quinta-feira, 22 de julho de 2010

Combater as cruzadas, agora no futebol

Notícia do “Telegraph”, replicada em vários sítios, diz que um responsável religioso muçulmano da Malásia aconselha a não usarem equipamentos desportivos com cruzes, diabos e publicidade a bebidas alcoólicas.

«É como se os muçulmanos estivessem a idolatrar e a exaltar os símbolos de outras religiões», disse Nooh Gadot, "conselheiro".


Clubes e países com cruzes são, por exemplo, Portugal, Brasil, Sérvia, Noruega, Barcelona e Inter de Milão (no equipamento alternativo), entre muitos outros. O Manchester tem um diabo com o tridente.

A polémica não é nova. As camisolas do Barcelona estão à venda na Arábia sem a cruz de S. Jorge.


E o Inter de Milão, quando jogou na Turquia, com o equipamento alternativo, contra o Fenerbahçe, foi processado por um advogado turco que não gostou dos “novos cruzados”. Ou melhor, na altura, Dezembro de 2007, as notícias diziam que um advogado tencionava processar o clube num tribunal italiano. Não sei se chegou mesmo a acontecer.

Deus e os artistas


Diz-se que Deus tomou na sua mão um pouco de argila e fez tudo aquilo que vós sabeis. O artista por sua vez, se realmente quer fazer obra de criação divina, não deve copiar a natureza, mas tomar os elementos da natureza e criar um novo elemento.

Paul Gaugin (1848-1903)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Saramago era feminista

Inês Pedrosa, na "Ler" de Julho de 2010, diz que Saramago foi, com Vergílio Ferreira, "o interlocutor literário de Deus no Portugal contemporâneo".

Humor fora de tempo litúrgico


Um irlandês entre num bar de Dublin e pede três canecas de cerveja. O empregado serve-as. O cliente vai bebericando de cada uma das canecas. A cena repete-se ao longo dos dias, até que o barman lhe pergunta:
- Ouça lá: sabe que a cerveja vai perdendo gás, não sabe? Perderia menos, se pedisse uma caneca de cada vez.
- Eu sei, mas é que eu tenho um irmão nos Estados Unidos e outro na Austrália. Quando nos separámos, prometemos uns aos outros que beberíamos todos assim, lembrando os velhos tempos.
O empregado e os que estavam no bar ficaram comovidos com o costume tão fraterno quanto fantástico.
O irlandês continua a ir ao bar, mas um dia pede apenas duas canecas. Os clientes habituais reparam e o bar fica em silêncio. O empregado toma a iniciativa e diz:
- Por favor, aceite as minhas condolências, amigo.
- Oh, não, os meus irmãos estão bem – diz o irlandês. Acontece que é estamos na quaresma. E eu na quaresma eu não bebo bebidas alcoólicas.

Mourinho processa bruxo

No DN de ontem (aqui):

(Título:)“Mourinho processa bruxo queniano que diz ter sido por ele consultado”

(A frase:)Eládio Paramés, assessor do treinador do real Madrid adiantou ao DN: “Seguramente, o bruxo [Mzee Makthub] que proferiu tais declarações, pondo em cauda a dignidade profissional e a fé católica de Mourinho, não adivinhou o caro que isso lhe vai custar”.

(Ainda:) “É profundamente católico e para conquistar vitórias acredita essencialmente no seu trabalho”.

21 de Julho de 1954. Tolkien lança o primeiro livro da trilogia “O Senhor dos Anéis”

No dia 21 de Julho de 1954, é publicado em Inglaterra “A Irmandade do Anel”, primeiro volume da trilogia “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien. Seguir-se-ia “As Duas Torres”, no dia 11 de Novembro seguinte, e “O Regresso do Rei”, no dia 20 de Outubro de 1955.

Tolkien era católico (não gostou muito das mudanças do Vaticano II, ver aqui) e é sabido que a trilogia, inspirando-se em motivos não-cristãos, bebe muito do cristianismo (ver aqui).

Quando os livros foram publicados (o terceiro estava para ter como título “A Guerra do Rei”, mas os editores sugeriram o outro título), alguns críticos viram na trilogia alusões à II Guerra Mundial, coisa que o autor rejeitou, até porque a génese da obra já vinha de “O Hobbit”, livro publicado em 1937, antes do conflito.

Numa carta ao padre jesuíta Robert Murray, em 1953, Tolkien afirmou: “«O Senhor dos Anéis» é, claro, uma obra fundamentalmente religiosa e católica; inconscientemente no princípio, mas conscientemente na revisão (…) É por isso que não introduzi, ou cortei praticamente todas as referências a coisas como religião, cultos ou práticas, no mundo imaginário. Mas o elemento religioso é absorvido pela história e pelo simbolismo” (li aqui).

Crer nos que crêem

Um argumento que hoje é muitas vezes usado precisamente em sentido contrário, por causa do peso da história:

Eu não sei se creio em Deus. Mas, pelo menos, eu tenho a certeza de crer, graças à história que me acolhe, naqueles que, de todos os tempos e por toda a parte, creram n'Ele.

Robert Aron (1898-1975)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Paula Rego 2: Medos, mulheres, bruxas e o diabo

Segundo excerto (o primeiro, aqui) da entrevista do DN a Paula Rego. Sobre medos, mulheres, bruxas e o diabo.


A infância está sempre na sua mente?

Sou eu. Está tudo na minha cabeça porque já passei por lá.

Por isso é que não consegue pintar à noite?

Tenho medo! Não consigo concentrar-me porque tenho muito medo do escuro.

De que tem medo no escuro?

Tenho medo das bruxas e à noite não se pinta porque é para dormir. Pinta-se durante o dia, que é quando a gente trabalha, e com um horário de escritório... Mas já me levantei da cama para mudar um quadro que estava em frente a mim e de que não gostava. Foi a única vez.

Mas tem medo das bruxas?

Não tenho medo das bruxas, tenho medo do Diabo.

É por isso que pinta cornos nalguns desenhos?

Mas esta exposição não tem cornos!

Nesta não.

Pintava esses cornos há muito tempo, mas agora já os não faço porque tenho mais medo do Diabo agora do que tinha, de modo que já larguei essas coisas todas. Mas a gente nasce com isso, lá em Portugal, em pequenina, contam-nos histórias extraordinárias! As coisas antigas, como a mulher que cortou a maminha para dar de comer ao marido. E ele disse assim: "Ai que bom que isto é." No dia seguinte, ela diz: "Tens aqui outro guisadinho de que vais gostar muito." Ela tinha cortado o outro peito, ele comeu aquilo com muito prazer e depois disse assim: "Mulher, estás com a camisa toda cheia de sangue!" Ah, foi porque o que tu comeste foram os meus peitos, fiz um guisado para ti. E ele: "Que estúpida, agora temos de começar a comer as crianças!"

Mas as crianças fugiram?

Ao ouvirem isto, fugiram. A mulher é que ficou sem tetas.

Acha que estes contos são invenções ou uma justificação de certos actos?

Não eram só invenção. Eram verdade.

Mas as mulheres não iam cortar o peito para guisar...

Também não sei. Mas capazes disso eram elas. Somos nós!

Eram ou ainda são?

Acho que se fazem muitas coisas para pessoas que é suposto dizer que se ama, que não se fariam por qualquer outra razão.

A Paula é feliz?

Não.

Porque não?

A minha barriga. Sofro disso... Quando me sinto melhor - o diabo seja cego, surdo e mudo [bate na madeira] -, é quando estou a desenhar. Ao fim de um dia de trabalho de desenho, sinto-me normal e bem. Mas feliz?... Gosto muito, muito de trabalhar, de fazer gravuras e essa coisa toda. Ai disso gosto!

Gosta muito de trabalhar porque esquece o Diabo e as maldades todas?

Não esqueço nada, eu estou a fazê-lo! Estou a fazer as coisas de que eu tenho medo.

É quase exorcismo?

Se fosse, era bom.

Um dia destes tem de mandar fazer um bruxedo para eliminar esses medos todos...

Não gosto nada dessas rezas, ainda faz pior! O melhor é fazer bonecos!

Paula Rego 1: Deus, milagres e santos

Li ontem uma entrevista a Paula Rego extraordinária e desconcertante ao mesmo tempo. Veio no DN, papel, de 11 de Julho. Pode ser lida on-line aqui.

A sinceridade desarmante com que a pintora responde às perguntas de João Céu e Silva e as histórias inverosímeis que a norteiam fazem com que a leitura seja irresistível.

Dois excertos. O primeiro. Sobre Deus, milagres, Igreja e santos (o segundo aqui).


Como é que é a sua relação com a religião? Acredita em Deus?

Pois, com certeza! E nos milagres!

E há milagres?

Espero...

Já beneficiou de algum milagre?

Não, não tive nenhum milagre. E, se o tive, não me lembro.

Mas a sua relação com Deus é uma relação fácil e de amor?

Ai, não sei... Eu não gosto nada do Papa, não gosto nada do que a Igreja Católica faz. Nada! Porque são muito maus para as mulheres, muito estúpidos em relação aos abortos e nessas coisas todas. Nada, nada, nada. Mas os santos e as figuras que temos nos livros de quando se é pequenina - os que têm a santa isto e a santa aquilo - é diferente. É como as fadas.

Para além dos casos de pedofilia!

Pois é, e sempre foi assim, com certeza. Não me espanta nada. Fazia parte dos seus deveres [dos meninos] porem-se de rabo para cima.

Separa Deus da Igreja que existe?

Deus nada tem a ver com a Igreja Católica, esta Igreja é o Papa. Também há as outras igrejas, como temos cá em Inglaterra, mas essas parece que não são igrejas a sério.

Mas a convivência com Deus para si é fácil, é uma coisa boa?

Deus é assim uma coisa muito grande, eu gosto mais dos santos.

Dos santos das nossas igrejas?

Sim, é desses que gosto muito! Os santos das igrejas, a Maria Madalena... O meu painel na National Gallery foi todo tirado de livros de santos, porque as suas histórias são extraordinárias.

20 de Julho de 1822. Nasce o monge que é o pai da hereditariedade


Gregor Johann Mendel (Heizendorf, 20 de Julho de 1822 — Brno, 6 de Janeiro de 1884), monge agostiniano, viveu na Abadia de São Tomé, em Brno (na actual República Checa).

Fez experiências com ervilhas e descobriu as leis da hereditariedade, as chamadas Leis de Mendel, que regem a transmissão dos caracteres hereditários. Mostrou-as ao mundo em 1865, mas ficaram esquecidas até ao início do séc. XX.

José Vítor Malheiros: Igreja fálica, católica e apostólica

Entendo a preocupação, mas não concordo com os termos usados por José Vítor Malheiros, no “Público” de hoje (20 de Julho de 2010). E, apesar de toda a longa explicação sobre o que é a religião, não acerta no que é o cristianismo, que é essencialmente uma adesão pessoal e comunitária à mensagem, vida, pessoa de Jesus Cristo – o que contradiz muito do que é tipicamente religioso.

Gosto deste tipo de textos, apesar de não concordar com eles (mas também não me parece bem colocar num mesmo documento a questão da pedofilia e a da ordenação das mulheres). É que nos dão uma outra visão daquilo que, como Igreja somos e fazemos. Nós não somos assim, mas é assim que nos vêem. Há que pensar nisso.

O poeta e o contemplativo


O poeta reentra em si próprio para criar. O contemplativo reentra em Deus para ser criado.

Thomas Merton (1915-1968)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A cruz de Prince


The Cross - LoveSexy Tour Dortmund 1988

The Cross (de Sign “☮” the Times, 1987)

Black day, stormy night
No love, no hope in sight
Don't cry, he is coming
Don't die without knowing the cross

Ghettos 2 the left of us
Flowers 2 the right
There'll be bread 4 all of us
If we can just bear the cross

Sweet song of salvation
A pregnant mother sings
She lives in starvation
Her children need all that she brings

We all have our problems
Some BIG, some are small
Soon all of our problems
Will be taken by the cross

Black day, stormy night
No love, no hope in sight
Don't cry 4 he is coming
Don't die without knowing the cross

Ghettos 2 the left of us
Flowers 2 the right
There'll be bread 4 all, y'all
If we can just, just bear the cross, yeah

We all have our problems
Some are BIG, some are small
Soon all of our problems, y'all
Will be taken by the cross.

A conversão 2 - Prince, testemunha de Jeová


"É um dia calmo lá em casa. A campainha toca. Espreita-se pelo óculo da porta para ver quem é. Vislumbra-se um homem baixo, cabelo com gel, roupas coloridas, sapatos de salto alto e Bíblia na mão. Pensamos ser um sósia de Prince. Depois o homem fala, diz que quer falar connosco sobre Deus, fica-se curioso e abre-se a porta. E às tantas percebe-se que não é um sósia. É mesmo ele.

Em Portugal não se corre esse risco. Mas em pequenas cidades do interior dos Estados Unidos, nos últimos dez anos, tem acontecido. A maior parte das vezes não é reconhecido. Às vezes enverga até uma roupa mais comedida e faz questão de metamorfosear o cabelo. Mas muitos já apanharam o sobressalto da vida, abrindo a porta a uma testemunha de Jeová e acabando a falar com uma das maiores estrelas pop das últimas três décadas.

A história vem contada no jornal inglês "Daily Mirror", que distribuiu gratuitamente o seu último álbum, "20Ten", na edição de sábado passado, mas tem sido reafirmada ao longo dos últimos anos em vários artigos de imprensa. Prince é Testemunha de Jeová, professando com convicção, inclusive no porta a porta".

Não, a história vem no "Ípsilon" de sexta-feira passada. Pode ser lida on-line aqui.

A conversão 1 - Nina Hagen

Nina Hagen, cantora de quem há anos não ouvia falar, provavelmente por andar distraído, porque parece que nunca deixou de cantar, converteu-se. Numa entrevista que li em português do Brasil (aqui) e que depois encontrei no espanhol original (aqui), diz que Deus e Jesus são o seu “manager”. Não sei a que cristianismo se converteu, mas não me parece que tenha sido ao católico. Lê muito a Bíblia.

De qualquer forma, o disco, “Personal Jesus", é bom – dizem. “Um surpreendente e agradável trabalho de country, blues e gospel, dedicado, claro, a Deus”.

Mais uma busca e encontro no mesmo “El País” (aqui) que a cantora alemã foi baptizada numa igreja evangélica, em Schüttorf, no sul da Alemanha, no dia 17 de Agosto de 2009.

Faça a sua própria homilia, sugere o "i"

Do "i" de sábado passado (17 de Julho de 2010):

19 de Julho de 1870. Pio IX proclama o dogma da infalibilidade papal

No decorrer do I Concílio do Vaticano (08-12-1869 – 18-12-1870), Pio IX proclama o dogma que diz que o Papa é infalível em assuntos de fé e moral, quando fala "ex-cathedra”. O dogma está enunciado na constituição dogmática “Pastor Aeternus”.

Desde a declaração, no dia 19 de Julho de 1870, a infalibilidade papal foi usada uma única vez, em 1950, quando Pio XII definiu o dogma da Assunção de Maria.

Uma frase mal lida para começar

E.M.Cioran

José Saramago explicou a origem do nome do livro “Evangelho segundo Jesus Cristo” com uma ilusão de óptica. Pareceu-lhe ver tal título num quiosque, mas, quando se aproximou, o título não existia. Passou a existir.

Hoje, ao procurar uma frase para dar o bom-dia no blogue, li a seguinte:

“Deus explorou todos os nossos complexos de inferioridade, a começar pela nossa capacidade de acreditar na própria divindade”.

Sendo de E. M. Cioran, por momentos interpretei-a entre o ateísmo, embora comportasse a afirmação implícita da existência de Deus, e o luteranismo, ainda que Cioran tenha sido filho de um padre ortodoxo. Mas li tão apressadamente que li mal. O correcto é:

“Deus explorou todos os nossos complexos de inferioridade, a começar pela nossa incapacidade de acreditar na nossa própria divindade”.

E Cioran tornou-se um humanista que precisa de apagar Deus para fazer sobressair o ser humano.

domingo, 18 de julho de 2010

18 de Julho de 64. Começa o incêndio de Roma

"As tochas de Nero", de Henryk Siemiradzki

O “Magnum Incendium Romae” começou no dia 18 de Julho de 64. Apenas quatro das 14 divisões de Roma escaparam ao incêndio. Não se sabe ao certo o que causou o incêndio – coisa que não era assim tão rara nas cidades antigas. Segundo o historiador Tácito, populares culparam de imediato o imperador Nero. Nero, por seu turno, apontou os cristãos. E houve cristãos que, torturados, confessaram o crime.

Suetónio, outro historiador, adiantou que Nero tinha um insano desejo de destruição para dar azo à sua criatividade de projectista urbano. Queria dar ao povo uma nova Roma. Com mais estilo.

Alguns cristãos, na sequência dos eventos, foram transformados em tochas humanas, como ilustra a pintura de Henryk Siemiradzki (vale a pena clicar para ver melhor).

Porque surgem sempre teses revisionistas quando os protagonistas já morreram há algum tempo, há hoje quem diga que a culpabilização dos cristãos resulta simplesmente de propaganda cristã. É a tese de um historiador alemão dos nossos dias. Diz ele que, vitimizando-se, os cristãos tornavam-se mais populares. Não imagino, no entanto, como explica os textos de Suetónio e Tácito, que não eram, e isso é claro, cristãos.

Bento Domingues: Cristãos de aviário?

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...