segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Madalena, a pregadora, não a prostituta

"Madalena beija os pés de Jesus em casa do fariseu", de Giotto, arte baseada num mal-entendido 

É quase impossível desmentir a cultura popular, que diz que Maria Madalena era prostituta (isto foi muito propalado por causa de “O Código da Vinci”). Não era. Ou, pelo menos, não podemos inferir isso dos evangelhos. Maria de Magdala era muito doente, isso sim, tinha sete espíritos, uma perfeição de doenças. Jesus expulsa-os e ela fica curada.

Não tem nada a ver com a “pecadora pública” que lava os pés de Jesus com lágrimas em Betânia (de quem não se refere o nome em Mc 14,3ss; mas Jo 12,3  refere um episódio similar com Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro, não dizendo, no entanto, que é “pecadora”). Na Bíblia há uma ligeira confusão - ou possibilidade de confusão - entre a pecadora e Maria de Betânia. Mas fora da Bíblia junta-se mais uma Maria, a magdalena, para aumentar a confusão.

A junção das três mulheres numa só vem de Gregório Magno (papa de 590 a 604) e é difundida por Bernardo de Claraval (1090-1153). Cai bem na espiritualidade medieval, porque era um modelo acessível. As mulheres não são nem Eva, a pecadora, nem Maria de Nazaré, a virgem. São madalenas, pecadoras arrependidas, pecadoras que são redimidas. Pessoas normais para o bem e para o mal.

Se a pecadora fosse Maria de Betânia, a coisa não ficava bem feita, porque não se diz que é Maria de Betânia que está junto à cruz e é a primeira a ter conhecimento da ressurreição. Mas diz-se isso da Madalena. Então, nos teólogos medievais, a Madalena absorve as outras marias.

Isto vem a propósito de quê? Porque li que, tendo sido a primeira a pregar a ressurreição, como é repetido em todas as páscoas, Maria Madalena foi a  escolhida para padroeira da Ordem dos Pregadores (dominicanos) – e isto eu não sabia. Li na página 210 de “Porquê ir à Igreja”, de Timothy Radcliffe. É por estas e outras pequenas notas em função de uma mensagem maior que este livro é uma maravilha.

Um deles será o próximo cardeal. Ou não


Logo à partida, seria mais certo dizer: "Um deles será o próximo patriarca". É que cardeal depende da nomeação do Papa, após ser patriarca. Pode dar-se o caso de ser patriarca (a diocese Lisboa é um dos poucos patriarcados) e não chegar ao consistório seguinte para receber o barrete.

E depois, pode ser um destes ou não. Na realidade, apontam-se motivos vários para que não seja nenhum deles. Tirar ao Porto D. Manuel Clemente? Tão pouco tempo no Porto? D. António Marto a saltitar de diocese em Diocese? Viseu, Leiria, Lisboa (em direcção ao sul)? Já para não falar dos bairrismos diocesanos, que dizem que o patriarca não pode vir de certas regiões ou ter  determinado sotaque. Tudo ponderado, sobra para D. Manuel Clemente. Daqui a dois anos.

Os prognósticos vieram na revista Notícias Sábado (DN /JN). O "i" também já falou do assunto, aqui.

O artigo sobre o Patriarca, agora em papel

Do "Público" de ontem (27 de Fevereiro de 2011).



Compreender a divindade


Dizer que Jesus é divino não modifica a nossa compreensão de Jesus, mas a nossa compreensão da divindade.

Albert Nolan (1934 - ...)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

27 de Fevereiro de 1767. Espanha expulsa os jesuítas

Pedro Pablo Abarca de Bolea, conde de Aranda

No dia 27 de Fevereiro de 1767, o primeiro-ministro espanhol, o conde de Aranda, um franco-mação que foi o primeiro grão mestre do Grande Oriente Nacional de Espanha, expulsou os jesuítas de Espanha.

Recorde-se que a vaga de expulsões que culminou na extinção da Companhia de Jesus em 1773, com o breve “Dominus ac Redemptor”, do Papa Clemente XIV, começou em Portugal, com o Marquês de Pombal. Em 1759, o ministro de D. José expulsou de todos os territórios portugueses os membros da ordem fundada por Inácio de Loyola.

Patriarca de Lisboa: estabilidade, intelecto e cansaço

No "Público" hoje, duas páginas sobre D. José Policarpo, que completou ontem 75 anos e pediu ao papa a resignação, como estipulam as regras. O texto é de António Marujo, que ouviu mais de duas dezenas de pessoas próximas do patriarca de Lisboa.
Ninguém poupa elogios. Alguns apontam críticas e dizem que deixou arrefecer o entusiasmo inicial. Todos reconhecem o perfil de intelectual que, desde a posse do cargo de patriarca de Lisboa, em 1998, o destaca como referência da Igreja Católica em Portugal - e do próprio país. Identificado com um estilo afável e apaziguador, de discurso fluente e civilizado, foi sempre chamado a resolver crises. Acabou por ser o patriarca da estabilidade, pragmático, mas também - notam alguns - não arriscou demasiado. E que por vezes aparenta cansaço do cargo, mesmo estando "bem de saúde".
O texto pode ser lido aqui (como é costume, em breve deixará de estar on-line). Ao longo da peça, obtém-se também uma radiografia da Igreja católica portuguesa, como neste parágrafo:
Carlos Paes [padre] tem outra questão: "Na Igreja, os últimos tempos estão marcados por um revivalismo mais preocupado com a ortodoxia do que com a paixão pela evangelização e pela criatividade." Por vezes, diz, "é difícil perceber que paixão anima os novos padres, que se deixam domesticar pelo conservadorismo." Estes problemas não existem por causa do cardeal, acrescenta. Antes, este foi vítima do "défice de toda a geração de padres que abandonou o ministério a seguir ao Concílio Vaticano II".
Ler aqui como saiu em papel.

Bento Domingues: Deus ou o dinheiro?

Bento Domingues no "Público" de hoje: "A sacralização do dinheiro e do seu império é uma idolatria. Faz dele o absoluto critério de tudo. É preciso sacrificar-lhe tudo e todos os valores. O rico nunca pensa que é suficientemente rico e o pobre ou remediado o que deseja é ser rico. A publicidade incendeia a insatisfação, o desejo, para nos tornar infelizes se não tivermos tudo, e já, que ela nos propõe. (…) Não há rivalidade entre Deus e a riqueza. Há rivalidade entre a Plenitude da Vida e a distorção do desejo que se deixa possuir pelo fascínio do dinheiro e de tudo o que ele exige e permite". Clique para ler tudo.

Deixa-me ainda


Cristo, deixa-me ainda aqui viver, sofrer, rezar e morrer em paz.

Pier-Paolo Pasolini (1922-1975)

Quoniam sine dominico non possumus


Em 304, no Norte de África, quando Emérito foi preso por receber estranhos em sua casa para a celebração da Eucaristia, justificou-se dizendo: “Quoniam sine dominico non possumus” (“Sem o dia do Senhor, não podemos viver”). Em muitos países, os fiéis ainda têm de caminhar durante horas pela selva ou sob um calor intenso para assistir à Eucaristia, ou fazê-lo correndo o risco de detenção e de prisão – por exemplo, em certas partes da China. Tudo por uma pequena hóstia branca! Não se pode começar a entender o porquê enquanto se não descobrir dentro de si mesmo esse vazio de fome.

Timothy Radcliffe na página 209 de "Ir à Igreja porquê?"

sábado, 26 de fevereiro de 2011

26 de Fevereiro de 2001. Os talibãs destroem os Budas de Bamiyan


O Vale de Bamiyan, na Rota da Seda, no Afeganistão, foi casa de muitos monges budistas, que viveram em cavernas e esculpiram dois imensos budas, de 55 e 38 metros de altura, por volta do século V d.C.

No dia 26 de Fevereiro de 2001, após uma série de ameaças, os talibãs, fundamentalistas, iconoclastas, dinamitaram-nas.

Com apoio internacional, as estátuas estão agora a ser reconstituídas a partir dos restos e de fotografias.

Episódios iconoclastas acontecem esporadicamente nas religiões monoteístas (o cristianismo teve duas grandes crises, uma no Oritente, nos séc. VI-IX, e outra no Ocidente, na época da Reforma), mas o islamismo é mais propenso a esta tendência. Veja-se, por exemplo, que a crise das caricaturas dinamarquesas de Maomé foi mais por causa da representação gráfica do profeta do que propriamente pela sátira (que a maior parte dos muçulmanos que se manifestaram na rua desconhecia).


Anselmo Borges: As religiões místicas

Texto de Anselmo Borges no "Diário de Notícias" deste sábado (aqui):


Qualquer pessoa verdadeiramente religiosa já alguma vez disse para si mesma: se tivesse nascido noutro continente, de uma família de outra religião, muito provavelmente a minha pertença religiosa seria outra. Na Índia, seria hindu. Em Marrocos ou na Indonésia, muçulmano. Em Israel, de mãe judaica, seguiria o judaísmo. Na China, seria confucianista ou taoísta. No Japão, xintoísta. Na Europa, em Portugal, cristão católico; na Rússia, cristão ortodoxo; na Suécia, cristão luterano.


É este exercício que o teólogo católico Hans Küng faz na sua última obra "Was ich glaube" ("A minha fé"), resultado de uma série de lições dadas, aos 80 anos, na Universidade de Tubinga.


Se tivesse nascido como um dos 1200 milhões de seres humanos na Índia, provavelmente seria hindu. Acreditaria no samsara, o ciclo das reencarnações, no quadro de uma compreensão cíclica do tempo, da natureza, dos diferentes períodos cósmicos e da história. Aceitaria que tudo é regido por uma "ordem eterna" ("Sanata dharma"), cósmica e moral e pela qual o ser humano se deve orientar. Importante é agir correctamente. Acreditaria que a minha vida presente resulta da minha acção moral boa ou má na vida anterior ("karma"), como a minha vida presente determina a vida seguinte. A saída do ciclo das reencarnações dar-se-ia na identificação de atman (eu) com Brahman (o Absoluto, a Realidade última e verdadeira).


Nascido no Sri Lanka, na Tailândia, no Japão, seria provavelmente um entre as muitas centenas de milhões de budistas, rejeitando a autoridade dos Vedas e, assim, também o domínio dos brâmanes e das castas. A figura que serviria de orientação seria Siddharta Gautama, "o Buda", que quer dizer "o Desperto", o "Iluminado". Desde o século VI a. C., ele responde, através da sua doutrina ("Dharma"), às grandes perguntas humanas. Essa resposta concentra-se nas "Quatro nobres verdades". A primeira: tudo é sofrimento, também no sentido de que tudo é impermanente. Qual é a origem do sofrimento que atravessa a vida toda? Responde a segunda: É a "sede de viver", o desejo, o ódio, a cegueira espiritual. A terceira nobre verdade diz que, através do desapego, é possível superar o sofrimento. Para isso, há a nobre verdade do caminho, com oito braços, que conduz à extinção do sofrimento: a visão perfeita, a resolução perfeita, a linguagem perfeita, a acção perfeita, a vivência perfeita, o esforço perfeito, o recolhimento perfeito, a concentração perfeita. Procura-se superar o renascimento, alcançando o Nirvana, aquela situação na qual já não há cegueira e todo o desejo é apagado - aquela situação que, já nada tendo a ver com a nossa experiência empírica, carece de toda a figura concreta, e, por isso, é o Nada, não no sentido niilista, mas de paz, plenitude e felicidade.


Nascido na China como um dos 1500 milhões de chineses, seguiria uma das três tradições religiosas: o budismo, o confucianismo ou o taoísmo.


O confucianismo não é tanto uma religião no sentido ocidental da palavra como sobretudo uma moral, baseada no equilíbrio cósmico e procurando a integração social. O Todo divino da Realidade é simbolizado pelo Céu imutável e os antepassados, que exprimem a permanência da Vida. Confúcio foi o primeiro na história da humanidade a formular a regra de ouro: "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti". A sua moral assenta no equilíbrio cósmico, político e familiar, no quadro de um organicismo vital, hierárquico e polar: soberano-súbditos, homem-mulher, pais-filhos, irmãos mais velhos-irmãos mais novos. Ocupa lugar central o culto dos antepassados, associados ao Céu.


O taoísmo, radicado em Lao-tsé, estrutura-se no quadro de uma concepção da Realidade como harmonia de contrários. É bem conhecido o pictograma do Tao, um círculo e esfera perfeitos que tudo contêm, estando as suas duas metades - uma clara, outra escura, Yang (céu, masculino) e Yin (terra, feminina) - em movimento constante e exprimindo o Todo num equilíbrio de momentos polares.


Sem diálogo entre as religiões, não haverá paz entre as nações. Para dialogar, é preciso conhecer.

Dar crédito e crer


Dou crédito a Platão e a Sócrates. Creio em Jesus Cristo.

S.T. Coleridge (1772-1834)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Extraterrestres querem tramar Bento XVI

Gabriele Wittek

Dois advogados alemães apresentaram uma denúncia contra Joseph Ratzinger, por “crimes contra a humanidade”, no Tribunal Penal Internacional de Haia. São eles Christian Sailer e Gert-Joachim Hetzel, da mesma região onde nasceu o Papa.

Os motivos da causa são três: coacção a membros da Igreja; proibição do uso de preservativo; silêncio perante os casos de pedofilia do clero.

Até aqui, nada de propriamente novo na notícia. Já vários tentaram ou disseram que iam pôr Ratzinger / Bento XVI em tribunal, a começar por Richard Dawkins.

A novidade está em que os advogados pertencem à "Universal Life", uma seita que segue a autoproclamada profetiza Gabriele Wittek, que afirma ter recebido directamente de Jesus Cristo a indicação para fundar um grupo religioso. Além disso, a seita diz ter contactos com extraterrestres, o que, sem dúvida, dá uma credibilidade espantosa a todo o caso. Li aqui.

Todos devíamos nascer velhos, mas paciência


Agora que estou mais velho, não me é possível conceber a vida a nível individual. Em relação a tipos mais novos, tenho quase a certeza de que essa consciência não existe: as pessoas limitam a sua vida ao período individual que vai do nascimento até à morte.

Luís Miguel Cintra em declarações ao “Ípsilon” (“Público”) de 25 de Fevereiro

Para recolocar Jesus no coração dos crentes


O caminho aberto por Jesus. Mateus
José Antonio Pagola
Gráfica de Coimbra 2
280 páginas

Este livro é constituído por 42 capítulos que seguem sempre o mesmo modelo. Primeiro apresenta-se um trecho do Evangelho de S. Mateus e a seguir cinco breves comentários com sugestões “para mergulhar no relato de Jesus”. Os trechos evangélicos em questão são os das missas dominicais do presente ano litúrgico. O que o autor faz agora em relação a Mateus terá réplicas equivalentes com os evangelistas Marcos, Lucas e João nos próximos anos.

José Antonio Pagola deixa bem explícito na Apresentação o que pretende com este livro que teve óptima recepção em Espanha: “Pensei sobretudo nas comunidades cristãs, tão necessitadas de alento e de novo vigor espiritual; tive presente muitos crentes simples em quem Jesus pode acender uma fé nova. Mas quis também oferecer o evangelho de Jesus a quem vive sem caminhos para Deus, perdidos no labirinto duma vida desconjuntada, ou instalados num nível de existência em que é difícil abrir-se para o mistério último da vida. Sei que Jesus pode ser para eles a melhor notícia”.

O autor reconhece que, “como é vivido por muitos, o cristianismo não suscita «seguidores» de Jesus, mas apenas «adeptos de uma religião»” que podem nunca conhecer a experiência “mais originária e apaixonante”, que consiste em “entrar pelo caminho aberto por Jesus”. Por que é que tal acontece? Há muitos factores dentro e fora da Igreja que explicam a “mediocridade espiritual”, mas, provavelmente, “a causa primeira está na ausência de uma adesão vital a Jesus Cristo”. Este livro, pretende, pois, dar a conhecer a “energia dinamizadora que está presente em Jesus”.

O autor. José António Pagola, padre, foi vigário geral da diocese de San Sebastiám (Espanha). Desde há sete anos que se dedica exclusivamente a investigar e dar a conhecer a pessoa de Jesus, como afirma. Publicou em 2007 “Jesus. Aproximación histórica” (tradução em português pela Gráfica de Coimbra 2, em 2009), livro sobre o qual a Congregação para a Doutrina da Fé abriu recentemente um processo, embora não tenha sido dito ao autor quais são os pontos do seu pensamento sobre Jesus são motivo de questionamento. Em 2008, a Conferência Episcopal Espanhola contestou que Pagola sugeria que “algumas propostas fundamentais da doutrina católica carecem de fundamento histórico em Jesus”.

Aragorn é dominicano (como os frades)

Rei Aragorn no filme de Peter Jackson

Aragorn, um dos heróis da saga “O Senhor dos Anéis”, é dominicano – como os frades. Quem o diz é Timothy Radcliffe, antigo geral da ordem, numa nota de rodapé do seu livro “Ir à Igreja porquê?”, na página 203:
“A razão porque Aragorn em uma estela é porque Tolkien, muitas vezes, ajudava à missa em Blackfriars [colégio dos dominicanos em Oxford], no altar de S. Domingos, que tem uma estrela na testa. Aragorn é de facto, um dominicano”.
O frade fala de Aragorn para fazer uma comparação. Strider sempre fora Aragorn, o rei esperado, mas os hobbits tinham os olhos fechados. Só viam nele um andarilho robusto e resistente. Com os discípulos de Jesus, a caminho de Emaús, passa-se o mesmo. E não é só com eles.

Inclino-me

J. W. Goethe por Andy Warhol

Inclino-me perante Jesus Cristo como a revelação divina do princípio supremo de moralidade.

Goethe (1749-1832)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

24 de Fevereiro de 1607. Estreia da ópera “Orfeu”, de Monteverdi

Cláudio Monteverdi

“Orfeu”, uma das primeiras óperas, de Cláudio Monteverdi, estreou-se no dia 24 de Fevereiro de 1607, no Palácio Ducal de Mântua, Itália.

A ópera encena o mito grego de Orfeu e Eurídice. O músico Orfeu desce ao Hades para resgatar a sua mulher, Eurídice, que morreu mordida por uma serpente.

Nos primeiros séculos, os cristãos usaram este mito na literatura e na arte. Orfeu representava Cristo que resgatava a humanidade da morte.

Desconheço se Montverdi dá uma interpretação cristã ao mito, o qual, em muitos outros pontos se afasta da mensagem cristã.

Orfeu rodeado de animais, Museu Cristão-Bizantino, em Atenas

Cinco curiosidades de Teresa de Ávila


* Chamava-se Teresa Sánchez de Cepeda Dávila y Ahumada (1515-1582). É mais conhecida por Teresa de Ávila, porque nasceu nesta cidade, ou por Teresa de Jesus, nome que adoptou na reforma carmelita que empreendeu.

* Era uma mulher com grande sentido de humor, além de ter sido mística e poetisa. Algumas das suas afirmações: “Deus me livre de santos encapotados”; “Entre os tachos anda o Senhor” ou aquela que aqui há dias recordei, dirigida a Deus: “Se assim tratais os vossos amigos, não admira que tenhais tão poucos!”

* Não foi declarada doutora da Igreja há mais tempo por causa de ser mulher. Propuseram-na em 1926 a Pio XI. Mas este respondeu: “Obstat sexus” (“Impede o sexo”, com algumas discrepâncias, o episódio foi recordado aqui). Paulo VI proclamou-a doutora em 1970 (a primeira; depois disso, foram proclamadas mais duas: Teresa de Lisieux e Catarina de Sena, ambas por João Paulo II).

* O seu principal discípulo não foi João da Cruz, mas Jerónimo Gracián (1545 – 1614), que foi expulso da ordem quando Teresa morreu.

* Teresa de Ávila é conhecida entre os carmelitas por Teresona. É que eles têm também a Teresinha (Teresa de Lisieux ou Teresa do Menino Jesus) e a Teresa (ou Teresa Benedita da Cruz, a filósofa Edith Stein).

Estes apontamentos foram inspirados, em parte, por um texto do Religión Digital.

Jesus era judeu... Não me digas!


É certo que genro de Richard Wagner, o inglês Stewart Chamberlain, que Hitler gostava de ler, escreveu um dia que “Todo aquele que defende que Jesus Cristo era judeu, é ignorante ou desonesto”. E, admita-se, alguns cristãos ainda podem achar estanho ouvir “Jesus era judeu”, seja em relação ao grupo humano em que nasceu ou à religião.

Mas nesta entrevista que saiu hoje na “Visão”, a cultura geral (já nem seque digo teológica ou bíblica) não sai lá muito bem retratada.

É novidade que Jesus foi circuncidado? Isso até os medievais sabiam porque procuram (e alguns diziam que a tinham) a relíquia do “santo prepúcio”. E há quadros renascentistas que pintam a cena.

Quanto ao que Jesus diz e não diz, ele nunca referiu qualquer sacramento. A palavra é uma dezena de séculos posterior. E, na verdade, ninguém diz que o casamento é um sacramento insolúvel. Indissolúvel, sim. E a veneração de imagens, é claramente extrabíblica, que novidade. Vale a pena recordar que a lógica cristã das imagens é simples: se Jesus quis deixar uma memória de si no pão visível, os sinais, por analogia, podem falar das realidades divinas. Veneração. Não culto. São coisas cá dos pobres humanos, por pedagogia.


Também é estranho dizer que Jesus nunca seria anti-semita. Alguém disse que ele era? Talvez fosse mais correcto dizer que Jesus nunca foi antifariseus (havendo até quem diga que Jesus foi um deles). O antifarisaísmo é dos discípulos de Cristo. Surge nos cristianismo primitivo como reacção à expulsão da seita cristã (no início era uma seita) das sinagogas.

Espero que o livro seja melhor do que promete a entrevista. É muito fácil pegar no que Jesus fez ou não fez e questionar as práticas eclesiais actuais, que, de uma maneira geral, querem ser fiéis a Jesus e à Tradição que dele brota. Na realidade, até acho que esse questionamento deve ser feito mais vezes, mas com mais profundidade e, como crente, com mais sentido evangélico.

Esquecer?



Que se cruza com Jesus na sua vida, jamais pode esquecê-lo.

Shusaku Endo (1923-1996)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

23 de Fevereiro de 1417. Nasce Pietro Barbo, que vem a ser o Papa Paulo II


Paulo II nasceu no dia 23 de Fevereiro de 1417. Foi Papa de 20 de Agosto de 1464 a 26 de Julho de 1471. De porte imponente, sucedeu a Sisto IV. Os eleitores queriam que ele acabasse com o nepotismo e a corrupção na Cúria Romana, embora fosse sobrinho de um papa (Eugénio IV, papa de 1431 a 1447).
Não chegou a convocar o concílio que alguns desejavam nem resolveu a questão turca (Constantinopla caíra em 1453), mas promoveu bons costumes, permitiu a entrada da imprensa em Roma e mandou celebrar o jubileu de 25 em 25 anos.
A sua morte está envolvida em histórias caricatas e obscuras. Um delas diz que morreu de pneumonia, apanhada por usar demasiadas jóias nos dedos.

Cristo chora mel para que não sejamos tão amargos


Uma pequena imagem de Jesus Cristo (acima reproduzida), em São Paulo, Brasil, verte lágrimas de mel. A dona da imagem, Doralice da Silva Carvalho, de 67 anos, diz que “é uma mensagem de Deus a toda a humanidade”. Jesus mostra assim a “doçura de seu coração, porque hoje em dia as pessoas estão muito amargas”, acrescenta.

As autoridades eclesiásticas de São Paulo querem analisar a imagem, mas a senhora não a deixa sair de casa. Que façam as análises lá. Um dos responsáveis já sugeriu, por isso, que ponham a imagem dentro de uma caixa lacrada a ver se continua a deitar lágrimas de mel (ver aqui).

Dizem as notícias que cerca de 150 curiosos já passaram pelo quarto da senhora Doralice. Alguns confirmam que as lágrimas têm a textura e sabor do mel.

A senhora está teologicamente correcta na mensagem. Jesus mostra a doçura do seu coração para que nós não andemos tão amargos. E ninguém a ouviria se não fosse o pretexto do milagre. Mas faz lembrar a imagem que no centro de Portugal há uns anos, deitava lágrimas de sangue de… galinha.

Rir, pensar e opinar com José Luis Cortés

23 de Fevereiro

19 de Fevereiro

12 de Fevereiro

Os cartunes de José Luis Cortés são geralmente críticos para a instituição, a hierarquia, os bispos, o Papa. Nem todos os criticados serão como critica a crítica, mas sem dúvida que há algo de procura evangélica nos desenhos do cartunista espanhol. Veja-se a sequência sobre moral, ritos e dogmas no cristianismo (21, 22 e 23 de Fevereiro). Como é natural, há quem simpatize com o autor e quem o abomine. Ler os comentários aos cartunes (por exemplo, os do cartune de 19 de Fevereiro) permite obter um bom leque de opiniões de todos o arco de pertença dos católicos. Dos mais e menos pró-hierarquia. Dos de direita e de esquerda. Dos mal e bem-educados. Dos temerosos e dos com sentido de humor.

Anarquista

E Cristo? É um anarquista que teve êxito. O único.
André Malraux (1901-1976)


Comentário breve: Não só foi não foi anarquista como não teve êxito. Só a longo prazo.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

22 de Fevereiro de 1857. Nasce Baden-Powell



Baden-Powell, o tenente-general britânico que fundou o escutismo em 1907, nasceu no dia 22 de Fevereiro de 1857 e morreu no dia 8 de Janeiro de 1941.

Anglicano, considerava que todo o escuteiro devia ter uma religião, embora hoje haja pelo mundo muito escutismo indiferente à questão religiosa. Escreveu: “O homem de pouco vale se não acreditar em Deus e obedecer às suas leis”. E ainda: “Visamos a prática do cristianismo na vida e nos afazeres de todos os dias, e não apenas a mera profissão da sua teologia aos domingos”.

Noutro discurso aos escuteiros, deixou formulado o célebre preceito WWJD (What would Jesus do?): “Acho bastante curioso que homens que se dizem bons cristãos se esqueçam tantas vezes, perante uma dificuldade, de fazerem a si mesmos esta simples pergunta: «O que é que Cristo teria feito nestas circunstâncias?», e decidir em conformidade. Lembra-te de a fazer na próxima vez que estiveres em dificuldades ou que não saibas como proceder”.

Peter Seewald não gosta de que se fale de certas coisas


Já alguém observou que no livro-entrevista ao Papa cabe ao jornalista Peter Seewald o papel de duro e integrista, fazendo Bento XVI parecer o liberal que não é. Talvez Seewald ainda esteja a viver o complexo de alguns convertidos que passam de um extremismo ao outro sem conhecerem a moderação e a tolerância. Diria que é um “complexo Paulino”, se ignorasse a bem-aventurança de Romanos 14,22, que é um elogio à liberdade: “Feliz de quem não se condena a si mesmo, devido às decisões que toma”. Como Paulo bem sabia, a paixão pela verdade não deve tornar ninguém num opressor da liberdade de opinião. Pagou com a vida essa convicção, porque o que ele sabia ser a Verdade fazia dele um alvo a eliminar na óptica do poder instituído. Hoje diríamos que os fins nobres não valem para justificar os meios intolerantes.

Ora, Peter Seewald, a propósito do manifesto dos teólogos de língua alemã, em boa parte dele compatriotas, afirmou numa entrevista à agência austríaca kath.net:
Atingiram o ponto sensível de milhões de fiéis, que finalmente estão fartos dessa discussão que aturamos pacientemente durante anos. Afirma-se, com lágrimas de crocodilo nos olhos, que se pretende “tirar a igreja de sua ocupação paralisante consigo mesma”. Nada disso. São justamente esses grupos que transformaram a ocupação consigo mesma praticamente numa mania e, com isso, estão impedindo há 25 anos que a igreja na Alemanha se volte para os verdadeiros problemas. Fico espantado com a falta de honestidade da discussão, os argumentos equivocados, o tamanho da demagogia praticada neste caso. Mas é possível que essa campanha também tenha um efeito de mobilização e solidarização entre as pessoas fiéis à igreja com o qual os responsáveis por ela não contavam. Quem semeia ventos pode acabar colhendo tempestades.
Não podia discordar mais da opinião do entrevistador do Papa agora entrevistado (exaltou-se na entrevista). Os problemas focados no manifesto são reais problemas. Se há 25 anos que impedem que a igreja na Alemanha se volte para o que realmente interessa é precisamente porque não estão realmente discutidos e resolvidos. Hão-de voltar sempre enquanto não estiverem resolvidos. Os cristãos – penso na realidade Portuguesa –, não estão, na realidade, fartos da discussão. Ainda não falaram, sequer.

Manifesto aqui. Entrevista a Seewald aqui.

A história da minha vida não é acerca de mim

Não podemos narrar as histórias das nossas vidas. Seja qualquer for o seu sentido particular, está inserido nas história contada por Deus. Recordemos que – como observou Samuel Wells – os heróis são o centro das suas narrativas, mas os santos não passam de personagens secundárias num história que é de Deus. A história da minha vida não é acerca de mim.

Timothy Radcliffe na pág. 194 de "Ir à Igreja porquê?"

O início do dia é tão boa ocasião como qualquer outra para se estar grato


Agradeço-te, Senhor, por respirar e existir.
Agradeço-te por tudo o que tenho e me rodeia.
Agradeço-te pelo que comi:
é dádiva tua.
Agradeço-te por me teres permitido
viver e trabalhar hoje,
e sentir alegria;
por ter encontrado esta pessoa,
e ter comprovado a fidelidade daquela.
Agradeço-te por tudo.

Romano Guardini (1885 – 1968)

Como a chama

Senhor, tu descobriste o meu ser,
é verdade que te procuro e não te encontro,
Mas, amar-te? Olha que como estou em baixo,
tu, cujo amor sobe sempre como a chama.

Paul Verlaine (1844-1896)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

21 de Fevereiro de 1848. Publica-se o Manifesto Comunista


Karl Marx e Friedrich Engels publicaram no dia 21 de Fevereiro de 1848 o "Manifesto Comunista" (inicialmente, "Manifesto do Partido Comunista", Manifest der Kommunistischen Partei), provavelmente o documento político mais influente dos tempos modernos. Passados 43 anos, a 15 de Maio de 1891, sairia a “Rerum novarum”, de Leão XIII, a primeira resposta católica ao comunismo.

O Manifesto pode ser lido em português aqui.

Joana d'Arc ouvida a 21 de Fevereiro de 1431


No "Público" de hoje recorda-se que, no julgamento em que foi condenada à fogueira, Joana d’Arc (beatificada em 1909 e canonizada em 1920, num processo em que não foi alheia a vontade do papado em reatar laços com a França republicana) foi ouvida pela primeira vez pelo tribunal eclesiástico chefiado pelo bispo de Beauvais no dia 21 de Fevereiro de 1431.

O espírito é que abunda


Na nossa civilização, ao contrário da voz corrente que a diz muito material, o espírito é que abunda, verdadeiro sopro incontido, a insinuar-se na mínima fresta: se até o bacalhau pode ser espiritual!
Abel Barros Baptista, na revista "Ler" de Fevereiro de 2011

Quem sucede a D. José Policarpo? o jornal "i" aponta três bispos

Fumo branco porquê? Só se for por causa dos cabelos brancos do cardeal-patriarca. Notícia do "i" de 19 de Fevereiro sobre a saída e sucessão de D. José Policarpo. 


A minha corcunda e as costas infinitas de Deus

Católico, sim ou não?
Um leitor deste blogue, do lado de lá do Atlântico (escrevo em Portugal), pergunta-me se sou católico. Um “sim” ou um “não” basta. Já lhe respondi há dias. Na altura não me lembrei de contar a anedota do corcunda que conta a toda a gente que é corcunda. Como se precisasse de o dizer. Pois eu sou um corcunda consciente. Mas não sabia que isso não se notava em quem me lê. O leitor brasileiro diz-me na volta que eu falo muito da “banda podre” do catolicismo. Talvez. E tenho simpatias pela insegurança antropológica luterana e pela segurança ontológica judaica – acrescento. Mas sou católico. Pensava que isso se notava pelas efemérides quase diárias e quase sempre papais. Pelas pontes que procuro entre culturas, ciências, artes e religiões. O católico sabe que há muitas moradas na Casa do Pai. Que o Papa é pontífice para lançar pontes. E cada um de nós, à sua maneira, também há-de lançá-las. Ou pelo menos atirar uma escada. Se for como a de Jacob, melhor. Ou permitir que subam pela corcunda. Talvez a minha corcunda seja pequena. 

Santidade pessoal e milagres
Já um amigo, do lado de cá do Atlântico, comentando o meu resumo do artigo de John Allen Jr. (aqui), sublinha que o norte-americano, antes de apontar os cinco pontos em comum nos turbo-santos, refere a “reputação de santidade pessoal e relatos de milagres”.

Claro. Que haja milagres é algo de admirável. Por vezes, como qualquer um, pergunto-me por que é que o Padre Américo não é santo. Ou Óscar Romero. Não conheço os dossiês. Mas suponho que falta o milagre. Já uma vez expressei a opinião de que dispensaria o milagre dos processos apostando na “santidade pessoal”. A expressão já diz tudo. Mas reconheço que é espantoso que aconteçam os milagres. E aceito o processo de canonização tal como está constituído, apesar de alguma objecção teológica à interferência directa de Deus nas nossas coisas tão humanas. Para mais, à primeira vista, por vezes, alguns milagres… Claro que não posso duvidar da comissão científica que os avalia. Mas estou a pensar num deles, até bem recente, que foi ridicularizado na imprensa portuguesa. Em resumo, tendo a pensar que os milagres são de facto um sinal divino extraordinário e, ao mesmo tempo, a querer que a proclamação dos santos seja algo mais eclesial, humano, deixando as costas de Deus livres de mais esta responsabilidade. Mas Deus tem umas costas infinitas.

A causa do declínio do Ocidente segundo Dostoiévski

O Ocidente perdeu Cristo, e é por isso que morre, unicamente por isso. Repudiado Cristo, o espírito humano pode alcançar os mais perturbadores resultados.

Fiodor Dostoiévski

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Justin Bieber sabe a “Shema” de cor

Justin Bieber é o cantar adolescente do momento. Numa revista portuguesa que traduzia um artigo de Jon Ronson (do “The Guardian”) lia-se:
“És judeu?”, pergunta-me Justin. “Sim”, respondo. Justin recita então as linhas de abertura da “Shema” – a oração judia da manhã e da noite – dizendo-as sílaba a sílaba na perfeição. E faz uma pausa. “A cristandade começou por causa de Jesus ser judeu”, disse. “Respeito a fé judaica”, acrescenta. Justin é um cristão praticante. “Rezo duas a três vezes por dia. No fim do dia, leio sempre um pouco da minha Bíblia. O meu tutor é cristão, por isso nas aulas particulares as vezes estudamos versículos da Bíblia”, revela.
Os catequistas deviam saber disto. Algumas crianças e adolescentes leriam a Bíblia com mais gosto sabendo das práticas do ídolo. Para mais, parece que Justin Bieber é católico (discute-se em imensos sítios qual a confissão a que está ligado, mas prevalece a católica). 

Já agora, a “Shema” é o conjunto de versículos de Deuteronómio 6,4-9, que começa assim (segundo a minha Bíblia): “Escuta, Israel! O senhor é o nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças”.

Racionalidade e a espiritualidade nas três origens

“A compreensão dos fenómenos naturais, dos mais simples aos mais profundos, deveria apenas fortalecer nossa espiritualidade. A racionalidade e a espiritualidade são aspectos complementares”, escreve Marcelo Gleiser na “Folha de S. Paulo” (aqui). Para o professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), com várias obras publicadas sobre a relação ciência / religião, "as três origens", isto é, a do Universo, a da vida e a da mente, são um terreno excelente para a intersecção entre a ciência e a religião.
E mesmo que se venha a obter uma explicação científica (isto é, natural) dos três fenómenos tal não significa que seja abolida a “conexão espiritual com a natureza”.
A origem do universo, da vida e da mente “são as questões não respondidas que servem de motivação para os cientistas. O destino final importa menos do que o que aprendemos no meio do caminho”.

Bento Domingues: Pátio dos gentios

Texto de Bento Domingues, no "Público" de 20 de Fevereiro. Ligação para o blogue que ele refere aqui

Dores que dão em esperanças



De ti aprendemos, divino Mestre da dor,
Dores que surtem esperanças.

Miguel de Unamuno (1864 – 1936)

sábado, 19 de fevereiro de 2011

19 de Fevereiro de 607. É eleito Bonifácio III


Bonifácio III foi Papa de 19 de Fevereiro a 12 de Novembro de 607. O pontificado não chegou a um ano, mas foi o suficiente para medidas importantes. Proibiu que se discutisse a sucessão papal durante a vida do Papa e estabeleceu que a eleição se desse pelo menos três dias depois do funeral do pontífice.

Conseguiu que a expressão “bispo universal” fosse exclusiva do Bispo de Roma (o de Constantinopla também queria usá-la), o que faz com que alguns digam que a Igreja católica (isto é, universal, ecuménica) nasceu com este Papa.

Vaticano reconhece culpa de padre chileno por abusos sexuais

Mais uma notícia triste, que só prova que o trigo anda mesmo misturado com o joio. O Vaticano reconhece que o padre chileno Fernando Karadima é culpado de abusos sexuais e recomenda que ele se retire para uma vida de “oração e reflexão”. Li aqui, mas uma breve busca na Internet dá acesso a imensos textos sobre o assunto, inclusive relatos dos abusos.

Fernando Karadima (1930 - …), ordenado padre em 1958, fundou a União Sacerdotal do Sagrado Coração, muito influente no Chile. Neste país está também a ser investigado pela Justiça por causa de questões financeiras.

D. Manuel Clemente e Alberto Castro sobre os idosos

Entrevista do programa semanal "Conversar com Norte" do "Jornal de Notícias" / TSF, no dia 16 de Fevereiro. Desta vez é com D. Manuel Clemente e Alberto Castro. O principal assunto é o dos idosos, na sequência das notícias de vários idosos encontrados mortos no interior de cada. O programa pode ser ouvido aqui.


Anselmo Borges: O que fazemos com a linguagem?

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Lá está Ludwig Wittgenstein: a linguagem não serve apenas para descrever a realidade, usamo-la também para pedir um favor, para agradecer, para amaldiçoar, para saudar, para rezar...

E é preciso atender ao contexto, à situação, ao uso. "Chove" pode dizer a constatação de um facto: está realmente a chover. Mas suponhamos que a mãe, pela manhã, quando o filho se prepara para ir para escola, lhe diz: "Chove", ele sabe ao mesmo tempo que deve levar o guarda-chuva. Se, numa família de agricultores, após uma seca prolongada, a mulher abre a janela e diz ao marido: "Chove", é o contentamento que é dito. Mas, se estavam na expectativa de um passeio agradável e diz: "Chove", é a desilusão.

A linguagem tem três funções principais: a expressiva, a apelativa e a representativa. Essas funções têm a ver com as relações estabelecidas entre o emissor, o receptor e os objectos: há alguém (emissor) que se dirige a alguém (receptor) para lhe comunicar algo. Pela função de expressão, o emissor exprime-se; pela função de apelação, interpela o receptor; pela função de representação, a linguagem torna presente a realidade.

Há também a função fática, que tem apenas a missão de manter o contacto: "sim, sim...", "pois...", "claro...". Quando alguém fala demais, vai-se tentando dizer que ainda se está lá a ouvir. Sabe Deus!...

Noutro sentido, é essencial a dimensão pragmática da linguagem. Segundo alguns filósofos, deveria tender-se para uma linguagem artificial, lógico-unívoca, interessando apenas as dimensões sintáctica (a relação dos signos entre si) e semântica (relação dos signos com a realidade) da linguagem e o princípio verificacionista das asserções. Mas, deste modo, esquecia-se a dimensão pragmática: falando, produz-se um efeito. Pense-se, por exemplo, na promessa de casamento: "Prometo e juro amar-te e ser-te fiel por toda a nossa vida" produz o efeito que é o próprio casamento. Esta dimensão foi sublinhada na Bíblia: Deus criou pela palavra, palavra eficaz.

Com a linguagem, pode-se arrastar multidões, levá-las à revolução, acalmá-las, exaltá-las, virá-las num sentido ou noutro.

A palavra cura. Uma vez, apareceu-me um homem com imensos problemas e apenas me pediu que o ouvisse, sem interrupção. Falou mais de hora e meia e, no fim, agradeceu-me muito: tinha posto alguma ordem na sua vida. Com algumas palavras, podemos abrir futuro a uma pessoa. Com algumas palavras, podemos destruí-la para sempre: "és um burro, nunca farás nada na vida!"

Pela palavra, abrimo-nos ao mundo e o mundo abre-se a nós. Falando, damos razão disto ou daquilo, argumentamos, comprometemo-nos, formamos comunidade. Sendo a razão humana linguisticizada, só podemos compreender-nos a nós próprios em corpo, com outros e na história.

O homem, pelo facto de ser “zôon lógon échon”, animal que tem linguagem, é também “zôon politikón”, animal social, político, diferentemente do animal, que é gregário, e a razão disso é a palavra, como bem viu Aristóteles, na Política: "A razão de o homem ser um ser social, mais do que qualquer abelha e qualquer outro animal gregário, é clara. Só o homem, entre os animais, possui a palavra". E continua: "A voz é uma indicação da dor e do prazer; por isso, têm-na também os outros animais. Pelo contrário, a palavra existe para manifestar o conveniente e o inconveniente, bem como o justo e o injusto. E isto é o próprio dos humanos face aos outros animais: possuir, de modo exclusivo, o sentido do bem e do mal, do justo e do injusto e das demais apreciações. A participação comunitária nestas funda a casa familiar e a cidade".
Gabriel Amengual

A linguagem humana não se reduz à linguagem emotiva do prazer e do desprazer. É capaz de fazer juízos morais, de distinguir o bem e o mal, o justo e o injusto, partilhar e debater publicamente estas apreciações. Deste modo, como sintetiza, Gabriel Amengual, "por esta dupla função, a linguagem funda a ética e funda eticamente a pólis".

Como faz falta voltar aos clássicos! Para acabar com a mentira e ir além da sofística.

Paradoxo do milagre

Pronto. Agora parece que os dois pastorinhos fizeram um milagre. Eu bem peço o milagre de não haver milagres (faz tanto mal à minha pouca fé...