quarta-feira, 23 de junho de 2010

Um aviso de Proudhon e um anúncio de Martin Luther King

Quem me fala de Deus, quer ou a minha bolsa ou a minha liberdade.

Proudhon (1809-1865)

Deus tem os dois braços estendidos. Um é suficientemente forte para envolver a justiça, o outro suficientemente doce para nos cercar de graça.

Martin Luther King (1929-1968)

terça-feira, 22 de junho de 2010

O petit Yves Congar escreveu um "Diário da Guerra 1914-1918"


Procurando na Internet, encontrei no Canadá uma recensão à obra de infância de Congar (aqui, em pdf). O grande teólogo escreveu um diário, ao longo dos quatro anos de guerra, em cinco cadernos escolares. Note-se que era natural de Sedan, nas Ardenas, junto à Bélgica, uma região onde, naturalmente, abundaavm preconceitos sobre os alemães, como, aliás, em toda da França da época.

Yves Congar escreve no dia 25 de Agosto de 1914 que os alemães são “os boches os canalhas os ladrões os assassinos os incendiários” (sem vírgulas, que a edição respeita a grafia original, incluindo nos erros, e reproduz os desenhos).

O teólogo viria mais tarde a viver na Alemanha. Neste país, o contacto com os luteranos seria muito importante para o futuro de teologia ecuménica, que, com Yves Congar, passa a ter como objectivo o alargamento da ideia de catolicidade (presente nas outras confissões), em vez de ser uma tentativa de fazer regressar os presumivelmente separados.

O livro é contextualizado por Stéphane Audoin-Rouzeau, um especialista na Grande Guerra, e comentado por Domenique Congar, sobrinho do teólogo, que pede aos numerosos amigos alemães do tio que compreendam o que está escrito.

O diário foi publicado em 1997, após a morte do teólogo.

22 de Junho de 1995. Morre Yves Congar

Yves Congar (08-04-1904 – 22-06-1995), dominicano francês, é um dos grandes teólogos do século XX. Pode não ser tão conhecido como Karl Barth ou Karl Ranher, mas talvez tenha sido mais influente no modo de ser da Igreja Católica, a começar pelo II Concílio do Vaticano. A teologia do laicado (os fiéis têm direitos e deveres, têm uma missão e um estatuto digno, contra uma teologia secular que dizia que só tinham a prender do clero), a eclesiologia de comunhão (igreja como grande assembleia à volta de Jesus Cristo e não como sociedade estruturada hierarquicamente) e o ecumenismo (diálogo e procura de união entre cristão) devem muito a este teólogo que, proibido diversas vezes antes do Concílio, foi elevado a cardeal em 1994.

Entre as muitas obras de Congar (uma aqui) destaco os seus três diários: “Journal de la Guerre (1914-1918)”, “Journal d'un théologien (1946-1956)”, “Mon Journal du Concile, I : (1960-1963) e II (1964-1966).

Se o segundo e o terceiro são importantes para a teologia, o primeiro é curiosíssimo para a cultura do séc. XX. Publicado postumamente, mostra como uma criança e adolescente (10-14 anos), com palavras e desenhos, viu a I Guerra Mundial.

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje”

Cristo é o nosso pão. Não podemos pedi-lo senão para agora. Porque ele está sempre aí, à porta da nossa alma, na qual quer entrar, mas não viola o consentimento. Se consentimos que ele entre, ele entra; assim que não o queremos mais, imediatamente se vai.

(...)

O pão é-nos necessário. Somos seres que retiram continuamente a sua energia do exterior, porque à medida que a recebemos esgotamo-la nos nossos esforços. Se a nossa energia não é quotidianamente renovada, ficamos sem forças e incapazes de movimento.

Simone Weil (1909-1943), excerto da explicação do Pai-Nosso, in “Espera de Deus”, Assírio & Alvim, pág. 219.

Ascese cega


A revolta é uma ascese, se bem que cega. Porque o revoltado blasfema na esperança de um novo Deus.

Albert Camus (1913-1960)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Paulo VI: O primeiro, como um Papa deve ser


Giovanni Montini, apesar de ainda não ser cardeal, teve votos no conclave de 1958, que elegeu João XXIII.
Paulo VI foi o primeiro pontífice a andar de avião. E foi o primeiro Papa a visitar Portugal. Fê-lo no dia 13 de Maio de 1967. (João XXIII esteve em Fátima, no dia 13 de Maio de 1956, mas nessa altura era apenas Patriarca de Veneza - se não veio de avião, não sei como veio.)
Foi o primeiro a visitar os cinco continentes. Foi o primeiro a encontrar-se com o Arcebispo de Cantuária, primaz da Igreja Anglicana, a quem deu o anel de arcebispo de Milão (aqui).
Foi o primeiro a encontrar-se – e a abraçar – os dirigentes máximos das Igrejas Ortodoxas.
Foi o primeiro a falar na ONU.
Pôs de lado a tiara.
Simplificou ritos, costumes, celebrações.
Foi o Papa da reforma da Igreja, da reconciliação da Igreja com o mundo contemporâneo. Ia à frente. Muitos vêem nele o maior Papa do século XX.

21 de Junho de 1963. É eleito o Papa Paulo VI

Paulo VI e Pelé em 1966

Paulo VI (Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, que nasceu no cia 26 de Setembro de 1897, em Concesio, e morreu no dia 6 de agosto de 1978, em Castelgandolfo) foi eleito Papa no dia 21 de Junho de 1963.

Deus está no cérebro?

No "Público" de sábado passado (18-06-2010):

"Chamem o Papa", diz João Pereira Coutinho


João Pereira Coutinho, no "Correio da Manhã" de sábado, 19 de Junho.

Deus biológico


Se Deus transparecesse nas estrutura dos seres, os biologistas teriam demasiadas vantagens sobre o comum dos mortais.

Jean Rostand (1894-1977)

domingo, 20 de junho de 2010

20 de Junho de 1966. Morre o padre que sugeriu o Big Bang

Georges-Henri Édouard Lemaître, padre católico e cientista, nasceu no dia 17 de Julho de 1894 e morreu no dia 20 de Junho de 1966, em Lovaina, Bélgica.

Lemaître propôs em 1927 a "hipótese da átomo primordial”, isto é, que o universo (a matéria, o espaço e o tempo) teria evoluído a partir de um “ovo cósmico”. A teoria seria desenvolvida por George Gamow e receberia de Fred Hoyle, aos microfones da BBC, com desdém, porque apoiava a ideia de um universo estacionário, o nome de Big Bang, que pegou.

Bento Domingues: Santos Populares

Saramago fazia teologia do protesto

Tolentino Mendonça e José Saramago

No sítio do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), da Igreja Católica, fala-se de Saramago. Uma nota do dia 18 de Junho, por “dever de cordialidade”, realça a aproximação do Nobel do texto bíblico e lamenta os “balizamentos ideológicos”.

“Como é público, o cristianismo e o texto bíblico interessaram muito ao autor como objecto para a sua livre recriação literária. Há uma exigência e beleza nessa aproximação que gostaríamos de sublinhar. O único lamento é que ela nem sempre fosse levada mais longe, e de forma mais desprendida de balizamentos ideológicos. Mas a vivacidade do debate que a sua importante obra instaura, em nada diminui o dever da cordialidade de um encontro cultural que, acreditamos, só pode ser gerado na abertura e na diferença”.

Numa entrevista à TSF, Tolentino Mendonça, padre e director do SNPC, partilha três notas que “mostram como um ser humano foge sempre às etiquetas”.

A primeira: “Na altura disse-lhe: «O Saramago, que faz estas afirmações incendiárias em relação à Bíblia, é contudo o mais bíblico dos autores contemporâneos, porque a sua escrita tem uma musicalidade, uma cadência e uma porosidade por onde a Bíblia entra». E ele sorriu.

A segunda: “Um outro momento interessante foi quando eu lhe recordei um texto de um amigo dele, um colunista do jornal «El Pais», que escreveu que Saramago não andava longe dos místicos. Saramago concordou e disse que aquele texto lhe tinha agradado muito. E de certa forma, o nada do ateísmo que Saramago proclamava como que se encontra numa viagem diversa…”

A terceira: “No fim ele mostrou-mo: era uma edição de Jordi Savall das «Últimas Sete Palavras de Cristo na Cruz», do compositor Joseph Haydn. Essa edição trazia um texto de um teólogo catalão e outro de Saramago.

E ele quis muito dizer que é chamado para escrever sobre Jesus, num texto que é de facto muito belo. E ele acaba por afirmar uma coisa que, a mim, que sou crente e teólogo, me interessa muito: para ele, Saramago, não era relevante a forma como Jesus ilumina a questão de Deus, porque para ele essa questão não se põe. Mas é muito importante a forma como a figura de Jesus ilumina a questão do homem, este enigma que nós somos. Ele achava que Jesus iluminava muito esse enigma”.

No final da entrevista, Tolentino Mendonça afirma: “Em José Saramago há muito do que eu chamaria uma espécie de teologia do protesto. Um homem que não aceita soluções fáceis para as grandes perguntas da existência. E que a tudo diz que não, protestativamente. Isso é uma coisa que nos faz bem a todos. Numa cultura muito conformista e de assentimentos fáceis, perceber o seu “não”, mesmo discordando dele e percebendo as limitações de algumas das suas declarações e do seu pensamento. Penso que esse ar de profeta que ele carregava é muito importante porque a cultura e um criador têm também uma responsabilidade civil que é de lançar esse inconformismo, de lançar a pergunta. Nesse sentido, a pessoa de José Saramago cumpria muito bem essa imagem”.


Nota do SNPC

Entrevista de Tolentino Mendonça

O bilhete de Emily Dickinson


Nunca eu falei com Deus
Ou visitei o Paraíso
Contudo, eu estou seguro disso
Como se tivesse o meu bilhete.

Emily Dickinson (1830-1886)

sábado, 19 de junho de 2010

Sobre o argumento da aposta

Na Internet pululam variantes e simplificações do "argumento da aposta", de Pascal, que nasceu num dia 19 de Junho. No geral, concentram-se na existência / não existência de Deus, embora o argumento diga mais do que isso. É tanto para a vida actual como para a vida depois desta vida. Eis uma das simplificações:

Deus ou existe ou não existe. Temos que fazer uma aposta:
Se aposto por ele e ele existir: lucro máximo.
Se aposto por ele e ele não existir: nenhuma perda.
Se aposto conta ele e ele existir: perda máxima.
Se aposto contra ele e ele não existir: nem perda, nem lucro.

Ainda mais do que apresentações do argumento há tentativas de refutação. Em resumo, diz-se que é um argumento utilitarista, que infunde a hipocrisia, que depois da aposta restam mil religiões para seguir e que só uma ou nenhuma poderá estar certa, que, se existir, Deus compreenderá a aposta no não e, entretanto, ganhou-se uma vida...

William James (1842-1910) disse que se estivesse na posição de Deus, teria grande prazer em impedir a entrada no Céu às pessoas que acreditassem nele com base neste processo pouco sincero e algo egoísta – o que vem na linha de um pensamento de Santo Agostinho, segundo o qual quem acredita em Deus com medo do inferno é cobarde.

Também do lado da teologia católica há quem o recuse, argumentando que esse Deus da aposta não pode ser o Deus pessoal da Revelação cristã.

Acontece que o argumento de Pascal é apenas um início. É, como explica o próprio autor, para quem tem dúvidas (o “Pensamento” 233 é bem extenso; pode ser lido aqui, em inglês). É um pontapé de saída. Na realidade, a fé é sempre uma aposta. Mesmo a fé mais convicta do mundo será sempre fé, terá sempre algo de obscuro (não de irracional), de difícil, e não sei se de dúvida (embora dissesse John Henry Newman que “mil dificuldades não fazem um dúvida”).

Quanto a mim, é um argumento interessante, porque a fé exige a coragem do risco ao longo da vida. Isso está bem patente no argumento. Pascal sustenta que vale a pena o risco. No limite, a aposta da fé significa: não sei se existe ou não, mas creio que sim e aposto-me nisso.

19 de Junho de 1623. Nasce Pascal

Blaise Pascal nasceu no dia 19 de Junho de 1623, em Clermont-Ferrand, e morreu no dia 19 de Agosto de 1662, em Paris.

Pode ser lembrado pelos contributos dados às ciências (geometria, teoria das probabilidades, cálculo infinitesimal, hidostrática, mecânica, etc.), muito maior do que os do seu “inimigo” racionalista Descartes, com quem se terá cruzado uma única vez.

Destaco aqui, porém, o seu “argumento da aposta”. Não é um argumento sobre a existência de Deus, mas sobre a sensatez humana de acreditar em Deus.

O argumento diz isto:

“Sim, é necessário arriscar; isto não é, de modo nenhum, facultativo. Que poderá acontecer de mal? Serás fiel, honesto, humilde, agradecido, bom amigo, sincero, verdadeiro… Digo-te que ganharás nesta vida; e que, a cada passo que deres por este caminho, verás tanta certeza de ganhar e tão pouco valor naquilo que arriscas que, no fim, reconhecerás que arriscaste por uma coisa certa, pela qual não desta nada” (Pensamentos, 233).

Saramago: Decidiu viver ilhado

Texto de Pedro José, Chapadinha (Brasil), 18-06-2010. Retirado daqui.

José Saramago (1992-2010), aos 87 anos, morreu um justo: provocador laico, profeta ateu

Como soube da noticia da morte do José Saramago. Lendo on-line, curioso Saramago já estava on-line também: “Morreu Saramago. Agora já sabe que existe Aquilo que negou. Se não existir, não sabe nem deixa de saber.” Estava escrito no blog do meu amigo, companheiro de estudos teológicos.
Num tempo em que acreditava piamente na investigação da ciência teológica, quando em 1991, lançou o seu Cristo excessivamente humanizado no “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, - o evangelho do Saramago -, eu estudava em Coimbra, e fui com dois companheiros, em número de dois a memória vai falhando, à sessão pública de apresentação do romance, envolvido em polemica gratuita. Não fiz perguntas. O meu colega fez uma pergunta de dimensão teológica, sobre a questão dos gêneros literários, e a ignorância religiosa de Saramago me impressionou sobremaneira. Pensei comigo um gênio perdido no seu narcisismo. Recolhi o seu autografo no romance que li e depois que o li com muita sofreguidão... vendi-o a outro colega de estudos. Hoje estou quase arrependido já comprei outra edição de bolso, na Editora Companhia de Letras, para talvez reler na minha futura “dispensa laboral”.

Além dessa primeira leitura traumática, li todas as suas entrevistas que achei na imprensa. Li também “Todos os Nomes” e mais uma obra que não lembro agora. Ao todo três obras completas... que segundo os críticos nem serão futuramente as mais importantes. Espero um dia poder ler os seus Ensaios (Cegueira e Lucidez). Coisas de leitor endividado. Nessa qualidade gostava do Saramago, na sua eterna dívida para com o Transcendente e pela ausência exagerada da pontuação explícita (implicitamente havia sempre pistas e indicativos senão seria o caos hermenêutico...), talvez aí encontra uma pequena empatia pela dificuldade imensa que tenho ao pontuar os textos que vou tentando escrever.

Era um provocador nato. Sabia tirar partido disso como ninguém. Por essa razão só me consola a eterna provocação mútua: nunca mereceu o prêmio Nobel... foi uma fuga de (in)formação da academia sueca. Lamentável, pelo menos, por uma questão de justiça, existiam três nomes na sua frente: Miguel Torga, Sofia de Mello Breyner ou Agustina Bessa-Luís.

Como mau aprendiz de “teólogo no fio da navalha”, demonstrou ser uma aberração completa, as entrevistas sobre a obra Caim foram gritantes. A sua e nossa inteligência não mereciam tanto. Falta da mais elementar sensibilidade. Seu ateísmo, supostamente radical, não ajuda os bons ateus..., quanto mais os maus crentes. Afirmam escrevia bem. Em termos de imaginação literária, sim. Nisso sua criatividade era exemplar... Era quase um gênio! Embora existisse sempre excessivo marketing, à volta do lançamento das obras e aparições em público. O seu profetismo era o do ateu convicto e vai-nos fazer alguma falta dialógica, embora ele só dialogasse com o seu próprio umbigo.

Nunca o vi crescer em pensamento e abertura religiosa. Um disperdício notável. Tinha os seus inimigos de culto, sempre escoltando pelos seus acólitos, fiéis servidores e propagandistas dos seus dogmas inquestionáveis. O seu telhado não era de vidro, o do próximo era! Deveria ser enterrado em Lanzarote pois decidiu viver ilhado..., como ilhado deveria ser sepultado, em coerência absoluta até ao fim.

Releio as suas justas palavras: "... a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça.Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinônimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em ação, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste" (José Saramago).

Perdi um inimigo virtual. Vou rezar respeitosamente por ele na missa de hoje, só pela sua dimensão corporal, a mente e o espírito dele não precisam!? Seja cumprida a justiça do corpo. Morreu um justo incompreendido por si mesmo!

Anselmo Borges: O declínio da Europa

Anselmo Borges e a crise da Europa, no DN de hoje. Um texto que mais uma vez relaciona secularismo e decadência. "Com a morte de Deus, criou-se um vazio. Os europeus instalaram-se no ter e no prazer. Sem Deus, onde está o sentido que dá unidade? Não se pode esquecer o que já Nietzsche anteviu".


Não faz falta o pessimismo para sentir perplexidade e desalento face ao futuro da Europa. Jorge Semprún, por exemplo, esse grande espírito europeu, não sabe se o euro vai desaparecer, mas diz que é possível que desapareçam várias aquisições e teme o pior, pois precisamente "o pior é possível, incluindo a desarticulação europeia". E proclama: depois do esgotamento da luta contra o passado nazi e fascista, de um lado, e contra o totalitarismo estalinista, do outro, "a Europa precisa de um novo motor ideológico e moral".


Donde vem a crise? Já em 1918, Oswald Spengler escreveu a obra polemicamente célebre: A decadência do Ocidente. De modo agudo, o eminente filósofo Edmund Husserl pronunciou, em Maio de 1935, em Viena, uma conferência famosa, subordinada ao tema A crise da humanidade europeia e a filosofia. A crise, segundo ele, deriva do positivismo, portanto, da redução das ciências ao puro conhecimento dos factos, esquecendo a subjectividade. Esta crise das ciências exprime a crise ético-política, dos valores e do sentido. A ciência positivista nada tem para dizer-nos: "As questões que ela exclui por princípio são precisamente as questões mais escaldantes na nossa época desgraçada para uma humanidade abandonada aos sobressaltos do destino: são as questões que dizem respeito ao sentido ou ausência de sentido de toda esta existência humana."


Claro que a nossa crise europeia tem a ver com a crise económico-financeira mundial, com a chegada ao palco da história dos países emergentes, como a China, a Índia, a Rússia, o Brasil, a África do Sul, com problemas globais que só poderão encontrar solução no quadro de uma governança global. Mas o que tem feito a União Europeia para se tornar uma real União, com um projecto sólido económico-político, e não simples consórcio de negócios? Sobretudo, onde está a alma da Europa e os valores capazes de a cimentarem?


Como escreveu Theodor Dal- rymple, em Março passado, em The American Conservative, "num certo sentido, a Europa nunca esteve tão bem. Os progressos em termos de saúde e de riqueza foram prodigiosos. Apesar destes êxitos, há como que uma atmosfera de declínio. Os europeus, que nunca foram tão prósperos, olham para o futuro com temor, como se tivessem uma doença oculta que ainda se não tivesse manifestado mas devorasse já os seus órgãos vitais. Deus morreu na Europa e a sua ressurreição é pouco provável, excepto talvez na sequência de uma catástrofe. No entanto, nem tudo foi perdido na atitude religiosa. Cada indivíduo vê-se sempre como um ser único na sua importância, mas já não tem esse contrapeso da humildade própria de quem se sente um dever para com o seu Criador. Acima de tudo, a maior parte dos europeus já não crê num grande projecto político. Este miserabilismo leva a uma mistura de indiferença e de ódio face ao passado." E, depois de se interrogar sobre se os americanos terão algo a aprender com tudo isto, o autor conclui: "Uma sociedade moderna sã deve saber tanto manter-se como mudar, tanto conservar como reformar. A Europa mudou sem saber conservar: essa é a sua tragédia".


Com a morte de Deus, criou-se um vazio. Os europeus instalaram-se no ter e no prazer. Sem Deus, onde está o sentido que dá unidade? Não se pode esquecer o que já Nietzsche anteviu. O louco, em A Gaia Ciência, proclama "a grandiosidade do acto" de matar Deus, mas também pergunta: "Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?" E Nietzsche, ele mesmo, sete anos antes de se afundar na noite da loucura, escreveu a Ida, mulher do seu amigo Overbeck, advertindo-a para que não abandonasse a ideia de Deus: "Eu abandonei-a, quero criar algo de novo, e não posso nem quero voltar atrás. Desmorono-me continuamente, mas não me importa". Sem Deus nem eternidade, na ditadura do presentismo consumista, hedonista, individualista, apenas restam instantes que se devoram na voragem do efémero.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

18 de Junho de 1155. Frederico Barba Ruiva é coroado rei de Itália

O Para Adriano IV coroou Frederico Barba Ruiva (ou Barba Roxa) rei de Itália no dia 18 de Junho de 1155, em Pavia. Frederico já era nessa altura imperador do Sacro Império Romano-Germânico.

Apesar de Frederico ter ido para Itália a convite do Papa, que se queria ver livre de Arnaldo de Bréscia, vai a partir daí desafiar constantemente o poder papal.

Fé e pontapés na bola

No i de hoje (18-06-2010). A relação entre a fé, superstição e futebol faz-me sempre lembrar a final de 1994, decidida a penáltis, entre o Brasil e Itália. Os últimos remates couberam ao católico Romário (Brasil) e ao budista Baggio (Itália). Baggio falhou. Há dias o italiano disse que deve ter sido o Ayrton Senna a puxar a bola porque nunca tinha num penálti tinha rematado por cima da barra (aqui).


Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...