quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Tradicionalistas, estudem latim – pede o cardeal Ravasi



O Cardeal Ravasi pede aos tradicionalistas para estudarem latim. Imagino que ele considera que o latim é uma bandeira dos tradicionalistas e é claro que sabe que alguns não tradicionalistas podem interpretar a promoção do latim "como um exercício que busca voltar ao velho, ao obsoleto". Por isso, além de esclarecer o porquê da incentivo do latim (por questões de herança e de cultura) afirma: «Acima de tudo, comecemos por pedir aos chamados “tradicionalistas” que voltem a estudar o latim, porque muitas vezes eles querem que as missas sejam em latim, mas provavelmente conhecem pouco a língua. Tive a experiência com alguns que, apesar de celebrar com força o rito da missa ou da liturgia em latim, não conseguiam decifrar alguns pontos precisos da língua». Realmente, para alguns, basta um livrinho com latim de um lado e português do outro (mas se é para compreender, porque não missa em português e um livrinho com tradução em latim?). 

Copiei daqui a seguinte entrevista.

Instituída no dia 10 de novembro com a carta apostólica “Latina Língua”, a academia tem como objetivo principal “oferecer um conhecimento maior e um uso mais competente da língua latina, tanto no âmbito eclesial como no mais vasto mundo da cultura”. Em entrevista ao Vatican Insider, o próprio Ravasi explicou os alcances reais desta iniciativa.
Qual é o significado da criação desta Pontifícia Academia Latinitatis?
Não queremos somente recuperar a grande herança do passado composta de cultura, literatura, pensamento, teologia e filosofia expressada em latim, queremos que o latim retorne, sobretudo, aos seminários, para que os seminaristas possam ter a possibilidade de compreender no texto original os documentos fundamentais e talvez alguma página dos padres da Igreja. Por outro lado, queremos também que nas escolas de todos os países do mundo o latim seja recuperado, porque permite compreender a cultura contemporânea já que sua estrutura – embora conhecida em seus componentes básicos – é uma ajuda para bem pensar, refletir e raciocinar com qualidade.
Como evitar que isto seja considerado como um exercício que busca voltar ao velho, ao obsoleto?
Acima de tudo, comecemos por pedir aos chamados “tradicionalistas” que voltem a estudar o latim, porque muitas vezes eles querem que as missas sejam em latim, mas provavelmente conhecem pouco a língua. Tive a experiência com alguns que, apesar de celebrar com força o rito da missa ou da liturgia em latim, não conseguiam decifrar alguns pontos precisos da língua.
 Como é evidente, a cultura ocidental, sobretudo aquela dos idiomas europeus mediterrâneos, foi fundada sobre o latim. Algo similar ocorre com o direito e a linguagem científica, ainda hoje os nomes dos fármacos, por exemplo, derivam dessa língua morta. A cultura nobre em geral tem necessidade do latim para compreender o significado profundo de algumas palavras da própria linguagem. Mas, sobretudo, o latim pode estimular a usar muito mais a racionalidade.
Esta Academia substituirá a fundação vaticana Latinitas, que na realidade não funcionava há anos. Como evitar que esta nova iniciativa se perca como a anterior?
Essa era um pequeno cenáculo que buscava reverdecer o uso do latim, mas a utilização prática desta língua é apenas funcional a algumas questões específicas. Não se pode falar em latim, está morto como língua. Pode-se aplicá-lo ainda para algumas formulações, diversas expressões ou como língua solene da Igreja, em algumas ocasiões.
 De maneira particular devemos recordar que esta Academia será constituída por acadêmicos procedentes de todo o mundo, que falam diversos idiomas, da Austrália, Estados Unidos ou Canadá. Serão tantas chamas espalhadas que querem propor novamente o passado e seus valores.
Então, o objetivo principal da Academia não é o uso frequente do latim?
Algumas vezes se poderá fazer, especialmente em nível didático. Sempre com a finalidade de aprender, mediante esta língua, um modo de pensar com rigor.

Indignação e ação

A indignação poderia estar em condições de nos dar boa consciência. No entanto, não dispensa a ação.

Abbé Pierre, 1994

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Babel - 2


Parecem americanos, com banjos e bandolins na música, mas são ingleses. Há inspiração religiosa na música deles e até se diz por aí que se inspiram em Bono (U2) para fazer referências espirituais que o mundo pós-cristão ainda pode perceber.

O burro, a vaca e a construção europeia

Ontem, no "Diário Económico". O burro e a vaca são só o pretexto. Opinião pertinente sobre a União Europeia.

Andam juntos

Não há amor onde não há liberdade.

Abbé Pierre, 1993

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Papa bem tenta harmonizar os dois relatos da infância de Jesus. Mas é bem sucedido?

Tenho estado a ler o livro de Joseph Ratzinger / Bento XVI, que é uma leitura agradável, mas sem grande novidade. Também não é isso que se pede a um teólogo que não é biblista nem cristólogo. Como de algum modo já era previsível, no seu combate claramente afirmado nas obras anteriores pela continuidade entre o Jesus da história e o Cristo da fé, o Papa bate-se pela historicidade de fundo dos relatos da Infância de Jesus – e não dos aspetos epidérmicos, como o do burro – e é esse precisamente o ponto mais rebatido das críticas dos especialistas. É esclarecedor o texto de Vito Mancuso no “La Repubblica” (tirado daqui):
Nos Evangelhos, há dados historicamente certos ao lado de elaborações simbólicas historicamente não confiáveis, e a tarefa da exegese histórico-crítica consiste em distinguir as duas dimensões. 
 
Certamente, entre Mateus e Lucas, há elementos comuns: a identidade dos pais, o anúncio evangélico, a concepção de Maria sem relações sexuais com o marido, o nascimento em Belém sob o reinado de Herodes, a transferência para Nazaré. Mas também há discordâncias que não podem ser harmonizadas: antes do nascimento de Jesus, Maria e José ou residiam em Nazaré (Lucas) ou residiam em Belém (Mateus); a sua viagem de Nazaré a Belém ou aconteceu (Lc) ou não aconteceu (Mt); Jesus nasceu ou na casa dos pais (Mt) ou em uma manjedoura (Lc); o massacre das crianças de Belém ou aconteceu (Mt) ou não aconteceu (Lc); os pais ou fugiram para o Egito para salvar o menino dos soldados de Herodes (Mt) ou foram ao templo de Jerusalém para a circuncisão sem que os soldados de Herodes se preocupassem com o menino (Lc); a família de Belém ou voltou logo para casa em Nazaréda Galileia (Lc) ou foi para Nazaré só depois de ter estado no Egito e pela primeira vez (Mt). 
 
Além disso, está a questão de como a notícia da concepção virginal chegou aos evangelistas. O papa se inclina pela "tradição familiar" (p. 65), no sentido de que teria sido Maria que comunicou aos discípulos o extraordinário evento de ter concebido o filho sem relações sexuais. Mas, se realmente tivesse sido assim, não se explicaria a escassa atenção do Novo Testamento a Maria, incluindo o livro dos Atos dos Apóstolos escrito justamente por Lucas, que a menciona somente uma vez e quase de passagem, enquanto dá muito mais espaço não só a Pedro e a Paulo, mas até mesmo a personagens secundários como Lídia, a comerciante de púrpura. 
É crível, talvez, que Lucas, sabendo diretamente de Maria sobre a concepção extraordinária de Jesus, a ignore completamente nos Atos, sem escrever nada sobre onde ela vivia, o que fazia, como terminou a sua vida terrena e sem nunca ter lhe dado a palavra sequer uma vez? Tudo isso leva a duvidar muito do que o Papa sustenta. 
Ratzinger, porém, não gosta do método histórico-crítico; considera-o prejudicial para a fé e, talvez por isso, no seu livro, ele nem menciona o autor do estudo mais importante sobre os evangelhos da infância, o já citado Raymond Brown, sacerdote católico, por muito tempo membro da Pontifícia Comissão Bíblica. 
Brown conclui assim a sua obra monumental sobre os evangelhos da infância: "Qualquer tentativa de harmonizar as narrações a ponto de fazer delas uma história coerente está fadada ao fracasso" ("La nascita del Messia" [O Nascimento do Messias], Assis, 1981, p. 677). 
Ratzinger nem menciona Brown, mas justamente por isso a sua obra, apesar de algumas belas páginas de corte espiritual, vai ao encontro do destino prefigurado pelo grande biblista norte-americano.
Acrescento que esperava que o Papa citasse na bibliografia um dos melhores livrinhos que li (bem, li poucos) sobre os quatro capítulos evangélicos em causa: "Dios ha enviado a su hijo? El misterio de Navidad", de Rudolf Schnackenburg (na Herder, original em alemão de 1990), que era padre católico e um dos maiores especialistas no Novo Testamento. Mas não afina pelo diapasão do Papa. 

Sabedoria afonsina

Muito me tenho rido por estes dias com a sabedoria bíblica de Afonso Cruz (bíblica, borgiana, mítica, kazaniana, etc.) na "Enciclopédia da Estória Universal". Três exemplos em três frases:

O primeiro fóssil foi a serpente do Génesis: fossilizou-se nas nossas costas.
(Ari Caldeira, Subcamadas da Anatomia Humana)

Os homens caminham sobre duas pernas, mas a sua alma tem quatro patas.
(Tal Azizi)

E esta de inspiração ireneo-feuerbachiana, sobre a qual (frase) muito se pode pensar:

Deus, antes de existir, criou o Homem para que este criasse Deus.
E só assim, poderia Deus criar o Homem.
Evidentemente, para que este criasse Deus.
(Adamo Scarpone)

João XXIII e os decotes

Perguntaram a Giuseppe Roncalli, quando era núncio em Paris:
- Não fica incomodado quando, nas cerimónias oficiais, as senhoras se apresentam muito decotadas?
O futuro João XXIII respondeu:
- Eu não olho para elas e tenho verificado que todos os outros homens, quando elas entram, em vez de olharem para elas, olham precisamente para o núncio a ver o que faz.

João César das Neves sabe como detetar os novos hitleres


Peter Berger. Será este homem mais perigoso do que Hitler?

João Cesar das Neves, no DN de hoje (26-11-2012), dá a conhecer uma obra que deve ser interessante.
No seu recente livro “The Triumph of Christianity” (HarperOne, 2011) o reputado sociólogo da religião Rodney Stark faz um resumo de 40 anos de carreira e de uma impressionante lista de trabalhos de outros autores. O tema explícito é o paradoxo a que dedicou grande parte da sua atenção: "como foi possível que uma obscura seita judia se tenha tornado na maior religião do mundo?" (p.1). Só que, apesar de cobrir esparsamente os dois mil anos de história, pode dizer-se que o verdadeiro assunto do volume é bem diferente: derrubar uma enorme quantidade de mitos, erros e manipulações que a historiografia dos últimos séculos acumulou sobre a Igreja.
O economista aponta depois uma série de exemplos de mitos e manipulações que farão a delícia dos novos apologetas (em parte também me considero um):
- O sucesso da expansão cristã no Império Romano não se ficou a dever à decadência do paganismo, revolta de escravos ou favores de Constantino, mas ao facto de os cristãos, graças à sua caridade, "viverem mais tempo que os seus vizinhos pagãos... não 'descartarem' as crianças femininas e as mulheres cristãs não terem a mortalidade substancial por abortos feitos num mundo sem antibióticos" (p.417).
- A Idade Média europeia não foi uma "idade das trevas" de miséria e obscurantismo, mas uma época brilhante da história do mundo, pois a ausência de impérios eliminou a escravatura e monumentos grandiosos, e o génio humano pôde virar-se para descobertas pragmáticas, das esporas aos óculos e moinhos, passando pelo capitalismo (p.242-5).
- A religião não é inimiga da ciência, mas foi na Igreja que nasceu e grande parte dos maiores cientistas são e sempre foram devotos (cap.16).
- "A Inquisição Espanhola foi um corpo bastante moderado, responsável por poucas mortes e salvou muitas vidas por se opor à caça às bruxas que varreu o resto da Europa".
Talvez pudesse dizer também que o pacto das bruxas com o diabo é uma invenção da Inquisição medieval, pelo que não está isenta de culpa na paranóia contra as mulheres que varreu parte da Europa, mais a norte. Mas não há espaço para tudo. O texto pode ser lido aqui.

O que me espanta, porém, é o parágrafo final:
Mas é assustador pensar no enorme poder que alguns pseudocientistas têm, se usarem a sua posição de prestígio e influência para veicular dogmas pessoais. Voltaire e Gibbon, como hoje Richard Dawkins ou Peter Berger, são um perigo para a liberdade maior que Napoleão, Hitler ou Mugabe. Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias.
Não me impressiona por aí além que João César das Neves tenha caído na Lei de Godwin. Admiro-me é por incluir Peter Berger na lista dos manipuladores perigosos, ainda que Voltaire, Gibbon e Dawkins também tenham aspetos positivos.
Será o Peter Berger que muitos leem (ou leram, como foi o meu caso, nos anos 90) por causa da secularização, americano de origem austríaca (olhem, a pátria de Hitler), professor em Boston, doutor honoris causa numa universidade jesuíta? É dele uma expressão que entrou na cultura teológica, “rumor de anjos”, para significar os anseios de divino nas sociedades tecnológicas e os sinais de transcendência.
O Google não apresenta outros Peter Berger. E aponta o blogue deste teólogo e sociólogo, aqui. Não o leiam. “Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias”, avisa César das Neves. Fui ler. Por sinal, por estes dias, a propósito do furação Sandy, o sociólogo-teólogo lembra o terramoto de Lisboa, quando os católicos diziam que foi um castigo de Deus por causa de haver alguns protestantes em Lisboa enquanto no norte da Europa diziam que era castigo divino por causa de os portugueses serem católicos (texto de 21 de novembro). Tem razão o professor César das Neves. “Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias”. E parece que Peter Berger concorda.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Consistório reforçou universalidade da Igreja


“Consistório reforçou universalidade da Igreja”, diz notícia da Ecclesia. “Bento XVI criou hoje [sábado] seis novos cardeais, incluindo o patriarca libanês Béchara Boutros Raï e o arcebispo indiano D. Baselios Cleemis Thottunkal, que aos 53 anos se tornou o mais jovem purpurado da Igreja Católica. Durante o consistório público que decorreu na Basílica de São Pedro, no Vaticano, o Papa destacou o significado desta celebração para a missão «universal» da Igreja, que à imagem de Cristo, quer «abraçar toda a humanidade»” (aqui).

Quer isto dizer que o anterior consistório, com mais peso dos cardeais da Europa tinha atenuado universalidade da Igreja? Ou, por outras palavras, o eurocentrismo da Igreja? Com isto, não têm razão os que no outro consistório criticaram o eurocentismo?

(Gostava de dirigir este texto a um comentador em particular, mas não consegui encontrar o comentário em que se insurgia contra o silêncio de uma organização de cristãos a quando do anúncio do consistório de sábado passado).

Renovação da Igreja pela supressão do burro

Este texto não veio no "Inimigo Público" de sexta. Veio no "Correio da Manhã" de sábado.

Do tempo em que Jesus queria que as pessoas fossem ricas


Larry Hagman, que morreu há dias, o J.R. Ewing da série "Dallas", que usava um chapéu feito em São João da Madeira, foi, enquanto ator da série, símbolo de uma geração "à qual em breve iriam dizer que se podia ser ganancioso, e que lia nos autocolantes dos carros que Jesus quer que as pessoas sejam ricas".

Li no "Público" de ontem. A parte que citei aparece citada. Julgo que o autor dela é David Jacobs, argumentista da série, em declarações ao "The New York Times". O matutino português não é claro.

domingo, 25 de novembro de 2012

Bento Domingues: Combate à recessão litúrgica (1)


Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje.

Cruz da Fortuna

No quiosque, ao comprar o jornal, vejo que uma revista oferece (por mais 1,99 euros, pareceu-me) a "Cruz da Fortuna". É claro que não pensam, quem promove a venda, que Cruz (de Cristo) e Fortuna (do mundo), se não são contraditórios, são improváveis ao mesmo tempo e na mesma pessoa. Não costumam andar juntos. A não ser que os promotores pensem, à maneira de São Paulo, que a verdadeira fortuna está na Cruz de Cristo.

(Em dia de Cristo-Rei)

sábado, 24 de novembro de 2012

Descer e subir ao céu



Um dia, ao visitar um acampamento militar, apresentaram a Giuseppe Roncalli, que era núncio em Paris, um grupo de paraquedistas. Disse-lhes então o que viria a ser o Papa João XXIII:
- Não quereria, rapazes, que à força de descerdes do céu, vos esquecêsseis da maneira de subir.

Anselmo Borges: O CERN e Fernando Pessoa

Artigo de Anselmo Borges no DN de hoje (daqui):



A descoberta do bosão de Higgs (ainda não há provas totalmente definitivas) aproximou-nos um pouco mais dos instantes que se seguiram ao Big Bang.

É fabuloso aonde a ciência está a chegar. Mas é claro que ela não poderá alcançar o Big Bang enquanto tal, pois trata-se de uma singularidade. Como é ainda mais claro que para a ciência não tem sentido perguntar: "e antes do Big Bang?", já que o tempo apareceu com o Big Bang. O "antes" tem já a ver com questões filosóficas e religiosas.

Rolf Heuer, director-geral do CERN

Começa, pois, a ser tempo de cientistas, filósofos e teólogos se juntarem para reflectir sobre a criação do Universo. E foi isso precisamente que aconteceu no passado mês de Outubro em Genebra. "Dei-me conta de que é necessário discutir isso", disse Rolf Heuer, director-geral do CERN. Como cientistas precisamos de "discutir com filósofos e teólogos o antes do Big Bang".

Para alguns, trata-se de uma questão sem interesse. Assim, para Lawrence Krauss, um físico teórico da Universidade Estatal do Arizona, aquela reunião não significava que os cientistas estejam interessados em Deus. "Não se pode refutar a teoria de Deus. O poder da ciência é incerto. Tudo é incerto, mas a ciência pode definir essa incerteza. Por isso, a ciência progride e a religião não."

Há, porém, quem lembre que foi um padre católico, professor de Física na Universidade Católica de Lovaina, a primeira pessoa a propor, em 1931, a teoria do Big Bang. E manteve a fé religiosa como sendo tão importante como a ciência, tornando-se inclusivamente presidente da Academia Pontifícia das Ciências até à sua morte, em 1966 [ver pequena nota sobre isso aqui]. E, ao contrário do que frequentemente se diz, Darwin também deixou escrito na sua autobiografia: "O mistério do princípio de todas as coisas é insolúvel para nós, e, pelo meu lado, devo conformar-me com permanecer agnóstico."

John Lennox, professor de Matemáticas na Universidade de Oxford, presente no encontro, declara-se cristão. Para ele, o facto de os seres humanos poderem fazer ciência pressupõe um mundo racional e, assim, a ciência abre para Deus: "Se soubesses que o teu computador é produto de um processo não guiado, sem sentido, não confiarias nele. Por isso, para mim, o ateísmo mina a racionalidade de que necessito para fazer ciência."

Andrew Pinsent, também da Universidade de Oxford, pensa que colaborar com a filosofia poderia ajudar a enfrentar as grandes perguntas. Por isso, Heuer sublinhou que é necessário continuar a dialogar, pois deparamos na nossa cultura com o problema da hiper-especialização, de tal modo que "a ignorância de outros campos pode causar problemas, como uma carência de coesão social".

Platão advertiu que é à volta de ser e do ser que os homens travam uma luta de gigantes (gigantomaquia). O que os une - religiosos, filósofos, cientistas - é precisamente esse combate. Somos todos convocados pelo mistério do ser, do existir algo: "Porque existe algo e não nada?"

Fernando Pessoa disse-o de modo inexcedível - fica aí o poema, lembrando o passado dia 15, Dia Mundial da Filosofia: "Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,/Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade,/Perante este horrível ser que é haver ser,/Perante este abismo de existir um abismo,/Ser um abismo por simplesmente ser,/Por poder ser,/Por haver ser!/- Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,/Tudo o que os homens dizem,/Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,/Se empequena!/Não, não se empequena... se transforma em outra coisa -/Numa só coisa tremenda e negra e impossível,/Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino -/Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,/Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,/Aquilo que subsiste através de todas as formas/De todas as vidas, abstractas ou concretas,/Eternas ou contingentes,/Verdadeiras ou falsas!/Aquilo que, quando se abrangeu tudo, não se abrangeu explicar porque é um tudo,/Porque há qualquer cosia, porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa!"

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

"Et cum spiritu tuo".

Anda por aqui uma altercação sobre o latim na cultura católica e na liturgia.

O meu ponto é (um bocadinho) este:


No dia em que houver mulheres casadas a presidir à Eucaristia em latim, lá estarei a responder: "Et cum spiritu tuo".

Jesus não nasceu a 25 de dezembro e lá se vai a infalibilidade dos papas


No "i" de hoje. Anda toda a gente assarapantada, ou faz que anda, com as revelações do Papa sobre o Natal. Pode ser que assim, com tudo isto, acabem por prestar alguma atenção ao Menino Jesus. Mas não creio. No fundo, no fundo, isto tudo é só espetáculo superficial.

O "i" chega ao cúmulo de dizer que, não tendo Jesus nascido a 25 de dezembro, "lá se vai definitivamente o conceito de infalibilidade dos papas (dos que antecederam Bento XVI)". Na realidade, o que se vai, com este tipo de notícias, é a credibilidade dos jornalistas e dos meios de comunicação.

Babel - 1

A maldição
de Babel
não foi os homens
desentenderem-se
por falarem
línguas diferentes,
mas sim
desentenderem-se
falando a mesma
língua.

Dovev Rozenkrantz
(in "Enciclopédia da Estória Universal. Recolha de Alexandria", de Afonso Cruz, ed. Alfaguara)

Piar em latim


O cardeal Ravasi anunciou no Twitter a abertura da Academia Latinitatis. Em latim.

Em favor do burro e da vaca

Neste dia em que tanto se falou do burro e da vaca, há uma coisa que tem de ser dita em favor da manutenção dos figuras no presépio:

Eles são a Companhia de Jesus!

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Autossatisfação

A pessoa de carácter nunca está satisfeita consigo mesma. A autossatisfação é como um muro que nos separa de Deus, dos irmãos e de tudo o resto. Ela conduz à autossuficiência.

Fracnisco Xavier Nguyen Van Thuan

Afinal, diz o DN, "vaca e burro continuam no presépio"


No DN de hoje. Podem voltar, burro e vaca, despedidos pelo "Correio da Manhã" (ver entrada anterior).

Papa afasta burro e vaca, diz o "Correio da Manhã" na capa


Nem o burro e a vaca têm emprego seguro (ao fundo da capa, primeiro título a partir da esquerda).


O "Correio da Manhã"  de hoje até lançou um inquérito sobre o assunto. Lá se vai o "mito do presépio". Papa racionalista e iconoclasta. Faltou-lhes perguntar a opinião às organizações dos direitos dos animais.


Dar com uma mão e tirar com as duas

Pierre-Daniel Huet (1630-1721), bispo, estava convencido de que o cartesianismo  levado às últimas consequência era inimigo da fé cristã. E tinha razão. Vai daí, escreveu um "Tratado filosófico da fraqueza do espírito humano". Para defender o ceticismo e salvar a fé. A obra tornou-se uma cartilha para uma nova geração de ateus.

Para os latinófilos

Non in dialectica complacuit Deo salvum facere populum suum.

Ambrosius Mediolanensis

(acrescente-se)

...neque in lingua latina.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Jesus aprendeu de maneira humana, diz o Papa


Já está nas livrarias o terceiro livro do Papa Ratzinger dedicado a Jesus de Nazaré - "A infância de Jesus". Um excerto pode ser lido aqui, onde se vê que o Papa defende que é histórico o nascimento em Belém e a visita dos magos (adiantando em relação a este segundo aspeto que se não for também daí não vem mal algum à fé da Igreja). A historicidade dos episódios da infância vai merecer muitas críticas dos biblistas. A não ser que o medo e a autoridade mandem mais.

Porque já andou neste blogue uma discussão sobre como era a mente de Jesus, se cresceu ou não, se sabia tudo ou não, se estava dentro dos limites do seu tempo ou não (os meus opositores diziam, em resumo, que Jesus sabia tudo e não se podia enganar e que não estava limitado pelas circunstâncias, época, geografia, etc.), transcrevo o seguinte parágrafo do novo livro:


No entanto, é verdade também que a sua sabedoria cresce. Enquanto homem, Jesus não vive numa omnisciência abstrata, mas está enraizado numa história concreta, num lugar e num tempo, nas várias fases da vida humana, e de tudo isto toma forma concreta o seu saber. Manifesta-se aqui, de modo muito claro, que Ele pensou e aprendeu de maneira humana.

Nova linguagem contra a "linguagem bafienta e bolorenta"


No "Página 1" (RR) de ontem. É raro o dia em que uma alta figura da Igreja, padre, bispo, teólogo, não diga que é preciso uma "nova linguagem". Mas porque ninguém se dedica a falá-la? Há alguns que a falam, é certo, mas geralmente não dizem que é nova. Limitam-se a falá-la. Com mais ou menos naturalidade.

E qual é mesmo a "linguagem bafienta e bolorenta"? Todos imaginarão algo. Mas duvido que concordemos sobre seja o que for.

Doença cristológica

A ciência cristológica sofre de uma doença até hoje incurável: a conjetura psicológica.

William Wrede (1859-1906, alemão, teólogo luterano) citado por Vittorio Messori nas "Hipóteses sobre Jesus"

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Lázaro a caminho de Damasco


Tenho andado a ler, com muito gosto mas igual intermitência, “A vida privada de Maxwell Sim”, de Jonathan Coe, “a parábola perfeita sobre a sociedade moderna”, diz o “The Observer”, citado na capa. E há razões nas primeiras cem páginas para concordar.

Divorciado, deprimido, num país em recessão, Maxwell Sim (Max) cria um perfil falso para, na Internet, falar com a ex-mulher e ir sabendo de coisas da filha. Há páginas imperdíveis – para rir e pensar. A seguinte não é dessas, mas copio-a para aqui por revelar uma certa cultura/incultura bíblica.

A conversa seguinte passa-se entre Trevor (amigo de Max), Lindsay e Max. Os dois primeiros querem convencer Max a trabalhar para uma empresa de escovas de dentes. Alan Guest, proprietário da Guest Toothbrushes, acha que pode ser o David contra os Golias do mercado da higiene oral, a Oral-B, a Colgate e a GlaxoSmithKline, como afirma Trevor.


Átrio com poucos gentios

A sessão portuguesa do Átrio dos Gentios chegou aos gentios? Procurei na grande imprensa, "Público", CM, DN, JN, Expresso, Visão, Sábado e... nada. Posso não ter visto tudo, é certo.

A julgar pelo impacto na imprensa escrita não confessional, o Átrio não existiu. Quanto a rádio e tv, só ouço música, não sei.

Para saber algo do Átrio, podemos ler na Ecclesia e no SNPC, ou no "Diário do Minho", mas parece-me muito pouco para o objectivo de sair do templo e falar com gentios.



No "Diário do Minho" de 17 de novembro.

Dos sem esperança

É só a favor dos sem esperança que nos foi dada a esperança.

Herbert Marcuse

Principalmente isso

A mente conhece-se também quando procura.

Agostinho de Hipona

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Observação rápida sobre o latim

Claro que o latim é importante. Que haja países não latinos a ensiná-lo, atesta isso mesmo. Seja a Alemanha (a terceira língua estrangeira mais estudada, depois do inglês e do francês - era o que faltava pensar que os alemães estão a ficar mais papistas...), a Finlândia, os EUA, sempre saudosos do Império Romano, ou a Rússia com a sua terceira Roma.

Mas porquê missa em latim, seja no rito ordinário ou extraordinário, em comunidades que não falam essa língua? Não é preferível que as pessoas compreendam o que se diz, quando alguém fazendo memória de uma palavras em aramaico diz: "Isto é meu Corpo", "Este é o cálice do meu Sangue"?

Parece-me que única defesa possível da missa em latim para as pessoas que não o falam nem o compreendem é responder "não" à pergunta acima. E, a seguir, gostava de saber: Porquê este "não"?

Livro sobre Jesus Cristo apresentado pelo país fora


Xabier Pikaza

De hoje até 22 de novembro, o teólogo espanhol Xabier Pikaza colabora na apresentação do livro “Quem é / que foi Jesus Cristo”, que recolhe as comunicações do colóquio Igreja em Diálogo, sobre Jesus Cristo, realizado no Seminário de Valadares nos dias 8 e 9 de outubro de 2011 (cartaz o evento aqui, que inclui os nomes dos comunicadores e os títulos das intervenções que agora são recolhidas).

Com Xabier Pikaza (que divulgou no seu blogue, em português, o texto que vai proferir, aqui), ontem referido por Bento Domingues na sua crónica, a apresentação do livro da Gradiva acontecerá:

- em Aveiro, hoje, às 21h, no auditório do Seminário de Santa Joana;
- no Porto, amanhã, às 21h, na Fundação Eng.º António de Almeida, também com o político Guilherme d’Oliveira Martins;
- em Braga, no dia 21, às 21h, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva;
- na Figueira da Foz, dia 22, às 21h30, no Casino, também com o político Paulo Rangel.

Sem Xavier Pikaza, mas sempre com Anselmo Borges, que organizou o colóquio e coordena a publicação, a apresentação prossegue com intervenções o teólogo Andrés Torres Queiruga:

- no Funchal, dia 30 de novembro, às 18h, no Teatro Municipal;
- em Coimbra, dia 4 de dezembro, às 18h30, na Faculdade de Letras, também com o historiador Fernando Catroga;
- em Lisboa, no dia 5 de dezembro, às 18h, no Centro Nacional de Cultura, também com Guilherme d’Oliveira Martins e Paulo Rangel.


Intifada e democracia não conjugam


A dezena e meia de agressores que passou uma hora a lançar pedras da calçada a polícias, segundo os relatos das manifestações do passado dia 14 de novembro, tem sido chamada de “profissionais do distúrbio” pelo governo ou de “idiotas” pelos outros manifestantes. Creio que eles não se importam muito com nenhum dos epítetos. Mas não lhes têm chamado aquilo que eles são: cobardes.

Rui Tavares, eurodeputado (independente), no "Público" de 19-11-2012.

É só impressão minha (por distração, se a impressão estiver errada), ou um dos partidos com representação na AR ainda não repudiou a pedrada em frente da AR?

Alain de Botton: "As sociedades vão ter de aprender a ser mais bondosas"


Alain de Botton esteve em Portugal e disse que "a religião tem uma envolvência social, mas também tem um lado moral, também nos ajuda a lidar com a dor. Somos péssimos a lidar com a dor fora da religião. Pensamos sempre que o médico tem de ter uma resposta, que o economista tem de apresentar uma solução".

O autor de "Religião para ateus", que veio para falar da reforma (questão laboral), afirmou que "as empresas ainda não conseguiram resolver o problema das pessoas mais velhas. Ainda veem: jovens e baratos, velhos e mais caros. Mas vão ter de resolver, até porque o problema não é apenas económico, mas de perda de status. As sociedades vão ter de aprender a ser mais bondosas. Esta também é uma crise de generosidade".

domingo, 18 de novembro de 2012

Bento Domingues: Tuto em aberto (2)


Texto de Bento Domingues no "Público" deste domingo, 18 de novembro. Primeiro texto da série aqui.

Mais Martins Júnior

A propósito do texto de Anselmo Borges de ontem, "Um padre polémico", que gerou alguns comentários neste blogue, recupero a entrevista de o "Diário de Notícias da Madeira" fez ao padre José Martins Júnior no dia 12 de agosto de 2012, uns dias antes de o padre completar a bodas de ouro sacerdotais. Também pode ser lida aqui.




sábado, 17 de novembro de 2012

Anselmo Borges: "Um padre polémico"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

1. As únicas relíquias que Jesus deixou são comunidades cristãs vivas. Não há outras. E comunidades cristãs vivas assentam em três pilares fundamentais, que se co-implicam.

O primeiro tem a ver com a fé, a entrega confiada ao Deus de Jesus, que se revelou como amor: "Deus é amor", escreveu São João. Esta fé tem de ser esclarecida, segundo o princípio "crer para entender, e entender para crer".

Outro pilar diz respeito à caridade e à justiça. Os discípulos agiam de acordo com o que Jesus tinha vivido e feito, de tal modo que os pagãos diziam: "Vede como eles se amam."

O terceiro diz que a vida cristã segundo a fé e o amor deve ser celebrada em liturgias belas. Não se trata, pois, da prática ritual vazia, mas de celebrar, na fraternidade e na beleza e fazendo memória de Jesus na sua vida, morte e ressurreição, o que se vive no quotidiano da existência. Na celebração, é a vida toda que está presente, e sai-se de lá com nova luz e ânimo para a vida toda e esperança para lá da morte.

2. E o padre? Qual é o seu lugar? A sua missão só pode ser a de membro coordenador e animador das comunidades cristãs nesta tríplice dimensão.

Ele há-de ser aquele que anima a fé e a esclarece, iluminando a vida de todos os dias nas suas diferentes dimensões: pessoal, familiar, comunitária, intelectual, social, económica, política.

Tem de ser homem de fé e, por isso, alguém que se entrega generosamente ao cuidado do seu povo, decidido a defendê-lo e a combater com ele pela justiça e pela paz, pela promoção e dignificação de todas as pessoas. Para os cristãos, é intolerável a injustiça e a exploração.

Há aquela expressão: "Católico não praticante." Uma expressão envenenada. Ela supõe que se segue os valores cristãos, só não se vai à missa nem à confissão. Mas será assim? Isto é, pratica-se real e verdadeiramente os valores cristãos da dignidade livre e da liberdade na dignidade, da partilha, da justiça, do amor? E as celebrações são efectivamente belas ou uma imensa maçada no tédio e na banalidade, de tal modo que se tornam infrequentáveis?

3. O melhor que se pode dizer de um padre é que é um "padre cristão" ou, pelo menos, tenta sê-lo. A vida do padre José Martins Júnior, que celebrou na sua Ribeira Seca (Madeira), em Agosto passado, as bodas de ouro sacerdotais, numa bela festa popular, foi pautada por esse lema.

Lá está a fé, que procurou e procura sempre esclarecer, para que não seja cega, mas autenticamente humana e cristã.

Lá estão o amor e a justiça, nunca esquecendo os privilegiados de Deus: os pobres, os desfavorecidos, os explorados. Anima os jovens e visita os doentes e os mais idosos, recordando estórias e afectos. Quando foi e é preciso, ergueu e ergue, destemido, nos diferentes púlpitos, a voz profética contra a injustiça, sabendo dos dissabores mortais que daí adviriam ou advêm.

Quem não sabe da sua rara sensibilidade estética, sendo um distinto compositor? E aí estão as celebrações em liturgias vivamente participadas por todos, fraternas e belas. E a palavra luminosa da homilia é luz e calor para a vida toda.

No livro de homenagem, "Olhares Múltiplos sobre Um Homem de Causas", estão os testemunhos de muitos que com ele foram contactando ao longo da vida - também Mário Soares - e que convergem para a afirmação de um "padre cristão", mesmo sabendo que, como disse Nietzsche, cristão só houve um e, infelizmente, crucificaram-no. Os outros vão tentando.

Um padre polémico? E Jesus não foi e continua a ser polémico? Mau sinal, quando todos estivessem de acordo na paz da indiferença. Leva consigo a amargura da marginalização por parte de alguma Igreja hierárquica. Ora, se a Igreja se quer, e bem, defensora e promotora dos direitos humanos, porque é que não os pratica no seu seio? No caso presente, dever-se-ia ir até mais longe, pois a compreensão e o amor evangélicos é que devem ser a lei por que se governa a Igreja; mas, se não se chega até aí, porque é que não se procede, pelo menos, a um julgamento eclesiástico justo?

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Da utilidade da crise para a Igreja

No "Correio da Manhã" de terça-feira, 13. A crise é uma "oportunidade de evangelização", mas daí até a crise ser "útil" para a Igreja... Só falta dizer que a Igreja deseja a crise. Até se pode entender isso do título.

Quero ler - 1

Diálogo entre um monge que é gestor e um gestor que é missionário. Mas talvez salte o habitualmente dispensável, porque irrelevante, prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa. Parece que as editoras querem é ter lá o nome do comentador, diga as banalidades que disser. Digo-o sem ter lido este.



Não esquecer

Quando nos indignamos, convém que nos perguntemos se somos dignos.

Abbé Pierre, 1964

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Cruzes

Corpo, vida e mulheres


Amanhã e depois, a norte, em Braga e Guimarães, acontece mais uma sessão do Pátio dos Gentios.

Tem sítio aqui e vai ser transmitido online pela Ecclesia, aqui.

Também amanhã e depois, mas a sul, em Lisboa, acontece o II Colóquio Internacional de Teologias Feministas. Tem sítio aqui.

Não posso ir a nenhum dos eventos, mas preferiria o segundo.

O mal

O mal, a meu ver, é em grande parte acreditar orgulhosamente que nos bastamos a nós mesmos. É o sentimento da própria suficiência e o desprezo pelo outro levado até ao absurdo. Escândalo da vida ridicularizada, do esbanjamento, da indiferença para com os velhos e os pobres, os famintos, os sem-trabalho, os excluídos de todo o tipo... Tudo isto é responsabilidade e problema nosso, e não de Deus.

Abbé Pierre, 1995

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Bispo-gestor vai liderar anglicanos


Vem no DN de hoje. É sempre bom saber o que se passa com os nossos irmãos anglicanos. 

Uma observação: Repare-se no "Dom" por extenso. Há muito tempo que não via tal escrito. Os bispos católicos ficam apenas com um "D.", como aqui.

domingo, 11 de novembro de 2012

Bento Domingues: Tudo em aberto (1)

Bento Domingues no "Público" de hoje.

O melhor e o pior da Igreja


Reportando-se ao evangelho que hoje é escutado nas missas – uma viúva pobre dá duas pequenas moedas ao templo, dá “tudo o que tinha” - José António Pagola diz:
Também hoje, tantas mulheres e homens de fé simples e coração generoso são o melhor que temos na Igreja. Não escrevem livros nem pronunciam sermões, mas são os que mantêm vivo entre nós o Evangelho de Jesus. Deles, têm de aprender os presbíteros e os bispos.
Ler tudo aqui.

E explica o “Acautelai-vos com os escribas”. Ou, na verão de Pagola, “Cuidado com os letrados”.

O que podem ser hoje os letrados?

Os teólogos.
Os intelectuais.
Os dirigentes de comunidades que sabem muito.
Os que escrevem blogues.
Os que leem blogues.
Os que escrevem livros e artigos.
Os que fazem conferências, palestras e comunicações.
Os que defendem teses.
Os que ensinam.
Os que criticam.
Os que sabem muito.
Os que sabem tudo.
Os que acham muito.
Os que desculpam muito.
Os que impressionam.

Tudo isso, todos esses, mas sem amor, sem autocrítica, sem abertura, sem empurrarem debaixo para cima, com pouca ação, sem se darem, sem que o mundo fique melhor pela colaboração deles.

Livrai-nos destes todos, inclusive quando nos próprios estamos neles.

sábado, 10 de novembro de 2012

Bernard Häring nasceu há 100 anos


Bernard Häring (1912-1998), o grande moralista do século XX, moralista no sentido de teólogo da moral, nasceu há 100 anos. Completam-se hoje. Alemão (por alguma razão que não sei explicar, estava convencidíssimo de que era holandês), esteve no II Concílio do Vaticano como perito.

O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura recorda-o aqui.

Anselmo Borges: Diálogos de Coimbra na Joanina

Artigo de Anselmo Borges no DN de hoje.
Sorver cultura. Um dos tetos da Joanina

A Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, um templo de rara beleza ao Livro, foi, no ano lectivo transacto, palco para três diálogos sobre as raízes da Europa. A iniciativa partiu do Padre Nuno Santos, Director do Instituto Universitário Justiça e Paz, e os intervenientes foram o biblista Virgílio Antunes, bispo de Coimbra, e três eminentes professores: o penalista José de Faria Costa, da Faculdade de Direito, o historiador Fernando Catroga, da Faculdade de Letras, o físico Carlos Fiolhais, da Faculdade de Ciências e Tecnologia. Moderou o jornalista Manuel Vilas-Boas, da TSF.

Todos estiveram de acordo na afirmação de que a Europa tem três heranças fundamentais: Atenas, Jerusalém e Roma, sugerindo alguém um quarto fundamento: o vitalismo bárbaro, a partir do Norte.

O primeiro diálogo teve como linha de orientação "Razão. Pessoa. Direito". Aí está a convergência entre Atenas e Jerusalém: o Evangelho segundo São João inaugura-se com a afirmação: "No princípio era o Logos, a Palavra, a Razão, e tudo foi criado pelo Logos". A criação pelo Logos diz que o mundo é racional e, por isso, racionalmente investigável. Como ninguém põe em causa que o cristianismo foi decisivo na descoberta da pessoa, do seu valor e dignidade. A herança de Roma é o Direito.

Partindo do espaço escolhido para o debate, Faria Costa sublinhou a importância da perspectiva, que impõe colocar-se no ponto de vista do outro: "ser pessoa é estar dentro e fora, em simultâneo, procurar a interioridade e a exterioridade." Não existe sociedade sem Direito. Somos seres morais, respondendo perante o outro, "humilde- mente e independentemente da sua condição: pobre ou rico, velho ou novo". E somo-lo, independentemente do Transcendente, "por muito que esse Transcendente seja a mais bela forma de dizer o indizível".

O bispo Virgílio Antunes concorda, sublinhando que "numa leitura cristã, que enforma a cultura que somos, quando entra em crise uma destas variáveis - Razão, Pessoa, Direito - fica em causa a construção da pessoa humana". Mas quis acrescentar um novo elemento: a fé - porque a razão não esgota o Mistério -, que permite "a superação da lei pela liberdade e pelo amor". Sem liberdade, justiça e amor, não há construção da dignidade da pessoa, numa sociedade justa e fraterna.

No segundo diálogo, o tema era: "Natureza. História. Identidades". De Atenas herdámos a natureza, a physis. A História é uma herança essencialmente bíblica. As identidades constroem-se na confluência de natureza e história.

O homem teve sempre "uma relação umbilical com a natureza", que se impunha como grande modelo interpretativo do sentido, começou por sublinhar Fernando Catroga. A consciência histórica, herança fundamental da religião judaico-cristã, é, na luta do homem pela memória e contra o esquecimento, um conceito essencialmente moderno, que dá sentido à vida colectiva. As identidades "hoje herdam-se, constroem-se e estão sujeitas a movimentos históricos, numa pluralização de sentidos de pertença".

O bispo pôs o acento na História, lugar de revelação e salvação, não permitindo que Deus seja confundido com a natureza, sua criação. E pensa que há na Europa o esquecimento da herança judaico-cristã, que explica, pelo menos em parte, o vazio em que se vive actualmente, "numa profunda crise de identidade, sem referências, como órfãos que não conhecem os pais nem sabem donde vêm e que perderam os critérios de procura e conhecimento da verdade."

"Acaso. Criação. Sentido" foi o último tema. O universo não se rege só pelo acaso ou pela necessidade, mas por um e outro, e mostra-se probabilístico. Carlos Fiolhais afirmou que a ciência e a religião não são incompatíveis. Se houve tempos de conflito, não é esse hoje o caso, havendo inclusive grandes cientistas que são crentes. O bispo confirmou: a Bíblia não é um livro científico, mas religioso. O homem é só um e aproxima-se da realidade de modos diversos e com métodos diferentes.

Só o homem tem o sentido do mistério. Há sentido na compreensão científica do mundo e na sua unificação, mas o crente religioso espera mais: uma palavra definitiva de salvação sobre a História.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ai se fosse com a Igreja Católica


Miguel Esteves Cardoso no "Público" de hoje. Não se fala de religião, nem de inspiração cristã. A pedofilia na BBC só interessa aqui pelo pouco relevo que o assunto tem entre nós. Ai se fosse com a Igreja.

Fernando d'Costa comentou há pouco, aqui, e recupero o seu comentário:
Tem seguido o silêncio total que os média em Portugal têm dado ao escândalo de pedofilia em casas de acolhimento muçulmanas no Reino Unido? Basta procurar na net por "gang-raped", "vulnerable under-age girls" e "care homes". Já o disse aqui uma vez: esta desigualdade de tratamento é assustadora... a mesma desigualdade que se verifica face à proibição de uma comunidade dinamarquesa onde os seus dirigentes democraticamente eleitos, por serem muçulmanos, proibiram a celebração do Natal e financiaram as celebrações islâmicas com 10.000 euros cada.
http://www.dr.dk/Nyheder/Indland/2012/11/07/042932.htm?app (pode ser traduzido no Google Translator)
Singular é a observação, espantada, final de "falta de tolerância e inclusividade da nova maioria". Ai se fosse ao contrário.

Semana dos Seminários

Parece que se dizem agnósticos (ou o mais conhecido deles). Mas a simbologia católica (sim, mais católica do que simplesmente protestante ou...