo.

- Então, quais são as novidades disso aí?

- Tenho duas notícias para ti, uma boa e outra má. A boa é que se joga cá futebol. A má é que tu jogas na semana que vem.

O perigo de uma capa com Jesus

Primeiro, o “Correio da Manhã” noticiou que a Playboy Internacional queria acabar com a edição portuguesa por causa desta capa, inspirada no livro de Saramago “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Agora, o matutino vem dizer que a empresa responsável pela “Playboy” portuguesa, a Frestacom - Lisbon Media Consulting, nega ou pelo menos desconhece o encerramento da revista (aqui).

O que interessa aqui apontar é o uso da figura de Jesus Cristo. A estrelinha é um exclusivo do Correio da Manhã, de onde copiei a imagem.

8 de Julho de 1579. É descoberto o ícone de Nossa Senhora de Kazan

Nossa Senhora de Kazan. Cópia do séc. XVI

No dia 8 de Julho de 1579, uma menina chamada Matrona descobre o ícone de Nossa Senhora na cidade de Kazan. O ícone, também conhecido por “Theotokos Kazan” (“Mãe de Deus de Kasan”), esteve na cidade homónima até 1904, altura em que foi roubado. Mais tarde apareceu a moldura de ouro e pedras preciosas, mas não original.

Há várias cópias deste ícone, igualmente veneradas. O ícone assemelha-se mais a um sacramento do que a uma obra de arte.

Também na Igreja católica há quem venere Nossa Senhora de Kasan. Uma das cópias mais significativas deste ícone, mas do século XVIII, esteve em Fátima, no Exército Azul, dos anos 70 do século passado até 1993, altura em que foi dado a João Paulo II. Este devolveu-o à Igreja Russa Ortodoxa em 2004.

Leituras matutinas: pensar o sentido é obrigatório

O problema do sentido não é uma invenção para dar algum apoio aos poucos solitários da especulação; é um empenhamento e uma obrigação a que ninguém pode escapar porque faz parte da sua vida. É verdade que um são realismo exige que se abra os olhos e se olhe com atenção para tudo o que acontece à nossa volta. (…)

Nesta «era do vazio» que aprece estender-se para além dos limites, não é fruto do pessimismo afirmar que se estão a queimar gerações inteiras só para não lhes pedir um empenhamento radical. Não está longe o tempo em que estes mesmos jovens se arvorarão em nossos juízes em censurando-nos, pedir-nos-ão o porquê destas opções fracassadas em relação a eles.

Rino Fisichella in "A fé como resposta de sentido", ed. Paulinas, 19.20.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Senhor dos Campos da Hungria

Notícia na Folha de S. Paulo (aqui), que faz lembrar a melancia ateia (aqui):

O internauta britânico Zach Evans, 26, declarou ter encontrado Jesus Cristo no domingo (4) – mas apenas no Google Earth, serviço de mapas do Google, segundo o tabloide inglês "The Sun".

O jovem teria reconhecido a imagem do filho de Deus enquanto procurava destinos de viagem para feriados. Suposta face de Jesus Cristo vista na Hungria, via Google Earth, por internauta britânico e divulgada por tablóide.

Ainda segundo o tablóide, a suposta face de Jesus pode ser vista por intermédio de fotos de satélite em um campo de uma fazenda próxima à cidade de Puspokladany, na Hungria.

"Não sou uma pessoa religiosa procurando por imagens de Maria e Jesus em tudo, mas isso é óbvio", declarou Evans, que é assistente de vendas em Southampton, Inglaterra.

Fé nas quatro linhas

Wezley Sneidjer

Há aquela anedota de Jesus ir ao estádio e acudir sempre pelos que têm a bola, fossem católicos ou protestantes. Era um jogo entre confissões cristãs, mas o que interessava a Jesus era o jogo pelo jogo.

Agora, com uma meia-final realizada e outra por realizar, parece-me que há algo de comum nos dois jogos: a criatividade e o crer católico (Uruguai e Espanha) contra o rigor e método protestante (Holanda e Alemanha).

Na realidade, as coisas não são assim tão lineares. É certo que os latinos geralmente são católicos. Mas na selecção do Brasil há diversas igrejas. Muitos são evangélicos. Como Kaká, que é marido de uma pastora. De qual denominação? E na Holanda, tradicionalmente um país de liberdade religiosa, o mais certo é serem indiferentes. É um dos países mais seculares da Europa, embora há 50 anos 30 por cento fossem católicos e os restantes protestantes.

Quando após a fase de grupos todas as equipas falantes de português e espanhol seguiam em frente excepto a das Honduras, parecia que a fé católica dominava o mundial. Mas não só não se sabe o que é realmente a fé, como parece abundar a superstição. Vejam-se as oito vezes que Maradona se benze antes de cada jogo. E uma no final.

Mas quem pode qualificar tais gestos? Claro que este texto não é sobre fé. É sobre sinais de fé. E como disse o escritor uruguaio Eduardo Galeano, “o futebol é a única religião que não tem ateus”. Não sei se se referia a adeptos, se a jogadores.

Agora vem-se a saber que o Uruguai atribui a sua boa prestação a São Cono, porque um menino de nove anos distribuiu pelos jogadores da equipa uma imagem de São Cono antes de partirem para a África do Sul (aqui). O número de São Cono é o 3. Celebra-se a 3 de Junho. Ontem, mais uns minutos de jogo e o Uruguai marcava o terceiro. Mas não deu.

Do outro lado esteve uma selecção onde tem pontificado Wesley Sneijder… o católico.

“Em Milão, onde Mourinho lhe outorgou toda a sua confiança e lhe deu plenos poderes, Sneijder não só recuperou seu nível de jogo de antigamente – excelente cobrador de faltas, boa visão de jogo, grande chegada à área desde a zaga –, mas também colocou sua vida em ordem. E tudo graças a outra mulher, a bela Yolanthe Cabau van Kasbergen, atriz, apresentadora e modelo holandesa nascida em Ibiza, com a qual começou a sair em agosto do ano passado, pessoa que o convenceu a completar sua conversão ao catolicismo.

«Fui à missa uma vez junto com meus companheiros e, ao fazer parte dela, senti uma força e uma confiança que me perturbaram”, destacou o jogador, que, animado pela sua nova namorada e pelo capitão da Inter, Javier Zanetti, se inscreveu nos cursos de catequese para adultos, até receber o sacramento do batismo em junho deste ano, poucos dias antes de viajar para a África do Sul. Li aqui.

Faltam dois jogos para acabar o mundial: a outra meia final (Espanha - Alemanha) e a final. O jogo de apuramento do terceiro e quarto lugares pouco conta. Se houver novidades, volto ao assunto. Falo de fé e religião, não de golos.

7 de Julho de 1923. Morre Guerra Junqueiro

Abílio Manuel Guerra Junqueiro (Freixo de Espada à Cinta, 17 de Setembro de 1850 — Lisboa, 7 de Julho de 1923) foi o poeta mais popular da sua geração. Estudou Teologia em Coimbra, mas não concluiu o curso, mudando para Direito.

Os seus poemas antimonárquicos contribuíram para a implantação da República. Mas se o recordo aqui é por causa do seu livro “A Velhice do Padre Eterno”, de 1885, obra que mereceu o repúdio da Igreja Católica. Um dos mais acérrimos críticos de Junqueiro foi o padre açoriano, grande apologeta que dava tudo por uma boa polémica, José Joaquim de Sena Freitas (1840-1913).

A partir de 1886, o grande sucesso de Guerra Junqueiro passou a ser publicado com um “Estudo de Camilo Castelo Branco”. O romancista defende o poeta, dizendo que não é um verdadeiro ateu, mas um crente à maneira de Voltaire. Primeiro parágrafo do estudo:

“Desde que o nervoso poeta iconoclasta Guerra Junqueiro atirou às ventanias tempestuosas da opinião pública vinte e oito sátiras com o rótulo de «Velhice do Padre Eterno», as tais ventanias, irrompendo dos odres, começaram a rugir que o poeta é… ateu! Que o dissesse a cleresia, não havia que estranhar à sua boa fé nem à sua inteligência; mas que o digam, com gestos escandalizados, uns leigos – leigos em duplicado – críticos inéditos, mas mexeriqueiros esclarecidos de leituras teutónicas, isso é que me impele a defender, sem procuração, o poeta da calúnia ateísta”.

Para ter uma ideia da obra de Junqueiro, leia-se o início do poema “O Génesis”.

Jeová, por alcunha antiga – o Padre Eterno,
Deus muitíssimo padre e muito pouco eterno,
Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:
Pôs-se a esgaravatar com o dedo no nariz,
Tirou desse nariz o que um nariz encerra,
Deitou isso depois cá baixo, e fez-se a terra.
Em seguida tirou da cabeça o chapéu,
Pô-lo em cima da terra, e zás, formou o céu.
Mas o chapéu azul do Padre-Omnipotente
Era um velho penante, um penante indecente,
Já muito carcomido e muito esburacado,
E eis aí porque o céu ficou todo estrelado.

O poema termina com o Padre Eterno a descansar após a criação de Adão. O último verso é este, redito por Saramago durante a polémica do lançamento de “Caim”:

E até hoje, que eu saiba, inda não fez mais nada.

Leituras matutinas: É preciso aprender a crer

É preciso «aprender a crer»; não se nasce com a fé, mas com a possibilidade de crer. Em cada pessoa que vem a este mundo é lançada uma semente que só a a escolha livre de cada um poder permitir que germine e cresça (…).

A fé pertence a uma das expressões mais qualificadoras da vida de cada pessoa; aliás, em alguns aspectos, é o acto mais importante e decisivo. Condensa em si um conjunto de acções que permitem captar o sentido de uma vida e o seu desenvolvimento dinâmico.

Rino Fisichella in "A fé como resposta de sentido", ed. Paulinas, 11.15.

terça-feira, 6 de julho de 2010

6 de Julho de 1916. Morre o pintor Odilon Redon

"Cavaleiro Místico"

"Fuga para o Egipto"

Odilon Redon morreu em Paris no dia 6 de Julho de 1916. Pintor importante do simbolismo, integrou com Gauguin e Seurat o célebre Salon de Indépendants.

Utilizou muito a técnica do pastel e inspirou-se na temática religiosa cristã.

Catedrais seculares


Exterior e interior (em baixo) da Biblioteca da Universidade de Tecnologia de Delft, na Holanda

Lido na revista "intelligent life" deste Verão, no final de um artigo sobre a arquitecta holandesa Francine Houben (obras dela aqui), especialista no desenho de bibliotecas:
"Durante todo o tempo Houben sempre evitou as grandes frases, mas acaba por confessar: «As bibliotecas são as novas catedrais». Deus queria que assim seja, amém. Catedrais seculares. Só que não construídas em pedra, e nunca em betão armado".

O dilema de Ratzinger

Paolo Flores d'Arcais


Comentando "Mais sobre o escândalo do "Banco do Vaticano" (aqui), Pedro José escreveu algo que vale a pena chamar para a página principal deste blogue.


Uma leitura paralela (para aprofundar):

Sujeiras, corrupção e limpeza – “Segundo o filósofo
Paolo Flores d'Arcais, o problema de Ratzinger é que está preso em um dilema existencial e histórico. «Estou convencido de que sua vontade de limpar a Igreja dos dois pecados capitais, sexo e dinheiro, é séria», diz o diretor da revista Micromega. «Sua linha é a do Concílio de Trento: dogmatismo até à morte e ataque aos comportamentos imorais. Ele quer acabar com os padres pedófilos e os prelados corruptos. Mas fazer isso supõe o impossível: sentar Wojtyla no banco dos réus. E isso não é tão fácil quanto pedir perdão pela condenação de Galileu. Representaria reconhecer que seu antecessor encobriu Marcinkus (presidente do Banco do Vaticano IOR entre 1971 e 1989) e Marcial Maciel (dirigente dos Legionários de Cristo). Limpar de verdade o obrigaria a revelar sujeiras a granel e a demitir meia cúria. Mas se não fizer isso, a Igreja continuará perdendo credibilidade. Esse é o seu dilema»".


(Cfr. Citação de “Vaticália: a nobreza sombria do Vaticano” - A reportagem é de Miguel Mora, publicada no jornal El País, 27-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto. FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=34001 acesso: 05-07-2010).
Aqui.

Leituras matutinas: Secularismo, o aliado mais próximo da fé

Num contexto como o nosso, que parece marginalizar a fé pelo surgimento das consequências do secularismo, é importante reafirmar que é justamente ele o aliado mais próximo da fé. Já chegou o tempo em que, cansados das suas promessas nunca efectivadas e fortalecidos pela consciência das ilusões que ele trouxe, o olhar de muitos se volta de novo para aquilo que abandonaram ou consideraram supérfluo. Aliás, a promessa de viver «como se Deus não existisse» não ajudou a atingir a ansiada meta da maturidade humana e da autonomia das decisões pessoais. A liberdade tem um preço bem mais alto do que a recusa de Deus!

Rino Fisichella in "A fé como resposta de sentido", ed. Paulinas, 8.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

5 de Julho de 1889. Nasce Jean Cocteau

Jean Cocteau, poeta, cineasta, dramaturgo, designer e mais uma série de profissões, nasceu no dia 5 de Julho de 1889, em Maison-Lafitte. E morreu no dia 11 de Outubro de 1963, em Milly-la-Forêt. Esteve muito ligado ao surealismo.

Escreveu abundantemente sobre Deus, embora, julgo, não fosse um crente muito ortodoxo. Disse, por exemplo, que “Deus é o lugar fresco na almofada”. E também: “A arte pela arte ou a arte para a multidão são igualmente absurdas. Eu proponho a arte para Deus”.

Mas se o recordo hoje é principalmente pelo excerto de uma entrevista. Perguntaram-lhe o que é que salvaria do Louvre se o museu ardesse. E ele respondeu: "O fogo!"

Gosto de pensar que o fogo do Espírito Santo é que é o bom motor do mundo.

Mais sobre o escândalo do "Banco do Vaticano"



No jornal i do sábado passado (3 de Julho de 2010). Mais sobre o assunto aqui e aqui.

Leituras matutinas: A fé é como um caminho que sobe a montanha


"A fé é como um caminho que sobe a montanha; exige fadiga, atenção, estudo, paciência, coragem e atravessa toda a existência de uma pessoa. Percorrê-lo até ao fim é uma empresa que requer constância e opção de vida irrevogável.

A fé é sempre uma escolha livre e consciente que requer o empenhamento de uma vida inteira. Não se crê às prestações ou nos momentos de maior sofrimento; o caminho da fé é uma opção irrevogável que implica a entrega da própria vida nas mãos de um Deus que não se vê, mas que se percebe presente como último e definitivo portador de sentido. Não somos daqueles que consideram que a fé já abandonou as nossas terras e se mudou para outras paragens".

Rino Fisichella in "A fé como resposta de sentido", ed. Paulinas, 7-8.

domingo, 4 de julho de 2010

A religião é a base da moral e esta é a base da sociedade

A moral é a base da sociedade; se tudo, porém, é matéria em nós, não há realmente vício nem virtude, e por consequência não há moral.

As nossas leis, sempre
relativas e mutáveis, não podem servir de ponto de apoio à moral, sempre absoluta e inalterável; é pois preciso que ela tenha origem numa região mais estável que esta, e cauções mais seguras que recompensas precárias ou castigos passageiros. Alguns filósofos acreditaram que a religião fôra inventada para a sustentar, sem se avisarem de que tomavam o efeito pela causa. Não é a religião que deriva da moral, é a moral que nasce da religião, pois é certo, como há pouco dissemos, que a moral não pode ter a sua origem no homem physico, ou na simples matéria; pois é certo ainda, que, quando os homens perdem a ideia de Deus, se despenham em todos os crimes, a despeito das leis e dos verdugos.

François René de Chateaubriand, in "O Génio do Cristianismo"

4 de Julho de 1848. Morre Chateaubriand

François-René Auguste , visconde de Chateaubriand (Saint-Malo, 4 de Setembro de 1768 – Paris, 4 de Julho de 1848), escreveu entre 1795 e 1799 e publicou em 1802 “O Génio do Cristianismo”, uma apologia da fé cristã em reacção aos filósofos das Luzes e à Revolução Francesa.

Chateaubriand é uma figura tutelar o romantismo europeu.

Bento Domingues: As raízes imortais da alegria

"Séculos de pregação centrados no pecado e no medo escreveram o antievangelho, o dever sagrado da tristeza. (…) Enquanto o mundo for mundo, a última palavra que revela o verdadeiro ser humano e o verdadeiro religioso será a prática da compaixão, da misericórdia, rosto de Deus".


No mundial, Deus só joga com as mãos


A mão de Suárez foi "canonizada", diz o DN deste domingo. Suárez é o avançado do Uruguai (maior goleador das ligas europeias, joga no Ajax) que defendeu com as mãos um remate do Gana, no último minuto do prolongamento. Foi expulso. O Gana falhou o penálti. E no desempate por penáltis, o Uruguai ganhou e passou às meias finais.


E agora o que interessa neste blogue que só liga ao desporto por motivos religiosos. Cito o DN. "«Um dirigente mandou-me uma mensagem dizendo-me que a mão de Suárez foram, na verdade, as mãos de Deus e da Virgem Maria», exaltou o seleccionador Oscar Tabárez".

Suárez, por seu lado, disse: "Fiz a melhor defesa do torneio. Naquele momento não havia outra hipótese, por sorte o de lá de cima ajudou-nos e, agora, a mão de Deus é minha".

"A mão de Deus", em jogos de futebol, é sempre uma alusão à mão de Maradona no golo afastou a Inglaterra no México 86. Deus, nos mundiais de futebol, só joga com as mãos.

sábado, 3 de julho de 2010

Deus abandonou Maradona

Início de um texto do "Guardian" sobre o Argentina 0 - Alemanha 4: "Se de facto tivesse sido vontade de Deus que a Argentina ganhasse o Mundial, Diego Maradona deveria agora sentir-se extremamente abandonado" (aqui, mas é sobre futebol; "Deus" só aparece uma vez).

Ó Tu, o além de tudo

Ó Tu, o além de tudo.
Como te dar outro nome?
Que hino pode cantar-te?
Não há palavra que te expresse.
Que espírito te apreende?
Não há inteligência que te conceba.
Só Tu és inefável;
tudo o que é dito, de ti é que saiu.
Celebram-te todos os seres,
os que falam e os que são mudos.
Prestam-te homenagem todos os seres,
os que pensam e os que não pensam.
A ti aspiram o desejo universal
e o gemido de todos,
Tudo o que existe te invoca,
e todo ser que em teu universo sabe ler,
a ti eleva um hino silencioso.
Tudo o que permanece, só em ti permanece.
O movimento do universo em ti se finda.
De todos os seres, Tu és o fim.
Tu és o único.
Tu és cada um, e não és nenhum.
Não és um só ser, tampouco o conjunto.
Tens todos os nomes:
como te chamarei?
És o único a quem não se pode nomear;
que espírito celeste poderá penetrar as nuvens,
que velam o próprio céu?
Tu, o além de tudo, oh! tem piedade;
como chamar-te por outro nome?

Gregório Nazianzeno (330-390)

3 de Julho de 1883. Nasce Franz Kafka

Franz Kafka, escritor checo de língua alemã, nasceu no dia 3 de Julho de 1883 e morreu no dia 3 de Junho de 1924. Por vezes considera-se o autor de “A Metamorfose” (1915), “O processo” (1925) e “O Castelo” (1916) um judeu assimilado. Mas ultimamente diversos ensaios têm relacionado os contos, novelas e romances de Kafka com a Bíblia e as tradições judaicas.

Anselmo Borges: O que faz falta? Pensar

Cristo Pensador. Este é de uma igreja de Utena, na Lituânia. A igreja estava em obras e a escultura foi guardada num recanto.

Há na Lituânia - talvez também porque é um país com imenso sofrimento ao longo da história - umas estátuas, de tamanho diferente, do "Cristo pensador". É um Cristo sentado, com a cabeça levemente inclinada, de olhos fechados e com a mão encostada à face, precisamente na atitude própria do homem que pensa. Pensar vem do latim pensare, que significa pesar (razões), ponderar, examinar, avaliar, meditar e também pagar.

Em Portugal, não há muita tradição de pensar, sobretudo pensar criticamente. Talvez o clima nos arraste mais para o exterior. A própria Igreja pode ter responsabilidades, mesmo que indirectas, no facto: um pensamento dogmático, a doutrina transmitida por via autoritativa e sem necessidade de argumentação, não houve Reforma. Depois, nos últimos anos, a aparente situação de riqueza levou ao estonteamento e à fuga do pensar. Assim, de repente, vemo-nos num estado lastimoso e na incógnita asfixiante do futuro.

Há tempos, quando se abriram indiscriminadamente Universidades e instituições de ensino superior, alguém pensou nas consequências? Quanto ao ensino em geral, alguém pensou aonde nos levariam o experimentalismo constante e o facilitismo? Já alguém pensou em como foi possível a Justiça ter chegado aonde chegou e nas reformas necessárias para torná-la fiável, célere e eficaz? Em que é que se estava a pensar, quando se deu a possibilidade da reforma aos 45-50 anos?

Do pior foi a indicação de sinais de que era possível vivermos todos acima das nossas possibilidades e sem esforço nem trabalho. Afinal, em que pensavam os Bancos, quando faziam "engolir" cartões de crédito? Até férias e fatos a crédito aconteciam! Foi a ilusão e o desvario.

Houve uma avaliação racional dos investimentos necessários em função do desenvolvimento do País e não de interesses instalados? Quando se pensa, por exemplo, no labirinto de jogos para finalmente se concluir a localização do novo aeroporto, que devemos concluir? E...

O decisivo era ganhar eleições. Então, prometeu-se o que se sabia que não era possível cumprir. Mas lá estavam os interesses e as clientelas. O pensar a longo prazo, como estadistas, ficou bloqueado. Pode aliás perguntar-se: quando existiu?

O dinheiro corria a jorros. As reformas estruturais foram sendo adiadas. O número de funcionários cresceu. O que restou é um País pobre com alguns cada vez mais ricos. O que vai ser dos mais carenciados e desfavorecidos? Mas ai de nós se não pensarmos que é necessário pensar que os pobres não podem ser abandonados à sua sorte e que há um mínimo de Estado social a salvaguardar. Aconteceu o caricato. Ainda há meses, se prometia e jurava que não haveria aumento de impostos e havia dinheiro para isto e para aquilo, para este e para o outro mundo. De repente, quase cada dia se anuncia um novo imposto e um novo corte. E o mais dramático: alguém nos pode dizer, depois de pensar e reflectir e avaliar razões, o que vai acontecer e qual é o projecto de futuro?

O País caminha para becos sem saída. E o que mais dói: ninguém é responsabilizado e não se vê alguém a assumir responsabilidades. No fundo, somos todos responsáveis, mas as responsabilidades não são todas iguais. Não admira, pois, que as estatísticas digam que os portugueses já não confiam nas instituições e nomeadamente nos partidos e nos políticos. Significativamente, de pensare, em latim, também vem o nosso penso. Assim, dizemos: pensar uma ferida - aplicar a uma ferida, numa pessoa, animal ou instituição, o curativo, os remédios necessários. O que faz falta é sentarmo-nos para pensar, reflectir, projectar um futuro com futuro.

O pensar exige esforço, tenacidade, mas sem ele não se vive humanamente. Aliás, é nos tempos mais difíceis que se ergue a urgência de pensar. Julgo que foi Cícero que escreveu que todo o pensador é melancólico e, como repetia o filósofo Ernst Bloch: "Not lehrt denken", é a necessidade que ensina a pensar. É fundamentalmente aqui que temos de encontrar a nossa cura.

Texto copiado do DN.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Quando o Papa dava sacos de dinheiro aos bispos

Cardeal Paul Marcinkus

No livro “Os segredos do Vaticano” (aqui referido), Lecomte diz que “é óbvio que a Igreja, em 1982, [através do Instituto perl e Opera di Religione, o IOR] está implicada no escândalo do Ambrosiano”, que era o maior branco privado de Itália. O responsável do IOR, monsenhor Marcinkus morreu em Fevereiro de 2006, levando, “com certeza, alguns segredos inéditos para o túmulo”. Isto relaciona-se com o escândalo descrito por Nuzzi (aqui).

Marcinkus (presidente do IOR), Luigi Mennini (vice-presidente do IOR) e Peleggrino de Strobel (tesoureiro) foram condenados pela justiça italiana, mas não foram detidos, pois estavam protegidos “pela grossura das paredes da Cidade do Vaticano” e pela extraterritorialidade do IOR.

Mas no relato de Lecomte, que não é esclarecedor por aí além, há alguns pormenores que mostram como o Vaticano lida com o dinheiro que, suponho eu, terá como principal fonte a generosidade dos fiéis. Um parágrafo (pág. 239): “O Papa polaco nunca se interessou por contas. A única coisa que lhe importava fazer era poder passar envelopes de 50 000 ou 80 000 dólares para as mãos de um ou outro bispo que viesse defender a sua causa a Roma. Era o presidente do IOR que transportava pessoalmente os sacos, a pedido do secretário Stanislaw Dziwisz, pelo elevador, até ao seu gabinete do terceiro andar do Palácio Apostólico. Ou que fornecia directamente esta ou aquela eminência de partida para uma diocese africana”.

Leituras vespertinas: Perigo da espiritualidade narcísica

Actualmente, corremos de facto o risco de distorcer o sentido da espiritualidade, transformando-a num círculo de narcisismo à nossa volta. Isso acontece quando procuramos apenas sentir-nos bem – reduzimo-la a uma espiritualidade do bem-estar.

Essa espiritualidade não produz frutos para a sociedade. Não é actuante, não é interventiva. A privatização da fé cristã, tal como é anunciada em muitos círculos cristão, contraria o espírito de Jesus, que também está patente no Pai-Nosso. Conheço pessoas que iniciam um percurso espiritual como forma de se afastarem dos conflitos sociais e políticos. Utilizam este caminho para se colocarem acima das outras pessoas: acima daquelas que vivem apenas superficialmente, mas também acima das que dão o melhor de si próprias para o bem dos outros.

Anselm Grun in “O Pai Nosso. Uma ajuda para a vida autêntica” (Paulinas), pág. 11-12.

Monod versus Bacon

Um cientista que crê em Deus é um esquizofrénico.
Jacques Monod (1910-1976)

Um pouco de fé afasta de Deus, muita ciência aproxima dele.
Fancis Bacon (1561-1626)

Trafulhice no Banco do Vaticano

O “Jornal de Negócios” de hoje (2 de Julho) publica uma entrevista ao jornalista Gianluigi Nuzzi, que publicou “Vaticano S.A.”, na Presença, sobre os negócios sujos do Instituto de Obras Religiosas, o chamado “Banco do Vaticano”.

O jornalista serviu-se de uma pasta de documentos deixada pelo padre Renato Dardozzi (1922-2003), conselheiro da Secretaria de Estado da Santa Sé, que tinha como missão pôr fim às ilegalidades no Instituto de Obras Religiosas. Morreu sem o conseguir.

Se for verdade o que o jornalista milanês escreve – diz o “Correio da Manhã” de hoje: “Membros da Santa Sé vêem com bons olhos esta publicação de dados resultantes da investigação, que contribui, dizem, para um esclarecimento da situação” –, é capaz de ser o fim da canonização de João Paulo II. Notícias recentes dizem, aliás, que ela está mais ou menos congelada. Ou, pelo menos, que não há pressa.

Em termos de responsabilidade (e não de repúdio moral), este escândalo parece-me mais grave para a hierarquia do Vaticano - porque a implica directamente - do que o da pedofilia, que é um crime individual. Como muitas vezes ao longo da história, a teologia de Maquiavel manda mais do que a de Tomás. Este dizia, em resumo, que a política devia ser inseparável da ética e, claro, que os fins não justificam os meios.


2 de Julho de 1566. Morre Nostradamus

Michel de Nostredame, mais conhecido por Nostradamus (Saint-Rémy-de-Provence, 1503 — Salon-de-Provence, 02-07-1566), foi médico e alquimista, mas é conhecido pela sua clarividência. Em 1555 escreveu “As profecias” (quadras em decassílabos, reunidas em grupos de cem, daí serem conhecidas por “centúrias”), que supostamente falam de acontecimentos do futuro, como eleição de papas, sucessão de reis, guerras e outros acontecimentos de relevo.

Em 2006 alguém interpretou uma das quadras como predizendo a vitória da Espanha no mundial. Diziam os versos que o rei viria de lá dos montes - que interpretaram como sendo os Pirinéus - com o ceptro mundial. Como é sabido, foi a Itália que venceu o Mundial da Alemanha. Mas nesse ano, pela primeira vez, a Espanha venceu o mundial de basquetebol, que decorreu no Japão. Talvez os montes do verso fossem os Urais… Ou talvez o ano em questão não fosse 2006, mas 2010, até ver.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

1 de Julho de 1976. Morre Anneliese Michel, tida como possuída por uma legião de demónios

Anneliese Michel (Leiblfing, 21 de setembro de 1952 - Klingenberg am Main, 1 de Julho de 1976), jovem alemã, depois de esforços médicos infrutíferos, foi submetida a exorcismos pelos padres Ernest Alt e Arnold Renz, em 1975 e 1976. Morreu no dia 1 de Julho de 1976, num estado de grande debilidade física. Os seus pais, bem como os padres, foram acusados de homicídio por negligência e condenados.

O caso da jovem alemã está bem documentado (na Internet não faltam vídeos, documentários e montagens amadoras, alguns com som original - num documentário checo, recente, julgo que é a mãe da jovem, velhinha, que dá o depoimento).

Numa das sessões, Anneliese dizia estar possuída por seis demónios diferentes: Lúcifer, Caim, Judas, Nero, Hitler e Fleischmann (padre do século XVI). Mais tarde, a Conferência Episcopal Alemã veio dizer que não se tratou de uma verdadeira possessão.

O caso de Anneliese Michel esteve na origem do filme “O Exorcismo de Emily Rose” (não confundir com “O Exorcista”, que é anterior).

É interessante falar do facto porque daqui a dias vai ser apresentado em Lisboa e no Porto uma "Summa Daemoniaca", com o subtítulo "Tratado de Demonologia e Manual de Exorcistas" (ed. Paulus). O autor é espanhol, José Antonio Fortea.

A Demonologia é uma disciplina que não faz sentido na Teologia (a começar por, na Bíblia, não haver confusão entre demónio e diabo; o diabo nunca possui; mas os demonólogos modernos falam em possessão diabólica, o que é incongruente), apesar da afirmação Baudelaire. Dizia o poeta que a maior astúcia do diabo (ou seria demónio?) era não acreditarem nele. Voltarei ao assunto. Demónios, só como metáfora.

Sobre Demónios, Diabo e Evangelhos, ver texto de 28-09-2010, aqui.

"Quanto mais estudei, mais aumentei a minha fé"

Parte final da entrevista do "i" a D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas. Saiu no sábado, 26 de Junho. D. Januário Torgal Ferreira chegou a ser aluno de Paul Ricoeur, em França.

Leituras matutinas: Entre Deus e o ser humano, como é?

Entre Deus e o ser humano há uma relação real e, por isso, uma verdadeira comunicação. Mas como fala Deus com o homem? Através dos pensamentos e sentimentos do próprio ser humano. Deus não age no ser humano como um ser estranho, introduzindo nele realidades que não lhe são próprias. Porque Deus é amor e porque o ser humano participa desse amor no Espírito Santo, é o Espírito que age como a realidade mais íntima do homem e da mulher. Ou melhor, no ser humano, o Espírito Santo age por meio do amor como a sua mais autêntica identidade. A acção do Espírito Santo, exactamente por ser por meio do amor, é percebida pelo homem como sendo a sua própria verdade.

Marko Ivan Rupnik in “O discernimento. Da purificação à comunhão” , ed. Paulinas, 33. (Rupnik, padre esloveno, jesuíta, é autor dos mosaicos do altar da Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima)

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...