segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Fascínio pelo Cristo de Grünewald

O fascínio pelo Cristo de Grünewald está patente nestas duas obras, a primeira (em cima) está nos Museus do Vaticano (não consigo identificar o autor. Se alguém souber, muito obrigado: jorgepiresf@gmail.com). A segunda, em baixo, é de Arnuld Rainer (pastel sobre fotografia, de 1984/89; está em Viena).



O sofrimento de Cristo

O Cristo de Grünewald é impressionante pelo sofrimento, cheio de feridas, talvez lembrando as pestes do final da Idade Média.

Manuel Jover, em “Cristo na Arte” (Difel) escreve: “Após a sua descoberta no final do século passado [refere-se ao séc. XIX, embora outras referências digam que o retábulo dou descoberto no final da I Grande Guerra], esta obra ainda não deixou de fascinar tanto os espectadores, como os historiadores e os artistas”.

Ressurreição de Grünewald

Também de Grünewald, que ignorando o Renascimento continuava a pintar como os medievais tardios, é esta “Ressurreição”, talvez a sua obra mais popular das dez pinturas e 35 desenhos que chegaram aos dias de hoje. Integra, como a pintura anterior, o retábulo do altar da igreja de S.to António em Isenheim, na Alsácia, que na altura era alemã e agora é francesa.

31 de Agosto de 1528. Morre o pintor Matthias Grünewald

No dia 31 de Agosto de 1528 morreu o autor de uma das pinturas mais belas de sempre (e muito influente desde que foi redescoberta no séc. XX): Mathis Gothart Niethart, conhecido como Matthias Grünewald (1470-1528).

domingo, 30 de agosto de 2009

Cruz de pontas dobradas

Goebbels, ministro de Hitler para o Esclarecimento do Povo e para a Propaganda, chegou a produzir (ele mais os seus 300 oficiais e 500 funcionários a tempo inteiro) falsos manuscritos de Nostradamus, escritos em pergaminho e encadernados em couro do séc. XVI, nos quais o célebre mago previa a vitória dos “exércitos portadores de uma cruz de pontas dobradas”.

Mais um apontamento que nos chega via Vladimir Valkoff e a sua “Pequena História da Desinformação”. Um livro magnífico, mesmo para as coisas da Igreja, como ficará patente num texto que em breve introduzirei no blogue.

30 de Agosto de 1773. Morre Nicolau Nasoni

Projecto da Fachada da Misericórdia do Porto

No dia 30 de Agosto de 1773, no Porto, morreu Nicolau Nasoni, decorador e arquitecto, nascido em San Giovanni Valdarno (Itália), em 1691. Deixou tanta obra religiosa que é impossível este blogue não assinalar o dia.

Nasoni projectou, entre outras, as seguintes obras: Igreja, enfermaria e torre da Irmandade dos Clérigos (Porto), Paço Episcopal, (Porto), Chafariz e escadaria do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios (Lamego) Fachada da Igreja do Senhor Bom Jesus (Matosinhos), Casa do Despacho da Ordem Terceira de São Francisco (Porto), Igreja paroquial de Santiago de Bougado (Trofa), Fachada da Igreja da Misericórdia do Porto (Porto), Igreja da Ordem do Terço (Porto).

Clássicos 20: “Hipóteses sobre Jesus”, de Vittorio Messori


(Primeiras frases:) “De Jesus não se fala entre pessoas educadas. Juntamente com o sexo, o dinheiro, a morte, Jesus está entre os assuntos que criam mal-estar numa conversação civilizada. Demasiados séculos de «sagrado coração». Demasiadas imagens de sentimentais nazarenos de cabelos louros e olhos azuis; o Senhor das senhoras. Demasiadas primeiras comunhões apresentadas como «Jesus vem ao teu coraçãozinho». Não sem razão entre pessoas de bom gosto aquele nome soa como adocicado. É irremediavelmente tabu”.

Hipóteses sobre Jesus | Título original: Ipotesi su Gesú | Vittorio Messori | Edições Salesianas, 304 páginas, 1987


Dizem que Vittorio Messori (n. 1941) é dos autores católicos mais traduzidos no mundo. As suas principais obras, além destas “Hipóteses”, originalmente de 1977, estão em português: Opus Dei (1996), “Diálogos sobre a Fé” (1987; com o Cardeal Ratzinger), “Atravessando o Limiar da Esperança” (1994; entrevista a João Paulo II).

Tentação do Cristianismo

Anselmo Borges, no seu texto de ontem no DN (aqui), a propósito do debate sorbonniano da “tentação do cristianismo”, escreve sobre a tríplice revolução operada pelo cristianismo, teórica, ética e soteriológica, que corresponde tríplice questão de Kant, o que posso saber?, o que devo fazer?, o que posso esperar?. E estas remetem para a outra demanda kantiana sobre o que é o ser humano.

sábado, 29 de agosto de 2009

Escultura, religião e poder

O Aleijadinho esculpia em pedra-sabão mas também em cedro, como é o caso desta Ceia. Na cena da Prisão de Cristo, que como esta Ceia integra a via sacra, os soldados romanos calçam botas e não sandálias. Dizem que se trata de uma crítica ao poder real português.

29 de Agosto de 1730. Nasce o Aleijadinho

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos e as estátuas dos 12 Profetas, em Congonhas (Brasil)


No dia 29 de Agosto de 1730 nasceu António Francisco Lisboa, “o Aleijadinho”, em Vila Rica, hoje Ouro Preto. Era filho de um mestre-de-obras português, Manuel Francisco Lisboa, e de uma escrava africana ou mestiça, Isabel.

O apelido deste que é o maior escultor brasileiro deve-se a uma doença que contraiu por volta de 1777. A natureza exacta da doença é objecto de controvérsias. Perdeu os dedos dos pés e passou a andar de joelhos. Perdeu os dedos das mãos e passou a esculpir com o martelo e o cinzel amarrados oas punhos pelos ajudantes.

Obras-primas do Aleijadinho são, por exemplo, o conjunto de 12 profetas (1800-1805) e as 66 figuras da via-sacra (1796) no Santuário de Nosso Senhor do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo (Minas Gerais).

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

É por isso que ele é um génio

“Conta Cícero que Hipócrates, médico notabilíssimo, deixou escrito que suspeitava de que certos irmãos eram gémeos porque começavam a adoecer ao mesmo tempo e porque ao mesmo tempo melhoravam. Mas o estóico Posidónio, muito dado à astrologia, costumava afirmar que eles tinham nascido sob a mesma constelação e que sob a mesma constelação tinham sido concebidos. Assim o que o médico julgava que se ligava à grande semelhança de temperamentos, atribuía-o o filósofo-astrólogo à força e à disposição dos astros que se verificava no momento em que foram concebidos e no momento em que nasceram.

Neste caso é, à primeira vista, muito mais aceitável e crível a hipótese do médico, porque o estado de saúde do corpo dos pais quando se unem pode afectar os primeiros tempos dos concebidos, de maneira que, tendo os seus primeiros desenvolvimentos no corpo da mesma mãe, nascem com igual compleição. Depois, sustentados com os memos alimentos e na mesma casa onde, segundo o testemunho da medicina, o ar, a disposição dos lugares e as propriedades das águas exerceram uma grande influência, boa ou má, nos seus corpos tão semelhantes que as mesmas causas provocaram neles, no mesmo momento, a mesma doença.

Mas querer ligar a posição do céu e dos astros, que se verificou quando foram concebidos ou nasceram, a essa doença idêntica e simultânea, quando tantos seres diferentes na origem, no comportamento e no destino, puderam ser concebidos e nascer no mesmo instante, no mesmo país e sob o mesmo céu, constitui isso qualquer coisa de insólito que eu não sei qualificar”.


Excerto do Cap II do Livro V da Cidade de Deus, de Santo Agostinho (páginas 467-8 do volume 1 da edição da Fundação Calouste Gulbenkian)

Onde a verdade brilhe

O Poemário 2003 propõe para hoje:

Vem, ó Graça, que desvelas os mistérios divinos
e resolves o enigma que propõem os sapientes
Vem, fala em mim, não sou capaz sozinho
de um discurso onde a verdade brilhe

Tiago de Sarug (séc. VI)
Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro
Tradução de José Tolentino Mendonça

28 de Agosto de 430. Morre Agostinho de Hipona

Pormenor de um fresco de Botticelli sobre S.to Agostinho


Aurélio Agostinho nasceu no dia 13 de Novembro de 354, em Tagaste (actual Argélia) e morreu no dia 28 de Agosto de 430, em Hipona (também na Argélia). Às portas da morte, os vândalos cercavam a cidade e Agostinho terá dito: Quando o Senhor chegar não nos vai perguntar se vencemos. Perguntar-nos-á se não desistimos.

Os Vândalos acabam por destruir Hipona, mas não a catedral nem a biblioteca de Agostinho, apesar de não existir nenhum original das suas cerca de cem obras.

Agostinho é a pessoa da Antiguidade de quem mais se conhece, mas nunca disse como se chamava a mulher de Cartago que lhe deu o filho, Adeodato.

A obra “Confissões” é uma autobiografia espiritual como nenhuma outra seria escrita durante mais de um milénio. A “Trindade” está sem dúvida no top 10 das obras de teologia mais importantes e influentes do Ocidente, tal como a “Cidade de Deus”.

É de Santo Agostinho aquela frase (não em inglês, claro) tantas vezes citada (surge todas as semanas na última página da “Notícias Sábado”, ligeiramente alterada, e entrou numa canção pela voz Robbie Williams): “Oh God, make me pure, but not yet”. Diz ele nas “Confissões” que era assim que pensava quando era jovem.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Para terminar o dia

Que bem sei eu a fonte que mana e corre,
mesmo se é noite!

Aquela eterna fonte está escondida.
Que bem sei onde tem sua guarida,
mesmo se é noite!

Sua origem não a sei, pois não a tem,
mas sei que toda a origem dela vem,
mesmo se é noite!

João da Cruz

Jesus e as armas - 2


Mais fácil do que encontrar um Jesus da teologia da libertação armado é encontrar referências norte-americanas a Jesus e às armas, ora por paródia, ora como propaganda. Às vezes os extremos tocam-se. Outras, um deles ultrapassa tudo.

Jesus Cristo armado

Vladimir Volkoff diz que, como consequência da desinformação, a teologia da libertação chegava a apresentar “Cristo na cruz com uma metralhadora a tiracolo”. Procurei na Internet imagens sobre o assunto. Não encontrei nenhum Jesus na cruz com uma metralhadora, mas encontrei este poster, belo, há que dizê-lo, de Alfredo Rostgaard (aqui). É de 1969 e foi usado na sequência da revolução cubana, apesar de nesse ano Castro ter proibido a celebração do Natal.

27 de Agosto de 1999, morre D. Hélder Câmara

Há dez anos, em 1999, morria neste dia, aos 90 anos, D. Hélder Pessoa Câmara, bispo católico do Recife, defensor dos direitos humanos, quatro vezes proposto para Nobel da Paz. Dizia-se que D. Hélder não era apreciado no Vaticano, devido à teologia da libertação que defendia (haverá uma teologia cristã que não seja da libertação?), mas quando João Paulo II se encontrou com o bispo brasileiro disse-lhe: “Meu irmão!” E beijou-lhe a cabeça.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Para terminar o dia

Quando leio passagens bíblicas em inglês, não porque procure, mas porque fortuitamente dou com elas, penso que “a língua inglesa fica sempre bem / e nunca atraiçoa ninguém”, como cantam os Clã em "Problema de Expressão". Hoje foi esta:

But the people who trust the Lord
Will become strong again.
They will rise up as an eagle in the sky.
Isaiah 40,31

Comunistas que se fizeram ordenar

Há a história daquele espião russo que, em casa de uma família norte-americana, chegando o momento da oração antes da refeição, benze-se à ortodoxa (da direita para a esquerda), denunciando-se. Mas Vladimir Volkoff levanta o véu de histórias mais interessantes, noutro sentido:

“É mais do que provável que agentes comunistas se tenham ordenado padres: contei a vida de um deles no meu romance O Traidor”. Diz também, na “Pequena História da Desinformação”, que o Conselho Ecuménico das Igrejas esteve abundantemente infiltrado de marxistas, o que o terá levado a assumir posições directa ou indirectamente favoráveis ao comunismo, nomeadamente nos campos económicos e militar, repudiando a economia e mercado e as opções nuclares ocidentais.

[Uma outra história, na pág. 63: "Quantas vezes tive já que explicar que Alexandre II suprimiu em 1861, com uma simples caneta, a servidão na Rússia, antes do desaparecimento da escravatura nos Estados Unidos - que custou uma guerra civil, chamada da Secessão, com cerca de 700 000 mortos!"]

Palavras limitadas

Os nossos conceitos, palavras, pensamentos, expressões sobre Deus são sempre limitados. É melhor responder à questão de Deus mostrando como vivemos por acreditarmos no Deus a quem damos crédito do que dizer que é isto ou aquilo.

- Quem é Deus?
- É um vendedor de gravatas
- Como é a cara dele?
- É bicuda, com uma maçaneta na ponta.
Mário Cesariny

Mesmo que Cesariny queira ridicularizar Deus, não consegue. Quando muito, pode ofender os crentes, que sentir-se-ão atingidos nas suas próprias certezas ou poderão pensar que a dignidade de Deus é machucada. Mas muitos destes saberão que Deus só fica realmente ofendido quando “os mais pequeninos” (sentido evangélico) são desrespeitados. E, nesse sentido, há muitos motivos para estar ofendido e para não acreditar em nós. De resto, quando se fala de “quem é Deus”, Ele está sempre “para além de”, como ensinava o Pseudo-Dionísio.

Kim Dae-jung, um político que era católico

Morreu no dia 18 de Agosto o antigo presidente sul-coreano Kim Dae-jung. Li a notícia no “Público”, pouco mais do que uma breve, e interroguei-me se não era este o primeiro presidente coreano católico. Tinha uma vaga ideia disso, mas o texto era omisso e os nomes coreanos, para nós, são muito parecidos uns com os outros. A notícia dizia que Kim Dae-jung tinha sido o primeiro presidente a visitar Pyongyang, que recebera o Nobel da Paz e que no último discurso presidencial defendera a reunificação da pátria para pôr termo à tragédia nacional da separação.

Mas num outro meio de comunicação li um texto sobre as referências na imprensa chinesa (sim, chinesa) sobre a tristeza do Papa pela morte do presidente sul-coreano. “Se o Papa está triste é porque morreu uma ovelha do rebanho”, pensei.

E assim é, de facto. No UCA News (aqui) pude aceder a dados curiosos. O que morreu aos 85 anos, de ataque cardíaco, depois de ter sido hospitalizado por causa de uma pneumonia, fora baptizado em 1956 como Thomas More Kim Dae-jung. Tinha então 31 anos. Dois anos antes iniciara a carreira política. Não terá sido por acaso, por isso, que escolheu o nome cristão de Tomás de Moro, o chanceler e mártir inglês do séc. XVI que em 2000 seria proclamado por João Paulo II patrono dos políticos.

Duas vezes exilado, Kim Dae-jung sobreviveu a duas tentativas de assassínio e livrou-se da pena de morte graças à intercessão da comunidade internacional e do Papa João Paulo II. A ditadura militar acabou por libertá-lo em 1982.

Numa entrevista à UCA News em 1993, Thomas More Kim Dae-jung disse o seguinte: “Todas as minhas provações do passado – prisão, detenções frequentes, torturas, exílios forçados – aconteceram no processo da obra redentora de Deus, e neste sentido, também eu participei na salvação de Deus”.

Compreende-se a tristeza de Bento XVI. Morreu um político que era católico.

Kim Dae-jung foi presidente da Coreia do Sul de 1998 a 2003. Em 2000 recebeu o Nobel da Paz pelos esforços de reconciliação das duas Coreias.

26 de Agosto de 1498. Encomendam a "Pietá" a Miguel Ângelo

No dia 26 de Agosto de 1498, Jean Bilhères de Lagraulas, embaixador francês na Santa Sé, encomendou a Miguel Ângelo a “Pietá”. Destino: Capela dos Reis de França, na antiga basílica de São Pedro.

Miguel Ângelo (1475 – 1564) tinha 25 anos quando terminou a obra, em 1500. O cardeal que a encomendou entretanto morrera.

Para que não duvidassem da autoria da obra, o artista esculpiu na fita que atravessa o peito da Mãe de Jesus: MICHAEL ANGELUS. BONAROTUS. FLORENT. FACIEBA(T). “Miguel Ângelo Buonarotus, Florentino, fez”.

A "Pietá" está no Vaticano, protegida por um vidro espesso, depois de sido atingida por um desequilibrado mental em 1972.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Desinformação e toponímia

A “Pequena História da Desinformação” tem muitas pequenas histórias de desinformação e constitui, no seu todo, um grande instrumento para ler a desinformação actual. Recentemente, o caso mais flagrante – julgo –, verificou-se com o navio “Artic Sea”. A maior parte dos órgãos de informação, pelos vistos, engoliu a desinformação produzida pela Rússia (herdeira da URSS, tem muita experiência), que sempre soube onde estava o navio.

Mas essa é história para outros blogues. Neste, quero deixar uma nota sobre as alterações toponímicas no tempo de Revolução francesa. Os nomes com conotação religiosa foram especialmente afectados.

Com a Revolução de 1789, as palavras cidade, burgo, castelo, rei, conde, cruz foram proscritas. E tudo o que era Santo (Saint) teve de ser alterado. Bucy-le-Roy passou a Bucy-la-Repúblique. Argenton-le-Château passou a Argenton-le-Peuple. Château-Thierry tornou-se Égalité-sur-Marne. Saint Tropez ficou Héraclée. Mónaco e Grenoble foram rebaptizadas Fort d’Hercule e Grelibre, respectivamente (mas porquê em relação a Mónaco?). Montmartre, por feliz coincidência fónica, passou a Mont Marat…

Claro que a seguir instalou-se a confusão (extensiva aos meses do ano e dias da semana, também eles alterados), pelo que a Comissão de Salvação Pública lançou um apelo:

“Várias comunas mudaram de nome e não se encontram, sob as novas designações, nos dicionários geográficos nem nos mapas, outras usam designações parecidas, pelo que, por vezes, a Comissão não sabe de onde lhe escrevem nem a quem deve responder. O que cria obstáculos ao governo. Para acabar com estes inconvenientes, a Comissão convida todas as administrações, sociedades populares, funcionários públicos e, em geral, todos os cidadãos que lhe escrevam a acrescentar ao nome actual da sua comuna a designação anterior”.

“A desinformação tende, às vezes, a ultrapassar os seus próprios objectivos”, conclui Vladimir Volkoff.

Por que é que os relógios suíços são os melhores?

A propósito do Massacre de São Bartolomeu, o blogue Estação Cronográfica, “apeadeiro onde o Tempo se escreve diariamente”, lembra que a fuga dos huguenotes da França para a Suíça contribuiu para colocar este país na vanguarda da indústria da relojoeira.

Frase gravada na pedra

Procurei a frase gravada na pedra do túmulo do pai de Nietzsche, mas só encontrei a frase da parede da igreja do pai de Nietzsche. Karl Ludwig Nietzsche foi pároco de Rocken, pequena aldeia perto de Leipzig. A frase diz: "Eu vivo e vós também haveis de viver" (sigo a tradução da Bíblia da Difusora Bíblica).

Túmulo de Nietzsche

Procurei o túmulo do pai de Nietzsche, mas só encontrei o do filho.

25 de Agosto de 1900. Morre Nietzsche


Nietzsche aos 24 anos

Nietzsche (1844-1900) morreu num dia 25 de Agosto, há 109 anos. Dizia que “é indecente ser-se cristão nos tempos que correm” e que o “cristianismo é a pior das maldições”, “a pior forma de corrupção que sejamos capazes de imaginar”. “O melhor que poderemos fazer é calçar luvas quando lemos o Novo Testamento”, escreveu.
“Os dois grandes narcóticos europeus, o álcool e o Cristianismo”, afirmou o abstémio.
Muito já foi dito e há a meditar sobre as críticas do filósofo alemão ao Cristianismo. No que têm de verdadeiro, são válidas. Se o cristianismo é para a resignação e amolecimento – o contrário de ser fermento e sal –, não presta. Mas em todas as críticas e mesmo em “O Anticristo”, não me parece que a fé de Jesus e em Jesus saia realmente ferida.
O conselho de ler o NT com luvas é bem sensato, porque há palavras que são como fogo.
Nietzsche era filho e neto de pastores luteranos. O seu pai morreu tinha Nietzsche apenas quatro anos. Quando o filósofo ganhou algum dinheiro, em 1885, encomendou uma grande pedra tumular para o túmulo do pai. E mandou gravar na pedra: “Die Liebe höret nimmer auf” (“O amor jamais passará”, Cor 13,8).

Estes elementos tiveram por base as páginas 274-276 de "O Consolo da Filosofia", de Alain de Botton (Dom Quixote).

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O Mar


Antes que o sonho (ou o terror) tecera
mitologias e cosmogonias,
antes que o tempo se cunhasse em dias,
o mar, o sempre mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é o violento
e antigo ser que destrói os pilares
da terra, e é um só e muitos mares
e abismo e resplendor e azar e vento?
Quem o olha vê-o pela vez primeira,
sempre. Com o assombro tal que as coisas
elementares deixam, as formosas
tardes, a lua, o fogo de uma fogueira.
Quem é o mar, quem sou? Sei-o no dia
que virá logo após minha agonia.

Jorge Luís Borges (1899-1986). Tradução de José Bento

24 de Agosto de 1572. Massacre de S. Bartolomeu

François Dubois (1529-1584), La Saint-Barthélemy

24 de Agosto. 1572, massacre da noite de São Bartolomeu. Matança de huguenotes (protestantes franceses, maioritariamente calvinistas), ordenada pelos reis de França. Terão morrido 30 mil a 100 mil protestantes franceses. Começou em Paris, na noite de 23 para 24 de Agosto, ou melhor, ao raiar o dia 24, e propagou-se por outras cidades franceses nos dias e meses seguintes. Em Paris terminou no dia 30 de Agosto. Durante uns tempos ninguém comeu peixe porque os cadáveres boiavam nos rios. A matança teve origem em intrigas políticas.

Foi no ano em que Camões publicou “Os Lusíadas”.

domingo, 23 de agosto de 2009

Pragas do Egipto

Um conjunto espantoso: as dez pragas do Egipto para usar nos dedos.

Arca de Noé


Há muitos mais conjuntos bíblicos da Playmobil. Este é dos mais curiosos.

Milagres de Jesus

"Miracles Of Jesus Felt Set", também na Amazon.

Pope John Paul II Talking Action Figure


Papa João Paulo II. Fala. O que dirá? "Não tenhais medo"? "Levantai-vos"? 44,95 dólares na amazon.com.

Primeira Liga

A primeira liga aí está em força. Esta “estatueta inspiracional” custa 21.95 dólares na catholicshopper.com. Há para muitos outros desportos e actividades, além do soccer. Tudo de gosto muito duvidoso.

23 de Agosto. Dia de Ireneu de Lião

Pode ter nascido em Esmirna (Turquia), mas foi bispo de Lião (França), onde morreu em 203. Ireneu (ou Irineu) é considerado o “pai da dogmática católica”, isto é, foi o primeiro a sistematizar um pensamento católico. Fê-lo em três sentidos: salvaguardando a unidade da história da salvação (contra os que opunham a Antiga Aliança à Nova Aliança); defendendo o princípio da tradição (tão caro aos católicos, que é também o da continuidade e o da “não há foz se não houver nascente”, como dizia, grosso modo, John Henry Newman); e repudiando as correntes gnósticas em geral. “Adversus haereses” (“Contra os hereges”) é a sua obra mais conhecida.

sábado, 22 de agosto de 2009

Igreja e desinformação - 2

“Pode imaginar-se que, para um ateu, todo o imenso esforço de pregação das diversas religiões que se sucederam sobre a Terra seja comparável a uma obra de desinformação”, escreve Vladimir Volkoff, no início da análise sobre a Igreja e a desinformação (páginas 43-36 de “Pequena História da Desinformação”, da Editorial Notícias).

Volkoff considera que para haver desinformação têm de estar presentes três elementos:

- uma manipulação da opinião pública (senão seria intoxicação);

- fins políticos, internos ou externos (senão seria publicidade).

- processos ocultos (senão seria propaganda).

Estes elementos estão presentes na acção da Igreja?

1.º Elemento. Está presente. O missionário, como São Paulo em Atenas, dirige-se à opinião pública. Quer convencê-la.

2.º Elemento. Os objectivos dos missionários não são políticos. Embora essas preocupações por vezes estejam presentes.

3.º Elemento. Os processos não são ocultos. “O pregador não se disfarça para atingir a opinião pública, antes pelo contrário. Recusando navegar sob bandeira falsa, opera com o uniforme dos paramentos sacerdotais, pelo que não pode ser confundido com um franco-atirador. Mesmo quando utiliza estratagemas de jesuíta, ele não esconde o seu desígnio essencial, que é ad majorem Dei gloriam”. O velho padre de província de Unamuno que, crendo no cristianismo como um bem para o povo, o ensina devotamente mesmo já não acreditando nele, não é um desinformador. Falta-lhe a máscara”.

Contudo, Volkoff aponta “casos particulares”. O primeiro é o aproveitamento de reflexos adquiridos do paganismo, como o baptismo de solstícios e equinócios, fontes e montanhas… Esta prática assemelha-se a técnicas de desinformação. “Será curioso imaginar o encontro entre a espoliada ninfa e o santo ao qual a fonte passou a ser consagrada”, sugere. O segundo tem a ver com as calúnias a que as seitas, confissões e igrejas recorrem após os cismas. O investigador até nem refere os exemplos mais elucidativos: o que na Igreja católica se disse dos reformadores e o que estes e os seus seguidores disseram da Igreja romana.

Volkoff conclui: “Tudo bem medido, as operações de propaganda ou de retenção da informação religiosa não se podem realmente assemelhar à desinformação propriamente dita: os objectivos são demasiado evidentes”.

Ramadão

O nono mês do calendário lunar do Islão começou ontem e hoje é o primeiro dia de jejum do Ramadão.

Está tudo na edição impressa do DN de hoje e também aqui e nos links relacionados - mas de um modo mais confuso.

Anselmo Borges: Gripe A e teologia

Em “Gripe A e teologia”, no DN de hoje, Anselmo Borges reflecte sobre o sentido de comungar na mão ou comungar na boca (não devia ser antes: "Gripe A e missa"?).

"Devendo os católicos ser responsáveis e exemplos de responsabilidade, não podem pôr em perigo a saúde dos outros nem a própria. Todos reconhecerão, pois, facilmente que é um dever moral todos comungarem na mão e não na boca. Aliás, não faltará - e bem - quem associe, no caso, ética e estética: quem duvida que é mais estético receber a hóstia na mão aberta do que na língua estendida?" (Ler aqui).

Só há motivos (sanitários e teológicos) para comungar na mão.

Na semana passada, escreveu sobre o padre-espião (espanhol) Antonio Hortelano (aqui).

22 de Agosto de 1864. Surge a Cruz Vermelha

22 de Agosto de 1864. Neste dia foi assinada em Genebra a Convenção que criou a Cruz Vermelha. Assinaram-na 12 países, incluindo Portugal. Henri Dunant foi o grande impulsionador da organização para ajuda aos militares feridos e prisioneiros de guerra.

Hoje a organização actua sob vários símbolos: a Cruz Vermelha (bandeira da Suíça de cores invertidas), o Crescente vermelho, a Estrela de David vermelha ou o Cristal vermelho, para países neutros ou de diversas religiões.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Charlie Kaufman, Abelardo e o sentido da vida

Charlie Kaufman é argumentista. Um dos “mais intocáveis, mais influentes e mais raros do cinema americano”, diz o Ípsilon (Público) de hoje. Os seus argumentos/filmes, “Queres ser John Malkovich?”, “Human Nature”, “Confissões de uma mente perigosa”, “Inadaptado”, “O despertar da mente”, “Sinédoque, Nova Iorque”, falam de vida, morte, identidade, perda.

Em “Confissões de uma mente perigosa”, George Clooney, no papel de um agente da CIA, diz a uma vedeta televisiva: “Jesus Cristo morreu e ressuscitou aos 33 anos. Você tem 32 e ainda não fez nada que se visse. É melhor despachar-se”.

O “Inadaptado”, “O despertar da mente” e “Queres ser John Malkovich?”, filmes que vi e revi, colocam em cena o sentido da vida e do amor, a identidade/alteridade. Fazem pensar.

Numa das cenas de “Queres ser John Malkovich?”, o marionetista que não consegue ganhar a vida a fazer o que mais gosta põe Abelardo a contracenar com Heloísa - o Abelardo que teve em Bernardo de Claraval (ver dia de ontem) o maior opositor. Mas isto é só um pormenor.

"Sou apenas um ser humano que corre depressa"

Na tv:
Jornalista – Como é que se sente o super-homem?
Usain Bolt – Eu não sou o super-homem. Sou apenas um ser humano que corre depressa.

Um texto de Francisco de Sales

Pergunto-vos (…) se estaria certo que um bispo quisesse viver na solidão como os Cartuxos; que os casados não quisessem amealhar mais que os Capuchinhos; que o operário passasse o dia na Igreja como o religioso; e que o religioso estivesse sempre sujeito a toda a espécie de encontros para serviço do próximo como o bispo. Não seria ridícula, desordenada e inadmissível tal devoção?

Contudo este erro acontece frequentemente. E no entanto (…), a devoção não prejudica ninguém quando é verdadeira, antes tudo aperfeiçoa e consuma; e quando se torna contrária à legítima ocupação de alguém é sem dúvida falsa.

A abelha extrai o mel das flores sem lhes fazer mal, deixando-as intactas e frescas como as encontrou; todavia, a verdadeira devoção age melhor ainda, porque não somente não prejudica qualquer espécie de vocação ou de tarefa, como ainda as engrandece e embeleza.

Excerto de “Introdução à vida devota”

Patrono dos jornalistas e escritores católicos

Francisco de Sales é padroeiro dos jornalistas e escritores católicos, mas não foi jornalista. Foi bispo. Nasceu no castelo de Sales, na Sabóia (França), a 21 de Agosto de 1567. E morreu no dia 28 de Dezembro de 1622, em Lyon. Aos 32 anos foi nomeado bispo de Genebra (Suíça), uma cidade difícil por ser a pátria do calvinismo. Como bispo, distinguiu-se por ter fundado a Ordem da Visitação (com Joana Francisca de Chantal) e pelas suas palavras escritas. “Introdução à Vida Devota” é o seu livro mais conhecido. Este “manual de vida cristã” teve durante a vida do autor mais de 40 edições. Um grande sucesso, tal como os seus 4 mil sermões e 21 mil cartas.

A popularidade de Francisco de Sales deveu-se com certeza ao seu optimismo perante a vida. Os protestantismos, quer o luterano quer o calvinista, são pessimistas sobre a condição humana. Ora, Francisco de Sales realçou a dignidade humana, talvez por ter tido uma visão do inferno aos 18 anos e se ter agarrado à fé para a ultrapassar o desespero de se sentir condenado. Como alguém disse, no seu ministério, soube conjugar o “fundo evangélico” com os “ideais renascentistas que valorizavam a pessoa humana como sede de sabedoria”.

É de Francisco de Sales uma frase muito citada: “A medida do amor é amar sem medida”. E foi ele o primeiro santo a ser canonizado na Basílica de São Pedro (1662), tal como nele se inspirou João de Bosco para criar a congregação salesiana.

No início de 1923, por ocasião do terceiro centenário da morte, foi proclamado patrono dos jornalistas e dos escritores cristãos por Pio XI, na encíclica “Rerum Omnium”. Escreve o Papa: “É nosso desejo que os maiores frutos deste solene centenário sejam alcançados pelos jornalistas e escritores que expõem, difundem e defendem as doutrinas da Igreja. É necessário que, nos seus escritos, imitem e mostrem permanentemente aquela força misturada com moderação e caridade que era característica tão especial de São Francisco de Sales”. Força, moderação e caridade. O jornalismo continua a precisar destas qualidades.

21 de Agosto de 1567. Nasce Francisco de Sales

No dia 21 de Agosto de 1567 nasceu Francisco de Sales, padre, bispo de Genebra, doutor da Igreja, patrono dos jornalistas e escritores católicos. Morreu no dia 28 de Dezembro de 1622. Tem festa litúrgica a 24 de Janeiro. É titular da família salesiana, fundada por João Bosco.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

São Bernardo e as imagens medievais

Capitel na Igreja de St.a Maria Laach, Alemanha, séc. XI

A propósito do dia da morte de Bernardo de Claraval, recordo uma página dos “Apocalípticos e Integrados”, de Umberto Eco (páginas 40-42 da edição portuguesa da Difel).

O abade Suger (1081-1151), prior de Saint-Denis, mestre-de-obras da arquitectura gótica, é claramente um “integrado”. Bernardo é um “apocalíptico”, mas só nos termos de hoje, porque “o modelo cultural medieval era tão orgânico e integrado que Bernardo, obviamente, não podia comportar-se de outro modo (…)”.

O texto de Eco: “Num contexto histórico em que – estando uma classe dirigente na posse dos instrumentos culturais, e as classes subalternas excluídas na sua maioria do exercício da escrita – a única possibilidade de educar as massas era mediante a tradução por imagens dos conteúdos oficiais da cultura, Suger tinha feito seu o programa do Sínodo de Arras, resumido por Honório de Autun na fórmula: «Pictura est laicorum literatura».

O programa de Suger é conhecido: a catedral devia tornar-se uma espécie de imenso livro de pedra em que não só a riqueza dos ouros e das pedras preciosas induzisse no fiel sentimentos de devoção, e as cascatas de luz das paredes abertas sugerissem a efusividade participante de potência divina, mas também as esculturas dos portais, os relevos dos capitéis, as imagens dos vitrais comunicassem ao fiel os mistérios da fé, a ordem dos fenómenos naturais, as hierarquias das artes e dos ofícios, os acontecimentos da história pátria.

Perante este programa, São Bernardo, partidário de uma arquitetura despojada e rigorosa, em que a sugestão mística seja dada pela nudez límpida da casa de Deus, explode numa descrição acusatória, que põe a ridículo as monstruosas eflorescências iconográficas: «Caeterum in claustris coram legentibus fratribus, quid facit ridicula monstruositas, mira quaedam deformis formositas ac formosa deformitas? Quid ibi immundae simiae? quid feri leones? quid monstruosi centauri? quid semihomines? quid maculosae tigrides? quid milites pugnantes? quid venatores tubicinantes? Videas sub uno capite multa corpora, et rursus in uno corpore capita multa. Cernitur hinc in quadrupede cauda serpentis, illinc in pisce caput quadrupedis. Ibi bestia praefert equum, capra trahens retro dimidiam; hic carnutum animal equum gestat pasterius. Tam multa denique tamque mira diversarum formarum ubique varietas apparet, ut magis legere libeat in marmoribus quam in codicibus, totumque diem occupare singula ista mirando quam in lege Dei meditando. Proh Deo! Si non pudet ineptiarum, cur vel non piget expensarum?»"

Igreja e desinformação - 1

Vladimir Volkoff

Guelfos e gibelinos

Vladimir Volkoff (outra entrada aqui) diz que é preferível ouvir, por um lado, os guelfos e, por outro, os gibelinos, a enviar ao local um observador dito imparcial que simpatizará principalmente com uns ou será mais bem pago pelos outros.

Não sabia quem são os guelfos e os gibelinos, mas pelo contexto parecia terem a ver com o Papa. “As denominações "guelfos" e "gibelinos" originaram-se após a morte de Henrique V, Sacro Imperador Romano-Germânico (1125), sem deixar herdeiros directos. Criou-se então um conflito na disputa pela sucessão do Império. Os guelfos e o Papa apoiavam a casa da Baviera e Saxônia dos Welfen (de onde provém a palavra guelfo), enquanto os gibelinos eram partidários da casa da Suábia dos Hohenstaufen, senhores do castelo de Waiblingen (de onde provém a palavra gibelino)”, diz a Wikipedia.

Desacreditação da Igreja

“A Igreja cristã jamais teria vencido o paganismo se este, por várias formas, se não tivesse desacreditado, e a actual descristianização não seria o que é se a Igreja, por ser uma instituição humana, se não tivesse por seu turno desacreditado, por mais do que uma forma” (pág. 39). Vladimir Volkoff não especifica as razões de desacreditação.

A voz dos deuses pagãos

Mais à frente, o autor diz: “Sabemos, por exemplo, que os pagãos recorriam a subterfúgios, como esconder um sacerdote na estátua de um deus e fazê-lo pronunciar oráculos em voz alta e inteligível” (pág. 43). E responde a esta questão: se obra da Igreja é comparável a uma obra de desinformação. Tentarei resumir aqui as quatro páginas de resposta.

20 de Agosto. Morre Bernardo de Claraval em 1153

20 de Agosto. 1153, morre Bernardo de Claraval aos 63 anos. Bernardo de Fontaine nasceu em 1090 e morrreu no dia 20 de Agosto de 1153, na Abadia de Claraval (Clarivaux, “vales claros”). Monge cisterciense, reformou a ordem de Cister (os de hábito branco), tornou-a independente de Cluny (os de hábito negro), pregou cruzadas, fundou comunidades, escreveu e fez aprovar a regra dos Templários, combateu as doutrinas de Abelardo e de outros. Escreveu tratados, homilias e orações. É doutor da Igreja. E há uma raça de cães com o seu nome.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Clássicos 19: "Sulco", de Josemaria Escrivá

(Primeiro parágrafo:) “1. São muitos os cristãos persuadidos de que a Redenção se há-de realizar-se em todos os ambientes do mundo, e de que deve haver algumas almas (não sabem quais) que contribuam para a realizar com Cristo. Mas vêem-na a um prazo de séculos, de muitos séculos… de uma eternidade, se se levasse a cabo ao passo da sua entrega. Assim pensavas tu, até que vieram «despertar-te»”.


Sulco | Título original: Surco | Josemaria Escrivá Balaguer | Diel | 2005, 384 páginas


Josemaria Escrivá de Balaguer (1902-1975), fundador do Opus Dei, escreveu esta obra para que na vida dos cristãos brilhem a generosidade, alegria, audácia, sofrimento, humildade, lealdade, disciplina, oração, trabalho, veracidade… “Sulco” é uma obra póstuma, publicada originalmente em 1986, composta por mil pequenos textos, de um ou dois parágrafos cada. No milésimo, o autor afirma: “Escrevo este número para que tu e eu acabemos este livro a sorrir, e sosseguem os bons leitores que, por ingenuidade ou malícia, tentaram ver cabalas nos 999 pontos de verdade, com uma verdade total, o «para sempre» de eternidade.
- E assim tens de viver tu, com uma fé que te faça sentir sabores de mel, doçuras de céu, ao pensar nessa eternidade que, esse sim, é para sempre”.

19 de Agosto. 1662, morre Pascal

19 de Agosto de 1662. Morre Blaise Pascal. Tinha 39 anos. Matemático e cientista genial, filósofo e teólogo sublime, foi autor de “Pensamentos”, que na origem era um conjunto de apontamentos para uma obra maior. Alguns dos pensamentos:

“Para quem quer ver, há luz suficiente; para quem não quer, há bastante obscuridade”;

“O homem está sempre disposto a negar tudo aquilo que não compreende”;

“O coração tem razões que a própria razão desconhece”;

"É o coração que sente Deus e não a razão. Eis o que é a fé: Deus sensível ao coração";

"O cosmos pode ser infinitamente maior do que o homem, mas um único acto de amor vale mais do que toda a massa do universo".

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Franciscanismo e calvinismo literário

!

Numa crónica sobre o que pode ser um bom texto e com algumas sugestões implícitas sobre como elaborá-lo, Rui Tavares escreve, deixando mais dois exemplos de inspiração religiosa em matérias profanas:

“Por que raio serem supérfluos os adjectivos nos deveria privar do uso deles? Por franciscanismo literário? Não pode ser. S. Francisco de Assis era um exímio utilizador de adjectivos; as mais contemplativas das palavras, nascidas de uma espécie humana amadurecida que se libertou da pura acção e aprendeu a observar as qualidades das coisas. Será então por calvinismo literário.

O último objectivo do calvinismo literário é acabar com os pontos de exclamação. Que são desnecessários (mais uma vez) e ferem a vista e são apanágio de maus escritores. Mesmo que tudo fosse verdade, seria errado. Sim, os maus escritores abusam dos pontos de exclamação; mas querer proibi-los pode fazer de nós escritores medíocres”.

O texto intitula-se “Bom! Bonito! Barato!” e pode ser lido na última página do "Público" de ontem. Surge na sequência de manifestações pela abolição do ponto de exclamação (a favor da abolição, aqui e aqui; e contra, aqui). A reter: calvinismo literário.

Evangelhos e desinformação

Vladimir Volkoff, no instrutivo “Pequena História da Desinformação. Do Cavalo de Tróia à Internet” (Editorial Notícias, 2000), diz a certa altura (pág. 21), de passagem: “Se as impressões concordam demasiado bem, é suspeito. Para mim, são as contradições entre os quatro evangelistas que me fazem acreditar na sua veracidade e a Igreja tem toda a razão em apresentar-nos versões parcialmente divergentes do que considera ser a verdade”.

Distinguindo propaganda, publicidade e desinformação, apresentando conceitos e casos e desmontando estratégias ("a posteriori"), esta “pequena história da desinformação” é preciosa para compreender o mundo actual, onde abundam as teorias da conspiração e a desorientação informativa. Neste blogue espero apontar algumas referências à fé cristã e aos seus protagonistas. O livro aborda a desinformação na Igreja somente de passagem, mas o autor tem uma grande cultura cristã, pelo que espalha pelos seus textos uma ou outra alusão ao universo cristão. Como esta: “Sobretudo na época em que o KGB era o principal artífice na matéria [desinformação], era fácil ver desinformadores por todo o lado, como outros viam judeus, maçons ou jesuítas, perdão, eu actualizo: membros da Opus Dei” (pág. 24).

18 de Agosto. Casamento da rainha Margot

1572. Casamento de Marguerite de Valois, católica, que ficaria para a História como “Rainha Margot”, com Henrique de Navarre (futuro Henrique IV de França), protestante, numa tentativa de reconciliar protestantes e católicos em França. Antes disso tentaram casá-la com D. Sebastião de Portugal.

Apesar dos esforços conciliatórios, seis dias depois acontece o “massacre de S. Bartolomeu”, em que os huguenotes são dizimados pelos católicos.

Mais tarde, Henrique IV renuncia ao protestantismo. Terá dito que "Paris vale bem uma missa".

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A propósito da piada do cristianismo

Félix Núñez Uribe, “Deus é Humor” (Gráfica de Coimbra)

A capa deste livro de 1997 não tem lá grande piada. O castanho. O desenho. A repetição do “Deus é humor”… O conteúdo não é nem um ensaio sobre Deus e Humor ou Teologia e Humor nem anedotas religiosas, mas um conjunto de textos sobre “doutores do humor” (Cortés, Quique, Mingote, João XXIII, entre outros), santos (Francisco de Assis, Cecília, Francisco de Sales…), narrativas edificantes, piadas bíblicas, disparates eclesiais. Como estes, sobre os pecados: “Que é pecado mortal? O que se comete com perigo de vida”. “Espécies de pecados: Mortais, veniais e geniais”. E estes, inspirados na Bíblia, provavelmente recolhidos nas redacções da catequese: “Apresentou-se um mudo [a Jesus] e disse-lhe: «Podes curar-me»?”; “Jesus ressuscitou muitos doentes”; “Temos de amar os nossos inimigos, mesmo que os matemos”.

Viver um cristianismo com piada

O cristianismo não é propriamente conhecido por ser a religião da alegria, e é uma pena

Se dissermos que Deus é Amor, ninguém se espanta. A afirmação tornou-se até um pouco banal à força da repetição. Mas se dissermos que Deus é Humor, ficamos em estado de alerta, porque nos parece que alguém está a tentar entrar, no território de Deus, “pela entrada dos fundos” e não pela “porta principal”. A verdade é que o Amor não dispensa o Humor.

O cristianismo não é propriamente conhecido por ser a religião da alegria, e é uma pena. «O cristianismo seria muito mais credível se os cristãos vivessem em alegria», escreveu Nietzsche, e não podemos dizer que sem razão. O nosso testemunho fica muitas vezes refém de uma gravitas insonsa. Esquecemos demasiado o Evangelho da alegria que arrisca-se a tornar uma espécie de tópico marginal.

Por exemplo, quando citamos uma frase bíblica, raramente ela diz respeito à alegria. E, no entanto, a Bíblia é uma espécie de gramática do Humor de Deus. Por incrível que pareça, aquela biblioteca tão séria é também hilariante e está cheia de risos, embora esta dimensão seja, entre nós, escassamente referida. Há páginas que constituem um puro alfabeto da Alegria e muitos momentos que só são compreendidos por quem arriscar sorrir. É que a Revelação de Deus propaga-se numa dinâmica que é claramente jubilosa. Talvez tenhamos de levar mais a sério o verso brincado que o Salmo 2 nos segreda: «O que habita nos Céus, sorri». Ou perceber que a expressão crente é chamada a desenvolver-se como uma coreografia festiva, à maneira do que descreve o Salmo 33: «Alegrai-vos no Senhor, louvai o Senhor com cítaras e poemas, com a harpa das dez cordas louvai o Senhor; cantai-lhe um cântico novo, tocai e dançai com arte por entre aclamações».

O humor abre espaço nas nossas vidas à surpresa. Rimo-nos porque, sem esperarmos, uma palavra cheia de graça vem ao nosso encontro. Na verdade, também a Fé não é, de todo, uma experiência previsível, um mapa prévio muito detalhado, mas uma abertura ao inesperado de Deus que nos convoca...

Texto de Tolentino Mendonça, na Ecclesia

17 de Agosto. 1945, publica-se “O Triunfo dos Porcos”

Em 1945, era publicada em Inglaterra a obra “O triunfo dos Porcos” (“Animal Farm”), de George Orwell. Esta efeméride não tem carácter religioso directo, como as outras deste blogue. Mas é sempre oportuno recordar a lei da quinta dominada pelos porcos:

1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupas.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.

E ainda mais as modificações depois que os porcos passam a viver na casa dos antigos fazendeiros:

4. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis.
5. Nenhum animal beberá álcool em excesso.
6. Nenhum animal matará outro animal sem motivo.
7. Todos os animais são iguais mas alguns são mais que outros.

Na minha leitura preferida das férias (“A obsessão do Fogo”), Umberto Eco diz que um editor norte-americano escreveu a George Orwell: “É impossível vender uma história de animais nos Estados Unidos”. Esta e outras recusas integrarão um eventual capítulo da “História das asnidades” dedicado à rejeição de obras-primas literárias pelos editores.

16 de Agosto de 1773. Dissolução da Companhia de Jesus

Clemente XIV (1705-1774), eleito no mais longo conclave da história: 179 escrutínios ao longo de três meses, publica o breve “Dominus ac Redemptor noster”, que extingue a Companhia de Jesus. Seria restaurada em 1814.

“Quando as notícias da dissolução dos Jesuítas chegaram a Lisboa, o Marquês de Pombal ordenou, num gesto de extravagante floreado, que as luzes da cidade ardessem toda a noite em celebração”. Jonathan Wrigth, in “Os Jesuítas. Missões, mitos e histórias” (Ed. Quetzal).

15 de Agosto. 1537, fundação de Asunción

1537. Fundação da cidade de Nuestra Señora de la Asunción, mais conhecida por Assunção (Asunción), capital do Paraguai.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O homem por quem Kolbe deu a vida


Maximiliano Kolbe foi canonizado por João Paulo II no Vaticano, no dia 10 de Outubro de 1982. O homem que pôde viver graças à imolação de Kolbe esteve presente. Franciszek Gajowniczek (1901-1995), na imagem diante de um retrato de Kolbe, voltou a ver a sua mulher mas não os seus filhos, porque morreram num bombardeamento soviético em 1945, e dedicou o resto dos seus dias à memória do mártir polaco.
“Mr. Gajowniczek attended the canonization ceremony in St. Peter's Square and spent much of his life after World War II bearing witness to the sacrifice made for him by Father Kolbe. He traveled across Europe and the United States, giving talks about the priest and helping dedicate new churches in his name”.
In “The New York Times”, de 14 de Março de 1995 (aqui).

Agora que a Quaresma acaba