sexta-feira, 30 de setembro de 2011

30 de Setembro de 1897. Morre Teresa de Lisieux, mas não aconteceu só isso



No dia 30 de Setembro de 1897 morreu Teresa de Lisieux, ou Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, Thérèse Martin, santa Teresinha. Tinha 24 anos. 


Morreu durante a tarde. Antes de morrer declarou que queria oferecer os seus últimos momentos por "todas as crianças baptizadas neste mesmo dia" - contou a Madre Agnes.


Mais tarde, claro, veio a verificar-se que entre as crianças baptizadas nesta dia, por sinal à hora da morte da santa francesa, estava Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini. Paulo VI (1897-1978).

D. José Cordeiro: Quero ser um bispo da internet



D. José Cordeiro vai ser ordenado bispo no domingo, em Bragança. Desejo-lhe a maior fidelidade no serviço à Igreja, que é um serviço aos homens e mulheres de Bragança, neste caso. A notícia acima é do "Correio da Manhã" de hoje.


Enquanto responsáveis da Igreja em Portugal dizem em Fátima que a Igreja tem dificuldade em sentir-se uma nativa digital (para bispos, padres e comunicadores, as tecnologias são "novas"; para os mais novos, são simplesmente tecnologias), e que é preciso "estar" no ambiente digital (ver textos e vídeos aqui), o novo bispo vem dizer que ser ser um "bispo da internet e das novas linguagens".


Espero sinceramente que o seja. Pela entrevista, quando lhe perguntam pelo celibato e pela questão das mulheres, não tem nada a dizer. Diz que o Papa João Paulo II colocou um ponto final na questão da ordenação das mulheres. É isto que é pensar e falar as novas linguagens? Ou é a linguagem do poder e da abdicação? Novas tecnologias. Velhas e inúteis mensagens. A culpa não é do sr. bispo, com com certeza. Mas ainda um dia destes (ou um ano destes), o Papa vai pedir perdão às mulheres.

Made in China

Deus fez o Céu e a Terra. O resto é feito na China.

Cortesia de FCO.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Será verdade que "Povo de Deus" desapareceu?



José Comblin, o padre belgo-brasileiro, teólogo da libertação, "teólogo da enchada", morreu no dia 27 de Março de 2011. Mas há dias foi publicado um artigo dele sobre o Vaticano II, "50 anos depois".


Vale a pena ler. Alguns dirão, é claro, que é de evitar.


O que mais me impressionou foi a afirmação de que desde 1985 a expressão "Povo de Deus" foi eliminada do vocabulário do Vaticano. Ou seja, dos documentos do Magistério. Será verdade? Uma expressão com tanta raiz bíblica, a "Qahal" de Javé...


O artigo está aqui.

Joseph Weiler: Um estado que proíbe a cruz na parede também não é neutro


Entrevista magnífica a Joseph Wieler sobre os direitos e as liberdades, também pela questão homossexual, mesmo a terminar a peça.Veio no "Público" de 27 de Setembro de 2011.
Sobre este judeu que defendeu "por bono" a manutenção dos crucifixos em Itália e noutros países (e, no fundo o direito de a França manter a proibição), veja-se aqui a defesa da implicação dos judeus na morte de Jesus, ao arrepio das mais recentes leituras teológicas católicas (dará origem a um livro, como também se diz no "Público") e aqui o discurso de defesa dos crucifixos no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

Hoje há passagem de ano

Hoje é o último dia do ano judaico. É um dia de preparação para o Rosh Hashanah ("cabeça do ano"). O novo ano começa logo à tardinha.

Acreditar ou não acreditar

Acreditar ou não acreditar: essa é a questão mais profunda na história do mundo,a única e verdadeira questão, e a mais importante de todas.


Goethe (1749-1832)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

27 de Setembro de 1627. Nasce Bossuet



Durante muito tempo, Bossuet foi dos teólogos católicos mais citados, quer em estudos, quer em sermões. Hoje poucos se lembram deste bispo e teórico do absolutismo que nasceu no dia 27 de Setembro de 1627 e morreu, em Paris, no dia 12 de Abril de 1704.

Ele sonha há três anos com a recessão e está muito contente



Não costumo pintar os mercados de negro. Prefiro a liberdade no mercado. Mas compreendo, perante "traders" como o do vídeo, o que por vezes se diz dos especuladores e dos "short sellers", que vendem as acções que não têm, apostando na sua descida, comprando-as, por fim, a um preço mais barato do que o da venda. Além de ser perigoso, devia ser imoral. O senso comum diz: "Não emprestes, não dês, não vendas o que não é teu". Mas isso não vale na alta finança. Joga-se com o dinheiro dos outros. E com o que não se tem (short-seeling, vendas a descoberto). E os meios pouco interessam para os fins, que resumem-se ao aumento do saldo da conta.


O senhor do vídeo sonha todos os dias em em fazer dinheiro com a desgraça alheia. Ele não vê os rostos dos desempregados, dos despedidos, dos falidos. "Nós queremos lá saber de pôr a economia a funcionar, o nosso trabalho é fazer dinheiro a partir dela". "Tenho sonhado com isto há três anos..." "Confissão: sonho com outra recessão..." "Estejam preparados..." "Os governos não mandam, manda a Goldman Sachs..." "Em menos de 12 meses, as poupanças de milhões de pessoas vão desaparecer..."


Ele sonha com a recessão. Milhões, por causa do sonho dele e de outros como ele, não vão dormir. E se dormirem, não se livram de pesadelos.

Manuscritos do Mar Morto online

Uma boa notícia no DN de hoje, depois de anos e anos de polémicas e intrigas - e alguns bons romances. Ou pelo menos o início de uma boa notícia, já que ainda são poucos os manuscritos online. Ver aqui.

Condição

Deus está em toda a parte, mas o ser humano só o encontra onde o procura.


De um texto do judaísmo

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

26 de Setembro de 1945. Morre o músico Béla Bartók


Béla Bartók morreu no dia 26 de Setembro de 1945, aos 64 anos. Educado no catolicismo, afirmou ter perdido a fé pelos 22 anos. Escreveu nesse período: "O corpo é mortal, a alma é imortal. Na realidade, o o  contrário é que é verdade: o corpo (a matéria) é eterna; a alma (a forma do corpo) é transitória". Mais tarde, quando nasce o filho, em 1910, converte-se ao unitarianismo (cristianismo que se opõe à trindade de Deus).

Durante a II Guerra Mundial, Bartók foi para o EUA e escreveu o concerto para orquestra de que fala o seguinte vídeo.

Cúmulo

Um viajante de cor lê um jornal yiddish no comboio em San Francisco. Aproxima-se um judeu, dá-lhe uma palmada nas costas e sussurra-lhe suavemente:
- Não lhe basta ser negro?

Rezar com as pernas



Encontro esta frase numa espécie de antologia de frases anti-religiosas, agnósticas e ateias:

Eu rezei durante vinte anos, mas não recebi nenhuma resposta, até que rezei com as minhas pernas.
A frase é de Frederick Douglass. Para quem não souber que foi este senhor – era o meu caso -, cá está uma personalidade fascinante.
Viveu entre 1818 e 1895. Escravo. Fugiu. Abolicionista que ficou conhecido por “Leão de Anacostia”. Um marx anti-esclavagismo. Um dos afro-americanos mais influentes na história dos EUA, diz a Wikipedia – e por agora chega.
É difícil não concordar com Frederick Douglass. Reza-se com as pernas como se reza com as mãos, sem se deixar de rezar com a mente e o sentimento. Parafraseando Tiago, a fé sem mãos nem pés é morta. Oração coxa (como na anedota em que Deus se insurge com o fiel que muito pedia que lhe saísse a lotaria mas não comprava uma cautela) não pode ir longe.

Católicos por hábito e de rotina - quem os criou?


Página do DN de hoje, no fim da visita do Papa à Alemanha. Para lá de dois erros factuais (1. Adriano VI era holandês e não alemão; mas parece que esta confusão existe desde a sua eleição; sendo o primeiro Papa eleito após a excomunhão de Lutero e a adesão dos príncipes à Reforma, os cardeais, maioritariamente latinos, pensavam que elegendo um alemão seria possível evitar os estragos do antigo monge agostinho; elegeram assim um holandês pensando que era alemão; 2. o movimento Nós Somos Igreja teve origem na Áustria), há um comentário obrigatório quando o Papa critica os "católicos por hábito" ou "de rotina".


Na realidade, as suas instâncias pastorais e os seus líderes eclesiais têm sido os principais promotores do catolicismo rotineiro, de muitos hábitos e pouca fé (a este propósito, veja-se o segundo cartune de Cortés, aqui). Se quiser evitar isso, pode começar por fazer o seguinte:


- acabar com as grandes manifestações populares para-religiosas (festas), geralmente à sombra de um santo em que há pouco de fé e muito de fogo-de-artifício;
- não organizar catequeses de infância, adolescência, juventude, que ao longo de dez anos fazem católicos mas não crentes, como aliás o próprio D. José Policarpo reconheceu há tempos;
- acabar com os crismas em massa; este sacramento constitui, na forma geral como é administrado e recebido, um sacramento de saída da Igreja e não se confirmação da fé;
- acabar com os baptismos das crianças (como Karl Barth há muito sugeriu), que continua a ser pedido com concepções teológicas profundamente erradas, herdeiras de séculos da pregação da Igreja;
- não permitir o casamento católico a quem não der provas de que acredita no que é o sacramento católico;
- acabar com a dependência estatal de uma série de infra-estruturas (de impostos a instituições e centros sociais).


Para que não se pense que a mudança faz-se apenas pela via negativa, sugiro algumas práticas positivas:


- promover a leitura da Bíblia;
- criar grupos de oração e de partilha de vida;
- fazer depender a caridade da Igreja exclusivamente da generosidade dos seus fiéis.


Como escrevi isto sem ler o discurso do Papa - só li a notícia do DN -, pode ser que volte ao assunto.

domingo, 25 de setembro de 2011

25 de Setembro de 1534. Morre o Papa Clemente VII

Clemente VII morreu no dia 25 de Setembro de 1534, aos 56 anos, supõe-se que envenenado pela ingestão de cogumelos.


Primeiro foi um papa claramente anti-espanhol. Depois, também para agradar Carlos V, não deu a anulação de casamento a Henrique VIII, gerando-se assim o cisma anglicano.


Concordou com a instalação da Inquisição em Portugal, em 1531, mas, passado um ano, anulou a decisão. A Inquisição chegaria em 1536, sendo Papa Paulo III.

Rir com o Hermano Cortés

Rir com o Hermano Cortés (José Luis Cortés), mesmo que não se evite de todo algum tom mais amarelo. 
 16 de Setembro

21 de Setembro

Bento Domingues continua a preparar o Vaticano III

Texto no "Público" deste domingo. Ler primeiro artigo da série aqui.

Religião em Dawkins

Diz Richard Dawkins: “Eu sou contra a religião porque ela nos ensina a nos satisfazermos ao não entender o mundo”. E bem. Todos devemos ser contra a religião se e quando ela nos ensinar a nos satisfazermos ao não entender o mundo.
Mas é isso que faz a fé cristã? Claramente que não é. A fé cristã é principalmente um impulso ao encontro do outro, do próximo. E é muito mais exigente entender o próximo como um "alter christus" do que "entender o mundo".

sábado, 24 de setembro de 2011

Morto agradece milagre

Via Rerum Natura (aqui)

O Papa reabilitou Lutero?


A viagem do Papa à Alemanha tem estado a correr muito bem, bem acima das previsões.


Sinal de que a visita corre bem, apenas um entre muitos outros, foi a publicação pelo Frankfurter Allgemeine Zeitung de um discurso de Bento XVI na íntegra. Não me lembro de nenhum jornal laico português ter feito tal coisa em Maio de 2010.


Fala-se, por outro lado, na reabilitação de Lutero. Não creio que aí se chegue. Teria que se demolir a Basílica de São Pedro, voltar atrás nas indulgências (coisa que Bento XVI reforçou), reconfigurar o sacerdócio ministerial - para não dizer abolir, criticar o poder romano.


O Papa não reabilitou Lutero. Apenas disse que ele pensava na questão fundamental, que é a de Deus, e que isso é exemplo para todos os cristãos. Quanto a mim, é muito pouco para tudo o que Lutero significa.

Anselmo Borges: O milagre do perdão


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Já no avião, vindo de Santander, aonde fora participar num curso de Verão sobre "Transformação da Teologia na situação actual: pluralismo religioso e secularização", leio no El País um daqueles casos que nos dão o melhor da Humanidade.
Ameneh Bahramí é uma mulher iraniana de 32 anos, que não aceitou uma proposta de casamento com Majid Mohavedí. Por causa disso, este atirou-lhe ácido à cara, e ela não só ficou com o rosto desfigurado como perdeu a visão dos dois olhos. Um tribunal decidiu então aplicar a lei de talião, ainda vigente no Irão, e que Majid Mohavedí perdesse também a visão. Aplicação da lei de talião: olho por olho, dente por dente.
No passado dia 7 de Agosto, sete anos depois, estava tudo preparado, a própria televisão iraniana dispunha-se para dar conta do horror. Na sala de um hospital, Majid Mohavedí esperava de joelhos que Ameneh Bahramí executasse a sentença e deitasse nos olhos dele as gotas de ácido que o deixariam igualmente cego. Mas Ameneh Bahramí perdoou-lhe.
O jornal acrescenta que não renunciou ao que é conhecido como "preço de sangue" na legislação islâmica: uma compensação económica pela dor sofrida: 150 000 euros, que o autor da barbaridade deverá pagar, se quiser sair da prisão. E comenta que é verdade que ela foi pressionada pela Amnistia Internacional e outras organizações que defendem os direitos humanos para que concedesse o perdão que só ela podia conceder. Mas, "seja como for, fê-lo. E paralisou assim a abominável norma que consagra a vingança como medida com que fazer justiça".


Ameneh Bahramí

Mesmo nas piores circunstâncias, ainda é possível a Humanidade erguer-se às alturas da generosidade. "O irreparável não pode remediar-se com mais destruição. É o que ficará do gesto desta mulher a quem destroçaram com ácido o rosto (e a vida)." E é esta grandeza que está também por trás da carta que um jovem de 16 anos que sobreviveu à matança de Oslo dirigiu a Anders Behring Breivik, o verdugo de tantos dos seus amigos.
Fracassaste, disse-lhe, "não respondemos ao mal com o mal".
Se houve tema no qual Jesus insistiu foi no do perdão. "Quantas vezes se deve perdoar?", perguntou-lhe Pedro. "Sete?" E Jesus respondeu: "Setenta vezes sete", isto é, sempre.
Porque o Deus de Jesus é o Deus do perdão, da bondade, da misericórdia. Mas, no fundo, raros são os cristãos que acreditam nesse Deus. Preferem o Deus que mete medo e se vinga. E a prova está em que se continua a oferecer a Deus sacrifícios, para implorar a sua misericórdia e compaixão. Mas como é que um Deus infinitamente bom - o Amor - pode precisar de sacrifícios para aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade? Talvez porque, se Deus se vingasse, nós também poderíamos fazê-lo.
Quando se trata de perdão mesmo, é preciso reconhecer que estamos perante um milagre. Porque o perdão transcende a justiça e o jurídico: de facto, nem o verdugo tem direito a ser perdoado nem a vítima é obrigada a perdoar. É o dom e a graça. Por isso, Vladimir Jankélévitch distinguia, com razão, entre desculpa e perdão. A desculpa é condicional: depende da capacidade de compreender o mal feito, que se explica. O perdão é incondicional: depende do poder criador do amor, confrontado com a malvadez, esse enigma do mal querido livremente. "Por isso, as 'razões' de perdoar praticamente não são mais admissíveis que as 'razões' de crer; se perdoamos, é porque não temos razões; e se temos razões, há a desculpa, não o perdão." E isto não é permissivismo, pois o amor é o mais exigente que há.
Se pensarmos até ao fim, lembrando as vítimas inocentes, não será difícil vir à ideia que só Deus pode perdoar. Como escreveu o filósofo agnóstico Jacques Derrrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência, "qualquer coisa de trans-humano": "na ideia do perdão, há a da transcendência", pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí começa o domínio da religião. "A partir desta ideia do impossível, deste 'desejo' ou deste 'pensamento' do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito tentar-se uma génese do religioso".

Humor e humanidade

Onde não há sentido de humor, não há humanidade.


Eugène Ionesco (1912-1994)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

23 de Setembro de 1936. Morre Sigmund Freud



Freud morreu no dia 23 de Setembro de 1936, aos 83 anos.


O fundador da psicanálise preconizava que a religião acabaria quando desaparecesse o complexo neurótico obsessivo. A religião era uma ilusão sem futuro ("O futuro de uma ilusão", 1927), profundamente ligada à repressão dos desejos humanos. Quanto mais negados, mais religiosos seriam os homens.


Já em "Totem e tabu", de 1912, a origem da religião está no relacionamento pai-filho. "Deus - resume o próprio Freud na obra de 1927 - era o pai exaltado, e o anseio pelo pai constituía a raiz da necessidade de religião".


Concorde-se ou não (eu discordo), as teses de Freud fazem pensar os crentes de qualquer fé.

"Bruce", short movie sobre o poder

Aplicável a muitas situações do nosso querido mundo actual. E de sempre.

Como fazer títulos infalíveis sobre a visita do Papa a qualquer país com anos de antecedência?

É fácil. Basta meter "protestos"/"polémica", "recebem"/"contra", "Papa"/"Bento XVI" mais o nome do país/terra. Exemplo para uma visita de 2013: "Protestos recebem Bento XVI no Rio de Janeiro". Exemplo para 2017: "Polémica na visita do Papa a Portugal". Exemplo para 2019: "Protestos em Los Angeles contra visita do Papa". Este é um uso fácil da infalibilidade mediática. As notícias aqui reproduzidas são do JN e do "i" (a coluna) de hoje.


Como fazer humor sublime

Todo o humor sublime começa com a renúncia a levar a sério a sua própria pessoa.


Hermann Hesse (1887-1962)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Será que a ciência provou que Deus não existe? 2.ª Parte

Parte da astrónoma Teresa Lago sobre o debate à volta do último livro de Stephen Hawking, no "Q. Quociente de Inteligência" do sábado passado (ver primeira parte aqui). Nos próximos tempos, não há sinais de tédio no céu.



Hans Kung e o incorrigível (que não é o teólogo suíço) na "Der Speigel"



A entrevista que a revista "Der Spiegel" fez a Hans Kung, que aqui havia referido, foi traduzida pelo portal UOL e reproduzida no IHU da Unisinos. Pena não terem sido traduzidos os restantes artigos sobre a visita de Bento XVI à Alemanha. A capa diz: "O incorrigível. Um papa que deixa que os alemães abandonem a fé".

Hitler e Bento XVI de mãos dadas

No DN de hoje. Ontem, dois chamados artistas andaram a passear-se de Hitler e Papa. Humor estúpido e sem piada. Metesse judaísmo e um coro internacional levantar-se-ia contra os artistas - isto digo eu, que até sou filojudaico, a começar pelo nome deste blogue. Como mete o Papa (e a Igreja Católica), não há como não pensar que no fundo no fundo terá culpas no cartório (curiosa expressão).   

Força



O sorriso é uma das forças supremas do ser humano.


Romano Guardini (1885-1968)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

21 de Setembro de 1823. Joseph Smith é visitado pelo anjo Moroni

Anjo Moroni no templo de Idaho, EUA


Segundo a história do mormonismo, no dia 21 de Setembro de 1823, Joseph Smith foi visitado pelo anjo Moroni, que lhe disse onde estavam as placas de ouro que viriam a estar na origem do Livro de Mórmon - o livro sagrado do Movimento dos Santos dos Últimos Dias ou mormonismo.

Será que a ciência provou que Deus não existe? 1.ª Parte

A parte do P.e Joaquim Carreira das Neves sobre o debate à volta do último livro de Stephen Hawking, no "Q. Quociente de Inteligência" do sábado passado (ver aqui também). Será que a ciência provou que Deus não existe?



“Porque é que o homem está agarrado ao peito, papá?”


Há poucos anos estive na Galeria de Arte da cidade de Birmingham. Num canto envidraçado, há uma pintura pequena e intensa de Petrus Christus, que representa Cristo mostrando as suas feridas: de polegar e indicador estendidos, ele mostra onde a lança entrou – convida-nos mesmo a medir o golpe. A coroa de espinhos floriu num halo de glória, dourado, semelhante a algodão-doce. Dois santos, um com um lírio e outro com uma espada, assistem-no e afastam os cortinados de veludo verde dum palco estranhamente doméstico. Quando me retirava depois de ter examinado o quadro, reparei num pai em fato de treino com um filho pequeno, que vinham na minha direcção, com a atitude de quem odeia arte. O pai, equipado com melhores sapatilhas e mais energia, vinha um ou dois metros à frente. O rapaz olhou de relance a obra e perguntou, com um forte sotaque de Birmingham: “Porque é que o homem está agarrado ao peito, papá?” O pai, sem abrandar a marcha, conseguiu olhar para trás e para o lado, e respondeu logo: “Não sei”.


Julian Barnes, pág. 69-70 de “Nada a temer” (ed. Quetzal)
Para saber mais sobre o quadro, ver aqui.

Um filtro preocupante

Notícia do DN de hoje. Para lá da efectiva preocupação da Igreja belga em proteger as crianças, respondendo às directivas da Santa Sé, o que significa a medida? Que o sacerdócio ministerial como é concebido actualmente atrai pedófilos? Atrai jovens com medo da intimidade heterossexual, como diz o psicólogo da notícia? Parece-me que esta medida preventiva só esconde um problema muito maior. Um filtro que, pretendendo resolver um problema, revela que as suas causas permanecem.

Gente séria

Não me faleis de gente que nunca ri. Não é séria.


Robert Schuman (1886-1963)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

20 de Setembro de 1276. Pedro Hispano é eleito Papa João XXI

Página do tratado "De Oculis", de Pedro Hispano

O lisboeta Pedro Julião, ou Pedro Hispano, foi eleito Papa no dia 20 de Setembro de 1276 e morreu no dia 20 de Maio de 1277, em Viterbo, onde está sepultado.

Antes de ser Papa foi um grande intelectual, filósofo, médico e cientista.
Tractatus de Oculis, pequeno folheto dedicado ao tratamento das doenças de olhos, sobressai entre as muitas obras que são atribuídas a Pedro Hispano por várias razões. Em primeiro lugar, por ter sido escrito por uma eminente autoridade médica, cuja formação em medicina terá sido bastante rigorosa, em particular se tiver sido obtida em Montpellier. Em segundo lugar, e tendo em consideração as credenciais profissionais do autor, por constituir um levantamento absolutamente atualizado das questões que discute. Em terceiro lugar, por ter sido muito divulgado à época, tendo continuado a ser usado na profissão durante pelo menos dois séculos e meio após a sua composição. Por fim – e esta é talvez a razão mais relevante –, por nos proporcionar uma visão do que era a teoria e a prática, não só da medicina medieval em geral, mas da oftalmologia medieval em particular.
Ler mais aqui.

O sim aos lefebvrianos é um não ao Concílio Vaticano II?

Depende. Se eles aceitarem o II Concílio do Vaticano, nomeadamente o ecumenismo, a liturgia em vernáculo, o diálogo inter-religioso, a liberdade religiosa, o chamado diálogo igreja-mundo, a identidade laical…, o acolhimento dos tradicionalistas na Igreja católica não significará o fim do concílio.

Mas eles não parecem com vontade de dizer sim a essas aquisições conciliares, pois significaria precisamente dizer não ao que pensam e à forma como agem. E o que pensam é mais ou menos isto: “Nós temos a verdade. Os outros estão no erro. Os outros devem converter-se para evitar o inferno”. E isto aplica-se às confissões não católicas e às religiões não cristãs. D. Marcel Lefebvre dizia: “Nós temos a verdade. Tudo o que for diferente é erro”.


Sobre isto, é interessante o artigo de Massimo Faggioli, doutor em história da religião e professor de história do cristianismo no departamento de teologia da University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA, que pode ser lido aqui. Começa assim:
O Papa Bento XVI fez um daqueles atos que quase certamente deixarão a sua marca sobre o futuro da Igreja universal. No dia 14 de setembro de 2011, de fato, a Santa Sé entregou aos lefebvrianos um "preâmbulo doutrinal": a assinatura embaixo desse documento é um passo exigido aos lefebvrianos para a entrada novamente na comunhão com Roma da sua pequena mas influente comunidade integrista. 
Não se conhecem os detalhes do "preâmbulo" confiado à Fraternidade São Pio X dos lefebvrianos para um período de estudo e de consulta que deverá durar previsivelmente alguns meses. 
Mas é claro que o pivô do confronto gira em torno do Concílio Vaticano II.

Em todo o caso, deixa-me perplexo que se ponha todo o empenho na união com os mais tradicionalistas dos católicos (os lefebvrianos, ainda que cismáticos), os mais tradicionalistas dos anglicanos (aqueles para quem foi criado um regime especial para os acolher na igreja católica) e os mais tradicionalistas dos cristãos em geral (os ortodoxos, com quem se tem dado grandes passos para a união). Parece pouco católico e tudo para o mesmo lado, a olhar para trás.

Se for a Mafra, não se esqueça do capacete

Notícia do JN de hoje.

A não evidência da descrença

Dan Barker, um ateu famoso nos EUA, até porque durante 19 anos foi pastor evangélico e músico de sucesso, afirmou:
Eu sou ateu porque não há evidência para a existência de Deus. Isso deve ser tudo o que se precisa dizer sobre isso: sem evidência, sem crença.
Ainda me ecoa aquela frase de Ratzinger que diz que quem recusa a fé pelas suas incertezas tem de se ver com as incertezas da não fé (aqui). De maneira que não me admiraria de um dia Dan Barker retornasse à fé que perdeu em 1984 (de certa forma há uma parábola sobre isso em Lc 15) e dissesse:
Eu sou crente porque não há evidência para a não existência de Deus. Isso deve ser tudo o que se precisa dizer sobre isso: sem evidência, sem descrença.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Os ateus são bons vizinhos? Ainda bem.


Um Mundo sem Deus. Ensaios sobre o Ateísmo
Michael Martin (dir.)
Edições 70
424 páginas

Este livro reúne 18 ensaios escritos de especialistas de renome de língua inglesa. O ateísmo é abordado do ponto de vista histórico, psicológico, sociológico e filosófico. Há espaço para os argumentos teístas da existência de Deus, mas o pano de fundo é, sem dúvida, a defesa do ateísmo. E com esta hipótese da não existência de Deus (será sempre hipótese e, como como escreveu Joseph Ratzinger num livro de 1968, quem quiser fugir das incertezas da fé terá sempre de suportar as incertezas da ausência de fé), veiculam-se outras que sem dúvida são polémicas e, tanto quanto se pode observar, não estão a ser suficiente debatidas nos meios católicos ou pelo menos nas faculdades e institutos superiores ligados à Igreja, que disso têm obrigação. Algumas delas: ser feminista exige que se seja ateia; os ateus são mais evoluídos dos que os crentes; os ateus são menos sugestionáveis, menos dogmáticos e menos preconceituosos do que os crentes; os ateus são mais tolerantes, obedientes à lei, compassivos e conscienciosos. Em suma, escreve-se na introdução geral, os ateus “são bons vizinhos”.

Não duvido que sejam. Porém, um dos erros que perpassa por muitos dos artigos consiste em pôr todas as religiões e fés no mesmo saco, como se a fé crítica equivalesse ao fundamentalismo ingénuo – e por vezes perigoso.

Esta obra, em parte, é fruto do ressurgir da questão de Deus nas universidades laicas inglesas. Deus (ou a sua negação) não será só uma questão de argumentos e debates. É também de vivência do dia-a-dia, de beleza, de ritos, de convicções não teorizáveis, de doação. Mas se os crentes não estão presentes no debate sobre Deus, quem vai estar? Perde-se por falta de comparência?

Hans Kung prepara a visita do Papa à Alemanha



O Papa visita a Alemanha de 22 a 25 de Setembro. Vai daí, a revista “Der Spiegel” revolveu espelhar na sua última edição uma entrevista a Hans Kung. Claro que entrevistar o teólogo suíço sem umas críticas a Bento XVI, Roma e o Vaticano seria defraudar as expectativas.

E o que diz Hans Kung?

Diz que Bento XVI “oculta a situação de emergência na Igreja Católica”, que esta sofre do “sistema romano”, que as grandes concentrações de multidões nada de novo trazem à Igreja (“nem mais paroquianos na missa, nem mais aspirantes aos sacerdócio, nem menos abandonos da Igreja”), que está a acontecer a “putinização” da Igreja. "Na prática, tanto Ratzinger como Putin colocaram os seus antigos colaboradores em postos dirigentes e liquidaram aqueles que lhes eram adversos", diz. Afirma ainda que há um sistema de denunciantes. “Na Alemanha, os párocos de tendências reformadores, mas também os bispos, devem ter medo de ser denunciado em Roma” (li aqui).

Quem me dera que Kung não tivesse razão. Algumas das questões apontadas não têm a ver com Bento XVI, especificamente, mas com a má tradição da Igreja. Penso concretamente no medo da reforma, que é um medo de discussão e reflexão (um medo de partilha de poder, de democracia, ou, falando eclesialmente, de serviço), num certo culto da personalidade, das dioceses a Roma, que é um medo de autonomia e iniciativa (herança do sistema feudal, por um lado, e , por outro, falando a partir dos Evangelhos, enterrar talentos em vez de os pôr a render). Isto não é exclusivo dos tempos de Bento XVI. Perpassa por toda a Igreja em muitos tempos e geografias. Sente-se mais com Bento XVI? 

A fonte Q está no DN aos sábados



O DN publica ao sábado o suplemento "Q. Quociente de Inteligência". Esta é a capa do número dois, que saiu no sábado passado. Para quem gosta de letra de jornal miudinha e artigos longos, que é o meu caso, é óptimo. Já perdi umas boas horas a ler uns artigos e ainda não li tudo o que queria destas 24 páginas, enquanto há outros jornais bem maiores - estou a pensar num obeso que sai aos sábados - que não duram tanto tempo.
Neste "Q", destaque para os artigos de Joaquim Carreira das Neves, padre, e Teresa Lago, astrónoma, sobre o livro em que Hawking pretende dispensar Deus da criação (talvez ainda digitalize e copie para este blogue as seis páginas em questão).

Riso e esperança

Cox & cow

O riso é a última arma da esperança.


Harvey Cox

domingo, 18 de setembro de 2011

18 de Setembro de 1765. Nasce Gregório XVI, o Papa que condena a escravidão

Gregório XVI nasceu no dia 18 de Setembro de 1765, em Belluno, no norte de Itália, e morreu no dia 1 de Junho de 1846, no Vaticano, tendo sido Papa desde 1831.

Conhecido por ver esquerdismo em tudo o que fosse mudança ou tentativa de mudança nos governos das nações da Europa e promover o ultramontanismo (a preferência por tudo o que vem de lá dos montes, isto, é, os Alpes; ou seja, seguir o Papa), assinou no dia 3 de Dezembro de 1839 a bula In Supremo Apostolatus, que aboliu a escravatura.

O documento foi importante para o progressivo desaparecimento da escravatura nas nações católicas.

Alguém que publique do lado de cá


Brasileiros. Frei Betto, frade dominicano, e Marcelo Gleiser, físico teórico (ver aqui), conversam sobre fé e ciência. Gostava de apanhar o livro do lado de cá do Atlântico.

Bento Domingues começa a preparar o Vaticano III

No "Público" deste domingo, 18 de Setembro de 2011

Domingo, dia da resistência

O domingo é um sinal de resistência contra a liquidação do ser humano pelo mundo do trabalho.


Catecismo da Igreja Católica, n.º 2188

sábado, 17 de setembro de 2011

Anselmo Borges: Direitos dos animais?

Adela Cortina

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Sobre esta questão complexa, existem três posições filosófico-jurídicas fundamentais. No Ocidente, predomina a concepção chamada kantiana, que só reconhece direitos às pessoas. Nas últimas décadas, o movimento animalista vem defendendo a tese de que há animais não humanos que são pessoas. A terceira proposta é a de um modelo de sociedade na qual se reconhece a dignidade dos humanos, mas tem em atenção o valor dos animais.

1. Na concepção predominante, só a pessoa humana é sujeito de direitos. A dignidade da pessoa humana é o fundamento dos direitos humanos. Mas significa isso que os animais devam ser remetidos para o domínio das coisas? O constitucionalista J. Gomes Canotilho pergunta justamente, numa obra colectiva sobre os desafios para a Igreja de Bento XVI, se precisamente um desses desafios não é desenvolver uma ecologia em que "as diferenças entre 'algo e alguém' não remetam para o domínio das coisas a problemática humana dos outros seres vivos da Terra".

2. Num texto famoso de 1789, Jeremy Bentham inquiria: Qual é a característica que confere o direito a uma consideração igualitária? E respondia, perguntando: "Será a faculdade da razão ou, talvez, do discurso? Mas um cavalo adulto é, para lá de toda a comparação, um animal muito mais racional assim como mais sociável do que um recém-nascido de um dia, uma semana ou até um mês. Mas suponhamos que não era assim; de que serviria? A questão não é: pode raciocinar?, pode falar?, mas: pode sofrer?"

O chamado utilitarismo moral coloca o centro precisamente na capacidade de sofrer e de sentir prazer. Para Peter Singer, defensor célebre desta concepção, os seres sensíveis têm interesses, concretamente o interesse do maior prazer possível e da menor dor possível, seguindo-se daí que, ao contrário da concepção anterior, temos deveres directos para com todos os seres capazes de sentir. A desigualdade de tratamento deriva do chamado especiesismo - julgo que se deve dizer assim e não especismo -, que consiste na preferência que damos aos humanos sem qualquer outra razão que não a pertença a uma espécie, no caso, a espécie humana.

Singer, professor da Universidade de Princeton, escreve textualmente, em Ética Prática: "Devemos rejeitar a doutrina que coloca a vida dos membros da nossa espécie acima da vida dos membros de outras espécies. Alguns membros de outras espécies são pessoas; alguns membros da nossa não o são. De modo que matar um chimpanzé, por exemplo, é pior que matar um ser humano que, devido a uma deficiência mental congénita, não é capaz nem pode vir a ser uma pessoa."

3. A filósofa Adela Cortina, numa obra importante - Las fronteras de la persona -, atravessa toda esta problemática, para defender a sua tese, com a qual me identifico. A vida é valiosa por si mesma, mas ainda mais a dos seres sensíveis, que têm a capacidade de sofrer e ter prazer. Os animais têm um valor intrínseco e não meramente instrumental, havendo, por isso, uma obrigação directa de lhes não causar dano.

Mas há seres que não só têm valor intrínseco "mas também absoluto". Os direitos humanos são naturais, isto é, a sociedade política não os concede, mas simplesmente os reconhece, pois são anteriores ao pacto político. Os outros animais não têm o sentido da dignidade e da humilhação. Os humanos "são capazes de reconhecer se a sua própria vida é digna ou indigna, a partir do reconhecimento que outros fazem dela e a partir da sua própria autoconsciência". Para os outros animais basta uma vida materialmente satisfeita; mas a ideia de uma vida digna é diferente: "brota do reconhecimento de estar a ser tratado segundo a norma da espécie, que é, em última análise, a da liberdade."

E os membros da nossa espécie que não podem de facto exercer essas capacidades, como os deficientes mentais profundos? "Isso não os torna membros de outras espécies, mas pessoas que é preciso ajudar para poderem viver ao máximo essas capacidades, o que só conseguirão numa comunidade humana que cuide deles e os promova na medida do possível".

Agora que a Quaresma acaba