domingo, 9 de maio de 2010

9 de Maio de 1978. Aldo Moro é assassinado

Primeiro-ministro de Itália, católico convicto, líder da democracia cristã, amigo de Paulo VI, Aldo Moro (1916-1978) foi assassinado pelas Brigadas Vermelhas no dia 9 de Maio de 1978, após 55 dias de sequestro.

Foi encontrado na mala de uma Renault 4, na Via Caetani, entre a sede da Democracia Cristã (o seu partido) e a do Partido Comunista Italiano. Aldo Moro defendia que o PCI poderia entrar num governo liderado pela Democracia Cristã.

sábado, 8 de maio de 2010

Tolerância de ponto e falta de fé no Bartoon

"Bartoon", de Luís Afonso, no Público de 1 ("tolerância de ponto") e 5 de Maio de 2010 ("falta de fé").


Questões que não cabem debaixo do tapete

A vida: que sentido?
Roland Minnerath
Gráfica de Coimbra 2
168 páginas

“Porque haveríamos de mandar sempre para debaixo do tapete as questões essenciais da existência? Não temos nós dois mil anos de história a darem-nos respostas amadurecidas e ajustadas?”

Estas questões surgem quase no fim de “A vida: que sentido?”, mas estão implícitas em todo este livro. Na verdade, “as questões acerca do sentido da vida, que tentemos a esconder dentro de nós e a deixar sem resposta, perseguem-nos, quer queiramos quer não. São a expressão autêntica do nosso ser (…)”.

Resultado de uma série de conferências em 2006, na catedral de Dijon, onde o autor é arcebispo, este livro faz um percurso de perguntas e respostas da origem (“Criou Deus o mundo?”, pág. 9) à meta (“Terá a história um sentido”, pág. 125). As respostas são sempre tecidas com vários fios – Bíblia, Teologia, História, Ciência –, o que faz deste livro um bom exemplo do diálogo fé/cultura.

Arcebispo de Dijon desde Março de 2004, D. Roland Minnerath é membro da Academia Pontifícia das Ciências Sociais e da Comissão Teológica internacional. Em português, também na Gráfica de Coimbra 2, publicou “Para uma ética social universal”.

8 de Maio de 1903. Morre Paul Gaugin

"O Filho de Deus nascido", 1896

"O Cristo Amarelo", 1889

Auto-retrato, 1889-1890

Paul Gauguin nasceu em Paris, no dia 7 de Junho de 1848, e morreu nas Ilhas Marquesas (Polinésia Francesa, Pacífico Sul), a 8 de Maio de 1903. Foi educado no Peru, para onde a família fugira de Napoleão III, foi apostador na Bolsa de Paris, viveu em Copenhaga (terra da mulher), no sul de França (onde privou com Van Gogh - uma discussão entre os dois levou a que o holandês cortasse a orelha), no Taiti (Polinésia), regressou a Paris e voltou definitivamente para as ilhas do Pacífico Sul. Será, provavelmente, o artista plástico mais viajado.

Pós-impressionista, defendia o retorno ao princípio, a arte primitivista.

O Papa no "Público" e no "Diário de Notícias"

O "Público" e o "Diário de Notícias", bem como muitos outros jornais e revistas, têm dedicado várias páginas a Bento XVI e à sua visita a Portugal.

O "Público" criou um espaço especial no seu sítio, aqui.

O DN, sem espaço especial, dedica o "DN Gente" deste sábado a Bento XVI. On-line aqui.

Jesus: de direita ou de esquerda? - Pergunta Anselmo Borges

“A pergunta decisiva não é então se Jesus é de direita ou de esquerda, mas quantos católicos tentam ser cristãos”. Anselmo Borges no DN de hoje (08-05-2010).

Determinamos o espaço a partir da nossa posição corporal: lá em cima, lá em baixo, atrás, à frente, à esquerda, à direita.

Porque a maior parte das pessoas tem mais maleabilidade e força na mão direita, a parte direita ficou privilegiada. Deve-se entrar com o pé direito, dá-se a direita à pessoa mais importante, Cristo está sentado à direita de Deus... Justo deve ser o Direito. Antes dos avanços da neurologia, a situação dos esquerdinos não foi feliz. De alguém radicalmente maléfico, diz--se que é uma pessoa sinistra (do latim: mão esquerda). As seguradoras devem tratar dos sinistros.

Em termos escandalosamente genéricos, diria que, em política, a direita andava ligada aos valores ditos tradicionais, como a família, por exemplo, à ordem e ao capitalismo e a esquerda, a valores que se diziam de esquerda, como mais justiça, por exemplo, à revolução e ao socialismo. Hoje, quando impera a lógica aparentemente triunfante do capitalismo neoliberal e do pensamento único e se julga que a história chegou ao fim, sem lugar para mais revoluções, as fronteiras estão muito esbatidas.

E Jesus?

Logo à partida, dão que pensar as razões que o levaram à morte. Morreu como blasfemo, condenado pela classe sacerdotal, e como socialmente perigoso. Foram os interesses de Jerusalém e de Roma em coligação que o crucificaram.

Era um judeu piedoso, mandou rezar e rezava intensamente, em meditação, a Deus seu Pai, mas escalpelizou de modo virulento a beatice hipócrita. "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, sepulcros caiados", etc.

No Reino de Deus, centro da sua mensagem, estavam todos incluídos, mesmo aqueles que a sociedade e a religião excluíam, o que constituiu o mais fundo escândalo. Foi a uma samaritana, mulher, estrangeira, herética, a caminho do sexto marido, que se revelou como Messias, e vários episódios mostram como as mulheres, ao contrário da doutrina oficial, também tinham lugar privilegiado como discípulas. Contra o mau exemplo do sacerdote e do levita, foi também um samaritano que, na parábola, foi próximo do desgraçado que, depois de espancado pelos salteadores, tinha ficado semimorto no caminho.

Por causa da sua abertura ao novo, as crianças, que então não tinham significado social, foram apresentadas como modelo da entrada no Reino de Deus. E ai de quem as escandalizasse: "Mais valia atá-lo à mó de um moinho e lançá-lo ao mar". Logo ao nascer, o primeiro anúncio foi para os mais pobres entre os pobres: os pastores. E veio para Israel e para todos os outros: tal é o sentido da história dos reis magos. A quem se escandalizava por comer com os pecadores públicos lembrou o dito do profeta: "Ide aprender: eu não quero sacrifícios, mas misericórdia".

Mas, neste novo Reino, não vale tudo. Sobre Zaqueu, um desses pecadores, não se diz que tenha mudado de profissão, mas arrependeu-se e disse: "Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e a quem roubei vou restituir quatro vezes mais". Declarou mal-aventurados os ricos sem ponta de misericórdia. Lá está a parábola do rico avarento e do pobre Lázaro, que nem às migalhas da mesa tinha direito. O Reino é-o da graça, da misericórdia, mas não pertence ao facilitismo. O perdão requer arrependimento: "Vai em paz, não voltes a pecar", dizia ao pecador/a, e é preciso estar vigilante e pôr os talentos a render.

No fim, o que estará em julgamento é a justiça e o amor: "Destes-me de comer, de beber, de vestir, fostes visitar-me à cadeia e ao hospital." "Sempre que o fizestes a um qualquer foi a mim que o fizestes".

O que é mais: para tratar de seres humanos em dificuldade, transgrediu a lei sagrada do Sábado. "O Sábado é para o homem, não o homem para o Sábado." Afinal, toda a lei, mesmo a lei de Deus, fica subordinada ao bem do homem. No limite, agora, só o homem e a sua dignidade são sagrados.

Neste enquadramento, a pergunta decisiva não é então se Jesus é de direita ou de esquerda, mas quantos católicos tentam ser cristãos.

(Fim)

Nota: Em Dezembro de 2009, a revista "Visão" perguntou a várias pessoas se Jesus é de direita ou de esquerda. Ver resumo aqui.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Encontro das pessoas da cultura com o Papa

Têm sido escritas tantas páginas de jornal sobre a visita de Bento XVI que é difícil passar os olhos pelas principais peças, quando mais lê-las com olhar de ler.

Há muitas páginas inúteis, pelo menos de um certo ponto de vista. Provavelmente, interessará a alguns que os clubes lisboetas queiram entregar camisolas ao Papa. Mas para o que um Papa significa para os católicos, esse folclore é dispensável. Contudo, o Papa vai regressar de malas bem cheias para o Vaticano. Além dos clubes de futebol, oferecem prendas ao pontífice os homens de cultura, as três dioceses que visita, a família real, o primeiro-ministro, o presidente da República, a Conferência Episcopal Portuguesa. Sei lá quem mais.

Mas também há páginas interessantes. Estas duas, sobre o momento mais interessante da visita, quanto a mim, são do DN de hoje (07-05-2010).


Sete pecados capitais dos Papas

No i de hoje, sete Papas especialmente pecadores. Texto baseado num livro de Juan María Laboa Gallego, aqui entrevistado.

Apesar dos pecados todos, temos de estar preparados para encontrar no céu quem não esperaríamos e não encontrar quem parecia ter o lugar garantido. Julgo que foi Teresa de Ávila que deixou este aviso. Também aqui se aplica a frase do defesa do Porto: "Prognósticos, só no final do jogo".


Religião e política, Câncio e Policarpo

Fernanda Câncio escreve na página 9 do DN. No mesmo jornal, umas páginas à frente, na 25, D. José Policarpo diz que é bom que a religião esteja separada da política.

Jesus sem agenda para o Papa

No "Inimigo Público" (suplemento satírico do "Público") de hoje (07-05-2010).

7 de Maio de 1861. Nasce Rabindranath Tagore

Rabindranath Tagore nasceu em Calcutá, no dia 7 de Maio de 1861, e morreu em Santiniketan, no dia 7 de Agosto de 1941. Poeta e escritor bengalí, integrou o movimento Brahmo Samaj, que aliava cristianismo e hinduísmo. Foi Prémio Nobel da Literatura em 1913, o primeiro asiático a receber o prémio.

Um poema de Tagore:

Dia após dia, ó senhor da minha vida,
estarei diante de ti face a face?

De mãos postas, ó senhor de todos os mundos,
estarei diante de ti face a face?

Sob o teu grande firmamento,
em solidão e silêncio, humilde de coração,
estarei diante de ti face a face?

Neste teu mundo laborioso,
tumultuado por lutas e lidas,
entre multidões que se atropelam,
estarei diante de ti face a face?

E quando a minha missão terminar
neste mundo, ó Rei dos reis,
mudo e solitário,
estarei diante de ti face a face?

Outro, aqui.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ecos de humor entre judeus e jesuítas

Nos célebres diálogos entre Umberto Eco e o Cardeal Martini, depois mimetizados por D. José Policarpo e Eduardo Prado Coelho, a certa altura o autor de “O Nome da Rosa” alude àquele dito segundo o qual um jesuíta responde sempre a uma pergunta com outra, deixando o antigo cardeal, arcebispo de Milão, com algum desconforto.

Na realidade, existe a anedota, que é mais ou menos assim:

Perguntam ao jesuíta:
- Por que é que os jesuítas respondem sempre a uma pergunta com outra pergunta?
Responde o jesuíta:
- E porque não?

Outras versões para a resposta do jesuíta:
- Quem te disse isso?

- Por que é que queres saber?

- Pode-se responder de outra forma?

Ora, hoje li que responder a uma pergunta com outra também é tido como típico dos judeus. Às tantas é típico de todos aqueles de quem se contam anedotas, sejam alentejanos, galegos, belgas ou portugueses.

6 de Maio de 1862. Morre Henry David Thoreau

Henry David Thoreau morreu no dia 6 de Maio de 1862, aos 44 anos. Foi poeta, naturalista, amante da solidão, activista anti-impostos, abolicionista, detestava o progresso, filósofo, algo anarca, ambientalista “avant lettre”, amava a vida nos bosques. Era descendente de emigrantes franceses calvinistas (huguenotes). A sua avó materna liderada a primeira revolta estudantil que se conhece nos EUA. Tolstoi, Gandhi e Luther King leram o seu ensaio “Desobediência Civil”.

Ser e parecer

Na rua, o povo já canonizou João Paulo II (“era um santo!” - ouvi ontem) e não liga muito a Bento XVI (“é um falso”, “sabia e não disse nada” - ouvi ontem de pessoas diferentes). Saramago é mais ou menos como o povo. Recorte do jornal "Destak" em cima e da revista "Sábado" em baixo.

Na "Sábado" desta quinta, um suplemento sobre Portugal e os papas

Nikolas Kristof: Quem pode troçar desta Igreja?

Como diria um colega de estudos, "concordo totalmente em parte e em parte totalmente".

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A história do palhaço em Kierkegaard

Um leitor (Nuno Lima, a quem agradeço), comentando aqui, disse onde podemos encontrar a história do palhaço de Kierkegaard. Está em “Either/Or” (“Ou isso, Ou aquilo”; no original, “Enten / Eller”, a primeira obra do filósofo dinamarquês), que pode ser consultada aqui (ver página 30 do livro ou sete das que estão disponíveis). Traduzo com alguma liberdade:

Deflagrou um incêndio nos bastidores de um teatro. O palhaço foi dizer aos espectadores. Pensavam que era uma piada e aplaudiram. O palhaço repetiu que havia um incêndio e eles riram-se ainda mais. É desta forma, penso eu, que o mundo será destruído – entre a universal hilaridade de avisos e acenos que são tomados com uma piada.

É mesmo preciso?

No Destak de hoje (05-05-2010)

Manuel Pinto: Os media e a visita papal

Artigo do Página 1, jornal da RR no formato PDF.

Kierkegaard, Ratzinger e os palhaços


Não sei com que intenção Kierkegaard conta a história do "post" anterior. Mas Cox conta-a para falar dos teólogos "dos nossos dias". São pessoas que, “com roupas da Idade Média”, não são levadas a sério.
E Joseph Ratzinger faz um “exame de consciência” “ainda mais radical”. Diz que nem o teólogo (palhaço) sabe tudo, nem os homens que vivem à margem da fé (aldeões) são completamente ignorantes, e não bastaria “trocar de roupa e retirar a maquilhagem para que tudo ficasse em ordem”.
A história tem imensas aplicações. Chego a pensar que Bento XVI é hoje o palhaço. Diz e escreve coisas importantes, mas aqueles a quem se dirige só vêem as ofertas que lhe vão dar, a cadeira em que se vai sentar, as vinhas que vai sobrevoar. Estou a pensar na viagem que vai fazer a Portugal.
E tem outra aplicação, ainda mais trágica, à Igreja. Poucos a ouvem, por muito que fale e diga coisas importantes. Mas agora já não são as vestes de palhaço que traz vestidas. São outras com muito menos piada.

5 de Maio de 1813. Nasce Kierkegaard

Nasce em Copenhaga, no dia 5 de Maio de 1813, o filósofo e teólogo Soren Kierkegaard. O pai do existencialismo morreria no dia 11 de Novembro de 1855.

Joseph Ratzinger, na obra “Introdução ao Cristianismo” (Princípia), resume uma história contada por Harvey Cox em “A Cidade do Homem” (edição brasileira; a portuguesa é “A Cidade Secular”), que este havia tomado de Kierkegaard.

A história é, portanto, de Kierkegaard. Mas cito-a na versão de Joseph Ratzinger, a única de que disponho.

“Certa vez, houve um incêndio num circo ambulante na Dinamarca. O director mandou imediatamente o palhaço, que já se encontrava vestido e maquilhado a preceito, para a vila mais próxima, à procura de ajuda, advertindo-o de que existia o perigo de o fogo se espalhar pelos campos ceifados e ressequidos, um risco iminente para as casas do próprio povoado. O palhaço correu até à vila e pediu aos moradores que viessem ajudar a apagar o incêndio que estava a destruir o circo. Mas os habitantes viram nos gritos do palhaço apenas um belo truque de publicidade que visaria levá-los a acorrer em grande número às sessões do circo; aplaudiam e desatavam a rir. Diante dessa reacção, o palhaço sentiu mais vontade de chorar do que de rir. Fez de tudo para convencer as pessoas de que não estava a representar, de que não se tratava de um truque e sim de um apelo da maior seriedade: estava realmente em causa um incêndio. Mas a sua insistência só fazia aumentar os risos; eles achavam que a performance estava excelente – até que o fogo alcançou de facto aquela vila. Aí já foi tarde, e o fogo acabou por destruir não só o circo, mas também a povoação” (pág. 27-28).

Hitchens, Pitágoras e a astrologia

"Pitágoras refutou a astrologia limitando-se a afirmar que gémeos idênticos não têm o mesmo futuro, sei também que o Zodíaco foi esboçado muito antes de vários planetas do nosso sistema solar terem sido detectados, e claro que compreendo que não posso «ver» o meu futuro imediato ou a longo prazo sem que esta revelação altere o resultado. Milhares de pessoas consultam as suas «estrelas» nos jornais todos os dias e depois têm ataques cardíacos ou acidentes de viação imprevistos. (Um astrólogo de um jornal sensacionalista londrino foi em tempos despedido através de uma carta do editor que começava, «Como terá sem dúvida previsto»)".

Christopher Hitchens


Tenho andado a ler “deus não é Grande. Como a religião envenena tudo” (Dom Quixote), de Christopher Hitchens. Embora o seu estilo panfletário canse, apesar de bastante informativo, de vez em quando dou com parágrafos que subscrevo totalmente (coincidência ou influência, o argumento de Pitágoras é retomado por Santo Agostinho, ver aqui). Como o acima citado, retirado da página 94 do seu livro.

No combate às superstições, sem dúvida que os crentes devem estar ao lado dos ateus. Por outro lado, mesmo quando o alvo é a religião revelada, o ateísmo crítico (porque também o há ingénuo) terá sempre uma componente purgativa que dá muito jeito às religiões que levam a sério a razão – como é o caso do cristianismo católico.

terça-feira, 4 de maio de 2010

4 de Maio de 1415. John Wycliffe e Jan Huss são considerados heréticos

Ossos de John Wycliffe queimados e cinzas atiradas ao rio

O Concílio de Constança (no sul da Alemanha), entre 1414 e 1418, teve como finalidade acabar com o cisma papal (chegou a haver três papas – só um deles podia ser o legítimo). Predominaram as teses conciliaristas, mais tarde abandonadas, segundo as quais, os bispos reunidos em concílio mandam mais do que o Papa. Seria eleito Martinho V, em 1417, enquanto os outros, em resumo, abdicam.

Neste concílio, no dia 4 de Maio de 1415, são condenados John Wycliffe (1320-1384), que já havia morrido, e Jan Huss (1369-1415), que morreria na fogueira, em Constança, no dia 6 de Julho seguinte, por causa das suas ideias heréticas sobre a Eucaristia.

Jan Huss era professor na Universidade de Praga.

John Wycliffe era professor em Oxford, tinha traduzido partes da Bíblia para inglês, atacara o papado e as ordens monásticas e criara grupos que se dedicavam à pregação do Evangelho, os lolardos.

Como Wycliffe morreu muito antes da condenação de Constança, os seus ossos foram exumados e cremados sob ordens de Martinho V, em 1428. As cinzas foram atiradas ao rio Swift.

Vamos ter um Papa português em 3010

Entrevista na última página do DN de hoje (4 de Maio de 2010) a Juan María Laboa Gallego, doutor em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma.

Laboa Gallego foi professor durante décadas nas universidades Complutense e de Comillas (Madrid). É director da revista “XX Siglos de Historia de la Iglesia” e autor de vários livros relacionados com a História da Igreja.

B16 ou CR9? A comparação que faltava

No i de sábado passado, a peça jornalística que faltava. "Papa ou Ronaldo?", o tira-teimas da celebridade. Agora já ninguém tem desculpas para não compreender Bento XVI.
Há dias pensava eu que o "Inimigo Público" ia gozar com a segurança do Papa em Fátima. Não o fez, mas um leitor deste blogue encarregou-se de preencher a lacuna (ver comentário aqui). No dia 1 de Maio, o i deu um passo em frente na compreensão do mundo em que vivemos. Ambos são famosos, ricos ("cada um à sua maneira", ressalva o jornal) e célebres. Sete páginas de monumento à frivolidade.







O argumento do mal

Deus existe precisamente porque o mal e o sofrimento existem no mundo. A existência do mal é uma prova da existência de Deus. Se o mundo consistisse unicamente no bom e no bem, então Deus não seria mais útil, o mundo seria Deus. Deus existe, porque o mal existe.

Nikolay Berdyaev (1874-1948)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Idolatria

- Sabes que a minha mulher quer divorciar-se de mim por questões religiosas?
- Como assim?
- Ela idolatra o dinheiro e eu não o tenho.

Comentário: Provavelmente há mais homens a adorar o dinheiro do que mulheres. Mas a anedota não tem piada se invertermos os termos. O humor é machista?

Carta aberta de Hans Kung

Carta de Hans Kung aos bispos católicos, no P2 ("Público") de 24 de Abril de 2010, referida no texto de Bento Domingues de ontem.



Os negócios nada santos do banco do Vaticano

Artigo do "Expresso" de sábado passado (30 de Abril). É impossível discordar com a primeira frase do texto. Penso eu.

A única utilidade de Deus

E. M. Cioran (1911-1995) é sem dúvida um dos ateus mais estimulantes. Disse e dá que pensar, mesmo com alguns descontos:

“A única utilidade de Deus é que Ele permite romper com os homens sem cair no narcisismo, no delírio, no desgosto, nos vícios de Mim. Fica-se normal, com a alusão de um apoio objectivo. E, acima de tudo, crer em Deus dispensa-nos de crer num qualquer outro: é uma vantagem inapreciável”.

3 de Maio de 1491. O rei do Congo é baptizado por missionários portugueses

Levantamento de um Padrão da foz do Zaire por Diogo Cão. Painel de Sousa Lopes no Salão Nobre da Assembleia da República

No dia 3 de Maio de 1491, missionários portugueses baptizam o rei Nzinga Ntinu, que assume o nome de D. João I. Em Portugal governava D. João II. Digo Cão havia chegado à foz do Zaire em 1482.

O rei congolês fez baptizar o filho Mbemba a Nzinga, que tomou o nome de Afonso, e durante vários anos apoiou a difusão do cristianismo. No entanto, a pouco e pouco regressou ao paganismo. Afonso, ao contrário de um seu irmão que nunca se baptizou, permaneceu fiel à religião dos europeus.

Em 1798, Fr. Raimundo de Dicomano, missionário franciscano capuchinho, italiano, escreveu, num relatório dirigido a Miguel António de Melo, Governador, e Capitão-Mor do Reino de Angola:

“Contam os historiadores que em tempos antigos floresceu no Congo a Religião Católica. Sua Majestade Fidelíssima, o Rei D. João II de Portugal, de feliz memória, foi o primeiro que a introduziu naquele vasto Reino, enviando, no ano de 1492, Missionários da Europa, que, chegados ao Rio Zaire, desembarcaram no Principado do Soio, e dali passaram para o Congo. Afonso, filho de D. João, o primeiro Rei do Congo que recebeu o Baptismo, deu muitíssimas provas do seu grande zelo e amor pela Religião, e pela propagação do Evangelho de Jesus Cristo. Logo que recebeu o Baptismo, e foi instruído nas verdades da Religião, mandou destruir os ídolos, exilou os Bruxos e os Feiticeiros, e proibiu todas as superstições, e chegou tão longe o seu zelo, que enterrou viva sua Mãe por esta não querer abandonar a idolatria.

Ele próprio andava a instruir os seus povos nas verdades mais importantes da Religião Cristã, e ajudou de tal modo os Missionários, que em pouco tempo aquele grande Reino se tornou Cristão; mas hoje em dia, as coisas mudaram totalmente de figura, porque a Religião, que agora se encontra pelo Congo, não é senão pura aparência, e apenas se vê um ou outro vestígio de Cristianismo e de Religião".

domingo, 2 de maio de 2010

Meio judeu

Groucho Marx tinha um filho da sua mulher, que não era judia. O filho não foi admitido num clube muito chique da região. Groucho enviou-lhes um telegrama: “Uma vez que o meu filho é só meio judeu, será que ele não poderia entrar na vossa piscina só ate à cintura?”

Ficar ou sair da Igreja? Artigo de Timothy Radcliffe

Bento Domingues refere na sua crónica um texto de Timothy Radcliffe que foi publicado na revista inglesa “The Tablet” (10-04-2010). Pode ser lido em inglês aqui. Apresento uma versão em português traduzida (para português do Brasil) por Moisés Sbardelotto (daqui) e retocada por mim. O dominicano português refere-se também ao texto de Hans Kung, aqui apontado, mas que já não se encontra on-line livremente. Penso que amanhã poderei colocar neste blogue a versão integral do texto (aqui).


Ficar ou sair da Igreja?

As novas revelações de abusos sexuais por padres na Alemanha e na Itália provocaram uma onda de raiva e de desgosto. Recebi e-mails de pessoas de toda a Europa a perguntar como ainda podem ficar na Igreja. Recebi até um formulário com o qual poderia renunciar à minha participação na Igreja. Por que ficar?

Primeiro, por que ir? Algumas pessoas sentem que não podem mais ficar associadas a uma instituição que é tão corrupta e perigosa para as crianças. O sofrimento de tantas crianças é, de facto, horroroso. Elas devem ser a nossa primeira preocupação. Nada do que vou escrever pretende, de forma nenhuma, diminuir o nosso horror diante do mal dos abusos sexuais. Mas as estatísticas para os EUA, do “John Jay College of Criminal Justice” de 2004, indicam que o clero católico não causou mais ofensas do que o clero casado de outras Igrejas.

Algumas pesquisas apresentam até um nível menor de transgressões por parte dos padres católicos. Eles são menos propensos a cometer transgressões do que professores leigos de escolas, e talvez essa probabilidade em comparação com a população em geral não chegue a metade. O celibato não leva as pessoas ao abuso de crianças. É simplesmente uma inverdade imaginar que deixar a Igreja para ir para outra denominação deixaria os nossos filhos mais seguros. Devemos encarar o terrível facto de que o abuso de crianças está espalhado por todas as partes da sociedade. Fazer da Igreja um bode expiatório seria uma forma de encobrimento.

Mas e os encobrimentos dentro da Igreja? Os nossos bispos não foram chocantemente irresponsáveis ao transferir os abusadores de um lado para o outro, não os denunciando à polícia e, assim, perpetuando os abusos? Sim, às vezes. Mas a grande maioria desses casos remonta aos anos de 1960 e 1970, quando os bispos geralmente consideravam os abusos sexuais como um pecado em vez de uma condição patológica também, e quando os advogados e psicólogos comummente lhes tranquilizavam dizendo que era seguro transferir os padres depois do tratamento. É injusto projectar no passado uma consciência de natureza e de seriedade dos abusos sexuais que simplesmente não existia então. Foi apenas a ascensão do feminismo no final da década de 70 que, ao lançar luz sobre a violência de alguns homens contra mulheres, nos alertou sobre o terrível dano cometido contra crianças vulneráveis.

Mas e o Vaticano? O Papa Bento XVI assumiu uma linha forte ao abordar essa questão como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e logo que se tornou Papa. Agora, os dedos estão apontados contra ele. Parece que alguns casos denunciados à Congregação sob a sua guarda não foram tratados. A credibilidade do Papa não está minada? Há manifestantes em frente à Basílica de São Pedro pedindo a sua renúncia. Eu estou moralmente certo de que ele não carrega nenhuma culpa nesta questão.

Geralmente, imagina-se que o Vaticano é uma organização ampla e eficiente. De facto, ele é muito pequeno. A Congregação para a Doutrina da Fé emprega 45 pessoas, lidando com questões doutrinárias e disciplinares de uma Igreja que tem 1,3 mil milhões de membros, 17% da população do mundo e cerca de 400 mil padres. Quando eu tive contacto com a Congregação como Mestre da Ordem Dominicana, era evidente que eles estavam-se a esforçar para dar conta do recado. Os documentos passavam despercebidos. O cardeal Joseph Ratzinger lamentou comigo que a equipa era simplesmente muito pequena para o trabalho.

As pessoas estão furiosas com a falha do Vaticano em abrir seus arquivos e oferecer explicações sobre o que aconteceu. Por que ele é tão secreto? Católicos com raiva e dor sentem-se no direito de ter um governo transparente, e eu concordo. Mas devemos, com justiça, compreender por que o Vaticano é tão autoprotector. Houve mais mártires no século XX do que em todos os séculos anteriores somados. Bispos e padres, religiosos e leigos foram assassinados no Leste Europeu, nos países soviéticos, na África, na América Latina e na Ásia.

Muitos católicos ainda sofrem prisões e morte por causa da sua fé. Claro, o Vaticano tende a acentuar a confidencialidade: isso foi necessário para proteger a Igreja de pessoas que desejavam destruí-la. Assim, é compreensível que o Vaticano reaja agressivamente a demandas por transparência e que leia os pedidos legítimos por abertura como uma forma de perseguição. E alguns elementos dos media desejam realmente, sem dúvida, prejudicar a credibilidade da Igreja.

Mas temos uma dívida de gratidão para com a imprensa pela sua insistência para que a Igreja encare suas falhas. Se não fosse pelos média, então esses abusos vergonhosos continuariam sem ser discutidos.

A confidencialidade também é uma consequência da insistência da Igreja sobre o direito de todos os acusados a manterem o seu bom nome até que sejam provados culpados. Isso é muito difícil de entender para a nossa sociedade, cujos média destroem a reputação das pessoas sem sequer pensar.

Por que ir embora? Se é para encontrar um porto mais seguro, uma Igreja menos corrupta, então eu acho que vai ficar decepcionado. Eu também almejo um governo mais transparente, um debate mais aberto, mas o segredo da Igreja é compreensível e às vezes necessário. Entender nem sempre é fechar os olhos, mas é preciso se queremos agir com justiça.

Por que ficar? Devo colocar minhas cartas sobre a mesa. Mesmo que a Igreja fosse obviamente pior do que outras Igrejas, mesmo assim não iria embora. Não sou católico porque a nossa Igreja é a melhor, ou mesmo porque eu gosto do catolicismo. Amo realmente muitas coisas da minha Igreja, mas existem aspectos dela de que eu não gosto. Eu não sou católico por causa de uma opção de consumo num "Waitrose" em vez de num "Tesco" eclesiásticos [marcas de supermercados ingleses], mas sim porque acredito que ela encarna algo que é essencial ao testemunho cristão da Ressurreição: a unidade visível.

Quando Jesus morreu, a sua comunidade dividiu-se. Ele tinha sido traído, negado, e muitos dos seus discípulos fugiram. Foram principalmente as mulheres que o acompanharam até o fim. No Dia da Páscoa, ele apareceu aos discípulos. Foi mais do que uma ressuscitação física de um cadáver.

Nele, Deus triunfou sobre tudo o que destrói a comunidade: pecado, covardia, mentiras, incompreensão, sofrimento e morte. A Ressurreição tornou-se visível para o mundo por meio da visão impressionante do renascimento de uma comunidade. Aqueles covardes e negadores reuniram-se novamente. Eles não eram um grupo honrado, e envergonharam-se daquilo que tinham feito, mas novamente eram um. A unidade da Igreja é um sinal de que todas as forças que fragmentam e dispersam são derrotadas em Cristo.

Todos os cristãos são um no Corpo de Cristo. Eu tenho o mais profundo respeito e afecto pelos cristãos das outras Igrejas que me alimentam e inspiram. Mas essa unidade em Cristo precisa de uma encarnação visível. O cristianismo não é uma espiritualidade vaga, mas sim uma religião da encarnação, em que as verdades mais profundas assumem a forma física e às vezes institucional. Historicamente, essa unidade encontrou o seu foco em Pedro, a Rocha de Mateus, Marcos e Lucas e o pastor do rebanho do evangelho de João.

Desde o princípio e ao longo da história. Pedro muitas vezes foi uma rocha vacilante, uma fonte de escândalo, corrupta, e mesmo assim ele é o escolhido – e seus sucessores –, cuja tarefa é nos manter unidos, de forma que possamos testemunhar a vitória de Cristo no Dia da Páscoa sobre o poder de divisão do pecado. E assim a Igreja está colada a mim independentemente do que acontecer. Podemos até nos envergonhar em admitir que somos católicos, mas Jesus teve companhias vergonhosas desde o princípio.

Bento Domingues: Jesus Cristo num hospital

Opinião de Bento Domingues no "Público" de hoje (02-05-2010). Inclui uma anedota.


Ler texto de Timothy Radcliffe aqui.
E carta da Hans Kung aqui.

2 de Maio de 373. Morre Atanásio de Alexandria

Atanásio de Alexandria nasceu no ano 293 e morreu no dia 2 de Maio de 373. Discípulo de Cirilo de Alexandria (aquele bispo tão denegrido no filme “Ágora”), foi com ele ao Concílio de Niceia (325), como secretário, e sucedeu-o na cátedra episcopal da principal cidade egípcia, em 328.

Atanásio foi grande combatente do arianismo e é um dos quatro Doutores da Igreja do Oriente. Os outros são Crisóstomo, Basílio de Cesareia e Gregório Nazianzeno.

Quando hoje os cristãos no Credo rezam que Jesus Cristo foi “gerado, não-criado, co-substancial ao Pai”, estão a citar, muito provavelmente, Atanásio.

sábado, 1 de maio de 2010

Ferreira Fernandes e o anticlericalismo na I República

Imagem da Guerra Civil de Espanha. Milicianos parodiam com vestes litúrgicas

Ferreira Fernandes, no DN de hoje escreve sobre o anticlericalismo na I República, aqui. Diz, por exemplo, que o anticlericalismo já existia em sectores liberais de facções monárquicas, o que não é propriamente novidade. Basta passar pelo Largo da Portagem, em Coimbra, e perguntar por de quem é a estátua que lá está. Os transeuntes costumam saber que é do “Mata-Frades”, o monárquico Joaquim António de Aguiar.

Afirma também que João Seabra, no já citado O Estado e a Igreja em Portugal..., faz um balanço notoriamente doloroso para um padre conservador: nos 80 anos de Monarquia Liberal que antecederam a República, poucos reis foram homens de fé. "D. Pedro IV era um incrédulo, o catolicismo de D. Maria (...) era mais formal do que piedoso, e D. Fernando II era um céptico; D. Luís e D. Maria Pia de Sabóia, e seu filho D. Carlos, [nunca estiveram] acima de um formalismo religioso sem fervor, e nalgum caso sem fé..." Restam, pois, D. Pedro V merecedor de um "talvez" e D. Manuel II "de fé sincera e amor à Igreja". Em todo o caso, os reinados destes dois somam 11 anos, período curto para contrabalançar tantas décadas de ataques à Igreja.

Refere também o caso “Sara de Matos” (a que há dias Helena Matos aludira, aqui) e outros igualmente curiosos como a invasão de um convento, na Rua do Quelhas, por uma patrulha de marinheiros, devido às "bombas de dinamite" atiradas por "jesuítas".

Dá-me música

Perguntaram um dia ao famoso violinista Isaac Stern (1920 - 2001), judeu, por que é que há tantos violinistas judeus. A resposta:

- Porque em caso de perseguição é muito mais fácil fugir com um violino do que com um piano.

Anselmo Borges: Católicos em autogestão?

No DN de hoje (aqui), Anselmo Borges escreve sobre os católicos portugueses. Não responde a "o que é ser católico", ao contrário do que dá a entender na primeira frase. Mas questiona sociologicamente os católicos portugueses. "Católico" tanto é adjectivo como substantivo. Parece-me que Anselmo Borges pega no "católico" enquanto adjectivo, como qualificativo de cristão. O mais importante está na base, no ser cristão, segundo a sua visão. Mas quem quer saber o que é ser católico talvez não esteja muito interessado em saber primeiro o que é ser cristão. Aliás, por absurdo que pareça, no limite podemos colocar a questão: pode haver católicos que não sejam cristãos? Temo que sim.


Pessoas da política e dos media pediram-me para escrever um texto sobre o que é ser católico. Porque por vezes "discutem entre si, acusando-se mutuamente: quem é o católico?"

Apesar da dificuldade, fica aí uma tentativa simples, quase ingénua.

Afinal, o católico é antes de mais o cristão baptizado na Igreja Católica. O acento tem de estar no "cristão". Ora, quem é o cristão?

O fundamento da espiritualidade cristã não se encontra em dogmas por vezes incompreensíveis nem numa grande teoria ou num sistema eclesiástico. O modelo de vida cristão - Hans Küng insiste justamente nisto - é pura e simplesmente Jesus de Nazaré como o Messias, o Filho de Deus. Na vida e na morte, o fundamento da autêntica espiritualidade cristã é Jesus Cristo, um desafio vivo para a nossa relação com os homens e com o próprio Deus, que se tornou orientação e critério para milhões de homens e mulheres em todo o mundo. Cristão é aquele ou aquela que na sua vida e também na morte se esforça por orientar-se na prática por este Jesus Cristo e o seu Evangelho do Reino de Deus. A cruz só se entende à luz da sua vida e dos conflitos que criou. Mas os cristãos são transportados pela convicção de fé de que a sua morte não foi o fim: a ressurreição significa que Jesus está em Deus, que morreu não para o nada, mas para a Realidade mais real, isto é, foi recebido na vida eterna de Deus. Ele é, assim, o modelo cristão de vida em pessoa.

De qualquer modo, o cristianismo explicita-se numa doutrina, e aí há, como reconheceu o Concílio Vaticano II, uma hierarquia de verdades. Por exemplo, a infalibilidade papal ou a virgindade de Maria não pertencem ao seu núcleo. A ressurreição, que não é a reanimação do cadáver, mas a confissão de fé de que, na morte, o homem não encontra o nada, mas a vida em Deus, sim. Ora, ainda há dias se publicava um estudo no qual se conclui que cerca de 25% dos portugueses não acreditam na vida para além da morte e entre eles estão 10% de católicos que vão por regra à Missa e 26% dos que o fazem ocasionalmente.

A prática do culto, concretamente a participação na Eucaristia ao Domingo, anda por pouco mais de 20%. Daí, a expressão vulgar de tantos se afirmarem católicos não praticantes, entendendo-se por isso que ainda baptizam os filhos e têm referências católicas, mas não vão à Missa nem se confessam.

A expressão "católico não praticante" é tremendamente equívoca, porque, significando a não prática cultual, suporia a prática dos valores apresentados por Cristo. Ora, precisamente aqui, começam perguntas tremendas, que mostram que, afinal, tanto no domínio doutrinal como no cultual e praxístico, a grande maioria dos católicos em Portugal vive em autogestão.

As estatísticas dizem que 88% dos portugueses se afirmam católicos.

Então, no plano da praxis, são inevitáveis muitas perguntas, de que se dá exemplos. Parta-se do princípio de que um católico, no referendo, poderia ser favorável à descriminalização (não à liberalização) do aborto e de que é legítimo o uso responsável de anticonceptivos e do preservativo. Pergunta-se: a irresponsabilidade de tantos milhares de abortos, pagos pelo contribuinte, é um exclusivo dos 12% não católicos?

A corrupção que campeia é um exclusivo desses 12%? É da sua única responsabilidade o não funcionamento da Justiça? E o abismo cada vez mais fundo entre os muito ricos e os muito pobres também? E os salários e prémios escandalosos de gestores? E a situação desgraçada na educação?

Fala-se muito na crise de valores, no relativismo moral e cultural, na perda de referências. Jesus disse que não se pode adorar o Dinheiro, que aparece agora como motor quase exclusivo da vida. Perdeu-se o hábito do trabalho, mente-se descaradamente em todas as instâncias, afundamo-nos no consumismo alarve. Passados 36 anos do 25 de Abril, há quem tema o pior: numa democracia triste e impotente, estar-se a chegar ao point of no return na caminhada para o abismo, no plano económico, social, político. Os únicos responsáveis são os tais 12%?

1 de Maio de 1572. Morre Pio V

Encerramento do Concílio de Trento

Pio V (Michele Antonio Ghisleri, Bosco, 17-01-1504 - Roma, 01-05-1572), Papa de 1566 a 1572, depois de ter sido inquisidor-mor, concluiu o concílio de Trento (1545-1563), estabeleceu a Missa Tridentina, que hoje os tradicionalistas preferem, fez publicar o Catecismo, excomungou a rainha de Inglaterra, mandou Daniele da Volterra tapasse os nus da Capela Sistina (aqui), promoveu a "cruzada" de Lepanto. Um dos papas mais influentes da História.

Pio V foi beatificado no dia 27 de Abril de 1672 e canonizado no dia 22 de Maio de 1712.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...