quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

"Os mestres" de Paulo Varela Gomes

No “Público” de sábado passado (13 de Fevereiro), um artigo de Paulo Varela Gomes (que não conheço, mas cujos textos aprecio imenso) sobre uma obra que deve ser excepcional. Quando eu for a uma das quatro bibliotecas portuguesas que a têm, tentarei pôr-lhe os olhos em cima.

Escrito por beneditinos (paciência de beneditino!), o "Dicionário de Arqueologia Cristã e de Liturgia" consta de 30 volumes e foi publicado em Paris entre 1903 e 1940. E não havia Google, nem computadores.

A raiz do mal

Hoje começa a Quaresma. Um tempo para lembrar - porque está esquecido - que "a injustiça não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal" (Bento XVI, na Mensagem para a Quaresma de 2010).

17 de Fevereiro de 1600. Morre Giordano Bruno, na fogueira

Giordano Bruno (Nola, 1540 – Roma, 1600) foi condenado à morte na fogueira pela Inquisição Romana. A execução da pena deu-se no dia 17 de Fevereiro de 1600 no Campo dei Fiori, em Roma. O local está assinalado por uma estátua de Giordano Bruno (na imagem), mandada erigir pelos maçons italianos (hoje é dia de maçons, esotéricos e panteístas se juntarem à volta da estátua).

Frade dominicano até 1576 (num convento perto de Nápoles, onde Tomás de Aquino ensinara), Giordano Bruno andou pela Europa (Paris, Londres, Praga, Frankfurt...) até ser preso e condenado pelas suas ideias heréticas, após oito anos de prisão, embora os termos da condenação não sejam precisos. Os registos desapareceram. Não foi, no entanto, por causa do heliocentrismo. Talvez se pense isso por contágio do caso Galilieu. Aliás, Galileu e Kepler, nos seus escritos, não são nada simpáticos para com Bruno, tal como um protestante, que afirmou: “Um homem de grande capacidade, com infinitos conhecimentos, mas sem ponta de religião”.

O que estará na origem da condenação terá sido o sistema panteísta de Bruno, em que Deus se confunde com o universo – por isso há quem veja em Bruno um antecessor de Espinoza e Hegel. Giordano Bruno defendia também um universo infinito e infinitos mundos habitados, além da transmigração das almas. Hoje continua a ser apreciado nos círculos esotéricos. Os seus escritos, em latim, estão aqui.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Clássicos 24 - "A Nuvem do Não-Saber"

(Primeiro parágrafo) “Meu amigo espiritual no Senhor, desejo levar-te a compreender que existem, segundo o modo de ver grosseiro que é o meu, quatro graus ou tipos de vida cristã, a saber: comum, especial, singular e perfeito. Três destes começam e acabam neste mundo; o quarto pode, por graça de deus, começar aqui, mas durará para todo o sempre, na bem-aventurança celeste. E assim como tos apresento aqui por ordem, um após outro – primeiro o comum, depois o especial, em seguida o singular e finalmente o perfeito -, assim também me parece que, pela mesma ordem e sucessão, nosso Senhor, na sua infinita misericórdia, te chamou e conduziu a Si, pelo desejo do teu coração”.

A nuvem do não-saber | Anónimo do séc. XIV | Assírio & Alvim | 2006 | 200 páginas | Prefácio de José Mattoso | Tradução e notas de Lino Correia Marques de Miranda Moreira, o.s.b.

Escreve Mattoso no Prefácio deste livro: “O título, na sua simplicidade, sugere qualquer coisa de esotérico e, por isso, também atrai não poucos leitores que andam sempre à procura de segredos ocultos e poderes invisíveis, pessoas inquietas e de curiosidade insaciável, que tudo experimentam mas em nada se demoram. Todavia, quando se folheiam as suas páginas, descobre-se um texto simples, directo, coloquial, que fala de Deus e da oração, e que, à primeira vista, se pode, até, tomar por uma obra devota como muitas outras do mesmo género, escritas para edificar o leitor sem recursos complicados, eventualmente susceptível de ser lida quase como entretenimento”. Os leitores mais atentos, porém, descobrem palavras e frases pouco vulgares, recomendações contra “ilusões enganadoras” e “numerosos desvios”, que indicam uma autenticidade e um caminho para Deus.

16 de Fevereiro de 1928. Nasce Pedro Casaldáliga

Pedro Casaldáliga, bispo no Brasil desde 1971, nasceu perto de Barcelona em 16 de Fevereiro de 1928. Faz hoje 82 anos. Actualmente está muito doente. Sofre de Parkinson e diabetes. E as oito malárias que teve ao longo da vida também não serão alheias à debilidade.

Mas continua lúcido como sempre. Veja-se a reportagem da TVE em 2005, pouco depois de ter deixado os comandos da diocese de São Félix do Araguaia, território em grande parte povoado por indígenas.

Defensor dos indígenas (e crítico também de Lula nesse campo) e anticapitalista, Casaldáliga é dos nomes mais destacados da Teologia da Libertação. Concorde-se ou não com as suas posições (as suas cartas a Fidel Castro esquecem os aspectos mais negros), ninguém lhe nega a coerência e a voz profética que é.

Várias vezes ameaçado de morte, dele disse Paulo VI: “Quem toca em Pedro, toca em Paulo”.

Os seus escritos, cartas, poemas, circulares, entrevistas, em português e espanhol, estão todos na sua página pessoal, tudo disponível, tudo gratuito, claro, aqui.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Um rico chega ao reino dos céus e...

Era uma vez um homem rico que estava moribundo. Tinha um grande desgosto porque trabalhara duramente para ganhar o seu dinheiro e gostaria de poder levá-lo consigo para o céu. Assim, começou a rezar para poder levar um pouco da sua riqueza.
Um anjo ouviu as suas preces e apareceu-lhe.
- Lamento, mas não podes levar a riqueza contigo.
O homem implorou ao anjo que falasse com Deus para saber se Ele poderia contornar as regras.
O anjo reapareceu e anunciou que Deus tinha decidido abrir uma excepção e que o deixaria levar uma mala de viagem. Cheio de alegria, o homem foi buscar a sua maior mala, encheu-a de lingotes do mais puro outro e colocou-a ao lado da cama.
Pouco depois, morreu e chegou às portas do paraíso.
Ao ver a mala, São Pedro disse:
- Um momento, não podes trazer isso para cá!
Mas o homem explicou a São Pedro que tinha autorização e pediu-lhe que confirmasse a sua história com o Senhor.
Como não podia deixar de ser, São Pedro voltou e disse:
- Tens razão. Podes trazer uma mala, mas eu tenho de verificar o conteúdo antes de a deixar passar.
São Pedro abriu a mala para inspeccionar os artigos mundanos que o homem considerava demasiado preciosos para deixar para trás e exclamou:
- Trouxeste pavimento?

15 de Fevereiro de 1775. É eleito Pio VI

Pio VI (Giovanni Angelo Braschi) foi eleito no dia 15 de Fevereiro de 1775 (nasceu em Cesena, Itália, no dia 25 de Natal de 1717, e morreu em Valença do Ródano, França, no dia 29 de Agosto de 1799). Foi o Papa da Revolução Francesa.

Impulsionou obras importantes em Itália (como a drenagem de pântanos) e opôs-se às intromissões eclesiais de José II da Áustria. Sofreu o embate da Revolução Francesa, feita contra o rei, a nobreza e o clero. Sobre a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, Pio VI afirmou: "Há alguma coisa mais disparatada do que declarar uma tal igualdade e liberdade para todos?"

Pio VI morreu em França, depois de um penosa viagem pela Itália, quando estava em poder dos revolucionários. Consta que perdoou os algozes. Os seus restos repousam no Vaticano.

João Paulo II escreveu em 1999, no segundo bicentenário da morte deste Papa, uma mensagem dirigida ao bispo de Valença:

Os últimos meses de Pio VI foram o seu caminho de cruz. Com mais de oitenta anos, gravemente atingido pela doença, ele foi arrancado da sede de Pedro. Em Florença pôde gozar durante algum tempo duma relativa liberdade, que lhe permitiu exercer ainda a sua responsabilidade de Pastor universal. Depois, foi obrigado a atravessar os Alpes pelos caminhos nevados. Chegou a Brainçon, em seguida a Valença, onde a morte pôs termo à sua viagem terrestre, fazendo com que alguns acreditassem que com ela acabassem a Igreja e o papado. Convém recordar aqui a palavra de Cristo a Pedro, que corresponde àquilo que viveu o Papa Pio VI nesse ano de 1799: «Quando fores velho, estenderás as tuas mãos e outro te cingirá e te levará para onde tu não queres» (Jo 21, 18).

Pio VI aceitou a provação com serenidade e na oração, e no momento da sua morte perdoou aos seus inimigos, suscitando-lhes assim admiração. Entretanto, aos seus sofrimentos físicos acrescentou-se um tormento moral a respeito da situação eclesial. Apesar dos transtornos que a França então atravessava, ele recebeu numerosos e comovedores sinais de respeito, de compaixão e de comunhão na fé por parte das pessoas simples, ao longo de todo o caminho, em Briançon, Grenoble e Valença. Por mais humilhado que tenha sido o pai comum dos fiéis, como lhe chamava o poeta Paul Claudel, era reconhecido e venerado pelos filhos e filhas da Igreja. Este acolhimento simples e afectuoso naquelas circunstâncias dramáticas, é uma consolação para todos.

A mensagem de João Paulo II pode ser lida na íntegra aqui.

"Na Mão de Deus" - poema de Quental

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero Tarquínio de Quental (1843-1891)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Qual a sua ideia de paraíso?, na "Ler"

A revista "Ler" também tem a sua pergunta sobre o paraíso (como o DN aos sábados, aqui). Em concreto: "Qual a sua ideia de paraíso?"

* Diogo Madre Deus, editor da Cavalo de Ferro, respondeu assim, em Dezembro de 2009: "Em lugar sem tempo nem memória".
* Miguel Guedes, vocalista do Blind Zero, respondeu assim, em Janeiro de 2010: "Um sítio não cronometrado, pintado a cores suaves e com uma sala vermelha. Com gente. Perfeitamente possível até à minha morte".
* E Ana Bacalhau, vocalista dos Deolinda, respondeu assim, em Fevereiro de 2010: "Almejar pelo paraíso na Terra é pôr o carro à frente dos bois".

O que faz o arcebispo de Viena no dia dos namorados?

Num livro saído recentemente, o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, conta o que faz no dia 14 de Fevereiro:

“No dia de São Valentim, patrono dos apaixonados, distribuímos cartas de amor, de Deus, dirigidas à sua mais bela ideia: tu! Actualmente, fazemos duzentas mil cartas que os nossos diocesanos – incluindo o bispo, os colaboradores, o vigário-geral… - distribuem nas estações de metro, para dizer às pessoas: «Uma carta de amor para si!»” Por vezes há diálogo; outras vezes, as pessoas passam simplesmente. Quase todas aceitam. No envelope vai uma carta manuscrita de Deus e dirigida «a ti», com uma folhinha que convida para locais de oração, uma vigília de misericórdia, etc.”

Cardeal Christoph Schönborn, “A alegria de ser padre” (ed. Paulinas), pág. 99-100.

Reflexão em “dia de São Valentim”

O impulso religioso manda acreditar e ter fé, enquanto o impulso filosófico manda que se duvide e questione. Os amantes sabem que preferem estar errados e apaixonados e estar na dúvida e sem amor. Preferem acreditar a duvidar. Tomo este reflexão emprestada de Alain de Botton (“Ensaios de Amor”, ed. D. Quixote).

Mas são só os amantes que pensam daquele modo? Olha-se para todo o lado e parece que as pessoas preferem viver na ilusão, na mentira, na virtualidade, na medicação desde que sejam felizes a viver pura e simplesmente na realidade (mas quem poderá dizer o que ela é?), com dúvida, dor e desilusão.

Se a fé ainda fosse ópio, os tempos estariam bons para a fé. Mas a fé afirma-se como principal aliada da verdade (veja-se Bento XVI e o combate ao relativismo, o elogio da verdade, a qual, no último momento cede para Aquele único que está acima da verdade). Os tempos estão tão maus para a fé como para a verdade. E a vontade quer outras coisas, com o impulso filosófico a dizer-lhe que tudo vale desde que queira que valha. O impulso religioso cristão manda que se acredite na verdade. O impulso filosófico manda que se duvide da verdade e se ceda à vontade. Caminhos confusos os nossos.

Bento Domingues: Para a Quaresma

Bento Domingues, no "Público" de 14 de Fevereiro de 2010, comenta a carta ao Papa do jesuíta Henri Boulad (ler também aqui), critica os que dizem que “fora da paróquia – ou do seu grupo - não há salvação” e lembra que a Quaresma é um período “dedicado à revisão dos critérios de vida de nós todos”.

14 de Fevereiro de 1349. Massacre de judeus em Estrasburgo

No dia 14 de Fevereiro de 1349, milhares de judeus são massacrados em Estrasburgo, que então pertencia ao Sacro Império Germânico. Os judeus são bodes expiatórios para a peste negra. A tragédia ficou conhecida por “massacre de São Valentim”.

O quadro é de Eugène Beyer (1817-1893) e está no Musée Historique de Strasbourg.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Para não esquecer o Vaticano II

"Apóstolos no Concílio", pintura de Jean Guitton

"Por certos aspectos, sou ainda um teólogo feliz, mas, por outros, sou um teólogo triste, porque algumas coisas que acontecem na Igreja causam-me tristeza. Vejo que o espírito do vaticano II se está a enfraquecer". A frase é de Schillebeeckx , citado por Francesco Strazzari, na Além-Mar de Fevereiro de 2010.

O II Concílio do Vaticano parece cada vez mais esquecido. Pelo menos é o que se diz. Os cardeais jesuítas Carlo Maria Martini e Roberto Tucci criaram, por isso, com mais sete teólogo, o sítio Viva il Concilio - para "promover e valorizar o Vaticano II".

Anselmo Borges: Haiti. Onde estava Deus? (1)

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


Haiti. Onde estava Deus? (1)


Não há palavras suficientes e sobretudo suficientemente fortes para descrever a tragédia do Haiti: mais de duzentos mil mortos, mais de um milhão de desalojados, fome, pilhagens, órfãos sem conta, rapto de crianças, o desabar de um resto de Estado, o buraco negro e roto do futuro... O horror pura e simplesmente!

E muitos, alto ou lá no íntimo, gritaram: Onde estava Deus, onde está Deus no Haiti? A pergunta constantemente repetida ao longo da História: Onde estava Deus no Gólgota?, onde estava Deus no terramoto de Lisboa, no tsunami da Indonésia?, onde estava Deus em Auschwitz?...

Este clamor acompanha a história da filosofia, desde que Epicuro por volta do ano 300 a. C. e, depois, Pierre Bayle, no iluminismo, atenazaram o pensamento neste domínio. Deus deve ser omnipotente e infinitamente bom. Assim, como explicar o mal? Ou Deus pôde evitá-lo e não quis: então, não é infinitamente bom. Ou quis, mas não pôde: então, não é omnipotente. Ou não pôde nem quis: então, não é Deus. Ou pôde e quis: então, porquê o mal?

As tentativas de resposta sucederam-se. Leibniz inventou inclusivamente a palavra teodiceia, que significa precisamente "justificação de Deus", no "Essai de théodicée" (Ensaio de teodiceia). Aí, argumentava que este mundo não é óptimo nem perfeito, mas, sendo Deus infinitamente bom, omnipotente e omnisciente, é o melhor dos mundos possíveis. O ensaio foi publicado em 1710, tornando-se quase um manual da Europa culta. Mas bastaram 45 anos - o terramoto de Lisboa foi em 1755 - para que Voltaire ironizasse sobre ele no "Cândido ou o Optimismo". E Kant, em 1791, escreveu um pequeno tratado com o título "Über das Misslingen aller philosophischen Versuche in der Theodizee" ("Sobre o fracasso de todas as tentativas filosóficas na teodiceia").

Como pode, de facto, a razão humana finita justificar Deus perante o mal? Aliás, constituiria crueldade cínica avançar para junto de quem sofre os horrores do mal com explicações teóricas. De qualquer modo, frente ao mal, o crente percebe que Deus não é omnipotente nem infinitamente bom ao modo do pensar humano e que afinal a fé é mais um combate do que uma consolação e que esse combate tem a sua prova na praxis solidária com quem sofre.

Num documento sobre a tragédia do Haiti, a Associação de Teólogos João XXIII lamenta que se continue à procura do Deus-relojoeiro de Newton, ajustando a maquinaria do universo, e que não se acabe com o pedido de milagres naturais a Deus - que mande chuva, que evite os tsunamis, que faça prodígios -, um Deus-providência ao nosso serviço, um superpai que nos proteja da natureza e das suas leis, esquecendo que "Deus não interveio para evitar o Gólgota nem Auschwitz nem evitou pestes, fomes e outros desastres".

Em que Deus acreditam então? "Cremos que o mal é também um mistério que dificilmente encaixa na imagem de um Deus omnipotente e misericordioso, sobretudo quando se traduz em sofrimento dos pobres e inocentes." Crêem no Deus que não tem ciúmes do ser humano e lhe deu capacidade criadora - talvez a ciência possa vir a prever os terramotos - e responsabilidade no mundo. Deus defende os pobres e oprimidos e abençoa os que trabalham pela justiça e pela paz.

"Deus não é neutral, está no Haiti nas vítimas e em todas as pessoas que ali trabalham solidariamente", identifica-se com as vítimas, fazendo delas o critério do juízo divino: "Destes-me de comer, de beber, de vestir..." Ninguém tem o direito de falar em seu nome, "só elas e quem partilha os seus sofrimentos. Mas podemos e devemos todos tornar-nos presentes no Haiti, atender às necessidades urgentes dos haitianos e colaborar na sua reconstrução".

Mas não basta. "O Haiti personifica hoje os povos crucificados"; temos todos de mudar, e a referência ao Deus de Jesus há-de ser "o grande acicate de justiça e solidariedade" num mundo cuja ordem internacional "está montada sobre a concentração da riqueza em 20% da humanidade e o desamparo de boa parte dela".

13 de Fevereiro de 2000. Última tira de Snoopy e companhia

Charles Schulz morre no dia 12 de Fevereiro de 2000, aos 77 anos. No dia seguinte, publica-se a última tira dos “Peanuts”. Há 10 anos. Acaba a série do rapazinho, Charlie Brown, que "tenta desesperadamente integrar-se", que mendiga felicidade e solidariedade, que "leu os revisionistas freudianos à procura da harmonia perdida" - tudo expressões de Umberto Eco.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Os três melhores desejos para pedir ao génio

Há muitas histórias do génio que concede três desejos. Uma delas diz assim (pode ser budista ou cristã, se bem que uma tradição religiosa tende a suprimir o desejo, enquanto a outra pensa mais em redireccioná-lo ou sublimá-lo):

O génio é libertado e diz ao que encontrou a lâmpada:
- Formula três desejos que eu os executarei. Qual é o primeiro?
- Quero que me tornes suficientemente inteligente para que eu possa escolher na perfeição os dois desejos seguintes.
- Concedido - disse o génio. - E agora, quais são os teus outros desejos?
- O pescador reflectiu uns momentos e respondeu:
- Obrigado. Não tenho mais desejos.

Das escutas à escuta

A crónica de D. Carlos Azevedo no "Correio da Manhã" parte das escutas, que por estes dias andam pelos jornais, para chegar à escuta que é própria do tempo quaresmal.




À escuta

Desde há uns meses que o assunto das escutas ocupa grande espaço na comunicação portuguesa, com perversa confusão entre meios e fins, condenação dos modos e acolhimento dos resultados. O que não se devia saber publicamente faz-se notícia e revela sentimentos, carácter, comportamentos de pessoas responsáveis pelo bem público. A lentidão do sistema judicial contrasta com a celeridade dos boatos. A dedicação ao bem comum do país é desviada para a defesa pessoal dos visados. Eis o que produzem as escutas: uma murmuração em cadeia, uma grande baralhada que promete durar, porque o gosto por mexer na porcaria é próprio de alguns animais!
Esta introdução serve para abrir o tema da escuta, da criação de silêncio, próprio do tempo quaresmal, a iniciar na próxima quarta--feira pelos cristãos. Deus é a Palavra, nós somos escuta: e a escuta pressupõe o silêncio, isto é o despojamento de todas as vozes que nos distraem da escuta, sejam aquelas que partem do nosso coração ou da nossa inteligência, sejam aquelas que entram em nós, usurpando um lugar indevido...
É difícil falar de silêncio num mundo habituado ao barulho. Não é grande prova o silêncio sobre um monte deserto, onde tudo nos convida à harmonia com a terra, o céu, as estrelas, as flores, o vento. Sem o silêncio, o ser humano morre de fome, não fome de pão, mas de escuta da Palavra do Senhor (Amós 8,11).
O silêncio cria à volta de nós o clima de deserto levando-nos à nobre e necessária solidão. O valor justo da solidão é o contrário de um isolamento, de uma distância aristocrática, de uma presunção auto-suficiente. A solidão do deserto é contínua procura de água, de lugar de encontro, de oásis. Deus atrai ao deserto para se revelar, para falar ao coração, para fazer conhecer o Seu desígnio. No deserto aprende-se a ter sede e a organizar a própria vida, dirigir o próprio caminho. É a experiência de que só Deus basta: pobreza radical e plenitude perfeita.
A fuga diante da solidão, a murmuração no deserto, a procura quase nevrótica do dia cheio, da actividade, da distracção e da companhia testemunham a incapacidade de viver sem débeis apoios e como Deus não aparece guia absoluto dos passos incertos, atento a qualquer grito ou a qualquer desequilíbrio.
As escutas lusitanas, aludidas no início, apelam a murmuração, impedem a escuta dos apelos profundos do Portugal real. O tempo de Quaresma, marcado pela escuta da Palavra, permitirá passos novos, Páscoa verdadeira.
Fonte: CM

Todos os labirintos começam e terminam no coração do homem

"Quanto eu gosto de ver no chão das catedrais (Chartres) ou nas traves da nave principal (Lucca) um labirinto gravado! Houve um tempo em que os homens sabiam que a imagem do caminho é a figura da própria existência. Mas no tempo das vias de comunicação globais e das altíssimas velocidades, perdemos o saber das viagens profundas.

Todos os labirintos começam e terminam no coração do homem, mas este tem vastidões que ignoramos, desertos que só pressentimos, silêncios maiores que todo o silêncio, aberturas para muito longe. Raramente nos dispomos a percorrer semelhante paisagem. Os seus caminhos são duros, de uma esperança estreita e áspera, mas também purificadora. Reconduzem o coração, escravo de tantas dispersões, à utopia de um centro. Permitem refundar a vida. Morte e renascimento; cruz e ressurreição; inverno e primavera.

Peregrinar é aceitar percorrer nas estradas de hoje o antiquíssimo labirinto penitencial que as catedrais tinham gravado: redescobrir pelo apagamento a verdade do que se é; experimentar na pobreza o sentido do que se possui; reinventar na errância o endereço das construções sedentárias que nos motivam; medir no eterno a direcção do provisório."

José Tolentino Mendonça
(copiado do dia 2 de Fevereiro do equinócio de outono)

Googlar antes de twitar

A leitura do jornal pela manhã substituiu a oração dos conventos, o toque de matinas, como que diz Hegel. "Video killed the radio star". "Times are a-changin", Dylan dixit. E agora já nos dizem que o dever de googlar antes de twitar é o novo "pensa antes de falar". Visto na Estação Cronográfica.

Bento XVI e os abusos sexuais

Programa para a breve folga da Páscoa, um destes dias: ler o que escreveu o bispo emérito de Roma, Bento XVI, sobre os abusos sexuais. As ...