quinta-feira, 10 de junho de 2010

Mais uma explicação para caminhar sobre as águas

Hoje, por duas vezes falei de milagres (a falta deles no texto de Agualusa; e a inconsistência deles na teologia de Harnack). Faltava esta. A prática deles. Vem do Rerum Natura, onde Carlos Fiolhais recolhe um vídeo sobre uma caminhada nas águas, no Gerês (rio Cávado?).
O professor de Coimbra conta também uma anedota:

Um turista português visita o lago Tiberíades e, espantado com o preço dos passeios de barco, pergunta:
- Mas porque é que o passeio é tão caro?
Responderam-lhe:
- Cristo aqui caminhou sobre as águas...
Retorquiu o turista:
- Pudera, não me admira nada, ao preço que estão os barcos!

(Obrigado pela sugestão, FCO)

... e o making of do anúncio que fez parte de uma campanha de marketing viral.

10 de Junho de 1930. Morre o teólogo Adolf von Harnack

O teólogo alemão Adolf von Harnack morreu no dia 10 de Junho de 1930, em Heidelberg. Natural da Livónia (na actual Estónia; 7 de Maio de 1851), ensinou teologia principalmente em Marburgo e Berlim. Sendo talvez o maior especialista de história da Igreja, destacou a influência da filosofia helénica no cristianismo nascente e desvalorizou o Evangelho de João para o conhecimento do Jesus histórico. Defendeu que há uma diferença significativa entre os ensinamentos de Jesus e a proclamação eclesial sobre Jesus.

Harnack negou muitos dos milagres bíblicos num tempo em que eram tidos como factos, mas defendeu gestos miraculosos de Jesus: “Que a Terra tenha parado, que a jumenta tenha fadado, que a tempestade tenha sido acalmada por uma palavra, não creditamos nem acreditaremos; mas que o paralítico caminha, o cego veja, o surdo ouça não deve ser sumariamente descartada como uma ilusão”.

Harnack apoiou a Alemanha na Grande Guerra, tal como fez, em geral, o protestantismo liberal. Mas tarde, Karl Barth invocaria tal gesto para repudiar a teologia liberal e opor-se ao nacional-socialismo alemão, criando a “Igreja confessante”.

Inferno, milagres e fé católica

"No meu entender a Igreja Católica entrou em declínio a partir do momento em que deixou de acreditar em prodígios e, portanto, de os praticar. O Papa ainda frequenta Fátima, certo, mas vai lá como quem visita uma tia doente. Nos dias de hoje nenhum sacerdote daria o menor crédito a um pastorinho que lhe dissesse ter visto a Virgem Maria dependurada de uma oliveira. Nos dias de hoje nem há mais pastorinhos. Um pastorinho já é quase uma aparição.

O Brasil, o maior país católico do mundo, é também aquele que mais devotos perde todos os anos.

Porquê?

Porque os devotos exigem milagres. Os devotos transferem-se, com o seu dízimo, o seu coração generoso, para as igrejas evangélicas, cujos bispos exorcizam demónios, devolvem a vista aos cegos e o movimento aos paralíticos. Uma Igreja é, na sua essência, abismo e mistério. Pura magia. Um sacerdote que não seja capaz de operar prodígios tem tanta credibilidade, tanta serventia, quanto uma cozinheira que não saiba arquitectar um bom bobó de camarão. Ao contrário do que propagam os católicos moderninhos, Fé e Ciência não são compatíveis. A Ciência veio destruir a Fé. Ao desculpar-se perante Galileu, João Paulo II abjurou. Achei uma vergonha, aquilo. Uma enormidade".

Excerto da crónica “Nelson Rodrigues, Papa, samba e futebol”, de José Eduardo Agualusa, na “Ler” de Junho de 2010.


Há textos feitos de afirmações verdadeiras que transmitem uma ideia falsa no seu todo. Este, feito de informações falsas (a Igreja pode estar em declínio na Europa, mas não no mundo; poucos devotos exigem milagres; a tensão entre Ciência e Fé é salutar para ambas; o Para apenas foi humilde…), transmite uma ideia verdadeira: a perda de encanto em relação à Igreja Católica.

Claro que, quanto a mim, a Igreja teria mais a perder se voltasse a ter uma credibilidade fundada em milagres, se desse o seu aval a qualquer aparição, se quisesse dominar a Ciência. Perderia em primeiro lugar para a questão da verdade. Mas não deixa de ser real que por vezes se afirma uma tal continuidade entre o que é ser católico e o homem / mulher com sólida formação moral que se perde o significado do cristianismo católico. Dilui-se a diferença cristã.

Outra forma de começar o texto de Agualusa seria: “No meu entender a Igreja Católica entrou em declínio a partir do momento em que deixou de acreditar no inferno e, portanto, de o anunciar”. Sem medo do inferno, sem inferno, para que ser crente, católico? Para quê seguir uma moral exigente? E no entanto, nem o medo nem o desejo de espectáculo (os prodígios, os milagres) devem ser os motores da fé.

Sobre o inferno, aliás, há uma frase admirável de Santo Agostinho, cito de cor: “Se amas a Deus com medo do inferno, não és um herói; és um cobarde”. E outra do Padre António Vieira, que dá – parece-me – o sentido genuíno do que é ser cristão neste mundo (cito de cor; note-se que a frase tanto pode ser interpretada no sentido de Cristo ser um ópio como no sentido de ser o que realmente dá força aos cristãos nos infernos intramundanos): “Quem está com Cristo está no paraíso, mesmo que esteja no inferno”. Não é de milagres que o cristão precisa. É de Cristo.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Em louvor da Inquisição

Matthias Heine, protestante, escreve no “Die Welt” de 03 de Março de 2010 que a Igreja Católica precisa de uma nova Inquisição para lidar com os clérigos pedófilos, uma Inquisição que recupere o nome da antiga e excomungue os violadores de crianças.

aqui havia referido o texto. Veio na edição de Maio do "Courrier internacional". Está escrito com algum humor, mas não com ironia, e faz o que nunca um católico poderia fazer: uma defesa da Inquisição antiga, ainda que se refira à medieval, a que tinha como finalidade extirpar a heresia que surgia no interior do cristianismo, anterior à espanhola e portuguesa. Imaginemos um católico a dizer o mesmo…

O autor do texto, crítico de teatro no “Die Welt”, para lá da questão do assunto principal da pedofilia, adianta uma idiossincrasia do protestantismo logo a abrir o texto: “Se há coisa que os protestantes conservadores secretamente admiram na Igreja Católica é o rigor e a determinação com que ataca os seus inimigos. Na cultura protestante do diálogo, sonhamos às vezes com uma autoridade que dê um murro em cima da mesa e diga num tom categórico: «És um herege, vade retro!»” Uns parágrafos à frente, escreve que os próprios protestantes esperam que a limpeza de faça na Igreja católica, “já que a maioria neopagã e ateia considera todas as religiões responsáveis pelo que se passa entre os católicos. Há mesmo quem abandone o protestantismo «por causa do Papa»”.

Sobre a Inquisição, lembra três aspectos inovadores. Faz um elogio da Inquisição, algo que está nos antípodas da mentalidade comum (ia a escrever “mentalidade anticatólica”, mas mesmo entre os católicos existem tais convicções – por isso mesmo é que o católico não se aventura a defender a Inquisição, exceptuando num ou noutro aspecto histórico). São estes, não por esta ordem:

1) A Inquisição surgiu para controlar excessos da justiça popular. Heine aponta que em 1143, em Colónia, um grupo de hereges foi mandado para a fogueira pela populaça, contra a vontade do bispo.

2) A Inquisição abria inquéritos mesmo quando não havia queixa formada, desde que houvesse suspeitas. Tal situação, diz o crítico, era um procedimento ultramoderno que mais tarde os sistemas judiciais adoptaram.

3) A Inquisição iniciou o arquivo de dados. “O procedimento actual, que obriga o juiz de instrução e as autoridades policiais a interrogar testemunhas, a comparar depoimentos e a classificar testemunhos para consulta posterior, é uma invenção do Santo Ofício”.

Liturgia da Comissão Europeia

Bagão Félix diz no “Público” de hoje que “a perspectiva do comissário da Economia e Finanças [que apelou a reformas laborais em Portugal] é muito própria da liturgia da Comissão Europeia. Lançam uns palpites e umas ideias, mas sempre nada de concreto”.

Aponto o uso do termo “liturgia”, que, neste contexto, transmite a ideia de gestos ou rituais vazios de conteúdo. Mais um uso profano de linguagem religiosa.

Pedido

“Senhor, por favor, tenho um pedido urgentíssimo. Dá-me paciência. Já!”

9 de Junho de 68. Nero suicida-se

Busto de Nero

O imperador Nero, o primeiro a perseguir os cristãos, suicidou-se no dia 9 de Junho de 68. Nasceu a 15 de Dezembro do 37 d.C. e governou de 13 de Outubro de 54 até à sua morte. Foi durante este governo que Pedro e Paulo foram martirizados.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Fracturante e católico não conjugam

Li no DN Gente (de sábado passado), nas declarações de São José Almeida (que é jornalista do “Público”), que o qualificativo “fracturante” é uma “disparate conservador”. “É um daqueles rótulos do conservadorismo, uma expressão que apareceu pela primeira vez no Expresso, e que creio que veio do gabinete de Guterres. Usa-se quando são coisas que mexem com o modelo de vida que é associado ao catolicismo”, diz São José Almeida, que escreveu um livro sobre a vida dos homossexuais durante o Estado Novo.

É curiosa a associação entre “fracturante” e “católico”. Não vou agora dizer o que penso de “fracturante”, “conservadorismo” e “catolicismo”. Mas fica apontado o contaste. Fracturante quer dizer que causa divisão, sectário. Católico quer dizer precisamente o contrário, universal, lugar para todas as tendências e mentalidades, opiniões, orto e homo e heterodoxias. Um católico fracturante é um oximoro. Mas compreendo o que a jornalista quer dizer.

Se eu digo: “Tu és Silêncio”...

Se eu digo: “Tu és Silêncio”,
Ele me responde logo: “Eu sou também Palavra”.
Se eu digo: “Tu és Luz”,
Ele me responde: “Eu sou também Noite”.
E, contudo, não há mistura.


Louis Quesnel

8 de Junho de 1191. Ricardo Coração de Leão chega à Terra Santa

Estátua de Ricardo Coração de Leão, em Londres

Ricardo Coração de Leão, imortalizado pelo livro “Ivanhoé”, de Walter Scott, chegou à Terra Santa no dia 8 de Junho de 1191, na Terceira Cruzada, aquela que ficou conhecida como “Cruzada dos Reis”, por terem participado Ricardo Coração de Leão, rei de Inglaterra, Filipe Augusto, rei de França (inimigo do primeiro, mas convencido por ele a participar na Cruzada), e Frederico Barba Ruiva, do Sacro Império Romano Germânico.

Ricardo obteve o título de “Coração de Leão” por ter conquistado Acre, no norte de Israel – o que lhe valeu o estatuto de herói. Não chegou a enfrentar directamente Saladino nem entrou na Cidade Santa, mas negociou o direito de peregrinação para peregrinos desarmados e deu-se por satisfeito.

A crueldade de Ricardo – massacrou prisioneiros, incluindo mulheres e crianças – fez com que a figura do Melek Ric (Rei Ricardo) fosse usada no Médio Oriente para ameaçar as crianças que se portavam mal.

Casamento católico no "Expresso"

"Admira-me é que haja tantos casamentos que dão certo", diz Bento Domingues, no "Expresso" de sábado passado.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Deus e o universo

Deus não existe, eu não o encontrei.

Iuri Alexeisvith Gagarine (1934-1968), primeiro cosmonauta soviético, numa conferência de imprensa após o primeiro voo tripulado, em Abril de 1961

Deus ditou o universo, mas não o assinou.

Provérbio dos nativos americanos

Fernanda Câncio: O reino do disparate

Concordo com a Fernanda na sua última frase, a que está mais correcta em todo o texto. É altura de parar com o disparate. A Lei de Separação, que hoje ninguém da Igreja põe em causa, até o Papa a louvou, indirectamente, na chegada a Lisboa, ao referir que a República deu liberdade de acção à Igreja, foi de facto dolorosa para a Igreja. Ou não é doloroso perder os bens, por exemplo?

Basta ler o Artigo 62 para perceber que ninguém de bom senso poderia aceitá-la:

“Todas as catedrais, igrejas e capelas, bens imobiliários e mobiliários, que têm sido ou se destinavam a ser aplicados ao culto público da religião católica e à sustentação dos ministros dessa religião e doutros funcionários, empregados e serventuários dela, incluindo as respectivas benfeitorias e até os edifícios novos que substituíram os antigos, são declarados, salvo o caso de propriedade bem determinada de uma pessoa particular ou de uma corporação com personalidade jurídica, pertença e propriedade do Estado e dos corpos administrativos, e devem ser, como tais, arrolados e inventariados, mas sem necessidade de avaliação nem de imposição de selos, entregando-se os mobiliários de valor, cujo extravio se recear, provisoriamente, à guarda das juntas de paróquia ou remetendo-se para os depósitos públicos ou para os museus”.

E como este exemplo, a lei de 1911 tem dúzia deles. Claro que Fernanda Câncio só vê o que lhe interessa. Falar hoje de liberdade religiosa (“A religião do reino” é o título do texto) – que na altura alguma hierarquia católica tinha dificuldade em conceber, mas que a Igreja universal aceitou há meio século – e a seguir citar exemplos de uma lei monárquica é interessante em termos históricos. Mas é abusivo, já que ela logo no início mostra a sua intenção: desmentir a “brutalidade infligida ao país”. O facto de hoje toda a gente concordar com a liberdade religiosa (ou quase, porque há alguns, em diferentes religiões, que não concordam com a liberdade religiosa) não é a óptica correcta para falar do que aconteceu há cem anos, porque a questão da liberdade religiosa é apenas um aspecto da Lei da Separação. O menos polémico, aliás. E não foi, na realidade o mais doloroso. As pessoas continuaram a ser maioritariamente católicas. A brutalidade vem de outros lados. Mas os seus e os meus olhos não são os melhores para revelar se aquilo na altura foi uma brutalidade. Não estivemos lá. Os que viveram os acontecimentos é que podem falar disso. E o que dizem é que foi mesmo uma brutalidade. Os historiadores de hoje dizem que as pessoas de então sentiram a Lei da Separação como uma brutalidade. Nenhum historiador sério disso duvida. Fernanda Câncio, hoje, diz que não foi assim e a seguir invoca uma Lei ainda anterior - o que mais ajuda à manipulação.

Como não é historiadora (eu também não, mas tenho escrúpulos), pode dar-se ao luxo de manipular os factos e as mentalidades. Pelo texto perpassam pelo menos dois disparates. Um é o da sinédoque, o de tomar a parte pelo todo (liberdade religiosa pela Lei da Separação). Outro é o do anacronismo, avaliar os acontecimentos de ontem pelas categorias de hoje. Estas duas formas de analisar as coisas são boas para fazer humor. Mas quando se trata de opinião que se pretende séria, sai disparate. E "é altura de parar com o disparate". Cá está.

7 de Junho de 1929. É promulgada a lei fundamental do Estado da Cidade do Vaticano

Na sequência dos Acordos de Latrão, que criaram o Estado do Vaticano (11 de Fevereiro de 1929), foi promulgada no dia 7 de Junho de 1929 a lei fundamental do Estado da Cidade do Vaticano, após a ratificação do tratado pelo Estado italiano, no dia 5 de Junho.

Este lei esteve em vigor até 26 de Novembro de 2000 (aqui).

Os Acordos de Latrão, ao criarem o Estado do Vaticano, resolveram a “Questão Romana”, isto é, a perda dos Estados Pontifícios e o enclausuramento do Papa nos Palácios do Vaticano por não ter soberania temporal. Para resolver este problema dizia-se antes dos acordos que era necessário que o Papa tivesse um espaço para a sua autoridade temporal, “mesmo que fosse apenas um centímetro quadrado”.

domingo, 6 de junho de 2010

Uma aparentemente desusada ideia de consciência


Mesmo o homem encerrado num armário de vidro fica menos embaraçado do que ficará diante de Deus cada um de nós na sua transparência.

Soren Kierkegaard (1813-1855)

Menino Jesus de Cartolinha

No DN de hoje li a seguinte frase: "O PS resignou-se à reeleição de Cavaco, inevitável mesmo que os socialistas trocassem o Alegre pelo dr. Nobre ou pelo Menino Jesus da Cartolinha". Vem no texto de Alberto Gonçalves (aqui, ver trecho relativo a 1 de Junho).

Dos outros já ouvi falar. Mas do Menino Jesus da Cartolinha, não. Claro que basta pôr o conjunto de palavras no Google para ficarmos com uma ideia de quem é este Menino Jesus. Venera-se em Miranda do Douro, desde os tempos da Restauração da Independência, mas a cartola surgiu muito mais tarde. É um Menino Jesus fidalgo. Tem um imenso guarda-roupa. "Alguém se lembrou de colocar uma cartola na cabeça do Menino Jesus da Catedral de Miranda do Douro ou nos finais do século XIX ou nos princípios deste século XX". A história está em muitos sítios. Neste, por exemplo.

Bento Domingues: Diálogo com ateus?

O quarto do Abade Correia da Serra

O Abade Correia da Serra, convidado frequente de Thomas Jefferson, tinha uma quarto só para ele na residência presidencial de Monticello, o "Abbé's room". Ver aqui.

6 de Junho de 1750. Nasce o Abade Correia da Serra

O abade José Francisco Correia da Serra nasceu em Serpa, no dia 6 de Junho de 1750 (ou no dia 5, como também li noutras fontes), e morreu nas Caldas da Rainha, no dia 11 de Setembro de 1823. Doutor em Direito Canónico por uma universidade de Roma, destacou-se como cientista nas áreas da Botânica e Geologia e fundou, com o Duque de Lafões, a Academia das Ciências de Lisboa, de que redigiu os primeiros estatutos.

Forçado a deixar Portugal, viveu em França, Inglaterra e EUA, a partir de 1813 (ou 1812, segundo outras fontes), onde, devido à falta de meios económicos, começou por dar aulas de Botânica em Filadélfia. Mais tarde, foi nomeado ministro plenipotenciário junto dos EUA. O presidente Thomas Jefferson dizia dele: “O homem mais erudito que jamais conheci”.

sábado, 5 de junho de 2010

Recordando 5 de Junho de 1944

Pio XII em 1943

Pio XII, no dia 19 de Julho de 1943, após o bombardeamento de Roma pelos aliados, visita o bairro da antiga Basílica São Lourenço, meia destruída (ao pé dela ficava um quartel-general alemão), e mistura-se com a multidão atordoada. Max Bergerre, correspondente da Havas (futura AFP), escreve: “Quando, perto da gare central, avistei os primeiros sobreviventes do bairro de São Lourenço, rostos cobertos de fuligem, arrastando carros de mão onde haviam amontoado colchões e alguns míseros objectos, disseram-se que o Papa saíra, acompanhado por monsenhor Montini, para ir aos escombros fumegantes abençoar os mortos e os feridos […]. Regressou, como é sabido, com as vestes maculadas de sangue”. Nesse dia, mulheres em pranto interpelam o Papa:

- Padre Santo, dateci la pace! La pace! Non ne possiamo più! (Santo Padre, dê-nos a paz! Paz! Estamos fartos!)

Esta imagem permanecerá nos espíritos, tal como os esforços envidados pelo Papa, em Maio e Junho de 1944, para que o governo italiano proclame Roma «cidade aberta», renunciando a defendê-la pelas armas, mas poupando-a a mil e uma destruições durante a reconquista pelos Aliados. A 5 de Junho, quando o exército do general Juin entra em Roma, várias centenas de milhares de romanos confluem para a praça de São Pedro e celebram Pio XII, no defensor civitatis, salvador da Cidade Eterna.

Extraído de Bernard Lecomte, "Os Segredos do Vaticano" (ed. Asa), páginas 61-62.

Duas historias sobre o que é acreditar, uma católica e outra judaica

Contou Pedro Lamet, jesuíta biógrafo do superior-geral dos jesuítas Pedro Arrupe (1907-1991), que, quando este pregava no Japão, julgo que em Hiroshima, todos os dias assistia às pregações um homem de idade avançada. Estava sempre muito atento, mas nunca falava. Vem-se depois a saber que era surdo. E perguntam-lhe (não sei os pormenores, nem se era mudo), por isso, por que é que assistia às pregações, se não conseguia perceber o que pregador dizia (provavelmente não sabia ler nos lábios; e mesmo que soubesse, o japonês do basco não seria dos mais fáceis). O velho respondeu: “Não sei o que ele diz. Nem sei no que ele acredita. Mas vejo que ele acredita”.

Outra história, esta contada pelo Rabi Levi Yitshaq de Berditchev.
- O que é que tu aprendeste com o rabi Schmelke?
- Aprendi que Deus existe.
- O quê? Mas isso toda a gente sabe!
- É verdade, mas será que toda a gente o soube aprender?

5 de Junho de 1723. Adam Smith é baptizado

o se sabe em que dia é que nasceu o autor de “A Riqueza das Nações” ou, para ser mais completo “Uma investigação sobre a natureza e a causa da riqueza das nações”, obra publicada em 1776, no mesmo ano em que os Estados Unidos da América declararam independência. Esse assunto foi, aliás, acompanhado pelo professor de Lógica e Filosofia Moral Adam Smith.

Mas sabe-se que o escocês foi baptizado no dia 5 de Junho de 1723. E morreu no dia 17 de Julho de 1790, em Edimburgo.

Adam Smith é tido como o fundador da teoria económica moderna e principal teórico do liberalismo económico, o “sistema simples e óbvio da liberdade natural”.

Menos conhecida é a obra “Teoria dos sentimentos morais” (1759), em que fala dos seus pontos de vista religiosos e morais.

Ele, que escreveu em “A riqueza das nações” que “não é da vontade do talhante, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas do cuidado que têm com o seu interesse pessoal”, considerava também que, se é permitido ao livre mercado funcionar e às pessoas enriquecer, elas terão tempo de se preocupar com a situação angustiosa do indigente. E “demonstrou que o mercado promoveu virtudes, tais como, responsabilidade, honestidade, frugalidade, habilidade e auto-controle”, porque, “na busca pela aquisição de riqueza e poder, essas virtudes são necessárias para ser bem sucedido” (estou a citar o Acton Intitute, aqui).

Depois da sua morte,veio a saber-se que Adam Smith tinha dedicado parte considerável da sua fortuna à caridade.

Smith, ao contrário dos iluministas continentais, franceses principalmente, que conheceu, afirmava para a igreja um papel de reforçar “o senso do dever natural”. “No entanto – lê-se no sítio do Acton Institute –, Smith escreveu que a igreja institucionalizada, ou seja, a manutenção de recursos para a religião pela cobrança de taxas, retiraria o incentivo ao proselitismo”, pelo que preferia que as pessoas se associassem em vez de as igrejas esperarem favores do poder. Esse congregacionalismo veio a verificar-se principalmente nos Estados Unidos, num regime de separação Igreja / Estado e de liberdade religiosa.

Diferentes tipos de ateísmo

No texto do DN de hoje (ver post anterior), Anselmo Borges fala de quem “se considera ao mesmo tempo religioso e ateu”. De ateus que têm espiritualidade. E que, por isso, consideram o facto religioso como significativo. Ainda que não acreditem em Deus. Vale a pena confrontar as ideias do texto de Anselmo Borges com as de Fernanda Câncio, no mesmo jornal, mas na edição de ontem, a propósito da procissão do Corpo de Deus em Lisboa. É a diferença entre ateísmo aberto e dialogante, de um lado, e ateísmo laicista, anticlerical e intolerante, do outro.

Deixo aqui o final do texto de Fernanda Câncio (o resto está aqui):

"Significa então isto que se, como cidadã, sou bombardeada com proselitismo religioso com permissão e beneplácito das autoridades que elegi, se me ocorrer gritar da janela da minha casa, à bulha com o som dos altifalantes, uma coisa do género do castelhano "me cago en dios" corro o risco de ser processada por blasfémia. Afinal, o que o Código Penal e a prática reiterada das autoridades portuguesas dizem é que os sentimentos religiosos (desde que católicos, claro) valem mais que quaisquer outros e têm permissão para se impor a todos os corpos - mesmo os que não querem comungar deles. E isso, sinto muito, não é só ridículo e inaceitável e absolutamente fracturante. É também claramente inconstitucional - a não ser que a liberdade de consciência só exista para escolher uma religião, e a certa".

Anselmo Borges: Ao mesmo tempo religioso e ateu?

André Comte-Sponville

No DN de hoje, Anselmo Borges escreve sobre os ateus que levam a sério a sua não crença em Deus e a fé dos outros.


Como aqui me refiro por vezes a quem se considera ao mesmo tempo religioso e ateu, gostaria de tentar explicar.

Podemos apresentar exemplos. É sabido que Einstein tinha profunda veneração pela natureza - uma veneração de tipo religioso -, mas não aceitava Deus como pessoal e criador. Ernst Bloch afirmava que onde há esperança há religião. Segundo a sua concepção da matéria, força divina geradora de tudo, pode esperar-se uma salto "sobrenaturante" da natureza, de tal modo que se dê a reconciliação entre a natureza e o homem, que, no limite, se poderia tornar imortal. Mas afirmava-se ateu, porque não aceitava o Deus bíblico, transcendente, pessoal e criador.

Nesta ligação à natureza, força geradora divina impessoal, há traços de religiosidade quase mística, mas, ao mesmo tempo, porque se não acredita no Deus transcendente, pessoal, criador, com quem se tem uma relação pessoal, não se presta culto, não se reza, e, sobretudo, não se espera dele a salvação. Aí está uma religiosidade ateia.

Actualmente, um exemplo desta vivência como ateu e religioso é o filósofo A. Comte-Sponville, que se define como "ateu fiel": "ateu, porque não acredito em nenhum Deus nem em nenhum poder sobrenatural; mas fiel, pois me reconheço numa certa história, numa certa tradição, numa certa comunidade, e especialmente nos valores judeo-cristãos (ou greco-judeo-cristãos) que são os nossos", e que, neste sentido, escreveu a obra "L'Esprit de l'athéisme".

Quando se pergunta: "Acredita em Deus?", deve-se perguntar previamente o que é que se entende por Deus. Assim, Comte-Sponville propõe a seguinte definição: "Entendo por 'Deus' um ser eterno, espiritual e transcendente (ao mesmo tempo exterior e superior à natureza), que teria consciente e voluntariamente criado o universo. Supõe-se que é perfeito e plenamente feliz, omnisciente e omnipotente. É o Ser supremo, criador e incriado (é causa de si), infinitamente bom e justo, de quem tudo depende e que não depende de nada. É o absoluto em acto e em pessoa."

É precisamente em relação a este Deus pessoal que A. Comte-Sponville se confessa ateu. Não podemos saber se Deus existe ou não. Deus não é objecto de saber, se entendermos saber como "o resultado comunicável e controlável de uma demonstração ou de uma experiência". Assim, há quem acredite que há Deus e quem acredite que não há. Comte-Sponville é ateu, não crê, mas sublinhando que não pretende saber que Deus não existe: "Creio que não existe." Se alguém disser que sabe que Deus não existe, "não é em primeiro lugar um ateu, mas um imbecil", do mesmo modo que, se alguém disser que sabe que Deus existe, "é um imbecil que toma a sua fé por um saber".

Há razões para crer e razões para não crer. A. Comte-Sponville faz o elenco das razões que o levam a não crer em Deus, sendo uma das principais a existência do mal no mundo. Mas afirma-se espiritual - prefere a expressão espiritualidade a religiosidade, porque a religião está vinculada em princípio a religiões institucionalizadas -, no quadro de um certo tipo de experiência mística, feito de plenitude, silêncio, experiência oceânica, simplicidade, eternidade... Quando falta Deus, há "a plenitude do que é, que não é um Deus, nem um sujeito". Há o Todo, pouco importando os nomes: o ilimitado (Anaximandro), o devir (Heraclito), o ser (Parménides), o Tao (Lao-tsé), a natureza (Lucrécio, Espinosa), o mundo ("o conjunto de tudo o que acontece": Wittgenstein), o real "sem sujeito nem fim" (Althusser), o presente ou o silêncio (Krishnamurti) - "o absoluto em acto e sem pessoa".

Quando não há Deus que nos salva, que é a espiritualidade? "É a nossa relação finita com o infinito ou a imensidade, a nossa experiência temporal da eternidade, o nosso acesso relativo ao absoluto." O que faz viver não é a esperança, mas o amor; o que liberta não é a fé, mas a verdade. "Já estamos no Reino: a eternidade é agora."

Aqui, a pergunta radical é: um Deus não invocável pelo homem salvaria alguém enquanto pessoa? O núcleo da questão é a pessoa.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Feriados a mais, diz Vasco Pulido Valente

“Existem em Portugal três feriados mais do que a média da União Europeia, sem contar com os casos dessa curiosíssima prática que se chama «tolerância de ponto»”, escreve Vasco Pulido Valente, em mais um texto sobre o excesso de feriados no calendário português.

Mas antes do assunto em si, duas observações. Escreve a certa altura: “Mas neste ano da Era Comum (e não do Senhor) de 2010”. Não percebo por que é que ele, como outros, fala da Era Comum. Sei que quem usa a expressão pode ser ou não ser crente. Ainda há pouco vi um conhecidíssimo professor da católica, padre, usar a mesma expressão. Supõe-se que é para não ferir a sensibilidade de quem não é crente. Mas quando se fala de “Era Comum”, pergunto: Comum a quê? A quem? O que é que aconteceu para ser Comum? Quando é que começa a contagem? Se uma pessoa viesse de outro mundo e lhe disséssemos que estamos no ano 2010 da Era Comum, o que é que ela ficava a saber? Nada. Teríamos de explicar que há 2010 anos, mais coisa menos coisa, nasceu Jesus Cristo. Ainda não percebi para que é que serve esta espécie de eufemismo. Que se supõe religiosamente correcto.

A outra observação. Diz o cronista: “Chegamos mesmo ao cúmulo de parar tudo, a 15 de Agosto, por causa, salvo erro, da Ascensão da Virgem, quando nem 1 por cento dos portugueses poderia dizer de que Ascensão se trata”. Ora, Vasco Pulido Valente não está incluído nesses 1 por cento. É que a 15 de Agosto, celebra-se a Assunção da Virgem Maria. Ascensão, só a de Cristo (este ano celebrada a 16 de Maio, uma semana antes do Pentecostes; já foi celebrada na quinta-feira antes do domingo actual e nessa altura era feriado, como ainda é em alguns países). Terá sido brincadeira de VPV?

Sobre a discussão em si, concordo com o facto de haver demasiados feriados, sabendo que há séculos eram muitos mais. Nalgumas comunidades não se podia trabalhar em quase metade dos dias do calendário. E concordo que há pontes horríveis para quem tem de trabalhar com outras pessoas. Poderiam abolir-se todos os feriados religiosos e todos os civis e dizer: cada um tem um “pack” de, vá lá, 10 feriados que usa como quiser. Veria com alguma dificuldade a “abolição” do Natal. Mas essa seria, com certeza, uma ocasião para a maioria dos cidadãos gastar um dos dias do “pack”.

Claro que isto só significa que caminharíamos para uma sociedade sem referências colectivas. Por outro lado, os crentes de outras religiões teriam direito aos seus próprios feriados. E os monárquicos trabalhariam no 5 de Outubro (se bem que nesse feriado há um grande feito monárquico qualquer). E os adeptos do Estado Novo poderiam ir trabalhar alegremente no dia 25 como no dia 24 de Abril.

4 de Junho de 1798. Morre Casanova, o informador da Inquisição

De Giacomo Casanova (Veneza, 2 de Abril de 1725 – Dux, República Checa, 4 de Junho 1798) sobressai a vida de aventureiro e sedutor. No final da vida escreveu nos 28 volumes de memórias que tinha seduzido cento e tal mulheres e alguns homens (não é assim tanto para os padrões actuais; um conhecido cantor rock, recém-entrado na reforma, na terra de Sua Majestade, diz ter dormido com mais de duas mil, suponho que não com homens).

Mas o curioso é que Casanova chegou a iniciar carreira militar e eclesiástica. E mais curioso, ainda, é que trabalhou como informador da mesma Inquisição que por vezes o perseguiu. Escreveu cerca de 50 relatórios em que acusa nobres e banqueiros de adultério, vida devassa, posse de livros proibidos.

Fideísmo, desconfiança da razão, Bíblia e desenvolvimento

Primeira frase de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” (o primeiro parágrafo ocupa três páginas), de Max Weber:

“Uma panorâmica da estatística profissional de um país pluriconfessional costuma mostrar com uma frequência significativa um fenómeno por várias vezes vivamente discutido na imprensa, literatura e congressos católicos da Alemanha: o facto de os dirigentes das empresas e os detentores de capitais, bem como as camadas superiores da mão-de-obra qualificada e, mais ainda, o pessoal técnico e comercial altamente especializado das empresas modernas, serem predominantemente protestantes”.

A constatação e a tese de Max Weber são espantosas, porque, historicamente, o protestantismo distingui-se por uma desconfiança radical da razão. Lutero dizia que a "razão é a rameira do diabo". Enquanto o catolicismo sempre quis conciliar fé e razão. Uns, oposição. Outros, diálogo. A questão é que naqueles que desconfiam da razão por razões religiosas, o desenvolvimento científico aconteceu em maior grau. A questão é que quem desconfiava da razão (incapaz de colaborar na salvação) realçava a leitura a Bíblia (ao contrário dos católicos). Ora, para ler a Bíblia, era preciso, ante de tudo, saber ler.

O que é o ser humano?

O que é, pois, o ser humano?
Não é mais do que terra.
De argila está formado
e ao pó há-de voltar.
Porém, tu o instruis em maravilhas como estas
e fazes conhecer os fundamentos da tua verdade.
Eu sou pó e cinza,
que posso projectar, se tu não o desejas?
O que posso maquinar sem o teu consentimento?
Como posso ser forte, se tu não me estabeleces?
Como posso ser instruído, se tu não me modelas?
O que posso eu falar, se tu não abres minha boca?
E como responder, se tu não me ensinas?

Texto da Comunidade de Qumran (judeus que no início da era cristã viviam em comunidades isoladas nos desertos da Palestina)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Um clássico: Max Weber, o capitalismo e a ética protestante

Com o “Público” de hoje, por mais 5,95 euros, um clássico da sociologia, mas também da economia e da teologia: “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber.

Confesso que já hoje dediquei mais tempo a este livro do que o que devia – o que comporta alguma ironia pois a ética protestante é uma ética do dever e eu tenho simpatias pelo capitalismo com ética cristã. Portanto, devia estar ocupado com o dever, em vez de estar a fruir do livro.

Até hoje só tinha treslido esta obra-prima. (“Tresli”, como dizem os bloquistas, quando lhes perguntam se já leram “O Capital”. Tresler é uma maneira de dizer que se leu o que não se leu, que apenas se pousou os olhos sobre uns resumos e umas citações). Mas hoje comecei a ler e só pela introdução (19 páginas) e pelas primeiras páginas já pensei uma dúzia de vezes: “Onde é que eu já ouvi isto? Tanta gente que já aqui veio beber”. Um clássico absoluto.

Artes no claustro ou Deus entre as caçarolas

Licores, vinhos, hóstias, artes plásticas, doces, velas e terços são algumas das coisas feitas por religiosos e religiosas que estão expostas no Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa, até 5 de Junho. António Marujo fala da exposição no “P2” de hoje, dando ao texto o título “Deus entre os tachos”, que remete, como cita, para um texto de Santa Teresa de Ávila:

“Outras pessoas ainda conheci a quem aconteceu da mesma sorte. Não as via há bastantes anos; e, perguntando-lhes eu em que os haviam passado, me diziam que todos em ocupações de obediência e caridade. Por outro lado, achava-as tão medradas em coisas espirituais que me espantavam. Eia, pois, filhas minhas! Não haja desconsolo quando a obediência vos trouxer empregadas em coisas exteriores. Entendei que até mesmo na cozinha, entre as caçarolas, anda o Senhor” (“O Livro das Fundações”).

3 de Junho de 1963. Morre João XXIII

João XXIII morreu na tarde de 3 de Junho de 1963. Era natural de Sotto il Monte, diocese e província de Bérgamo (Itália). Nascera a 25 de Novembro de 1881. Foi Papa desde 28 de Outubro de 1958.

O sítio do Vaticano diz que "o seu pontificado, que durou menos de cinco anos, apresentou-o ao mundo como uma autêntica imagem de bom Pastor. Manso e atento, empreendedor e corajoso, simples e cordial, praticou cristãmente as obras de misericórdia corporais e espirituais, visitando os encarcerados e os doentes, recebendo homens de todas as nações e crenças e cultivando um extraordinário sentimento de paternidade para com todos. O seu magistério foi muito apreciado, sobretudo com as Encíclicas Pacem in terris e Mater et magistra. (...) O povo viu nele um reflexo da bondade de Deus e chamou-o «o Papa da bondade»".

Que eu creia para que possa entender


Ensina-me a procurar-te
e mostra-te a quem te busca,
Porque não posso procurar-te,
Se não me ensinares.
Nem encontrar-te,
se não te mostrares.
Que eu te procure desejando,
que te deseje procurando,
te encontre amando,
que te ame voltando a encontrar-te…
De facto, não peço que entenda para que possa crer,
mas que creia para que possa entender.
Pois também isto não entenderei,
se não tiver crido.

Anselmo de Cantuária (1033-1109), excerto da obra "Proslogion"

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Para grandes problemas, soluções drásticas

O sacristão está pelos cabelos. O casamento terminou há horas, mas os convidados continuam dentro da igreja. Conversam e mais uma fotografia aqui, outra ali. O sacristão telefona ao padre, que tinha saído logo após a cerimónia religiosa, e pergunta:
- O que é faço? Eles não arredam pé…
- Diga-lhes que estão a chegar as senhoras da limpeza.
- Já disse. Não adiantou nada.
- Grite: “Fogo!”
- Já gritei. Não adiantou nada.
- Já sei: pegue num cestinho e faça um peditório para o centro social.

Descubra os erros desta entrevista

Lendo a entrevista a Eric Frattini, no “Sol” de sexta passada (28 de Maio), tem-se matéria suficiente para o jogo “Descubra os erros”. E falo apenas da Igreja Católica. E não falo do título, que é claramente abusador, penso.

1. Invocar a Doação de Constantino como se alguém a defendesse. Tal documento foi forjado na Idade Média, já depois de o Papa ser soberano sobre territórios de Itália. É um documento falso que pretende justificar o que já era dado adquirido. Há muito que a Igreja sabe e diz que é falso.

2. O Antigo Testamento (cerca de três quartos da Bíblia, em volume) já estava formado antes de aparecerem os cristãos. A formação do Novo Testamento é um processo gradual, comunitário, que na prática só termina no Concílio de Trento. Na realidade, são muitos os livros recusados: apócrifos, gnósticos (os que Irineu combatia especialmente), pseudo-apostólicos. Hoje percebe-se que os critérios para afirmar a inspiração divina de um texto neotestamentário, nos primeiros séculos, eram, afinal, muito humanos e de bom senso, basicamente três: poder relacionar o texto com um dos apóstolos (apostolicidade), ortodoxia (ensinamentos que não contradissessem o pensar e sentir da ecumene) e uso litúrgico (uso nos encontros celebrativos cristãos).

3. O Evangelho de Maria e o Evangelho Secreto de Marcos foram recusados. E o de Pedro. E o de Tiago. E o de Filipe. E o árabe da Infância. E o de Nicodemos. E a História de José, o carpinteiro. E muitos outros. Na realidade, há hoje quem diga que o Evangelho de Tomé, recusado, é capaz de ter palavras realmente proferidas por Jesus. Mas, no geral, não cabe nos critérios apontados.

4. Portugal, “um bom sítio para lavar a imagem do Papa”? A imagem, a conta gotas, como reconhece, começou a ser posta em causa com maior intensidade em Fevereiro e Março de 2010. A viagem estava planeada pelos menos desde Agosto de 2009. O presidente da República e a Conferência Episcopal anunciaram-na no dia 24 de Setembro de 2009.

2 de Junho de 1979. João Paulo II inicia a primeira visita à Polónia como Papa

João Paulo II, na sua segunda visita ao exterior de Itália (a primeira fora à República Dominicana, ao México e às Bahamas, em Janeiro/Fevereiro desse ano), vai à Polónia.

No último dia da viagem, 10 de Junho, perante milhão e meio de fiéis, em Cracóvia, onde fora bispo, afirma: “É necessário trabalhar pela paz e a reconciliação entre os homens e as nações de todo o mundo. É necessário procurarmos aproximarmo-nos reciprocamente. É necessário abrir as fronteiras”.

A visita excede todas as expectativas em termos de número de pessoas nas celebrações e nas ruas e, principalmente, em termos de audácia apostólica de João Paulo II.

Após a visita, os 37 discursos e pronunciamentos do Papa circulam de mão em não, em papel e em cassetes, e são discutidos nas igrejas, em grupos e nos sindicatos. Sem a censura comunista. Impossível deter o sopro da liberdade.

João Paulo I vendeu poucos livros

Pensava que as cartas de Albino Luciani (viria a ser João Paulo I, por 33 dias) a escritores como Mark Twain (aqui) e figuras literárias como Pinóquio tinham sido um grande sucesso de vendas. Pelo que diz Bernard Lecomte, não. Foram "uma desgraça em número de exemplares vendidos".

“Albino Luciani é um homem honrado, um bom padre, um bispo simpático e pouco convencional. Em Veneza, renuncia à deslocação no barco que exibe as armas episcopais para circular, como toda a gente, em vaporetto. Desafia a crónica com os seus sermões em forma de diálogos com crianças, e publica, sob o título Illustrissimi, cartas simplistas dirigidas a Jesus, Walter Scott, Figaro, Péguy ou Pinóquio (!), que são uma desgraça em número de exemplares vendidos, mas que lhe granjeiam uma certa condescendência, mas também o desprezo de certos prelados da alta roda saídos das grandes escolas vaticanas”.

Bernard Lecomte, "Os Segredos do Vaticano" (ed. Asa), pág. 157

Definição de místico

Escultura de Marie Noël em Auxerre

Os místicos, esses loucos admiráveis que cortam os seus pés para que lhes nasçam asas.

Marie Noël (1883-1967)

terça-feira, 1 de junho de 2010

As pantufas de João Paulo I e outros segredos do Vaticano


Ando a ler “Os Segredos do Vaticano” (ed. Asa), um livro do jornalista do “La Croix” Bernard Lecomte. O jornal “Libération” escreveu: “Este livro é a prova de que a realidade é muito mais fascinante do que as teorias da conspiração”. E o “Pèlerin Magazine”: “Mais apaixonante do que muitos romances de mistério”.
Concordo em absoluto. A realidade é muito mais interessante do que a ficção. (Como diria Frank Zappa, para quê droga, se basta a realidade?) Já li seis dos seus 17 capítulos e em todos fiquei com a mesma impressão: prosa bem informada, conhece as polémicas, dissolve-as com factos e acrescenta outros que (pelo menos eu) desconhecia. Um exemplo: as altas esferas do Vaticano chegaram a pensar que o regime bolchevique seria bom para os católicos russos. E esforçaram-se por estabelecer relações diplomáticas (“Um Papa contra os Soviéticos”).
Outro exemplo: Pio XI escreveu (isto é, mandou escrever) uma encíclica contra o nazismo e outra, que, por uma questão de dias não foi publicada, contra o anti-semitismo (“A Encíclica Interrompida”). Está lá tudo explicado. Quem a escreveu (John LaFarge, um jesuíta norte-americano de ascendência francesa), o nome ("Humani generis unitas"), o que é feito dela (repousa nos arquivos secretos).
Sobre Pio XII e os seus criticados silêncios em relação ao Holocausto, afirma que foi claramente antinazi, ainda que “mais diplomata do que profeta”. Não falou para “evitar males maiores”. Tinha razões para isso.
Quanto à morte de João Paulo I, Bernard Lecomte afasta qualquer teoria da conspiração e explica a origem de todas as incongruências em que normalmente os adeptos da conspiração se apoiam. A irmã do Papa, irmã de sangue, ficou com os óculos e as pantufas.

Monges, whisky e maçonaria

Ruínas da Abadia de Lindores, na Escócia, onde se destilava whisky

No “Exchequer Rolls” [suponho que seja uma espécie de inventário do Tesouro ou das Finanças na Escócia] de 1494–95, vol X, p. 487, diz-se: “Ao monge John Cor, por ordem do Rei, para fazer oito «bolls» de aqua vitae de malte”. Não sei como se traduz «bolls», mas leio que corresponde a 140 libras. Sendo a libra equivalente a 453 gramas, temos que o rei James IV (ou Jaime) pediu ao monge João qualquer coisa como 507 litros de “água da vida”, isto é whisky (se um "boll" leva cerca de 63 litros, talvez possa traduzir-se por “barril”).

John Cor era monge (será mais correcto do que frade) da abadia de Lindores, na Escócia. Trata-se de uma casa da Ordem de Tiro, que surgiu em França, em 1109, perto de Chartres. Os monges desta ordem eram os “cinzentos”, por causa do hábito que trajavam (os beneditinos ainda são os “negros”; os cistercienses, os “brancos”).

Surgida em França, a ordem rapidamente se propagou para o norte: Inglaterra, Irlanda, Gales e Escócia, desaparecendo com a reforma anglicana (na Inglaterra) e protestante (na Escócia). Em França, foram reintegrados noutra derivação da ordem beneditina.

Curioso é que uma das abadias escocesas desta ordem, a de Kilwinning, está na origem da maçonaria escocesa.

Terão os monges criado a maçonaria sob a influência do whisky?

1 de Junho de 1494. Um monge refere-se ao whisky

A primeira referência escrita ao whisky aparece datada de 1 de Junho de 1494. O monge John Cor, da abadia de Lindores, na Escócia, segundo um escrito da época, tem licença para produzir cerca de quinhentos litros de “aqua vitae” (“água da vida”) para o rei James IV.

Ateologia prática


Não amo a Deus porque não o conheço, nem ao próximo porque o conheço.

Charles-Louis de Secondat, Barão de Montesquieu (1689-1755)

Uma Bíblia com tecnologia avançada

Scriptorium (clicar para aumentar)

Fernando Correia de Oliveira, da Estação Cronográfica, comentou uma das imagens da Bíblia dos Jerónimos. Vale a pena dar destaque à imagem e ao comentário.

A Bíblia dos Jerónimos tem interessante iconografia que interessa à História da Ciência. Nas cenas de Scriptorium (...), surgem vários instrumentos científicos, nomeadamente relógios mecânicos (neste caso, em dissonância com a data a que as figuras dizem respeito, mas em consonância com a data em que as iluminuras foram feitas).

O Scriptorum acima representado, além de uma esfera armilar, um sextante e um astrolábio, tem pendurado na parede um pequeno relógio mecânico, aparentemente de pesos, com mostrador de horas ditas Romanas e sino para as assinalar.

Como se sabe, a relojoaria mecânica - de torre - apareceu primeiro nas comunidades religiosas ocidentais, que queriam ter um medidor exacto de tempo para os seus ritmos de oração.

No tempo de Nicolau de Lyra (1270-1349), já havia relógios de torre mas não de parede.
O contrato para a execução da Bíblia dos Jerónimos foi feito em 1494, numa altura em que os relógios de parede do tipo que aparece na iluminura já são de uso corrente nas comunidades religiosas.


Fernando Correia de Oliveira

Nota: Nicolau de Lyra, exegeta franciscano, professor em Paris, é o comentador desta Bíblia.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...