quinta-feira, 31 de maio de 2012

O banco que faz o “trabalho de Deus”



O “Público” de hoje diz que o Goldman Sachs (não deixo de pensar que em inglês seria um bom título “Goldman sucks”) é o “banco que faz o «trabalho de Deus”. A peça pega no livro recente do jornalista belga Marc Roche, que tem como título “O Banco: como o Goldman Sachs dirige o mundo”, e refere logo no início que Lloyd Blankfein, presidente executivo do banco, ironizou um dia: “Eu faço o trabalho de Deus”.

Eu não sou anticapitalista, pelo contrário, acho que a economia de mercado, com pessoas éticas e dentro da lei – e de uma lei de princípios humanistas –, ainda é o melhorzinho para orientarmos a vida. A economia de mercado geralmente anda a par da democracia. E, até hoje, nunca duas democracias liberais andaram em guerra uma contra a outra. Deve querer dizer algo. Não seria possível o mundo inteiro viver em democracia liberal (note-se que há mercados livres sem democracia, mas não há democracia sem mercados livres)? Não sou anticapitalista, dizia, mas quando ouço “Goldman”, penso sempre não no homem dourado, mas no bezerro de ouro. Este deus é para a idolatria.


Marc Roche, diz o artigo, explica "como o banco americano se tornou omnipresente e, tantas vezes, omnipotente - dois atributos divinos.

Aqui vai, então, o B-A-BA deste deus, apenas usando passagens do artigo do “Público”.

Qual é o trabalho deste deus?
Consultor de empresas e governos
Trading de matérias-primas e taxas de juro
Marcado cambial
Marcado de derivados
Gestão de fundos de investimento

E que ascese exige este deus?
"Os candidados têm de passar por 30 a 30 entrevistas de seleção"
Assumem uma "rigorosa dieta de trabalho": “Não há outro banco onde se sacrifique assim a via pessoal”
"A própria alimentação é controlada"

E quais os pecados que este deus não tolera?
“Férias sem telemóvel e sem email são mal vistas”
“Ligações extraconjugais afastam pretensões de ascensão”

Tem segredo messiânico?
Sim. “Fora das paredes do banco, reina o secretismo”.

O Papa gosta de ouvir o maestro gadelhudo

Na "Sábado" de hoje. Fala-se do Papa, lateralmente. E não há traições nem fugas de informação.

Santo Agostinho e o trabalho


Santo Agostinho pode servir como testemunha principal para pontos de vista totalmente contrários sobre o trabalho, na Igreja antiga. Porque, por um lado, a ética cristã correspondia – sobretudo na sequência das cartas paulinas e dos ordenamentos da igreja nascente – inteiramente às ideias do cidadão que trabalha de modo respeitável e diligente, e, por outro, os textos escatologicamente inspirados evocam o ideal de uma vita contemplativa, que criticava a transitoriedade dos afazeres terrenos enquanto radicalizavam, no plano espiritual, a evasão social e comunitária.

Início de texto “Ora et labora. Teologia do trabalho no monaquismo antigo e medieval?”, de Thomas Prugl, na revista Communio de julho/agosto/setembro de 2011

Thomas Prugl, alemão, é professor na Universidade de Viena

quarta-feira, 30 de maio de 2012

30 de maio de 1834. Mata-Frades publica a lei que extingue as ordens religiosas


No dia 30 de maio de 1834, enquanto ministro dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, durante a regência de D. Pedro nos Açores, em nome da sua filha D. Maria da Glória, Joaquim António de Aguiar (1792 - 1884) publicou uma lei que declarou extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios, e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares. Os bens eclesiásticos foram secularizados e incorporados na Fazenda Nacional.

Luta de poder no Vaticano

No DN de hoje. Notícias sobre cristianismo na grande imprensa, só destas.

Mulher, ver Pecado

Antonio Aradillas (não sei se ainda é padre; nos anos 80 foi suspenso pelo cardeal Tarancon), a propósito do seu recente livro sobre a mulher na Igreja, “La rebelión pendiente”, conta que no índice de uma obra de um “eminente teólogo e filósofo”, no vocábulo “mulher” dizia-se “veja-se pecado” («acudí a un eminente teólogo y filósofo, y en el índice de una de sus obras me encontré con que, en el epígrafe "mujer" decía "véase pecado"», aqui). Quem seria esse teólogo?

Há não muito tempo um alto eclesiástico português justificava a não ordenação das mulheres com o ciclo menstrual.

Abismática maldade do mal



A grande mascarada do mal transtornou todos os conceitos éticos. Para quem provem do nosso tradicional mundo de conceitos éticos, o facto de o mal aparecer sob o aspeto da luz, da ação benéfica, da necessidade histórica, da justiça social, é simplesmente perturbador. Para o cristão que vive da Bíblia, este facto constitui a confirmação da abismática maldade do mal.

Dietrich Bonhoeffer em 1943. Excerto de umas reflexões dirigidas a um grupo de amigos e a alguns membros da sua família implicados no atentado contra Hitler.

É difícil lidar com a modernidade



Eugénio Scalfari, fundador do jornal “La Repubblica” (aqui referido num diálogo com o cardeal Martini), escreveu no seu jornal sobre a "grande crise da Igreja", que vai de “Pacelli a Ratzinger”.

Um balanço no fim do pontificado de João Paulo II:
Os problemas da Igreja na sua morte eram os mesmos: poder da hierarquia, marginalização do povo de Deus, crise das vocações, crise da fé em todo o Ocidente, nenhuma modernização dentro da Igreja. Mas uma modificação, sim, havia sido verificada nesse meio tempo: a mensagem do Vaticano II não só não dera passos à frente, mas havia dado passos para trás.
Quanto a Bento XVI, Scalfari aprecia os livros e as encíclicas e que tenha afastado o tomismo, “com  tantas saudações a Orígenes, Anselmo de Aosta e Bernardo”. É curiosa a sugestão de beatificação de Pascal, algo de que nunca tinha ouvido falar:
Se quisesse dizer algo verdadeiramente atual, o Papa Ratzinger deveria dar início à beatificação de Pascal, mas me dou conta de que, no mundo dos Bertone, da Cúria Romana e das atuais Congregações, isso sim seria um gesto radical rumo à modernidade. Nunca o farão.
Muito mais Bento XVI poderá/poderia fazer rumo a modernidade, ainda que alguns achem que não deve fazer nada. A encíclica “Deus caritas est”, com uma nova visão da sexualidade (falou do eros, novidade num texto papal), parecia querer iniciar uma grande reforma. Parecia.

Ler tudo aqui.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Como a serpente convenceu Eva



Ao contrário do que se diz, foi difícil convencer Eva a comer a maçã. Disse a serpente:
- Come e serás como os anjos!
- Não.
- Terás o conhecimento do Bem e do Mal.
- Não!
- Serás imortal.
- Não!
- Serás como Deus!
- Não e não!
- Emagrece!
- Hã?

O mordomo agiu por conta própria?

As notícias de hoje dizem que o Vaticano nega que haja um cardeal ou uma mulher envolvidos no caso da fuga de documentos (o "Vatileaks"). Na realidade, o que o parta-voz do Papa disse foi que "nenhum cardeal italiano ou estrangeiro está a ser investigado, bem como nenhuma mulher". Li aqui.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Esquema XIII

Mais um desenho da sequência didática de José Luis Cortés sobre o II Concílio do Vaticano. Aqui.

Encontrem a Mata Hari, por favor

No DN de hoje.

E a seguir, Vaticano?

No JN de ontem. Entretanto, sobre as recentes fugas de informação, as notícias já falam de "um cardeal" envolvido (no DN, aqui; no "Público", aqui). Que mais acontecerá ao Vaticano? O pedido de implosão? Que o Papa se mude para um modesto bairro suburbano de Roma, como sugeriu o insuspeito Hans Urs von Balthasar?

Não vai lá com autopersuasão

A questão é saber como podemos adquirir esta fé, esta confiança. Podemos simplesmente propor-nos adquiri-la? Certamente que não. (...) A fé não pode ser adquirida por autopersuasão.


Anselmo Grun

domingo, 27 de maio de 2012

Bento Domingues: Pasmados, não!

Texto de Bento Domingues no "Público" de 27 de maio de 2012

Diálogo entre o polícia e o mordomo do Papa


Paolo Gabriele servindo sumo de laranja, o preferido de Bento XVI


- Paolo Gabriele, Via Porta Angélica.n.º…, é você?

- Lc 23,3.

- Lc 23,3? O que significa isso?

- “Tu o dizes”. Sou eu, sim, Paolo Gabriele, e moro na Via Porta Angélica. Onde mais poderia morar alguém com este nome?

- Deixe-se de brincadeiras. Sabe porque estamos aqui, não sabe?

- Sim. Lc 4,40.

- Lá está você. Pensa que está falar com os seus superiores? Os nossos conhecimentos bíblicos não passaram de Adão e Eva e dos Reis Magos. O que quer isso dizer?

- “Não está o discípulo acima do mestre”. Ora, se prenderam o Mestre, porque não haveriam de me prender?

- Está a colar-se a Jesus? Olha que você fez coisas muito feias. Revelar documentos secretos…

- Mc 4,22.

- Bolas! Não há nenhuma citação que o mande calar?

- Pelo contrário, mandam falar, e por isso é que passei os documentos para a imprensa. Mc 4,22: “Porque não há nada escondido que não venha a descobrir-se, nem há nada oculto que não venha à luz. Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça”.

Alegria da alma que recebe de Deus a vida

Exatamente como se um imperador desse uma maçã a uma pessoa, essa pessoa haveria de lhe dar mais importância do que se alguma outra pessoa lhe desse um bom capote. Assim também a alma acharia insuportável que tivesse de receber a vida de alguém diferente de Deus, é por isso que Ele diz «Eu dou», para que a alma tenha uma perfeita alegria em lhe ter sido dada a vida.


Mestre Eckhart

sábado, 26 de maio de 2012

Apanharam o mordomo com a boca na botija

Paolo Gabriele

No Estado mais incomum do mundo, o Vaticano, acontecem os lugares mais comuns: apanharam o mordomo com a boca na botija.


Paolo Gabriele, 46 anos, casado, pais de três filhos, mordomo pessoal de Bento XVI, foi apanhado com "uma grande quantidade de documentos reservados" em sua casa (Via da Porta Angélica - o nome diz tudo, pois "anjo" quer dizer mensageiro). Tudo indica que é o responsável pela fuga de informações confidencias - o caso Vatileaks. 


Agora, pode ser condenado até 30 anos de prisão - julgo que na justiça italiana - por violação da correspondência de um chefe de Estado. Resta saber se não é apenas um bode expiatório - como diz a imprensa italiana - numa cena em que a caça mais grossa esquiva-se por entre a colunata de Bernini.


Neste caso todo há uma novidade: Bento XVI tinha um mordomo que não era clérigo nem consagrada. De certeza que era de um movimento/grupo. CL? Opus Dei? Focolare? Mera curiosidade. A traição é um ato individual.

O que está na origem?

Podemos inferir a existência de uma pessoa chamada Jesus,simplesmente olhando para o facto de haver um grande número de igrejas cristãs da nossa cidade. De onde provieram? (Nesse aspeto, podemos também questionar-nos acerca da origem de todos aqueles monges que supostamente manipularam todos os documentos antigos que nos dizem o pouco que sabemos acerca de Jesus.)


Guy Consalmagno, "A mecânica de Deus", Publicações Europa-América, pág. 163

Anselmo Borges: O tempo digital e o seu frenesim

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Enigma maior é o tempo. Lá está Santo Agostinho: "O que é o tempo? Como são o passado e o futuro, uma vez que o passado já não é e o futuro ainda não é?" E o presente? Mal dizemos "agora" e já caiu no passado. "Se, portanto, o presente, para ser tempo, tem de cair no passado, como podemos dizer que algo é, se só pode ser com a condição de já não ser?"

As culturas experienciam o tempo, cada uma a seu modo: nas tradicionais, o tempo privilegiado é o passado - lá está o mito do paraíso perdido; na modernidade, privilegiou-se o futuro - o passado é simplesmente o ultrapassado, a caminho da realização das utopias.

Por causa das novas tecnologias, sobretudo ao nível dos média - telefona-se, navega-se na Web, lê-se documentos ao mesmo tempo que se envia mensagens -, a vivência do tempo actual é a do tempo concentrado, do "curto prazismo" e até do imediatismo cumulativo. Aí está o tempo chamado digital ou numérico, que nos dá a sensação de quase simultaneidade e ubiquidade: pense-se na comunicação quase simultânea para todo o mundo. Afinal, o que se encurtou mesmo foi o espaço, que não pode ser separado do tempo: no mesmo dia, uma reunião no Porto, outra em Paris, uma terceira em Londres, com regresso ao Porto. Mas é sobretudo a computação que nos dá a possibilidade de contacto quase instantâneo com todo o mundo. Tudo é mais rápido - leio em Philosophie Magazine: num século, a velocidade de comunicação aumentou 107%, a dos transportes pessoais 102%, a do tratamento da informação 1010%.

Fazemos muito mais coisas em muitíssimo menos tempo. Vem então a pergunta da semana passada, aqui: porque é que todos se queixam da falta de tempo, em vez de aumentar o tempo livre? Resposta do sociólogo Hartmut Rosa: com os transportes e a Internet também se acelerou a vida social e entrámos numa lógica infernal de competição, de tal modo que somos devorados pelo produtivismo e consequente consumismo. A aceleração acabou por tornar-se "o equivalente funcional da promessa religiosa de vida eterna". Impôs-se-nos a multiplicação constante e frenética das experiências e das actividades, numa corrida sem fim.

Isto tem consequências também na economia? É evidente que sim. Investir implica uma vivência do tempo longo: quanto tempo leva para se receber os frutos do investimento? Assim, "o marketing substituiu a deliberação política, com a finalidade de lucros especulativos", escreve o filósofo B. Stiegler. A velocidade tecnológica foi posta ao serviço da guerra económica: em vez do investimento, a especulação.

Antepondo o fazer ao ser, somos melhores e mais felizes? Não há, pelo contrário, a sensação generalizada de cansaço e de stress? Precisamente porque "vivemos num tempo completamente descontínuo, disperso. Sem calendário, sem liturgia, sem ritual, já não conhecemos ritmo. Já não há tempo que permita o recolhimento do pensamento. Multiplicou-se a dispersão inerente ao mundo do quotidiano", observa a filósofa Françoise Dastur.

Afinal, mesmo se já há empresas que promovem cursos de meditação ou semanas de retiro num mosteiro, é para que os funcionários se tornem mais competitivos, no regresso ao trabalho. As pessoas vão para a cama - a duração média do sono baixou duas horas desde o século XIX - com o sentimento de culpa, pois não acabaram a lista dos afazeres.

Voltando a Hartmut Rosa, a aceleração tornou-se o novo modo da nossa alienação social: ao contrário das Igrejas, que, se criaram sentimentos de culpa nos fiéis, ofereciam alívio aos pecadores - podiam confessar-se, Jesus morreu para libertar dos pecados -, "a nossa sociedade da aceleração produz culpados sem remissão nem perdão".

Não é, portanto, de uma nova relação mais atenta e serena com o tempo que precisamos? "Deixemos que as nossas vidas sejam guiadas por aquilo que eu chamo momentos de ressonância": o contacto com a natureza, passeando; escutando a grande música, a alma corresponde, o mesmo podendo acontecer com um grupo de amigos; diante do mar, é como se o mundo respondesse e as suas ondas fossem a respiração do mundo.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Fé e trabalho


A fé como confiança também nos alivia no nosso trabalho e nas responsabilidades que assumimos. Eu entrego o meu trabalho a Deus e confio que ele o irá utilizar para criar o bem. Eu sozinho não posso fazer com que o meu trabalho obtenha êxito, com que as minhas decisões sejam todas corretas.

Anselm Grun

Banqueiro do Vaticano afastado


Veio no "Correio da Manhã" de hoje e em todos os jornais económicos. Mas é uma notícia de economia ou de religião? É também de religião porque o banco é do Vaticano. E o Papa é quem manda (alguns dizem que há uns anos que já não manda). E este banqueiro, professor de ética, diz-se que ligado ao Opus Dei, é coautor de um livro em que se analisa a última encíclica social de Bento XVI. Há tempos que estava sob suspeita.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

O sucesso do catolicismo aumenta proporcionalmente ao preço da graça?



Ando a ler “Tudo tem um preço”, de Eduardo Porter, jornalista norte-americano especialista em economia. É mais um daqueles livros de economia tão em voga que explicam tudo, do formato dos pacotes de leite ou das caixas de DVD à relação entre aborto e crime, dos congestionamentos de trânsito à ascensão da China. Porque tudo reside em escolhas humanas.

Ora este “Tudo tem um preço” (o título original tem um sentido algo diferente: “The price of everything”), subtítulo: “a lógica secreta dos preços que pagamos”, propõe-se explicar
a) o preço da vida
b) o preço da felicidade
c) o preço das mulheres
d) o preço do trabalho
e) o preço do grátis
f) o preço da cultura
g) o preço da fé
h) o preço do futuro
E dedica ainda um capítulo a “quando os preços falham”, o constitui um toque de eficiente humildade.

O livro é suficientemente atrativo para – no meu caso – não saltar logo para o capítulo da alínea g). Mas a tese é enunciada logo nas primeiras páginas:
“Os economistas sugerem que a Igreja Católica tem vindo a perder fiéis, não porque as pessoas tenham deixado de acreditar em Deus, mas porque ser católico se tornou demasiado barato face ao cristianismo evangélico, que exige dos seus membros um investimento mais avultado nas igrejas, inspirando assim mais lealdade” (pág. 11).
Antes de avançar mais na leitura, com a liberdade que a ignorância me dá (e antes de perguntar se a Conferência Episcopal Portuguesa conhece a tese, se a tem em conta para analisar a perda de católicos em Portugal, uma perda apesar de tudo, enfim, pífia, isto é, sem pôr nada em causa; ainda se fosse uns 20 ou 30 por cento...), interrogo-me se não estará aqui, também,
a) a explicação do sucesso dos movimentos de sinal conservador – passe a convenção –  que dão muitas vocações à Igreja católica; 
b) a explicação de missas cheias de fiéis de párocos que são déspotas (eu não conheço nenhum), mas já ouvi falar que isso existe; 
c) a explicação de assembleias numerosas a ouvir párocos que não se cansam de pedir dinheiro – para obras, claro (só conheço um e já não está na paróquia em que estava); 
d) a explicação do sucesso dos lefebvrianos (poucos, estatisticamente, mas aguerridos e com alta taxa de vocações oriundas de boas famílias), cujo regresso à Santa Madre Igreja é tão desejado por alguns, a começar pelo Papa; 
e) a explicação para o medo de que a perda da obrigatoriedade do celibato faça baixar a qualidade dos padres; 
f) a explicação para o medo de conceder o sacerdócio ministerial às mulheres, uma espécie de democratização inflacionadora do sacramento; 
g) a explicação para o sucesso do cristianismo quando este é oposição aos totalitarismos (o maior sucesso do cristianismo quando o totalitarismo é de esquerda do que quando é de direita também é explicável pelo facto de o cristianismo de direita – oposto aos comunismos – ter uma moral sexual mais, digamos, “cara”). 
A lista pode continuar. E eu até compreendo a lógica das opções humanas, que não é, nunca foi, estritamente racional. Contudo, temos sempre de perguntar: e onde fica a verdade? Se a tese estiver correta – e parece-me que tem um fundo de verdade – significa que a verdade, que tem de estar coladinha ao amor, não é lá muito considerada no cristianismo (este assunto exige outras explicações, mas há duas pessoas à minha espera).


Justamente na linha da tese acima referida, Bonhoeffer escreveu o seguinte: A graça barata é o inimigo mortal da nossa igreja. Aqui citado. Tão católico, este luterano.

Aceitação

A comunhão traz-me a possibilidade de me aceitar, apesar de me sentir tão inaceitável.


Anselm Grun

Senhores Cardeais, não há almoços grátis



Para comemorar os seus 85 anos de vida e sete de pontificado, o Papa ofereceu um almoço aos cardeais que residem em Roma. E aproveitou a ocasião para dizer que também tem “noites escuras” e deixar um recado aos seus mais diretos colaboradores.
As noites: "(Debo) agradecimiento sobre todo al Señor por tantos años que me ha concedido, años con tantos días de gozo, espléndidos tiempos, pero también noches oscuras. Pero en retrospectiva se comprende que también las noches eran necesarias y buenas".
Há muito motivos para as noites escuras, dizem os vaticanistas, desde o caso dos Legionários (notícias recentes dizem que um padre, conhecidíssimo professor de Moral em Roma e comentador na TV norte-americana, reconheceu-se como pai de uma criança), ao conflito indesejado com o Islão, ao drama da pedofilia (a mais recente: 135 padres italianos denunciados por pederastia entre 2000 e 2011 – afinal isto também toca aos latinos), ao Vatileaks (que há dias teve mais um episódio com a publicação de "Su Santidad", do jornalista italiano Gianluigi Nuzzi).
O recado: "Nosotros estamos en esta lucha [da Igreja contra o mal] y en esta lucha es muy importante tener amigos. Yo estoy rodeado de los amigos del Colegio Cardenalicio: son mis amigos y me siento en casa, me siento seguro en esta compañía de grandes amigos que están conmigo, todos juntos, con el Señor”.
Isto merece dois comentários. Primeiro, felizmente, o Papa não fez como é uso em alguns locais: convida-se toda a gente para a festa de aniversário e depois cada um paga a sua conta.

Depois, o “sinto-me seguro nesta companhia dos grandes amigos que estão comigo”, sem querer eu dizer que o Papa está a ser irónico, soa mais a desejo do que a facto, sabendo-se que as fugas de informação partem de gente muito próxima do Papa. Afinal, o próprio Senhor, numa célebre ceia, chamou a todos “amigos”, mesmo sabendo que um deles o trairia.

As palavras do Papa foram tiradas daqui.

Deus e os limites humanos

Contra esta ideia de reconhecer Deus apenas onde se encontram limites intransponíveis [questões da biotécnica, manipulação genética, questões ecológicas, violência e novas condições de existência na sociedade massificada], e portanto confrontos, derrotas, negatividade, podem levantar numerosas e válidas objeções, mesmo do ponto de vista dos crentes (estou a pensar na polémica de Dietrich Bonhoeffer contra a ideia de Deus como «tapa-buracos»), mas, sobretudo, do ponto de vista da razão «laica». Deus, se existe, não é certamente o único responsável pelos nossos problemas e nem sequer apenas alguém que se dá a conhecer principalmente nos nossos fracassos. Este modo de fazer a experiência de Deus está todavia profundamente ligado a uma certa conceção de transcendência (...).


Gianni Vattimo, "Acreditar em acreditar", pág. 14

quarta-feira, 23 de maio de 2012

23 de maio de 1498. Morre Savonarola na fogueira

Num 23 de maio, em 1179, o Papa Alexandre III reconheceu a independência de Portugal através da bula “Manifestis Probatum”. Noutro 23 de maio, em 1536, a Inquisição chega a Portugal, no tempo do Papa Paulo III.

Execução de Savonarola, na Piazza della Signoria, em Florença,
no dia 23 de maio de 1498


Entre as duas datas, em 1498, o dominicano Girolamo Savonarola é condenado e queimado em Florença, por ordens de Alexandre XVI, após uma experiência de governo demoteocrático.

Em Florença, nesta época, viveu Pico della Mirandola. Era o “O Homem que Sabia Tudo”, conforme o título do romance de Catherine David. A obra descreve a vida do autor do “Discurso sobre a Dignidade do Homem” e dos seus confrontos com dois Savonarolas, Michele, o médico, renascentista como Picco, e Girolamo, o clérigo apocalíptico.

Maquiavel também se deu com o dominicano Savonarola.

M. de Maio e de Maria

Se portanto falarmos de símbolo, não diremos que a Virgem Maria é o símbolo acabado do Eterno Femino. Diremos antes que este Eterno Feminino deve ser entendido, na sua essência pura, como o símbolo da Virgem Maria.


Henri de Lubac

Seremos transfigurados



Michel Hubaut
Do Corpo Mortal ao Corpo de Luz
Gráfica de Coimbra 2
238 páginas

Tendo como subtítulo “Fundamentos e significado da ressurreição”, este livro parte da constatação de que a esperança cristã aparece como pouco atraente na cultura atual. Centra-se depois na análise dos textos do Novo Testamento que falam da ressurreição. E numa terceira parte fala da “fé na ressurreição de Cristo e a nossa transfiguração”.

Para falar do que promete a fé cristã, o autor prefere o termo transfiguração a ressurreição. Mas os termos são intercambiáveis, já desde as páginas bíblicas, em que a Transfiguração de Jesus aponta para a Ressurreição. Numa entrevista, esclareceu que “a palavra ressurreição continua a ser um pouco abstrata. A palavra transfiguração visa a mesma realidade. É a tradução da palavra grega «metamorphosis». Ela fala mais ao imaginário. Todas as crianças sabem muito bem o que é a metamorfose, a do bicho-da-seda, por exemplo, que deixa a sua crisálida para desenvolver asas de borboleta. Transfiguração tem a noção de mudança de forma”.

Hubaut detém-se em cada uma das passagens do Novo Testamento sobre a ressurreição de Jesus, no que constitui um ótimo guia para descobrir o sentido de muitas das leituras que são proclamadas no tempo litúrgico pascal. Mas o grande objetivo da obra é atingir cada leitor no momento presente. De pouco adianta falar da ressurreição de Jesus se ela nada tiver a ver com a nossa vida. Por isso, o capítulo mais que atualiza para nós a mensagem que mudou o mundo (“Ele está vivo!”) tem como título “Chamados a ser transfigurados, a nossa ressurreição começa hoje. Jesus transfigurado esclarece o seu itinerário pascal e o nosso”. E aí se realça que, porque a transfiguração já começou, a esperança cristã em vez de nos desmobilizar, impele-nos à transformação (transfiguração) do mundo em mais justiça, mais solidariedade, mais desenvolvimento, mais fraternidade (p. 210).

Para esta obra – e muito outros autores, principalmente da área da Bíblia e da antropologia – , a doutrina católica é capaz de não ser lá muito cristã quando fala do que acontece após a morte. Linguagem defeituosa do corpo e alma, demasiado colada aos conceitos gregos, como aparece no Catecismo e em algumas homilias. Escreve Hubaut:

“Segundo a doutrina oficial da Igreja Católica, só a alma sobrevive depois da morte biológica, uma alma que tem de esperar pela última Vinda de Jesus no fim dos tempos, para reencontrar o seu corpo. Este cenário não é muito coerente com as aparições de Cristo pascal, nem sequer com o conjunto da antropologia bíblica. Podemos perguntar se o cristianismo não se trará deixado contaminar um pouco pelo «dualismo platónico» segundo o qual a alma é uma entidade espiritual, autónoma, prisioneira do corpo” (pág. 112).

O último capítulo é “Ressurreição ou reincarnação”. Impõe-se o esclarecimento, já que a reincarnação bem ganhando terreno no mercado ocidental das crenças, ainda que, como defende o autor, não seja compatível com os conceitos judeocristãos de Deus, Homem, História e Mundo.

Michel Hubaut, padre franciscano, é autor de mais de duas dezenas de livros de teologia e espiritualidade. Anima o centro de espiritualidade e de peregrinações das Grutas de Santo António (o português), em Brive, no centro de França, e é conselheiro de uma associação de pais que perderam filhos.

Repropor a fé religiosa



Será possível (...) que a questão da fé não seja qualquer coisa que se proponha de novo? É uma boa pergunta, porque (...) parece-me constitutivo da problemática religiosa justamente o facto de ela ser sempre o retomar de uma experiência de algum modo já feita. Nenhum de nós, na nossa cultura ocidental - e se calhar em qualquer cultura - começa do zero na questão da fé religiosa.


Gianni Vattimo, "Acreditar em acreditar", pág. 8

terça-feira, 22 de maio de 2012

Três anos de Tribo de Jacob

O meu blogue fez há dias três anos. Não assinalei a data, embora dela me lembrasse. Cai mais ou menos no dia mundial das comunicações, porque foi no 43.º (2009) que decidi avançar com este projeto, depois de ter participado em outros blogues individuais e coletivos, desde 2003, quase sempre inconsequentes (um deles chamava-se "Sociedade Anónima" - fui ver se o via e não o encontrei, mas há vários homónimos; tratava do dia a dia de um escritório em que, entre outras técnicas, se praticava o dumb writing para enganar patrões; o outro co-autor distingue-se hoje na escrita de nanocontos, acho que não deve levar hífen).


Nestes três anos, fico contente porque os visitantes têm vindo a aumentar sustentadamente, quase chegando aos 12 mil mensais em março (no total, cerca de 200 mil visitantes únicos).


Ainda não percebi porquê, nos meses de março, maio e novembro, este blogue costuma ter mais visitantes. Meses em que não há exames nem férias escolares? Provavelmente acontece o mesmo com os outros.


Nos últimos dias, o ritmo cá por estes lados abrandou um pouco. Mas é circunstancial. Matéria não falta. Até já pensei em fazer um spin-off - ideia afastada por agora. Em breve retornarei os cinco ou seis posts diários.


A todos os que passam por cá, obrigado pela visita. Voltem sempre. Ou não. Estejam à vontade.

Acreditar em acreditar



Este ressurgir da sensibilidade religiosa que «sinto» à minha volta, na sua rigorosa impressão de indefinibilidade, corresponde bem ao «acreditar em acreditar» em torno do qual se moverá o meu discurso.

Gianni Vattimo, “Acreditar em acreditar” (ed. Relógio d’Água), pág. 9.

D. Manuel Clemente: Há novos descobridores


D. Manuel Clemente no CM de hoje, a pretexto de um livro que, de facto, me proporcionou umas férias de longas e deliciosas leituras. De um autor amigo de Portugal.


Melancolia



As águas subterrâneas da melancolia elevavam-se tanto em mim que julguei afogar-me e cheguei e pensar se não seria melhor dar fim à minha vida.

Romano Guardini (1885- 1968)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Festival Bíblico em Vicenza

O Festival Bíblico de Vicenza, em Itália, é uma coisa em grande. Bíblia e espiritualidade, teologia, sociedade, educação, cultura, arqueologia, história, arte, música, cinema teatro. Como tema de fundo, pobreza e esperança.



 A lista de convidados, dezenas, é espantosa, a começar por estes. Mais informações aqui.



Em Portugal nada há que se assemelhe. Há umas jornadas de teologia por aqui e ali, mas nada de bíblico. Ainda somos demasiado católicos para deixar a Palavra à solta.

Agradeço a FCO, que esteve na semana passada precisamente em Vicenza e me informou deste evento.

Pierre Babin e as mãos sujas de letras


Morreu no dia 9 de maio, aos 87 anos, Pierre Babin, padre, psicólogo e estudioso da comunicação. Um pioneiro, ainda que não tenha entrada na Wikipedia. Nem em francês.


Nos anos 80-90, um padre muito influente cá por estes lados dizia que o cristão devia ter numa mão a Bíblia e na outra o jornal. E aconselhava a ler "A Era da Comunicação", justamente de Pierre Babin.

Zita e o Opus


No "Correio da Manhã" de sábado. Pelo título, parece uma transferência futebolística.

Vattimo: Durante muito tempo levantei-me cedo para ir à missa



Durante muito tempo levantei-me cedo, para ir à missa, antes da escola, do escritório, das aulas na universidade. Assim poderia começar este livro, talvez acrescentando o fácil calembour de que se trata de uma «busca do tempo perdido». Mas poderei autorizar-me não diria já ao calembour mas ao discurso na primeira pessoa? Dou-me conta de que nunca escrevi assim, a não ser quando se tratava de discussões, polémicas, cartas ao diretor. Nunca nos ensaios e nos textos de carácter «profissional», crítico ou filosófico. Aqui a questão coloca-se porque as páginas que se seguem retomam os temas de uma longa entrevista a dois, juntamente com Sergio Quinzio, feita o ano passado para "La Stampa" por Claudio Altarocca, em que se falava na primeira pessoa, e ainda porque o tema da religião e da fé parece requerer uma escrita necessariamente «pessoal» e comprometida; embora ela não seja essencialmente narrativa e talvez não tenha sempre muito claramente como referência um narrante-crente.

Gianni Vattimo, "Acreditar em acreditar", ed. Relógio d’Água, 1998 (original de 1995), pág. 7.

domingo, 20 de maio de 2012

Bento Domingues: O ópio do povo

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje. Fátima como única esperança disponível para muitos. E o enjoo das iniciativas que falam de uma solução de união dos cristãos para breve que nunca chega.

sábado, 19 de maio de 2012

19 de maio de 1890. Nasce Mário de Sá-Carneiro



Mário de Sá-Carneiro, o grande amigo de Fernando Pessoa, nasceu em Lisboa, no dia 19 de maio de 1890.  Suicidou-se em Paris, no dia 26 de abril de 1916.

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Adriana Calcanhoto canta Mário de Sá-Carneiro.

Anselmo Borges: A aceleração do tempo e a sua falta

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):



O tempo nunca ninguém o viu. Claro, não me refiro ao tempo meteorológico, mas àquele tempo que no faz envelhecer e morrer: um dia já cá não estaremos. O tempo tem que ver com a finitude: é o modo como o ser finito se vai fazendo.

Há múltiplas experiências do tempo. Ele há o tempo circular, cíclico - tudo vai e tudo volta -, e o tempo linear, histórico e ascendente. Há o tempo entrecruzado: no presente, está vivo o passado - ele é o futuro do passado -, como está presente o futuro enquanto conjunto de projectos, de sonhos, esperanças e expectativas.

Claro, há o tempo dos calendários e medido pelos relógios, e há o tempo da duração interior, como reflectiu penetrantemente o filósofo Henri Bergson: há o tempo mecânico, quantitativo, e o tempo da consciência, qualitativo. E lá está o tempo irrequieto e enervante de uma noite de insónia, que nunca mais passa, semelhante ao tempo pastoso de uma conferência inútil e insana, que nos precipita para o relógio vezes sem conta, perguntando quando é que aquilo acaba. Ah!, mas também há o tempo sem tempo, o tempo de uma sinfonia, o tempo do amor, o tempo da criação: aquele tempo a que se referia, por exemplo, o filósofo Sören Kierkegaard, tempo de bênção, tocado pela eternidade.

Durante muito tempo, o tempo parecia estagnado, imóvel: o que é que mudava? Com a modernidade, o tempo acelerou. Mais recentemente, por causa das novas tecnologias, que nos permitem desenvolver várias actividades ao mesmo tempo e estar em contacto com todo o mundo quase simultaneamente, tudo se passa vertiginosamente, deu-se a "aceleração do ritmo de vida", numa mudança não já apenas intergeracional, mas intrageracional: pense-se nos casamentos e divórcios e, no que se refere ao mundo do trabalho, nas mudanças de emprego e actividade: para um americano com estudos superiores, onze vezes. Por isso, como sublinha o sociólogo Hartmut Rosa, professor na Universidade Friedrich-Schiller de Iena, o pai já não diz ao filho: "O meu mundo é o teu", mas: "Presentemente, as coisas são assim, mas prepara-te para a mudança."

Aqui, precisamente, surge um paradoxo. De facto, devido às novas tecnologias, que permitem fazer rapidamente o que antes demorava imenso tempo - por exemplo, uma viagem que durava oito horas faz-se agora em três, o que dá um ganho de cinco horas; antes, uma carta demorava a escrever o tempo que agora basta para escrever vários e-mails - deveríamos nadar em tempo. Ora, o que se passa é que todos nos queixamos de falta de tempo: ninguém tem tempo para nada, é o que se ouve a cada canto.

Hartmut Rosa, autor de "Aceleração"
Explicação de Hartmut Rosa: a tecnologia, em vez de resolver o problema do tempo, só o agrava. Porquê? "Com os carros ou a Internet é também a vida social que se acelera. A torrente e a velocidade da actividade social aumentam." Sim, é verdade que com o tempo da escrita de uma carta agora escrevemos mais de dez e-mails. Mas cada vez escrevemos mais e-mails e lemos mais ainda. É uma lógica exponencial, que não é devida à tecnologia, mas a "uma lógica de competição que nos é própria". Produzimos cada vez mais bens e consumimos cada vez mais também, numa espiral sem fim. Há cada vez mais opções e possibilidades e cada vez menos tempo para cada coisa, cada interesse, porque "a única coisa que não podeis aumentar é o próprio tempo".

Afinal, que procuramos nesta corrida vertiginosa que nos devora? A aceleração é "o equivalente funcional da promessa religiosa de vida eterna. Já não acreditamos numa vida eterna: mesmo os crentes duvidam do que se passa depois e concentram-se na vida antes da morte. De repente, pomos o nosso desejo de eternidade na multiplicidade das nossas experiências. Sabemos que vamos morrer, mas, antes, há uma infinidade de experiências, de pessoas que queremos conhecer, encontrar. A vida boa é definida pela riqueza das experiências que podemos ter. Multiplicar por dois a velocidade permite multiplicar por dois as experiências. É isso que de modo difuso procuramos no prazer que pomos em multiplicar as nossas actividades". Pergunta-se: e somos mais felizes?

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Se Karl Rahner fosse Papa

Karl Rahner e o que viria a ser Bento XVI


Mesmo como papa, eu gostaria de continuar aprendendo. Deixe que as pessoas percebam que um papa pode errar, cometer equívocos, estar mal informado e escolher o tipo errado de assistentes. 

Surgiu há dias no sítio australiano “Catholica” uma “carta do Papa em 2020”. O texto é de Karl Rahner (1904-1984). Copiei daqui.

Embora eu não atribua a nenhum dos meus antecessores, ou ao menos aos meus predecessores imediatos, uma falta de humildade e de modéstia, parece-me que hoje um papa [no ano 2020] pode, até mesmo publicamente, fazer esta autoavaliação crítica mais claramente do que costumava ser feita. Pessoas importantes na história do mundo e da Igreja costumaram ter a ideia de que a sua autoridade legítima se colocaria em risco se deixassem seus "súditos" ver que eles também eram apenas seres humanos que cometiam erros. Era somente após a sua morte que os historiadores da Igreja eram autorizados a descobrir falhas, erros ou hesitações em um papa. 
Mas, se eu estou convencido de que, mesmo como papa, eu continuo sendo um ser humano que irá cometer falhas, talvez até mesmo graves, por que não me seria permitido reconhecer isso mesmo durante a minha vida? Será que a mentalidade de pessoas que realmente não importam tanto hoje é a de que a autoridade não sofre danos, mas ao contrário lucra quando o seu portador admite abertamente as limitações de um pobre e pecador ser humano, e não tem medo de reconhecê-los? Por enquanto, ao menos, estou disposto a ouvir discussões públicas em minha presença, eventualmente para aprender com os outros e para reconhecer que eu aprendi.
Mesmo como papa, eu gostaria de continuar aprendendo. Deixe que as pessoas percebam que um papa pode errar, cometer equívocos, estar mal informado e escolher o tipo errado de assistentes. Tudo isso é evidente, e eu acredito que nenhum papa recente duvidou seriamente disso. Mas por que tal evidência deve permanecer oculta e encoberta? Pedro permitiu que Paulo o confrontasse frente a frente, e eu suponho que Pedro reconheceu que Paulo estava certo. Mesmo hoje, um papa pode se permitir algo desse tipo. Eu, pessoalmente, reivindico esse direito e estou disposto, se necessário, a permitir que a minha autoridade sofra uma perda, o que seria meu dever aceitar.
Eu não deverei ser um grande papa. Eu não tenho os meios para isso. Portanto, não vou ter um complexo de inferioridade se eu parecer bastante modesto em comparação com os grandes papas do século XX. Para mim, isso parece ser providencial. Tenho a sensação de que, através da sua grandeza, esses papas tiveram uma influência na Igreja que provavelmente nunca pretenderam ter e que teve seu lado questionável, uma influência que eu vou tentar compensar com o meu pontificado mais modesto.
Não é verdade? Esses papas não fomentaram involuntariamente uma mentalidade na Igreja que superestima a função apropriada do papa, de acordo com o dogma e de como ela foi na maior parte da história dos papas? Essa mentalidade não implica que um papa deva ser, em todos os aspectos, o maior da Igreja, um ponto de referência para todos os impulsos, um mestre superior a todos os pensadores e teólogos, um santo e um profeta, um homem que conquista todos os corações com a sua personalidade fascinante, um grande líder que molda o seu século e empalidece estadistas e outras grandes personalidades na insignificância, um pontífice a quem todos os bispos se referem respeitosamente, como pequenos oficiais pernate o seu rei, a fim de ouvir obedientemente as suas palavras e ordens ?
Eu não vou me tornar um papa desses e não considero necessário isso a todos. O papa tem uma tarefa na Igreja que é estritamente limitada, apesar da jurisdição universal e da plenitude da autoridade de ensino mencionada pelo Concílio Vaticano Primeiro. Vou exercer essa plenitude de poder, mas dentro dos limites impostos sobre mim pelas limitações da minha própria natureza. Isso e nada mais.
Eu não vou ser o mais santo da Igreja. Perante Deus, eu sou menos do que os santos que vivem hoje na Igreja, aqueles que rezam em silêncio, aqueles que são misticamente arrebatados, aqueles que perecem por causa de sua fé nas prisões dos inimigos de Cristo e da Igreja, aqueles que amam altruisticamente, como Teresa de Calcutá, todos os heróis desconhecidos e não recompensados do dever e da abnegação cotidianos.
Ninguém pode negar que até mesmo um Inocêncio III empalidece diante de Francisco de Assis, e que os papas Pio dos dois últimos séculos são menos importantes do que um Cura d'Ars ou do que uma Santa Teresinha de Lisieux. Você podem dizer, é claro, que eu estou comparando realidades que não podem ser comparadas. No entanto, na vida da Igreja e diante do tribunal eterno de Deus, santos e grandes teólogos como um Tomás de Aquino ou um John Henry Newman são mais importantes do que a maioria dos papas, e sobretudo mais importante do que jamais vou ser.
Há muitos carismas na Igreja, e o papa não tem todos em si mesmo. Se é verdade que podemos realmente compreender apenas os nossos próprios carismas, então até mesmo um papa deve dizer a si mesmo que ele não pode avaliar tudo o que vive na Igreja, e que só Deus, e não o papa, se encontra onde tudo o que é bom e santo na Igreja se funde em uma sinfonia perfeita.
É por isso que nenhum dano será feito se o meu pontificado corrigir, em certa medida, a mentalidade dos cristãos piedosos que equivocadamente esperam dos papas aquilo que eles podem receber apenas dos santos e das grandes mentes da Igreja e, possivelmente, de si mesmos.
Será que há cristãos, e talvez papas, que se lembram de que, ao rezar o Pai Nosso com esperança impaciente pela vinda do reino eterno de Deus, eles estão rezando também pelo fim do papado?

A Fátima pelo campeonato


No DN de ontem, desmentindo o que por toda a parte nas redes sociais se diz tratar do cumprimento de uma promessa pela vitória do FCP. (Fernando Santos, que já treinou os três grandes e é o selecionador grego, dizia que se a oração ajudasse a marcar golos, uma equipa de frades - pressupõe-se que rezam muito - ganharia o campeonato).

Impedir de nascer é apressar o homicídio

A nós, porém, interdito em absoluto o homicídio, não é lícito sequer desfazer o que foi concebido no útero, quando do sangue materno se vai extraindo ainda o necessário para plasmar o ser humano. Impedir de nascer é apressar o homicídio e é indiferente suprimir uma vida já nascida ou quebrá-la antes de nascer. O homem também é aquilo que será. Do mesmo modo em que todo o fruto está já na sua semente.


Tertuliano (160-220 d.C.), "Apologético", ed. Alcalá, pág. 173-4

quinta-feira, 17 de maio de 2012

The first gay president

Capa da mais recente "Newsweek".

Até onde chegam os tradicionalistas

Yves Congar observou, com humor, que os tradicionalistas, tão "autênticos", não vão para além do século XIX ou XVIII.

Pai e filho

Quando o Miguel chega aos doze anos, o seu pai diz-lhe com tom grave:
- Migas, está na altura de falarmos de umas coisas sobre a vida...
- Depressa, pai. Diz-me lá o que queres saber.

Muito o abandonaram porque nunca o conheceram

Giovanni Papini

Dizem que Cristo é o profeta dos fracos e, afinal, veio dar força aos definhados e tornar os espezinhados mais altos que os reis. Dizem que a sua religião é de doentes e moribundos e Ele cura enfermos e ressuscita inanimados. Dizem que Ele é contra a vida, mas vence a morte. Que é o Deus da tristeza, quando afinal exorta os seus a serem alegres e promete um eterno banquete de júbilo aos seus amigos. Dizem que introduziu no mundo a tristeza e a mortificação, e, afinal, quando era vivo, comia e bebia, deixava que lhe perfumassem os pés e os cabelos e detestava os jejuns hipócritas e as penitências vaidosas. Muito o abandonaram porque nunca o conheceram. A esses, especialmente, é que este livro desejaria ser útil.


Giovanni Papini, "História de Cristo", ed. Livros do Brasil, pág. 23.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

16 de maio de 1164. Morre Heloísa de Paráclito

Heloísa e Abelardo

Heloísa de Paráclito, sobrinha de um padre, que primeiro foi aluna e depois namorada do grande escolástico Pedro Abelardo, morreu no dia 16 de maio de 1164.

Morreu num convento, aos 63 anos, 22 anos depois da morte do grande mestre parisiense, com quem trocou cartas apaixonadas, num tempo em que só os clérigos, portanto celibatários, podiam ser professores.

Quando Heloísa era abadessa no Paráclito, em 1130-34, coloca uma série de 42 problemas teológicos a Abelardo que ficaram conhecidos como “Problemata Heloissae”. Podem ser lidos aqui em inglês e aqui em latim.

Mais sobre Heloísa e Abelardo aqui.

Já depois de separados, Abelardo escrevia assim a Heloísa:
“Eu estou distante da tua pessoa com a intenção de evitá-la como a um inimigo; mas ainda, incessantemente, procuro-te na minha mente. Lembro-me da tua imagem na minha memória e inquietantemente me traio e contradigo. Odeio-te! Amo-te! A vergonha pressiona-me por todos os lados. Vês a confusão na qual me converti, como me culpo e como sofro. ”
E Heloísa:
“No meio da quietude da noite, quando o meu coração deveria estar tranquilo no sono que suspende as maiores preocupações, eu não consigo evitar a ilusão do meu coração. Eu sonho que ainda estou contigo, meu querido Abelardo. Eu o vejo, falo contigo ouço as tuas respostas. (…) Até mesmo em frente ao santo altar eu carrego comigo a memória do nosso amor, e longe de me lamentar por ter sido seduzida pelos prazeres, eu sinto por havê-los perdido.

Antígona, uma editora de espiritualidade



No último dia da Feira do Livro de Lisboa, dizia Luís Oliveira, editor da Antígona, ao jornal "Público", referindo-se aos bons negócios que o certame proporcionou (14 de maio de 2012):
"Isto só prova que as pessoas já não estão a gastar o dinheiro nas mercadorias supérfluas, mas que o estão aguardar para o livro, na procura de uma certa espiritualidade. Isso é bom sinal".
Penso que fica muito bem na boca de quem dirige uma editora que tem no seu catálogo obras como "As Heresias" (de Raoul Vaneigem), "O suicídio, modo de usar" (de Claude Guillon e Yves Le Bonniec), "Deus tem caspa" (de Júlio Henriques) ou  "A Beleza das Armas" (de Robert Bringhurst).

Os dois maiores erros da história de Portugal

António Rendas, reitor da Universidade Nova (de partida) e durante dez anos reitor dos reitores portugueses, diz que "expulsar os judeu...