quinta-feira, 8 de abril de 2010

A modéstia de De Gaulle, agora em anedota completa

Recolhi aqui uma anedota incompleta sobre a humildade do general De Gaulle. Onésimo Teotónio de Almeida conseguiu finalmente ter a anedota toda, ligeiramente diferente do que já conhecia. Deve-a a Tito Magalhães Rodrigues, um poeta açoriano que vive no Porto.

Transcrevo-a aqui como o cronista a publicou na revista “Ler” de Abril de 2010.


“O bispo de Lourdes convida De Gaulle a visitar o santuário. O general aceita e vai em dia de Páscoa. No altar, junto de uma cruz, depõe uma flor e, num envelope, uma esmola e a mensagem: «Du Premier de la France à la deuxième personne de la Trinité».

Indignado, Sua Excelência Reverendíssima fez Monsieur le Général tomar consciência da ignomínia. Por isso, ao voltar segunda vez, no Natal, o Presidente procurou exibir mais modéstia quando, junto do presépio, deixou aos pés do Menino novo óbulo e a nota: “Du Grand De Gaulle au Petit Jésus”.

O bispo já tinha contido a fúria quando mais tarde voltou a convidar o Presidente. A ocasião era o 11 de Fevereiro, aniversário das aparições. O general foi paternalmente admoestado a assumir o seu papel de simples e modesto cristão. De Gaulle ouviu e, compungido, escreveu nova mensagem, que depositou com a sua esmola aos pés da imagem de Nossa Senhora de Lourdes: «A la vierge, à l’occasion de ma troisième apparition à Lourdes».

Victor quia victima

"Cristo venceu a violência; venceu-a não lhe opondo uma violência maior, mas suportando-a e mostrando toda a injustiça e a inutilidade que ela encerra. Inaugurou um novo género de vitória que Santo Agostinho resumiu em três palavras: «Victor quia victima» («vencedor, porque vítima»)".

Raniero Cantalamessa, Páscoa, uma passagem para aquilo que não passa (Ed. Paulinas, 2006), pág. 81

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A era do ressentimento

Opinião de Francisco José Viegas no "Correio da Manhã" de 5 de Abril de 2010.

Livro: História breve da Igreja Católica

A Igreja no Tempo. História Breve da Igreja Católica
Manuel Clemente
Editora: Grifo
158 páginas

D. Manuel Clemente, actual bispo do Porto, escreveu a maior parte deste livro em 1978 para o Secretariado Diocesano do Ensino Religioso e o Centro de Estudos Pastorais do Patriarcado de Lisboa. Em 2000, a editora Grifo republicou-o, com algumas alterações e inclusões. Agora surge a terceira edição, com mais um capítulo, “A aplicação do Concílio”, que aborda os pontificados de Paulo VI e João Paulo II. O último parágrafo lembra a determinação de Bento XVI, no dia seguinte à sua eleição, de continuar a aplicar o Concílio.

Meter dois milénios de história cristã em centena e meia de páginas só está à altura de historiadores competentes e divulgadores exímios, como é o Bispo do Porto. Neste “rapidíssimo apanhado”, “esboço muito lacunar e algo subjectivo”, segundo expressões do autor, cabem os seguintes assuntos: “Uma fé para o mundo” (expansão do cristianismo no Império Romano); “Uma fé testemunhada” (tempo dos mártires); “A Igreja no Império”; “Uma comunidade de fé” (Padres da Igreja); “A nova Europa”; “A Alta Idade Média”; “O Cisma do Oriente”; “Raízes da Cristandade medieval”; “A Cristandade Medieval”; “Os Santos da Cristandade”; “A ruptura protestante”; “A reforma católica”; “As Igrejas nacionais”; “A Inquisição”; “Missões”; “A Igreja e a Revolução Francesa”; “Liberais e restauracionistas”; “O movimento social cristão”; “Rumo ao Concílio”; “A mensagem do Vaticano II”; A aplicação do Concílio”.

Cada capítulo de quatro ou cinco páginas lê-se como uma unidade de sentido completa, o que é uma vantagem para quem quiser ser introduzido em somente um ou outro período. Para começar a conhecer a História da Igreja, de autor português, não há melhor.

Religião no feminino - a parte católica

Ana Vicente. O cristianismo na vertente católica

Excerto sobre a "parte católica" do texto de Ana Catarina Pereira, na “Notícias Magazine” de 4 de Abril de 2010

«Muita gente diz que, se não concordamos com os princípios, devíamos ir para outra religião. (...) Eu gostava que a Igreja a que pertenço, e na qual fui baptizada, fosse mais perfeita».

«A Igreja Católica é uma igreja de amor. É isso que ela deve professar.» As palavras são de Ana Vicente, crente em Deus e católica apostólica romana desde os primeiros anos de vida. Os princípios em que acredita parecem, no entanto, não condizer com o actual estado da Igreja, o que a torna uma das vozes mais críticas da religião que pratica.

No início da sua carreira profissional começou por ser professora e tradutora. Mais tarde presidiu à Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres – CIDM, foi secretária executiva do Programa Nacional de Combate à Droga e consultora do Fundo das Nações Unidas para a População. Juntamente com Maria João Sande Lemos, foi uma das responsáveis pela chegada do movimento Nós Somos Igreja a Portugal, dois anos depois de ter sido fundado em Roma, em 1996. Tem 67 anos e é casada há quarenta.

Para Ana Vicente, a Igreja Católica deveria ter uma estrutura menos hierarquizada, que permitisse um maior envolvimento de todo «o povo de Deus» nas questões essenciais. Na sua opinião, o imenso fosso que separa clero e leigos é totalmente despropositado. Relembrando alguns casos de pedofilia dentro da estrutura eclesiástica, sublinha que o sacerdócio não deveria ser exclusivamente masculino: «Esta ideia de que os padres têm de ser homens, celibatários e uma espécie de seres fora deste mundo tem dado tristes resultados. Excluir as mulheres da Igreja é tão obviamente contra a mensagem de Jesus!» Para o provar cita a Carta de São Paulo aos Gálatas, que considera um importante passo na universalização dos direitos humanos: «Não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo.» Ficava assim provado, sublinha, que todos os seres humanos detinham o mesmo valor, independentemente da sua condição social, género, idade ou orientação sexual.

Sendo esta última uma questão polémica, a representante católica discorda totalmente da posição da Igreja relativamente ao casamento entre homossexuais: «Algumas pessoas têm uma orientação homossexual que não escolheram. São uma minoria, mas essas pessoas existem, e certamente que Deus as ama da mesma forma que aos heterossexuais. Como cristã, acho que não faz sentido discriminar uma pessoa por ela ser homossexual.» Mas, no entender de Ana Vicente, as incongruências da Igreja Católica não se ficam por aqui. Na sua opinião, a postura irredutível face à interrupção voluntária da gravidez e ao uso de métodos anticoncepcionais está totalmente ultrapassada: «Como é que pode condenar-se uma mulher por ter praticado um aborto e, ao mesmo tempo, dizer que o preservativo é pecado? Isto não faz sentido! É evidente que todos somos contra o aborto, que é a interrupção de uma vida, mas eu não me sinto com capacidade, nem ninguém deveria sentir, para julgar uma mulher que faz um aborto, muito menos de dizer que ela tem de ir para a prisão.»

Num futuro próximo, Ana Vicente gostaria que a Igreja abandonasse a sua fixação negativa sobre a sexualidade: «É uma coisa boa, criada por Deus, e que faz parte intrínseca do ser humano!» Sublinhando que estes são desejos partilhados por inúmeros católicos, considera que a falta de novos padres não está relacionada com uma crise de vocações, mas antes com uma vontade de mudança: «Há ordens religiosas, tanto de homens como de mulheres, que estão a desaparecer porque, efectivamente, não souberam adaptar-se. A ideia de que ‘sempre fomos assim e sempre assim seremos’ é um erro».

Ao eterno argumento de que as mulheres não podem abraçar o sacerdócio porque os apóstolos eram homens Ana Vicente responde com pragmatismo. Tratando-se a Última Ceia de uma festa judaica, considera estranho que não se encontrem presentes mulheres e crianças: «Ainda assim, se aceitarmos que Jesus escolheu 12 homens, também podemos deduzir que todos os padres deveriam ser judeus. Para levar as coisas ao extremo, se Jesus, de facto, só queria homens, as mulheres não podem sequer ser baptizadas. Sejamos coerentes! Não existem dez mandamentos para os homens e dez mandamentos para as mulheres. Jesus pede às mulheres a mesma santidade que pede aos homens».

Apesar de lutar activamente pela ordenação das mulheres, Ana Vicente não deseja esta possibilidade para si própria. Por outro lado, também não pondera a hipótese de abandonar o catolicismo: «Muita gente diz que, se não concordamos com os princípios, devíamos ir para outra religião. Mas nós somos um movimento reformador dentro da Igreja, que quer continuar a ser católico. Eu gostava que a Igreja a que pertenço, e na qual fui baptizada, fosse mais perfeita».

7 de Abril de 1614. Morre El Greco

"Ressurreição de Cristo" (Museu do Prado)

Doménikos Theotokópoulos nasceu em Heraklion, na Ilha de Creta (na altura, pertencia à República de Veneza), em 1541, e morreu em Toledo, Espanha, no dia 7 de Abril de 1614.

Assinava as obras com o nome original e ficou conhecido por “El Greco”, “O Grego”. As suas figuras alongadas e as cores não naturais, ditas fantasmagóricas, tornam este pintor único e impossível de enquadrar em qualquer corrente da época. Há quem diga que pintava assim porque sofria de astigmatismo.

E um dia terá dito, ao visitar a Capela Sistina: “Miguel Ângelo pode ser uma excelente pessoa, mas nada entende de pintura. Se deitarem fora toda esta obra, eu poderei refazê-la com mais honestidade e decência”. Esse episódio e outros fizeram com que tivesse de deixar a cidade dos papas.

De El Greco disse Picasso: “O primeiro cubista”. No seu túmulo, em Toledo, está escrito: "Aqui jaz o grego de quem a natureza aprendeu a arte”.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Fim-de-semana fértil em informação religiosa

O fim-de-semana passado foi fértil em informação religiosa na imprensa generalista. Não só por ser o fim-de-semana de Páscoa, embora a quadra ajudasse. E para lá dos abusos sexuais.

Vou fazer aqui um elenco do que saiu no "Diário de Notícias" de sábado e de domingo (e não falo de droga traficada em ovos de Páscoa, da “operação Páscoa”, da indústria dos folares, etc.). Com links, no caso de encontrar os textos on-line.


DN de sábado, 3 de Abril

No caderno principal

* “Os dias da passagem”. Reportagem de Fernanda Câncio (texto) e Jorge Amaral (fotos) sobre a Páscoa judaica e as Páscoas cristãs.

* “Cardeal-patriarca pede perdão por pecados da Igreja”. Texto de Filipa Ambrósio de Sousa sobre as celebrações de Sexta-feira Santa em Lisboa.

* “O papa guardião do terceiro segredo de Fátima”. Texto de Paula Carmo, sobre a vinda de Bento XVI a Portugal, seguido de entrevista a Manuel Morujão, porta-voz dos bispos portugueses, que diz: “A ligação de Bento XVI à mensagem da Cova da iria é muito forte”.

* “A fé na Via Sacra dá lugar ao turismo”. Texto de Susana Salvador sobre a recriação de crucifixões pelo mundo.

* “A cruz do mundo”. Opinião de Anselmo Borges.

* “Abriu a caça aos padres (III)”. Opinião de Ferreira Fernandes.

No "DN Gente"

* “O monge que teve mais fé na história” (na capa). Entrevista de João Céu e Silva a José Mattoso (fotos de Gonçalo Vilaverde). (Excelente entrevista e muita imprecisão geográfica. Do Carvoeiro, lugar de Valemaior, Albergaria, que não é recôndito, é impossível ver a auto-estrada Lisboa/Porto. Vê-se é a A25, que liga Aveiro a Espanha.)

* “Óscar Romero. O Bispo da América morto há 30 anos pela ditadura de El Salvador”. Texto de Susana Salvador


DN de domingo, 4 de Abril

No caderno principal

* “Num caso de abuso, com certeza iria à polícia”. Entrevista, confusa, a D. Januário Torgal Ferreira, por João Marcelino (DN) e Paulo Baldaia (TSF)

* “Um quarto dos portugueses não crê na vida eterna”. Texto de Rita Carvalho sobre a crença na ressurreição, na qual 10 por cento dos que vão à missa com regularidade não acreditam.

* “Muitas paróquias deixaram para depois da Páscoa os preparativos da visita do Papa”. Texto de vários sobre a forma como paróquias menos e mais crentes preparam a visita de Bento XVI.

* “Críticas judaicas abrem nova crise para o Vaticano”. Texto de Abel Coelho Morais sobre a polémica desencadeada pelas afirmações de Raniero Cantalamessa.

* “O túmulo de Cristo na Caxemira”. Texto de Patrícia Viegas sobre o túmulo de um pregador muçulmano medieval que tem sido publicitado como sendo o de Jesus.

* “As outras vítimas da Igreja”. Opinião de Alberto Gonçalves.

Na "Notícias Magazine"

* “Mulheres na religião”. Texto de Ana Catarina Pereira e fotografias de Rui Coutinho. Como cinco mulheres vivem as suas religiões: Ana Vivente (católica), Míriam Lopes (metodista), Esther Mucznick (judia), Faiza Erraoui (muçulmana) e Tsering Paldron (budista).

* “São José e as Três Irmãs”. Texto de Alice Vieira suplemento infantil “Terra do Nunca”.

* “A consciência tranquila”. Opinião de Manuel António Pina.

Que imagem de Igreja estamos a transmitir?


O artigo de Leonel Moura, no "Jornal de Negócios" de 1 de Abril, é bem elucidativo de um certo modo de pensar sobre a Igreja Católica. A minha experiência de Igreja é muito gratificante. Não tem nada a ver com o que o colunista diz. Entristecem-me os abusos e outros escândalos. Mas espanta-me que haja visões tão preconceituosas, tão distorcidas, embora saiba que os responsáveis por boa parte do ateísmo/ agnosticismo/ indiferentismo sejam os próprios crentes (vem no Vaticano II), em que obviamente me incluo.

De qualquer forma, a opinião de Leonel Moura é um bom exemplo do que se diz da Igreja em certos círculos. E representa pela negativa todo um programa eclesial de reabilitação da imagem e de comunicação com as pessoas. Necessário.

O texto podia ser distribuído em pequenos grupos de reflexão cristã, leigos ou padres, acompanhado de algumas perguntas: Que imagem de Igreja transmite com a sua vida? É esta a sua experiência de Igreja? É esta a imagem de Igreja no seu ambiente? Já pensou no que pensarão os seus colegas, no trabalho, por exemplo, sobre a Igreja? O que posso fazer?

Salvaguarde-se que, neste caso, quanto a mim, a imagem só interessa mesmo por causa do conteúdo.

Muitos estilos de vida

Excerto de “Introdução à vida devota”

"Pergunto-vos (…) se estaria certo que um bispo quisesse viver na solidão como os Cartuxos; que os casados não quisessem amealhar mais que os Capuchinhos; que o operário passasse o dia na Igreja como o religioso; e que o religioso estivesse sempre sujeito a toda a espécie de encontros para serviço do próximo como o bispo. Não seria ridícula, desordenada e inadmissível tal devoção?

Contudo este erro acontece frequentemente. E no entanto (…), a devoção não prejudica ninguém quando é verdadeira, antes tudo aperfeiçoa e consuma; e quando se torna contrária à legítima ocupação de alguém, é sem dúvida falsa.

A abelha extrai o mel das flores sem lhes fazer mal, deixando-as intactas e frescas como as encontrou; todavia, a verdadeira devoção age melhor ainda, porque não somente não prejudica qualquer espécie de vocação ou de tarefa, como ainda as engrandece e embeleza".

Francisco de Sales (1567-1622)

Como lidar com os abusos sexuais do clero?

Uma revista norte-americana sugere como a Igreja Católica na Europa deve evitar os erros da Igreja Católica na América (aqui). O Religionline traduz parte do texto. Leia-se, porque mesmo que haja desculpas, não adianta apresentá-las. Adianta é resolver o problema pela raiz. Quanto antes. Tanto por razões evangélicas como por razões mediáticas.

6 de Abril de 1520. Morre Rafael

Rafael (outros nomes Rafael Sanzio, Rafael Santi, Rafalo de Urbino ou Rafael Sanzio de Urbino) nasceu no dia 6 de Abril de 1483, em Urbino, e morreu no dia 6 de Abril de 1520, em Roma, aos 37 anos.

Discípulo de Perugino, Rafael foi chamado de Florença (onde vivia desde 1504) a Roma pelo Papa Júlio II. O Pontífice encarregou-o de pintar frescos em quatro salas (stanze). Rafael pintou a Stanza della Segnatura, a Stanza di Eliodoro, a Stanza dell’ Incendio di Borgo, mas morreu antes de concluir a Stanza di Constantino.

Na Stanza della Segnatura, que era a Biblioteca de Júlio II e o local onde fazia os despachos, Rafael pinta a “Escola de Atenas”, em que Platão é parecido com Leonardo da Vinci, Heráclito com Miguel Ângelo e Euclides com Bramante (clique para aumentar).

A resposta - Poema de Páscoa

Houve momentos
em que, depois de horas passadas de joelhos
numa igreja fria, rolou da minha cabeça
uma pedra e olhei para dentro
e vi as velhas perguntas de rastos
dobradas e colocadas a um canto
à parte, como o montão
dos panos fúnebres de um corpo
de amor ressuscitado.

R. S. Thomas (1913-2000). Poema inspirado no relato da ressurreição do Evangelho de S. João

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Como cair no recurso ao estereótipo sem se dar conta


A homilia de Raniero Cantalamessa na Sexta-Feira Santa (2 de Abril) provocou aquilo que ela própria queria evitar: violência. Verbal, mas violência.
No Domingo, o “Diário de Notícias” titulava “Críticas judaicas abrem nova crise para o Vaticano” (4 de Abril). E o “Público”: “Rabis e vítimas indignadas com comparação ao anti-semitismo”. Na entrada, este último (texto de Ana Fonseca Pereira) afirma: “Padre Cantalamessa equiparou ataques à Igreja com perseguição aos judeus. Polémica adensa uma crise que ensombra esta Páscoa”.
Comparou mesmo? Talvez. Mas quem fez primeiro a comparação foi um judeu.
Se eu me sentisse perseguido, como muitos responsáveis da Igreja se dizem sentir, e se tivesse recebido um carta de alguém que pertence a um povo que foi a maior vítima do século XX, julgo que a usaria, como fez Cantalamessa. Não reivindicaria para mim tal estatuto de vítima – nem ele o fez. O Holocausto, o cúmulo do anti-semitismo, foi algo inominável e não é invocável para autodefesa por quem nele não participou. Mas se um elemento do povo judeu adverte para mecanismos semelhantes aos do anti-semitismo, de “recurso ao estereótipo” e de “passagem da responsabilidade pessoal para a colectividade”, nos tempos de hoje, em relação à Igreja, não poderei eu usar essas palavras?
O melhor é ler que o pregador do Papa disse (versão brasileira da Zenit, aqui):

«Por uma rara coincidência, neste ano nossa Páscoa cai na mesma semana da Páscoa judaica, que é a matriz na qual esta se constituiu. Isso nos estimula a voltar nosso pensamento aos nossos irmãos judeus. Estes sabem por experiência própria o que significa ser vítima da violência coletiva e também estão aptos a reconhecer os sintomas recorrentes. Recebi nestes dias uma carta de um amigo judeu e, com sua permissão, compartilho um trecho convosco. Dizia:
“Tenho acompanhado com desgosto o ataque violento e concêntrico contra a Igreja, o Papa e todos os féis do mundo inteiro. O recurso ao estereótipo, a passagem da responsabilidade pessoal para a coletividade me lembram os aspectos mais vergonhosos do anti-semitismo. Desejo, portanto, expressar à ti pessoalmente, ao Papa e à toda Igreja minha solidariedade de judeu do diálogo e de todos aqueles que no mundo hebraico (e são muitos) compartilham destes sentimentos de fraternidade. A nossa Páscoa e a vossa têm indubitáveis elementos de alteridade, mas ambas vivem na esperança messiânica que seguramente reunirá no amor do Pai comum. Felicidades a ti e a todos os católicos e Boa Páscoa”».

A citação no final de um belíssimo texto contra a violência (de como com a morte de Jesus se ultrapassa a violência que é alma de um certo tipo de sagrado) transformou-se em mais um episódio de violência mediática. Chamou-se “obsceno”, “inapropriado” e “moralmente errado” ao sermão de Cantalamessa (via “Público”), quando as palavras são de um judeu. Foi imprudente Cantalamessa? Dizer que sim é admitir que a pressão mediática nos priva de liberdade.
A reacção ao sermão por parte de judeus e de vítimas de abusos, apesar de o porta-voz do Vaticano ter vindo dizer que havia palavras que podiam ser mal interpretadas, revela que a violência verbal está latente na nossa sociedade. Como já nem se olha aos factos e aos contextos, como já nada se distingue e muito se confunde, começo a pensar que a Igreja está mesmo a ser perseguida (mas nada desculpa os abusos). Ou pelo menos é um alvo fácil para quem quer fazer pontaria.

Latim: Nos cursos de Teologia, não; nas escolas de Londres, sim

Em Fátima, o Papa vai rezar o terço em latim. As pessoas respondem em português, claro. A notícia, sem nada de surpreendente, suscita sempre o louvor de uns e oposição de outros – os que acham que isso significa um avanço da igreja católica tradicionalista. Mas não há que ter receios. De facto, missa em latim é coisa altamente improvável, fora de contextos muito precisos, quando nem sequer nos cursos de teologia se ensina o latim. Notícia do DN.

Agora, notícias de Inglaterra, dizem que o movimento em favor do latim no ensino básico e secundário é crescente. Até o “mayor” de Londres, Boris Johnson, apoia a ideia.

Cerca de 40 por cento das “escolas independentes” (suponho que se trata do ensino privado) ensinam latim. Nas escolas do Estado, o latim está disponível em apenas 2 a 4 por cento das escolas.

E diz Boris Johnson sobre o latim: “Simplesmente, não há melhor maneira de fazer as mentes jovens pensarem de modo lógico e analítico”. Notícia da BBC.

Magdi Cristiano Allam: O dia mais belo da minha vida

“Foi o dia mais belo da minha vida. Receber o dom da fé cristã na festa da Ressurreição de Cristo, das mãos do Santo Padre, é um privilégio sem comparação e um bem inestimável. Para mim, com quase cinquenta e seis anos, é um acontecimento histórico, único e inesquecível, que assinala uma reviravolta radical e definitiva relativamente ao passado. Na noite de 22 de Março de 2008, na Vigília Pascal, durante a solene liturgia celebrada na magnificente Basílica de São Pedro, berço da nacionalidade, renasci para Cristo”.

Magdi Cristiano Allam in Obrigado, Jesus. A minha conversão do islamismo ao catolicismo (Gráfica de Coimbra 2)

Livro: Um muçulmano converte-se

Obrigado, Jesus. A minha conversão do islamismo ao catolicismo
Magdi Cristiano Allam
Gráfica de Coimbra 2
226 páginas

Magdi Cristiano Allam, subdirector do jornal “Corriere della Sera”, recebeu de Bento XVI, na vigília pascal de há dois anos, o Baptismo, a Confirmação e a Eucaristia. Após “uma prolongadíssima luta vivida como muçulmano”, com uma “história pessoal de dúvidas, lacerações e tormentos”, converteu-se ao catolicismo. Reencontrou-se, diz.

A história inspirada e emotiva da conversão, contada em três capítulos, cada um com o nome de um dos sacramentos da iniciação, está neste livro da Gráfica de Coimbra 2.

O livro vale pelo testemunho pessoal, certamente, mas é também uma excelente radiografia do ambiente espiritual e cultural da Europa em textos como este, do jornalista Andrea Pamparana: “Se a Igreja fala, pode-se escutar, pode-se ignorar, pode-se criticar mesmo asperamente, e até com zombaria. Se o Papa fala em defesa da vida e da família natural, podem organizar-se manifestações com fingidos cardeais transexuais, com carros alegóricos e palanfrórios blasfemos, reportagens na televisão e nos jornais. Mas, se alguém ousar criticar o islão, não só terá à perna os muçulmanos mas, ainda e sobretudo, será posto na mira dos compatriotas relativistas, para não dizer de muitos católicos” (pág. 152).

Por causa da conversão e de opiniões contra o islamismo radical. Magdi Cristiano Allam tem sido alvo de ameaças de morte.

5 de Abril de 2008. Morre o actor de Moisés


Charlton Heston (nasceu John Charles Carter mas adoptou o nome do padrasto), o mais conhecido Moisés, morreu no dia 5 de Abril de 2008, aos 81 anos. Sofria de Alzheimer. Nascera no dia 4 de Outubro de 1923.
Ficou conhecido, principalmente, por ter sido o Moisés (há quem não conceba Moisés de outro modo) no filme “Os Dez Mandamentos” (de Cecil B. DeMille, 1956) e Judah Ben-Hur, no filme "Ben-Hur” (de William Wyler, 1959), pelo qual ganhou um Óscar.
Desde 1998, Charlton Heston, que participou na Marcha pelos Direitos Civis, foi presidente e a seguir presidente honorário da National Rifle Association (NRA), que defende o direito dos norte-americanos andarem armados.

domingo, 4 de abril de 2010

Livros de religião para crianças: "Deus não tem só um nome""



A revista “Pública” de hoje publica um texto sobre literatura religiosa infantil. Assinado por Rita Pimenta, “Deus não tem só um nome” devia ser apenas um de muitos textos sobre o mesmo assunto nas revistas generalistas ou numa especializada como a “Ler”. Infelizmente, nem mesmo os jornais católicos, com uma excepção regional, publicam recensões da edição católica, quanto mais de livros de carácter religioso para crianças. Mas deverá haver em Portugal perto de um milhão de crianças em catequese. Clique nas imagens para aumentar.

4 de Abril de 1968. Luther King é assassinado

Martin Luther King (Atlanta, 15 de Janeiro de 1929) foi assassinado no dia 4 de Abril de 1968, aos 39 anos, em Memphis, quando se preparava para uma marcha. Hoje teria 81 anos. (James Earl Ray confessou o crime, mas anos depois repudiou sua confissão).

Os discursos de Luther King são memoráveis. O mais importante, em Washington, D.C., no dia 28 de Agosto de 1963, pode ser lido aqui, em português e inglês. A parte mais conhecida (“I have a dream”) poder vista e ouvida aqui.

Outras frases célebres do pastor baptista: “Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira. O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos. Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos”.

Bento Domingues: A ressurreição da Igreja

Do "Público" de 4 de Abril de 2010

sábado, 3 de abril de 2010

Anselmo Borges: A cruz do mundo

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Se me não engano, foi Pinheiro de Azevedo quem, em 1976, instituiu o feriado de Sexta-Feira Santa. Penso que é um dos dias que mais fundo calam no coração dos portugueses. Sempre me admirou o facto de, perante a imagem de Jesus crucificado - queiramos ou não, é uma imagem de horror -, mesmo as crianças não entrarem em sobressalto emocional negativo. A partir do que sempre lhes foi ensinado, interiorizaram que ali está o amor. Jesus morreu como testemunha da verdade e do amor.

Um número incontável de homens e mulheres, nos 2000 anos de cristianismo, olharam para aquele crucificado e, no meio do seu sofrimento e angústia, nos becos sem saída da vida, perante os horrores brutos do mundo e da existência, receberam luz, esperança, alívio, inspiração.

Desgraçadamente, não foi só isso. Com Constantino, a cruz tornou-se sinal de poder e vitória do Império. Utilizou-se a cruz de Cristo para humilhar e matar nas Cruzadas. Na época dos Descobrimentos, a cruz acompanhou a espada nas conquistas e destruição de civilizações inteiras. Lá estava presente nas condenações da Inquisição. O filósofo Hans Blumenberg sugeriu que o cristianismo morreu na Europa quando Giordano Bruno, em 1600, na iminência de ser queimado vivo, cuspiu na cruz que o frade lhe apresentou para beijar, mas também há quem observe - com mais razão, creio - que cuspiu para o frade, representante da Igreja inquisitorial, e não para a cruz. Durante séculos, bispos, cardeais, papas, escarneceram da cruz de Cristo, usando triunfalmente ao peito cruzes de ouro, com pérolas e diamantes. E o que é mais: pregou-se que Jesus foi crucificado, porque Deus precisava do seu sangue para aplacar a sua ira. Transformou-se assim o Deus-amor num Deus sanguinário, vingativo, cruel e sádico. Para manter a dignidade, perante esse Deus, só se pode ser ateu.

Em face da cruz de Cristo, é-se confrontado com o calvário do mundo. Quem crê no destino fatal ou tem uma concepção dualista não se põe a questão com a acuidade dramática de quem acredita no Deus transcendente, criador e bom: porque é que Deus não impede o mal no seu horror? A História do mundo é verdadeiramente uma ecúmena de sofrimento: assassinatos, guerras, violência, fracassos no amor e na profissão, doenças, fome, humilhações, torturas, falta de sentido, traições..., no fim, a morte. Também a dor dos animais. Mas sobretudo o sofrimento das crianças e a condenação dos inocentes. Hegel referiu-se à História como um Schlachtbank: um açougue ou matadouro.

A história da filosofia está atravessada por tentativas de teodiceia: na presença do mal, justificar Deus racionalmente. Mas Kant referiu-se ao fracasso de todas as tentativas de teodiceia. Onde estava Deus em Auschwitz, por exemplo, ou no Haiti, na Madeira...? O mal aparece como "rocha do ateísmo".

Perante o mistério impenetrável de Deus e do mal, o crente cala. Como Job, na Bíblia, tem o direito de gritar, de protestar, de revoltar-se contra um Deus que lhe parece cruel: "Clamo por ti, e Tu não me respondes; insisto e não fazes caso. Tornas-te cruel comigo." Mas, depois, cala-se e entrega-se confiadamente. A última palavra ainda não foi dita e espera que pertença ao Deus da misericórdia.

Aliás, na sua última obra, Was ich glaube (A Minha Fé), resultado de uma série de lições, aos 80 anos, na Universidade de Tubinga, a cada uma das quais assistiram mil pessoas, pergunta o teólogo Hans Küng: "O ateísmo explica melhor o mundo? A sua grandeza e a sua miséria? Como se também a razão descrente não encontrasse o seu limite no sofrimento inocente, incompreensível, sem sentido!"

Também Jesus, no Gólgota, foi confrontado com o abandono dos homens e de Deus. E, naquele abismo, gritou aquela oração que atravessa os séculos: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?"

Aparentemente, foi o fim. Pouco depois, os discípulos reencontraram-se a partir de uma experiência avassaladora de fé: Jesus, o crucificado, não caiu no nada, mas vive em Deus para sempre. Sem esta fé, que testemunharam até ao martírio e que mudou a História, não haveria cristianismo.

16/16 Jesus Cristo na capa da "Time"

Guardei para esta altura da Páscoa as capas da "Time" que têm como tema principal Jesus Cristo. Conclui-se assim a sequência iniciada em 3 de Março sobre as capas desta revista com tema religioso. Ficaram de fora temas esotéricos, religiosos não-cristãos e para-religiosos (como o valor da meditação, os anjos, seitas, budismo e islamismo...).

No final, links para a sequência toda.

24 de Abril de 2006

12 de Abril de 2004

16 de Abril de 2001

6 de Dezembro de 1999

20 de Abril de 1998

16 de Dezembro de 1996

8 de Abril de 1996

10 de Abril de 1995

15 de Agosto de 1988

25 de Outubro de 1971

21 de Junho de 1971

25 de Dezembro de 1964

As outras entradas da sequência:

3 de Abril de 1493. Cristóvão Colombo é recebido pelos Reis Católicos

No dia 3 de Abril de 1493, Cristóvão Colombo é recebido pelos Reis Católicos, em Barcelona, após ter concluído com êxito a viagem às Américas (pensando que tinha chegado à Índia).

No dia 3 de Abril, mas em 1507, o monge agostinho Martinho Lutero foi ordenado padre.

Meditação no início do sábado santo: Indiferença e diferença cristã

"A indiferença de quem está desiludido com o fim das ideologias, a indiferença de ex-crentes frustrados nas suas expectativas de uma renovação eclesial, a indiferença do homo technologicus, convencido de poder dominar tudo através da técnica, apresenta-se aos olhos dos cristãos como um fenómeno enigmático e um grande inimigo.

Contudo, é um estímulo para a interrogação: porque razão o Cristianismo deixou de interessar a muitos? E os cristãos estarão verdadeiramente «evangelizados», de molde a poderem ser «evangelizadores» eficazes? Saberão verdadeiramente exprimir e comunicar o seu carácter peculiar, a sua “diferença”? Não esqueçamos que a indiferença vai crescendo na medida em que for desaparecendo a diferença!

O Cristianismo é uma proposta e não uma imposição, e tampouco pretende deter o monopólio da felicidade, embora afirme que a encontra vivendo segundo Jesus Cristo. Assim, o facto de haver ateus só serve para reforçar a opção de liberdade que se encontra na base de uma vida cristã. Esperamos é que não sejam os próprios cristãos e as Igrejas a produzir ateus, com as suas atitudes desumanas e intolerantes, com a sua auto-suficiência e incapacidade de escutar os outros".

Enzo Bianchi, in “A diferença cristã”, Ed. Paulinas

sexta-feira, 2 de abril de 2010

2 de Abril de 1891. Nasce Max Ernst

Max Ernst (Brühl, Alemanha, 2 de Abril de 1891 – Paris, França, 1 de Abril de 1976), pintor alemão, surrealista, deixou-nos esta pintura. Nossa Senhora a bater no Menino. Até a auréola lhe salta.

Os três que espreitam pela janela são Max Ernst, Paul Éluard, André Breton, os três amigos surrealistas. Faltava Tristan Tzara.

O mal que nos fez Deus

Texto de D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, no Correio da Manhã desta sexta-feira. O último da sua autoria, como diz na última frase.


Que mal te fiz eu?

"Que mal nos fez Deus para o tratarmos mal, com indiferença, com comportamentos indignos?"

Quem hoje participar na celebração da Paixão ouvirá cantar com muita probabilidade, durante a adoração da cruz, os impropérios dirigidos por Deus ao seu povo. O texto completo do refrão assim repete: "Meu povo, que mal te fiz eu? Em que te contristei? Responde-me."

A enumeração dos benefícios operados por Deus contrasta com as atitudes do povo para com Jesus: "Libertei-te da terra do Egipto e tu preparaste uma cruz para o teu Salvador", "abri o mar diante de ti e tu abriste-me o peito com uma lança", "dei-te o ceptro real e tu colocaste-me na cabeça a coroa de espinhos…"

Que mal nos fez Deus para o tratarmos mal, com indiferença ou desprezo, com comportamentos indignos? Será que temos alguma tristeza, alguma mágoa proveniente de um acto de Deus? Aguarda resposta, pede argumentos justificativos das atitudes. Desafia: "responde-me". Considerei oportuno actualizar, neste dia, as possíveis razões de queixa de Deus aos crentes. Perdoem-me o atrevimento de dar voz ao silêncio de Deus:

Ofereci-te a beleza da criação e tu danificas a natureza e atentas contra a vida! Vives num universo imenso e reduzes os horizontes a ti próprio!

Muni o teu ser de inteligência e semeei-lhe o desejo da verdade, e tu matas a sede de procurar com ilusões e anestesias mentirosas. Criei-te para a relação, incluindo a vivência da sexualidade num projecto de vida humanizador, e tu não dominas nem vives com liberdade essa energia espantosa! Entreguei ao teu governo tantos bens da natureza e tu recusas-te a partilhá-los com generosidade!

Pensei-te apto para viver a alegria e escolher a felicidade, mas enredas e complicas o sentido da vida com múltiplos medos!

Rasgo na história sinais de esperança, em homens e mulheres que captam a direcção do futuro, e ficas mergulhado em olhares acusadores e mesquinhos!

Entendo cada ser humano, mesmo criminoso, porque percebo as cadeias da maldade colectiva, e estranho a forma justiceira com que atiras pedras! Distingo absolutamente o bem do mal, mas fico admirado como, recorrendo a meios de maldade obscura, tu destróis e abates a luz da bondade!

E Deus podia continuar…

Em Sexta-Feira Santa, no dia do quinto aniversário da morte de João Paulo II e de grande significado pessoal, com este artigo, suspendo a colaboração com este jornal. Obrigado aos leitores.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

Textos de referência sobre o escândalo da pedofilia


Sobre o escândalo da pedofilia tem havido um pouco de tudo, dos textos mais sensacionalistas aos mais sensatos. Daqui a uns tempos, dará uma boa tese ver como a imprensa portuguesa lidou com o caso. Entretanto, recolho aqui o texto de José Manuel Fernandes, que está entre os segundos.

O anterior director do "Público" faz referência a um texto de António Marujo que pode ser lido aqui. Ou aqui, se o sítio do "Público" já não o permitir.

Já agora, parecem-me pertinentes o texto de George Weigel, aqui, e uma resposta a "The New York Times", aqui, que como é sabido tem liderado a contestação a Bento XVI neste dossiê.

Haja tempo para ler tudo. E ponderar.

Revista "Sábado" encena "Última Ceia" de cozinheiros

A revista “Sábado” (31 de Março) convidou 12 chefs e fez com eles e com Bárbara Guimarães, no lugar de Jesus, uma “Última Ceia”. A revista diz que tem no seu sítio, na secção "Multimédia", um "making of" da produção. Eu não o encontrei.

Mais encenações da "Última Ceia" e outros usos aqui.

Acrescento de 7 de Abril de 2010: Bento Oliveira, leitor deste blogue e da "Sábado", encontrou o vídeo do "making of" no sítio da revista. Aqui. Obrigado.

Helena Matos: Pedofilia e anticlericalismo


Helena Matos, no “Público” de 1 de Abril, escrevia que “a sucessão de notícias sobre os casos de pedofilia na Igreja Católica torna a história de Sara de Matos muitíssimo actual”. Contextualizando: A sepultura de Sara de Matos (morreu em 1891), no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, foi durante muito tempo local de peregrinação de republicanos (da I República Portuguesa). A jovem, interna de um colégio de jesuítas, morreu aos 14 anos, vítima de dois crimes: violação por um jesuíta e envenenamento por uma freira, que teria procurado camuflar a violação. Helena Matos diz que não faz ideia sobre quem teve ou não culpa da morte de Sara de Matos. E escreve:
“Tenho para mim que as violações, abusos e os crimes mais hediondos podem acontecer em qualquer meio seja ele laico ou religioso e não vejo portanto que o clero católico ou doutra fé goze duma qualquer superioridade que o torne imune a estes actos. Do que já faço alguma ideia é de que a reacção perante a pedofilia e os abusos sexuais varia em função do perfil de quem a ela é ou foi associado como responsável: se for cineasta terá abaixos-assinados de apoio; se for político os seus pares podem levar a protecção institucional até à alteração de leis de modo a que os casos sejam arquivados; se for um cidadão comum será provavelmente recebido por multidões em fúria à porta do tribunal e caso seja agredido na cadeia toda a gente achará que isso faz parte do código de honra dos presos (donde se presume que quem administra as cadeias não tem um código de honra que lhe imponha impedir que os detidos se agridam uns aos outros). Se for padre é imediatamente dado como culpado. Não menos importante, segundo este raciocínio, o actual Papa foi e é responsável por esses crimes”.
E o artigo da página 37 (acessível on-line apenas por assinatura) termina: “Portugal não ganhou nada com a expulsão dos jesuítas ou das outras ordens. Mas é importante perceber que o anticlericalismo é na Europa (como noutros locais o é o fundamentalismo religioso) um poderoso cimento ideológico quando faltam ideais e ideias à República. Coisa que manifestamente aconteceu no início do século XX e acontece nos dias de hoje”.

João Paulo II morreu há cinco anos

João Paulo II, nascido Karol Józef Wojtyla (Wadowice, Polónia, 18 de Maio de 1920), foi Papa de 16 de Outubro de 1978 até à data da sua morte, 2 de Abril de 2005.

Por estes dias tenho ouvido suspiros de saudades por este Papa. Mas agora temos outro.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

1 de Abril de 304. Morre o Papa Marcelino

Diocleciano. O imperador romano do tempo de Marcelino

Marcelino foi para de 30 de Jungo de 296 a 1 de Abril de 304. Durante o seu pontificado houve a perseguição de Diocleciano. Passados cem anos, no tempo de Agostinho, surgiu o boato, espalhado pelos donatistas, de que Marcelino teria queimado incenso a deuses pagãos. Agostinho refuta, claro.

A Bíblia e a tentação

O "Público" de hoje diz que Marvin Gaye, "de personalidade turbulenta, dividida entre a Bíblia e a tentação carnal, era cavalheiro irrepreensível que podia transformar-se em homem irado".

Morreu no dia 1 de Abril de 1984 (faria 45 anos no dia seguinte), com dois tiros dados pelo seu próprio pai, ao intrometer-se numa discussão entre pai e mãe. O pai era um "rígido pastor cristão". O revólver tinha-lhe sido oferecido por Marvin Gaye.

Canta, ó língua - hino para esta quinta

Hoje é Quinta-feira Santa, dia em que os cristãos vivem a instituição da Eucaristia naquela que foi a Última Ceia de Jesus e a primeira de uma série que ainda hoje continua sempre que se celebra a missa. Aliás, alguns dizem que as missas actuais são apenas – e é muito – participação da única Última Ceia.

O cântico “Pange língua”, “Canta, ó língua” é atribuído a Tomás de Aquino (1225-1274).

Canta, ó língua, o mistério
deste Corpo glorioso,
e do Sangue precioso
derramado sobre o mundo,
fruto de ventre fecundo,
Rei de todas as nações.

Foi-nos dado e nasceu
para nós da Virgem pura.
Nesta terra, Ele desceu,
semeou sua Palavra.
Cumprindo aqui o seu tempo,
grande sinal nos deixou.

Na noite santa da Ceia,
com os irmãos, reunido,
observando todo o rito
daquilo que é prescrito,
por suas mãos, em alimento,
aos doze, se entregou.

O Verbo encarnado torna
pelo seu Verbo, pão e vinho,
no seu Corpo e no seu Sangue.
Para além do entendimento,
a fé é o suficiente
do sincero coração.

Este grande sacramento,
inclinados, adoremos;
os antigos manuscritos
dão lugar a novo rito.
Sirva a fé de complemento
na fraqueza dos sentidos.

Seja dado ao Pai e ao Filho,
o louvor, o júbilo,
saudação, honra, virtude
assim como a bênção.
Ao que de ambos procede
demos o mesmo louvor.
Ámen.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...