terça-feira, 30 de junho de 2009

Paulo como era mesmo

O que surpreende na imagem recentemente descoberta (ver entrada anterior) é a semelhança com esta reconstituição do instituto alemão LKA NRW. Suponho que o instituto pertence à polícia. Terá feito a reconstituição em Janeiro de 2008.

A imagem paulina mais antiga?

Poderá ser esta a imagem mais antiga que se conhece de Paulo. É do séc. IV.

Diz o sítio da BBC Brasil:

“O fresco estava debaixo de uma camada de argila endurecida na catacumba de Santa Tecla, em Roma, a poucos metros da Basílica de São Paulo Fora dos Muros – dedicada ao apóstolo que se converteu ao Cristianismo após ter perseguido os cristãos.

A pintura foi descoberto no dia 19 de Junho, mas o anúncio foi feito apenas neste final de semana [na conclusão do Ano Paulino], na edição de domingo do jornal L'Osservatore Romano, órgão oficial da Santa Sé”. Mais aqui.

Rahner e Ratzinger - III

Rahner e Ratzinger, numa altura em que se considerava que ambos estavam na dianteira da Igreja, ou melhor, do pensamento teológico. Muitos dizem que Rahner foi o teólogo mais influente do Concílio. Outros dizem que foi Congar. E outros, ainda, Ratzinger.

Rahner e Ratzinger - II

Logo após o Concílio, em 1965, Rahner, com A. van den Boogaard, P. Brand, Y. Congar OP, H. Küng, J.-B. Metz e E. Schillebeeckx, funda a revista Concilium. Ratzinguer, com Hans Urs von Balthasar e Henri de Lubac fundam a Communio, em 1972 (edições alemã e italiana). Dificilmente os nomes poderiam mais programáticos. Mas ambos os programas são essenciais.

Vitral de Rahner

Estimado por católicos e protestantes, Karl Ranher está representado no vitral da catedral episcopal (anglicanos norte-americanos) de S. Francisco (ao fundo, à esquerda, é só clicar).

Rahner e Ratzinger - I

Karl Rahner escreveu em 1962, com o Concílio a iniciar-se: “Com Ratzinger, entendo-me bem. Ele é muito estimado por Frings”. Ranher viu ser levantada, à última hora, a “censura preventiva” que o impedia estar presente no concílio. Estes dois seriam os teólogos mais influentes no Vaticano II. Ratzinger foi como especialista de Frings, cardeal de Colónia. Rahner, a convite de Konig, cardeal de Viena.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Clássicos 10: “Curso fundamental sobre la fe”, de Karl Rahner

(Primeiro parágrafo:) "Este livro propõe-se dar uma introdução ao conceito de cristianismo. Portanto, em primeiro lugar, trata-se somente de uma introdução e nada mais. Evidentemente, tal empresa está muito mais próxima de uma decisão pessoal pela fé do que outras publicações científicas ou teológicas ou que certos cursos académicos. Contudo, deve tratar-se aqui de uma introdução no contexto de uma reflexão intelectual, e não directa e imediatamente de um escrito edificante, embora seja claro que a relação de uma teologia do espírito e do entendimento com uma teologia do coração, da decisão e da vida religiosa represente de novo um problema muito difícil. Pretendemos, em segundo lugar, uma introdução ao conceito de cristianismo. Para isso, pressupomos à partida, a existência deste nosso cristianismo pessoal e próprio, na sua forma normal eclesiástica, e tentamos, em terceiro lugar, reduzi-lo ao conceito. Esta palavra “conceito” foi acrescentada para que fique claro que, falando com Hegel, se trata de um “esforço do conceito”. Por isso, quem de antemão procura somente estímulos religiosos e receia este esforço da reflexão paciente, fatigante e monótona, deveria prescindir desta investigação".

Curso fundamental sobre la fe | Título original: Grundkurs des Glaubens | Karl Rahner | Herder, 536 páginas | Barcelona, 1989

Karl Rahner (1904-1984), jesuíta alemão, talvez o mais importante teólogo católico do séc. XX, sintetizou na teologia o tomismo e o existencialismo, Kant e Husserl, J. Maréchal e M. Heidegger. Uma grande “reflexão paciente, fatigante e monótona” foi, afinal, o que Rahner fez ao longo da maior parte da vida. Mas falta acrescentar um adjectivo à caracterização da reflexão: “fecunda”.

O futebolista católico

Início da entrevista-a-tender-para-o-inquérito da revista “Ler” (Junho 2009) a João Miguel Tavares (JMT), jornalista e director-adjunto da “Time Out”:
Ler - João Miguel, qual é o seu pior defeito?
JMT - Sou um canalha da pior espécie. Um pulha sem princípios. Um patife que só pensa em si próprio.
Ler - A sério?
JMT - Não. Mas sempre sonhei dizer isto. Quando esta pergunta é feita nos inquéritos – sobretudo a jogadores de futebol -, dois terços respondem «Sou muito teimoso», e o outro terço varia entre «Tenho dificuldade em perdoar a traição» e «Confio demasiado nos outros». Nunca encontrei uma única alma que arranjasse um defeito que não dosse uma espécie de qualidade camuflada. Esta dificuldade em indagar o nosso interior só prova que o catolicismo não fez bem o seu trabalho. Tantos séculos de confissões, tanta gente ajoelhada diante do pároco, e hoje em dia não se consegue arranjar um pecado de jeito. Lamentável.
(Fim de citação).

Transcrevi aqui parte da entrevista por três motivos, cumulativos:
- o jornalista é dos mais estimulantes a escrever actualmente na imprensa portuguesa (escreve na lisboeta "Time Out", no "Diário de Notícias" e de vez em quando na "Notícias Magazine"). Gosto do humor dele;
- o jornalista usa recorrentemente uma linguagem com referências católicas (creio ter-se afirmado católico, mas não posso assegurar; de qualquer maneira, conhece bem os hábitos);
- faz pensar que a confissão não devia ser um mecânico dizer dos pecados, mas uma real introspecção; não um exercício de desarrisca ("desobriga") dos antigos cardenos paroquiais, nem uma correria nos tempos litúrgicos mais fortes, na actualidade, nas povoações ainda mais ou menos católicas, mas um encontro de autoconhecimento e renovação interior.
O que diriam então os futebolistas? "Vivo a tensão do e do ainda não; do viver como ser intregral, que foi criado para a plenitude, e do ainda não por não se terem realizado em mim todas as potencialidades, por viver marcado pelo homem velho". "Está a falar como futebolista?" - pergunta o entrevistador. "Sim, porque prognósticos só no fim do jogo, na plenitude dos tempos", diria o futebolista católico.

domingo, 28 de junho de 2009

Bento e Anselmo

Bento Domingues, no "Público" de 28 de Junho:

“Dir-se-ia que no Vaticano, há horror ao vazio; ainda não tinha terminado a vindima do Ano Paulino, já estava feita a sementeira do chamado Ano Sacerdotal. Ao dizer «chamado» quero destacar os equívocos a que está exposta a designação pastoral deste próximo ano, que os próprios bispos portugueses se encarregaram de desfazer: «A Igreja de Cristo é toda ela um povo sacerdotal. A vida e o ministério dos sacerdotes ordenados nascem do povo sacerdotal e a ele se destinam, em dedicação plena de alma e coração»”.


Anselmo Borges, no "Diário de Notícias" de 26 de Junho:

“Durante séculos, foi pregado um deus irado e mesquinho. (…) Mas, depois, foi-se para um outro extremo, não menos pernicioso. Começou-se a pregar um Deus que é amor, mas sem se perceber o que é o amor. Prega-se então um deus “bonzinho”, que nada exige, que não impõe regras nem limites, que permite tudo”.

Livro: Para rezar com mais uns milhares de portugueses


Para apresentar este livro, nada mais adequado do que as palavras do P.e Peter Stilwell, no Prefácio, que o explica a quem não segue habitualmente a programação da Rádio Renascença (RR): “Todas as manhãs, discretamente, nos interstícios de uma comunicação em catadupa, a animação matutina da RR altera, por um instante, o seu ritmo e abre-se uma fresta por onde sopram ventos de outras paragens, mais longínquas e profundas, onde a nossa humanidade continuamente se refaz. É um serviço de repercussões incalculáveis que a Renascença presta, quando, em casa, no caminho ou no trabalho, mesmo antes do sinal horário das oito, nos propõe a oração da manhã. São milhares os portugueses que, por um momento, interiormente se detêm para escutar e deixar-se mover ao ritmo de uma meditação ou de uma prece e, em paz, elevar o coração para Deus. O efeito derrama-se seguramente pelo mundo em volta numa filigrana de esperança e fraternidade”.

“Acordar com Deus” reúne as orações da manhã proferidas aos microfones da rádio por António Rego (padre e jornalista), João Aguiar (padre, presidente do Conselho de Gerência da RR), José Eduardo Borges de Pinho (leigo, teólogo), Maria da Conceição Costa Barreira de Sousa (mãe de quatro filhos, servita), Maria Teresa Frazão (professora), Maria Victor (leiga, educadora), Teodoro Mendes (leigo, ensaísta).

Orações que se lêem num minuto e que podem iluminar um dia inteiro.


Acordar com Deus, Vários autores, Ed. Paulinas, 166 páginas

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Vinho do Porto e Felicidade


Tem sido uma descoberta recente a filosofia-sabedoria-espiritualidade de C.S. Lewis, o célebre autor das “Crónicas de Nárnia” (sete livros que deram origem a filmes e peças de teatro). Bento XVI citou-o numas das suas catequeses, logo no início do pontificado, e foi motivo para ficar de orelhas guiadas. Mas só recentemente procurei conhecer o autor, em parte por causa de um artigo da revista “Communio” sobre o itinerário da imaginação para Deus (“itinerarium imaginationis ad Deum)”.
C.S. Lewis era anglicano, convertido. Um dia, numa conversa com empregados da Electric and Musical Industries Ltd., em Heyes, Middlesex (Inglaterra), no dia 18 de Abril de 1944, perguntam-lhe:
“Qual das religiões do mundo confere aos seus seguidores maior felicidade?”
A resposta de Lewis: "Qual das religiões do mundo confere aos seus seguidores maior felicidade? Enquanto dura, a religião da auto-adoração é a melhor. Tenho um velho conhecido já com seus 80 anos de idade, que vive uma vida de inquebrantável egoísmo e auto-adoração e é, mais ou menos, lamento dizer, um dos homens mais felizes que conheço. Do ponto de vista moral, é muito difícil. Eu não estou a abordar o assunto segundo esse ponto de vista. Como vocês talvez saibam, não fui sempre cristão. Não me tornei religioso à procura da felicidade. Eu sempre soube que uma garrafa de vinho do Porto me daria isso. Se vocês quiserem uma religião que vos faça felizes, não recomendo o cristianismo. Tenho certeza que deve haver algum produto americano no mercado que será de maior utilidade. Mas quanto a isso, não sei como vos ajudar”.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

E um debate entre Onfray e Zizek?

Imaginemos agora um debate entre Onfray e Zizek (ler entrada anterior). Um dizendo que o Deus cristão é um entrave à liberdade. O Outro rebatendo que Cristo é o verdadeiro potenciador da liberdade. Um afirmando a necessidade de supressão da religião, o outro realçando as possibilidades da fé.

Liberdade, Cristo e ateísmo

O que é ser livre? Quem pode ser livre? O cristão, acreditando que, em última análise tudo depende de Deus, pode ser livre? Se Deus for o Senhor do universo e do para-lá-do-universo, da vida e do para-lá-da-vida, do ser e do para-lá-do-ser, o homem será independente e livre?

Os cristãos pensam que sim. São mais livres porque acreditarem em Deus-Pai e em Jesus Cristo, o libertador. Pensam, segundo o exemplo de Cristo, que quanto maior for a dependência filial, maior será a liberdade. Pensam que a verdade, seja qual for, libertará.

Os ateus dizem o contrário, que é preciso matar Deus, apagá-lo da sociedade e das mentes, das aulas, das artes, das praças, da vida. Esquecê-lo. Ignorá-lo. Suprimi-lo. Em nome da verdade e da liberdade.

“Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar a própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso libertar-me. A liberdade nunca é dada. Ela constrói-se no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islão é um entrave e um inibidor da autonomia do homem”, assim pensa Michel Onfray, na linha de Nietzsche, como disse numa entrevista à Veja (Brasil).

Esta é a linha comum dos ateísmos mais ou menos militantes.

Zizek, porém, afirmando-se materialista dialéctico, diz algo diferente. Em "A Monstruosidade de Cristo" (Relógio d’Água), afirma que Jesus, ao encarnar, faz-nos perder a transcendência paternal. Leva-nos a assumir a responsabilidade pelas escolhas. "Quando as pessoas imaginam toda a espécie de sentidos profundos porque as 'assustam as palavras que dizem: Ele fez-se Homem', aquilo que na realidade receiam é perderem o Deus transcendente que garante o sentido do universo, Deus como o senhor oculto que move os cordelinhos - em seu lugar encontramos um deus que abandona a sua posição transcendente e se precipita na sua própria criação, comprometendo-se com ela até à morte, o que faz com que nós, seres humanos, fiquemos sem qualquer Poder superior que olhe por nós, sem outra coisa que não seja o terrível fardo da liberdade e da responsabilidade pelo destino da criação divina e, portanto, do próprio Deus. Não continuaremos hoje a recear demasiado todas as consequências dessas palavras?"

Insistindo na última ideia: a encarnação de Cristo não será o maior incentivo à liberdade humana?

"Inklings": Escrita e cristianismo

“Temos uma espécie de clube informal chamado os Inklings; as qualificações [para ser membro] (…) são o gosto pela escrita e o cristianismo”.

C. S. Lewis


O clube Inklings existiu desde 1936 até à morte de Lewis (1963), embora a partir de 1949 as reuniões fossem menos regulares. “Tolkien e Lewis eram os pilares do grupo, que tinha uma vintena de pessoas. Tolkien leu aí o Hobbit, O Senhor dos Anéis, The Notion Club Papers (que põe em cena o próprio grupo dos Inklings!); e Lewis Out of The Silent Planet, Perelandra, The Problem of Pais e The Great Divorce”. Fonte: "Communio", Out/Nov/Dez 2008.

Clássicos 9: "Jesus Cristo Libertador", de Leonardo Boff


(Primeiro parágrafo:) «Quem dizem os homens que eu sou?» Essa pergunta de Jesus a seus discípulos ressoa através dos séculos até hoje e possui a mesma actualidade como quando foi colocada pela primeira vez em Cesaréia de Filipe (Mc 8,29). Todo homem que alguma vez se interessou por Cristo não pode se esquivar a semelhante questionamento. A cada geração cabe responde dentro do contexto de sua compreensão do mundo, do homem e de Deus».

Jesus Cristo Libertador | Leonardo Boff | Vozes, 1972, 286 páginas


Começar um livro (ou um artigo) sobre Jesus com a pergunta “Quem dizem os homens que eu sou” é um lugar lugar comum. E pode ser não eclesialmente correcto (!) considerar um clássico a obra de um teólogo que abandonou o sacerdócio. Mas este livro apresenta um Jesus Cristo comprometido no seu tempo, um Jesus que morre como consequência de uma vida que não podia deixar de ser um escândalo. Mas morre para a libertação da humanidade. E isso é da teologia mais ortodoxa que há. Leonardo Boff (Concórdia, Brasil, 1938) foi frade franciscano de 1959 a 1992. Diz que nunca abandonou a Igreja. Tem mais de 60 livros publicados e continua a dar conferências, principalmente no Brasil, onde vive com a educadora popular Márcia Miranda.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Somos petrinos e paulinos


O facto de a Igreja celebrar Pedro e Paulo no mesmo dia (29 de Junho) não querá significar que os cristãos são petrinos e paulinos? Crêem no Cristo da morte e ressurreição (paulino), mas também no carpinteiro, amigo de publicanos e prostitutas, proclamador de parábolas, provocador do templo e dos sacerdotes, profeta itinerante, perdoador de pecados, fazedor de milagres (petrino).
A Igreja celebra-os juntos, porque tanto precisamos do que viu e ouviu "in loco" e teve medo de caminhar sobre as águas (Pedro era pescador, mas, como quase todos no seu tempo, poderia não saber nadar) como daquele que não-viu-mas-sabe-que-é-assim e não teve medo de naufragar (Paulo, nas suas viagens, principalmente na última, quando naufraga antes de Malta, sabe que nada de mal acontecerá aos que viajam com ele).

Paulo e Lenine, segundo Zizek


O Ano Paulino está a acabar. Para muitos cristãos, nem terá começado. Na realidade, há que dizer, vive-se bem sem Paulo. O evangelho de Paulo é o da morte e ressurreição de Cristo. Os cristãos olham também, olham mais, ou olham quase exclusivamente para os outros Evangelhos, que, logo à partida, têm duas grandes versões, a de João e a de Marcos, Lucas e Mateus. Temos, pois, pelo menos, três acessos escritos a Jesus: Paulo, que fica pela morte e ressurreição; João, que parte do Verbo chegar à humanidade; e os Sinópticos, que partem da humanidade para chegar ao Salvador.
Pode-se ficar pelo Jesus dos Evangelhos sem chegar ao Cristo de Paulo. Talvez seja esta a situação da maioria dos católicos. Perde-se muito? O que se perde mesmo? Ganha-se? Como seria um cristianismo sem Paulo?
O Ano Paulino está a acabar. O Papa encerra-o na tarde de 28 de Junho.
Um pouco atento à realidade eclesial, vi algumas iniciativas sobre Paulo, mas não vi reflexões ponderadas sobre o significado de Paulo. Sobre as consequências, sim. Falou-se da fé em Cristo contra as obras da Lei; da paixão evangelizadora; da fundação de comunidades; do Cristo ou morte (“para mim, viver é Cristo”); das viagens; da seita que o cristianismo seria sem Paulo…
Mas não houve explicações sobre o ser e significado de Paulo. Por que é que Paulo não fala do que viria a seguir a ficar gravado nos Evangelhos? (Os Evangelhos ainda não estavam escritos no tempo de Paulo, mas a memória e o testemunho deviam existir) Porque não interpreta as parábolas de Jesus? Porque não fala de Maria? (Diz que Jesus Cristo é nascido de mulher… mas o que diz isto sobre Maria?) Qual o significado dessas ausências?
Slavoj Zizek (na foto) afirma: “O que lhe interessa não é Jesus como figura histórica, mas apenas a sua morte na cruz e a sua ressurreição de entre os mortos; uma vez estabelecida a morte e a ressurreição de Jesus, dedica-se à sua verdadeira tarefa, uma autêntico empreendimento leninista: a organização de um novo partido chamado comunidade cristã… São Paulo como leninista: não foi ele caluniado pelos partidários do cristianismo-marxismo das origens? A temporalidade Paulina – a do «já, mas não ainda» - não corresponderá também à situação de Lenine entre a revolução de Fevereiro e a de Outubro de 1917? A revolução já ficou para trás, o antigo regime morreu, a liberdade foi conquistada, mas o verdadeiro trabalho ainda está por fazer”.
Para o provocador filósofo materialista dialéctico esloveno (mas não desevangelizador militante como Michel Onfray), o que permitiu a Paulo “formular os princípios fundamentais do cristianismo, fazer passar o cristianismo de uma seita judia para a religião universal (a religião da universalidade), foi precisamente o facto de não ter feito parte do círculo estreito dos íntimos de Cristo”.
O seguinte excerto de “A Marioneta e o Anão” (Ed. Relógio D’Água), descontado a piada, é revelador sobre o significado de Paulo. Um católico não deixará de ver no modo com as coisas aconteceram a acção do Espírito Santo. Claro que tem de acreditar que é Ele o guia da Igreja. Um ateu poderá dar uma explicação circunstancial e inteligente do como. Um crente pergunta pelo porquê e encontra a coerência do desenrolar dos acontecimentos. A economia da salvação.
Escreve Zizek (pág. 15): “Podemos imaginar o círculo íntimo dos apóstolos recordando as suas conversas durante a ceia: «Lembras-te que, na Última Ceia, Jesus me pediu que lhe passasse o sal?» Para Paulo, isso é impossível: ele está de fora e, como tal, substitui simbolicamente (ocupa o lugar de) o próprio Judas, entre os apóstolos. De certo modo, Paulo também traiu Cristo, não se preocupando com as suas particularidades, reduzindo-os brutalmente ao essencial, sem mostrar a menor ternura pela sua sabedoria, pelos seus milagres e outros afins”.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Sophia e Assis

Se Sophia foi a Pádua ver um franciscano, é capaz de ter passado por Assis. Pelo menos escreveu:

Santa Clara de Assis

Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas.

Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida,
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem.

In "Cem Poemas de Sophia", Ed. Visão/ JL, 2004, pág. 37

Sophia, pagã-cristã


No P2 (do “Público”), de 21 de Junho, num texto de Alexandra Lucas Coelho (ALC) sobre o espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen:

“Portuguesa, inequivocamente cristã, é a poeta de um mundo pagão”, escreve ALC. Por causa da paixão pela Grécia e a antiguidade grega.

Na Grécia, Sophia toma banhos de mar, bebe vinho de resina “e quer ajudar as pessoas, como um jovem americano que precisa de boleia”, diz ALC. Porque “o amor cristão é prático e concreto, como na parábola do samaritano”, deixa Sophia escrito num caderno de viagens.

Em Pádua, Sophia escreve: “Toquei a minha aliança no túmulo de Santo António, comprei um vela e rezei pelo Francisco [Sousa Tavares], filhos e pela minha mãe”.

“Pagã-cristã, poeta e mulher de família, tudo isto nela parece coexistir com verdade”, resume ALC. Pagã de referências culturais, cristã de valores existenciais, diria eu.

Clássicos 8: "O coração do mundo", de Hans Urs von Balthasar


(Primeiro parágrafo:) “Oh! Como vive encarcerado todo o ser finito! O homem também nasce num cárcere. Alma, corpo, ideias, aspirações, esforços; tudo nele tem fronteiras; é tudo, já de si, uma fronteira palpável, tudo um isto, um aquilo, separado, apartado do resto. Pelas grades dos sentidos cada qual olha para fora de si mesmo, para o que lhe é estranho, para aquilo de que nunca fará parte; e, embora o seu espírito percorra voando – como as aves – os espaços do mundo, nunca ele será esse espaço; o seu rasto desaparece, não deixa vestígios duradoiros. Que distância não vai dum ser a outro! E, ainda mesmo quando se amam, quando de ilha para ilha, procuram entender-se e iludir o seu isolamento como uma unidade aparente, logo os surpreende – quão mais dolorsa! – a desilusão, ao esbarrarem, como pássaros engaiolados, contra os varões invisíveis duma gélida e transparente muralha. Não conseguem evadir-se. Nenhum deles sabe quem o outro é. Às apalpadelas, por conjecturas, abeira-se o homem da mulher, a criança do adulto, pouco menos misteriosos, uns para osoutros, do que o são, para os homens, os animais”.

O coração do mundo | Título original: Das herz der welt | Hans Urs von Balthasar | Porto, 1959, 284 páginas

“O coração do mundo” é uma longa e apaixonada meditação sobre o amor de Deus concretizado na doação de Cristo na cruz, que é o verdadeiro coração do mundo. Hans Urs von Balthasar (12 de Agosto de 1905 – 26 de Junho de 1988), doutorado em Literatura, foi o grande ausente do II Concílio do Vaticano. Fundou com Ratzinger e Henri de Lubac a “Communio”, Revista Internacional Católica (foi dele a ideia). João Paulo II nomeou-o cardeal (sem direito de voto em eleições pontifícias), mas von Balthasar morreu dois dias antes da cerimónia.

O filósofo repetitivo

O filósofo francês Michel Onfray, “ateu, hedonista, libertário e anti-liberal”, disse numa entrevista à TSF, no dia 13 de Maio, que não acreditava no “velhote de barba branca”, nem na “transcendência de Deus” e que a religião é uma “ficção que torna a vida impossível”, que “apodrece a existência”.

Os argumentos de Michel Onfray são os mesmos de Nietzsche. Mas, há que admitir, passados mais de cem anos, estão a ganhar mais visibilidade.

Talvez a religião até apodreça algumas existências. Mas a fé em Cristo engrandece a vida. É a experiência genuína dos crentes. As palavras do filósofo, como qualquer boa provocação, merecem resposta.

Ele tem um livro em português que é Tratado de Ateologia. Não vou comprá-lo, porque não quero investir o meu dinheiro nisso, mas vou saber o que diz – o que até nem é difícil através da net.

Por exemplo, diz que «três milénios testemunham, dos primeiros textos até hoje, a afirmação de um Deus único, violento, invejoso, quezilento, intolerante, belicoso, que gerou mais ódio, sangue, mortos, brutalidade do que paz…»

Diz ainda que é preciso “trabalhar para uma nova ética e criar as condições de uma verdadeira moral pós-cristã, onde o corpo deixe de ser uma punição, a terra um vale de lágrimas, a vida uma catástrofe, o prazer um pecado, as mulheres uma maldição, a inteligência uma presunção, e a vontade uma danação».

Numa expressão ou noutra destas citações, é possível ver uma crítica válida à prática dos cristãos. Mas nada de substancial. Nada de novo.

Voltando à entrevista, quando Carlos Vaz Marques lhe pergunta: “Qual é a sua direcção pessoal?”, a resposta é: “A minha direcção é o hedonismo é fazer as coisas de maneira que na breve existência que me foi concedida que não me arrependa de nada”.

Esta resposta não está longe de um excerto da epopeia de Gilgamesh (rei sumério do séc. XXVIII a. C.). A pergunta é a mesma (a da direcção, o sentido). E a resposta, tal e qual (o prazer).

«Para onde vão os teus passos, Gilgamesh? Não encontrarás a vida que procuras; quando os deuses criaram o homem, deram-lhe a morte por herança. Tinham a vida nas suas mãos. Gilgamesh, enche a barriga, sê feliz dia e noite, faz com que os dias transbordem de alegria, dança e faz música dia e noite. Veste roupa novas, lava a cabeça e saboreia um bom banho. Olha para a criança que levas pela mão. Faz com que a tua esposa goze o teu abraço. Só estas coisas são dignas do homem».

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mau gosto de jornalista do “Público”

O Provedor do Leitor do “Público” deu ontem conta dos protestos dos leitores contra um texto de São José Almeida. Na altura em que foi publicado pensei em protestar, escrevendo à autora (não seria a primeira vez), mas deixei passar. Afinal, vários autores protestaram. E ainda bem.

Diz o provedor Joaquim Vieira: “A jornalista São José Almeida finalizou assim a sua habitual crónica dos sábados do P2, em 23 de Maio, dedicada às posições do PS e da Hierarquia católica quando à educação sexual dos jovens: «Ou se optará por tentar criar condições reais para combater os números brutais da gravidez, do aborto e da sida entre os jovens, em vez de ceder à pressão dos que ficam felizes em celebrar encontros entre a Nossa Senhora de Fátima e o Cristo-Rei. Encontros esses que, seguramente, não precisam de preservativo». (…) Alguns leitores não gostaram. (…). [E disseram que se tratou de] «desrespeito e falta de elevação» (…), «lamentável e insultuoso para a grande maioria dos portugueses» (…).

Mais uma vez, o provedor declara que não põe em causa a opinião publicada, mas há aqui uma questão de bom gosto, pela ofensa gratuita dos dogmas de uma religião”.

Pode-se rir do sagrado? Eu penso que sim. Rir com o sagrado. Rir pelo sagrado. E até gostava de escrever algo sobre o assunto. Mas o mau gosto é sempre mau gosto.


Clássicos 7: "Nisso não acredito", de John A. T. Robinson

(Primeiro parágrafo:) “Não, nisso é que eu não posso acreditar! É uma reacção típica diante de grande parte da doutrina cristã, hoje em dia. E muitas vezes eu próprio me surpreendo a dizer: «No sentido em que penso ser obrigado a acreditar, também eu não acredito»”.

Nisso não acredito | But That I Can't Believe! | John A. T. Robinson | Moraes Editora, 1968, 194 páginas

John Arthur Thomas Robinson (1919-1983), inglês, foi professor de Novo Testamento e Bispo (anglicano) de Woolwich. O seu pensamento insere-se na teologia liberal e na teologia da secularização, como Harvey Cox e William Barclay.

A sua obra mais importante é “Honest to God”, de 1963, que, como esta agora citada, faz uma crítica às crenças tradicionais. John A. T. Robinson considerava-se de algum modo sucessor de Paul Tillich, Dietrich Bonhoeffer e Rudolf Bultmann e foi criticado por favorecer o relativismo teológico e ético (“ética situacional”). Em Inglaterra, nos anos 60 houve um interessante debate na imprensa entre este autor e C. S. Lewis, este último tido como defensor da ortodoxia.

Heresia e profecia

Na “análise iconoclasta” do cristianismo (a expressão é do “Nouvel Observateur” – na contracapa) que Slavoj Zizek faz em “A Marioneta e o Anão”, a religião tem dois papéis possíveis, no “quadro da nova ordem mundial” que é a globalização: “ou ajuda os indivíduos a funcionar cada vez melhor na ordem existente, ou procura afirmar-se como uma instância crítica e dizer o que está errado nessa ordem como tal, ou seja, enquanto espaço aberto às vozes contestatárias – neste último caso, a religião tende a assumir, como tal, o papel de uma heresia”.

Na verdade, neste parágrafo da instrodução de uma obra que pretende denunciar as “tendências perversas do cristianismo”, o filósofo esloveno não diz nada que ainda não tenha sido dito. Aliás, em linguagem mais pró-eclesial, no campo do cristianismo, dir-se-ia que esta fé terá sempre dois papéis: ser conferidor de sentido às existências individuais e colectivas e assumir-se como instância profética. Por outras palavras, orientação num mundo confuso e desejo de transformação desse mundo. Aquilo que Zizek refere ser um papel de heresia sempre na igreja foi reconhecido como profecia.

domingo, 21 de junho de 2009

Amo-te como um planeta em rotação difusa

Amo-te como um planeta em rotação difusa
E quero parar como o servo colado ao chão.
Frágil cerâmica de poros soprados no teu hálito
Vasilha que ergues em tua mão de oleiro
Cálice que não pudeste afastar de ti.

Daniel Faria, "Poesia", Edições quasi, pág. 239

sábado, 20 de junho de 2009

Clássicos 6: "História de Cristo", de Giovanni Papini


(Primeiro parágrafo) "Há quinhentos anos para cá, os que se intitulam «espíritos livres» por terem desertado da Milícia pelos Ergástulos anseiam por assassinar Jesus pela segunda vez – por matá-lo no coração dos homens."
História de Cristo | Título original Storia di Cristo | Giovanni Papini | Livros do Brasil, 2006, 422 páginas

Giovanni Papini (1881-1956) nasceu em Florença. Começou por ser céptico e ateu e acabou católico, refugiado num convento de Viena, após o fim de Mussolini, de que fora apoiante e que lhe valera o lugar de professor universitário em Bolonha. Fundou a revista “Leonardo” e “L’Anima” e escreveu para “Il Regno” e para o “Corriere della Sera”. Principais obras: “História de Cristo”, de 1935, “Il crepuscolo dei filosofi”, "Gog", “O Diabo”, “Cartas aos Homens do Papa Celestino VI” e “Relatório sobre os homens”. Devido ao seu fascismo e anti-semitismo, Papini está “injustamente esquecido”, na expressão de Jorge Luís Borges. Ainda não é politicamente correcto citá-lo, mas a “História de Cristo” é, apesar de tudo, um clássico do pensamento católico do século XX.

Que nos espera?

"Conhecer Deus" era a maior esperança para João Bénard da Costa, que, por isso, podia dizer: "Acredito que esta vida não pode acabar aqui: nada faria sentido, para mim, se assim fosse". Último parágrafo da opinião de Anselmo Borges no DN.

Um outro fervor

“Todos os locais da cidade estão cheios destas conversas, as ruas, as encruzilhadas, as praças, as avenidas. Falam os vendedores de tecidos, os cambistas, os merceeiros. Se perguntas ao cambista o câmbio de uma moeda, ele responde-te com uma dissertação dobre o gerado e o não-gerado. Se queres saber da qualidade e do preço do pão, o padeiro responde-te: “O Pai é o maior, e o Filho está-lhe sujeito”. Quando perguntas nas termas se o banho está pronto, o gerente declara que o Filho proveio do nada. Não sei que nome hei-de dar a esta doença; exaltação, raiva…”

Gregório de Nissa (330-395), neste texto retirado de “Sobre a divindade do Filho e do Espírito Santo”, fala do fervor teológico, ou pelo menos cristológico, do ambiente em que viveu. As frases que cita são de adeptos do arianismo, uma heresia que submetia Jesus a Deus-Pai. Para o arianismo (do padre Ario, que viveu de de 256 a 336, em Alexandria), o Filho era uma criação do Pai e não eram da mesma substância. Contra o arianismo, o Concílio de Niceia proclamou que o Filho “é gerado, não criado, consubstancial ao Pai”.

Porquê o texto de Gregório de Nissa? É uma mera invocação de um clássico motivada pelo fervor missionário coreano.

Missionários em competição


A Coreia do Sul tem actualmente 16 mil missionários, só das comunidades evangélicas. Com os EUA, é o país com mais gente nas missões. Os sul-coreanos evangelizam a China, a Rússia e países muçulmanos, muitas vezes sob a capa do trabalho humanitário. No Afeganistão têm sido raptados por fundamentalistas, o que causa apreensão nas autoridades coreanas e desejo de outros missionários partirem para a missão.

O governo afegão desencoraja os missionários. Os sequestros, com resgates e venda de entrevistas dos missionários a jornais e televisões internacionais, são bons negócios para os criminosos.

A imprensa internacional diz que há uma competição crescente ente igrejas evangélicas. Vão para a China disfarçados de empresários e investigadores. O entusiasmo é tanto que às vezes há dezenas ou mesmo centenas de evangelistas numa pequena cidade, lutando entre si pelo trabalho humanitário, diz a imprensa coreana.

Na imagem, coreanos raptados de um autocarro no Afeganistão, em 2007.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Clássicos 5 – “O Pastor”, de Hermas


(Primeiro parágrafo) “Quem me criou, vendeu-me para Roma a uma tal Rosa. Passados muitos anos, vim a conhecê-la e comecei a amá-la como irmã. Algum tempo depois, vi-a banhar-se no rio Tibre, dei-lhe a mão e retirei-a para fora do rio. Ao ver a sua formosura, discorria no meu coração, dizendo: Seria feliz, se desposasse uma mulher com esta beleza e modo de ser. Nada mais me passou pela cabeça senão isto”.

O pastor | Título original "POIMHN" | Hermas | Co-edição Alcalá / Faculdade de Teologia da UCP, 2003, 280 páginas

Não se sabe ao certo que foi Hermas, nem em que data (final do séc. I?, meados do séc. II?) ou local (Patmos? Éfeso? Roma?) a obra foi escrita. Orígenes dizia que este Hermas é o mesmo que Paulo saúda em Romanos 16,14. Mas é improvável.

“O Pastor” chegou a ser tido como livro inspirado por alguns cristãos dos primeiros séculos, graças às interpretações alegóricas (na mulher atraente do parágrafo acima citado viu-se o “símbolo da sedução que a cultura pagã exerce sobre os cristãos”).

Sobre a obra, Isidro Lamelas escreve na Introdução desta edição: “(…) É, sem dúvida, uma das mais fascinantes e surpreendentes de toda a literatura cristã dos primeiros séculos. Considerada e utilizada durante gerações como texto sagrado e inspirado, gozou de uma singular estima e notoriedade na Igreja antiga”.

Para ler tudo, tudo, tudo. Em breve


No “Público” de hoje (edição em papel), três assuntos que o Tribo de Jacob segue com interesse (e aos quais, provavelmente, ainda voltará):

* Foi o jesuíta Manuel Dias que ensinou aos chineses quem era Galileu (P2, páginas 4 e 5). Texto de Ana Machado (o único que encontrei on-line, aqui);

* “Etty, Rilke e Eckhart. Viagens pela mão dos místicos”. Textos de António Marujo e Tolentino Mendonça. Sobre as recentes edições das obras: “Cartas” (1841-43), de Etty Hillesum (Assírio & Alvim); “Livro das Horas”, de Rainer Maria Rilke (Assírio & Alvim); e “Tratados e sermões”, de Mestre Eckhart (Paulinas). O texto principal começa assim: “Há uma mulher num campo de concentração que lê o místico medieval Mestre Eckhart e faz récitas de Rilke – pelo meio tem que limpar retretes. Há um poeta que vagabundeia pela Europa e escreve em castelos como se fossem conventos. Há um frade dominicano que faz sermões sobre o desapego e é perseguido pela Inquisição” (“Ípsilon”, páginas 22-25). Imagem deste post: Etty Hillesum;

* “Portugal teria podido proteger muitos dos judeus de origem portuguesa, mas não o fez”, diz uma entrevista de José Manuel Fernandes ao académico alemão Carsten L. Wilke (“Ípsilon”, páginas 26-28).

“Deus está de volta”


O livro chama-se “God is Back: How the Global Revival of Faith is Changing the World” (algo como “Deus está de volta: Como o renascimento global da fé está a mudar o mundo”), de John Micklethwait e Adrian Wooldridge, na Penguin Press. Um é católico, o outro é ateu (não sei qual deles é o quê). Ambos são jornalistas da “Economist”.

Uma leitura sumária de críticas (na “Sábado” de 18 de Junho, no FT.com, no site da Amazon) revela o teor do livro: o capitalismo é benéfico para a religião e a religião é benéfica para o capitalismo. E isto faz-se por duas vias: 1.ª, o capitalismo, com a mudança permanente, deixa as pessoas vulneráveis e fá-las procurar segurança na religião; 2.ª, a religião usa os meios do capitalismo – a tecnologia e os mercados – para se expandir.

Mas o livro fala também de uma mudança de percepção na Europa, que vai “Da Necessidade de Ateísmo” (título do primeiro capítulo, que começa com a expulsão de Oxford do poeta Percy Bysshe Shelley, por ter escrito um panfleto precisamente intitulado “A Necessidade do Ateísmo”), às “Guerras culturais globais”, ao “Aprender a viver com a Religião” (conclusão).

O livro tem uma visão global, ainda que realce o arco Europa – EUA. A religião, dizem, está a deixar de ser vista como uma força da ignorância e obscurantismo. É “uma grande força para o progresso social no mundo em vias de desenvolvimento”. Sobre o Pentecostalismo dizem que “dá às pessoas uma predisposição psicológica para os conduzir ao capitalismo, pela sua ênfase na disciplina, nos hábitos, na poupança, na preservação da família”.

Quatro comentários à queima-roupa (como disse um crítico, quando não se sentir inspirado para escrever uma crítica, em último recurso, leia o livro):

* Quantas vezes já se falou de regresso do religioso, da fé, do sagrado? Muitas. Desde finais dos anos 80 que se fala disso e dos “rumores dos anjos”, da secularização frustrada… Agora acrescenta-se a globalização e a Internet.

* A tese do refúgio na religião não se assemelha àquela do senhor de barbas que mais criticou o capitalismo, cujo nome num livro dos anos 50 era traduzido por Carlos Marques?

* A tese de o Pentecostalismo ajudar ao capitalismo (ou criar a predisposição para tal) não é a mesma que a de Max Weber com o seu “A ética protestante e o espírito do capitalismo?”

* Finalmente, este livro insere-se numa observação que já tem pelo menos uma década: “Deus, outrora menos vivo do que se julgava, está menos morto do que se diz” (Jean Delumeau).

Clássicos 4 – “Cidade de Deus”, de Santo Agostinho


“A gloriosíssima Cidade de Deus – que no presente decurso do tempo, vivendo da fé, faz a sua peregrinação no meio dos ímpios, que agora espera a estabilidade da eterna morada com paciência até ao dia em que será julgada com justiça, e que, graças á santidade, possuirá então por uma suprema vitória, a paz perfeita – tal é, Marcelino, meu caríssimo filho, o objecto desta obra”. (Primeiro parágrafo)

A Cidade de Deus | Título original: De Civitate Dei | Santo Agostinho | Fundação Calouste Gulbenkian, 1996, 3 Tomos (816 páginas no primeiro)

Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste, em 354, e faleceu em Hipona, em 430, cidade de que foi bispo desde 395. É o padre latino mais influente. (“Não há missa sem vinho, nem sermão sem santo Agostinho”, dizia-se). Escreveu “De Civitate Dei” entre 413 e 426.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O ícone Lenine


Marcos Ana passou 23 anos na prisão, sob a ditadura franquista e conta em livro, aos 87 anos, como foi. A obra chama-se “Digam-me como é uma árvore” (ed. Guerra e Paz) e é descrita como memórias “menos políticas do que puramente humanas” (“Ípsilon”, 12 de Junho). Marcos Ana recorda histórias da sua infância pobre e católica, da sua adesão ao comunismo na adolescência, da prisão, do exílio. Conta, por exemplo, que na prisão os presos sujeitos a tortura eram reconfortados por um certo retrato de Lenine, como se fosse um ícone religioso.

Leio a recensão de Mário Santos no “Ípsilon” e, sem antes conhecer o resistente, fico desperto para pelo menos dar uma olhadela no livro na próxima visita a uma livraria: “Este livro é um testemunho de vitalidade e optimismo, sem sombra de ressentimento. São as memórias de alguém que não nomeia os companheiros que «tiveram fraquezas», nem os seus directos torturadores: «porque devem ter filhos e netos e tanto tempo depois não quero conspurcar a recordação que tenham dos pais ou avós». São as memórias de um homem. Coisa rara”.

O que diz Samuel L. Jackson


Diz o seguinte (no “Pantalla”, suplemento do diário espanhol “ABC” de 5 de Junho):

“Rezo todos os dias para não beber nem me drogar”.

“O simples facto de estar aqui e de não ter sido atirado para a rua, bêbado e drogado, devo-o a Deus. Tive a oportunidade de ver a luz. Às vezes a fé é importante para me manter sereno nos momentos de tentação. Não bebi um copo durante 15 anos… (…) É uma das primeiras coisas que faço logo de manhã, pedir a Deus que me dê força para não beber nem tomar drogas nesse dia”.

Clássicos 3 - "Imitação de Cristo", de Tomás de Kempis


“Quem Me segue não anda em trevas” (Jo 8,12). São palavras com que Jesus Cristo nos exorta à imitação da sua vida e dos seus costumes se quisemos ser verdadeiramente esclarecidos e livres de toda a cegueira espiritual. O nosso empenho deve, portanto, consistir em meditar profundamente a vida de Cristo.

Imitação de Cristo | Tomás de Kempis | Paulus, 2003, 254 páginas

Tomás nasceu em Kempen (Kempis), na Renânia (Alemanha), em 1379 ou 1380, e morreu a 25 de Julho de 1471, no mosteiro de Saint Agnetenberg, perto de Utreque (Holanda). São-lhe atribuídas cerca de 40 obras. A “Imitação de Cristo” é a mais conhecida e mais influente.

Símbolo cristão perdido?

Dan Brown vai publicar no dia 15 de Setembro, nos EUA, o romance “The Lost Symbol”. Ninguém sabe do que fala o livro. Além do autor, só cinco pessoas no mundo inteiro, dizem, tiveram acesso ao manuscrito. E têm de manter segredo porque assinaram um contrato de confidencialidade. Mas sabe-se que Robert Langdon, o professor de simbologia de Harvard, volta a entrar.

Facilmente se arrisca mais: o símbolo perdido é um símbolo cristão. Se não for, venderá tanto como “Anjos e Demónios” ou “O Código da Vinci”? E que símbolo cristão teria sido perdido? O Graal do “Código” e do Indiana Jones? A peça de roupa que tapou Jesus na cruz e que nunca existiu? A Arca vista pela última vez durante a invasão babilónica? O bastão de Moisés (que Hebreus diz que estava na Arca?). Uma terceira tábua de mandamentos? A almofada que Jesus, no barco, durante uma tempestade? (Não tinha uma pedra para reclinar a cabeça, mas tinha uma almofada.) A verdadeira cruz de Jesus? A coroa de espinhos? O báculo de Pedro? As redes que apanharam 153 peixes? A cruz de Constantino? Um ícone? Mas isto são objectos, não símbolos.

Se o símbolo não for cristão, que polémica poderá levantar? Suscitará tanto interesse? A bem do negócio (e da diversão de quem gosta deste tipo de literatura, como eu, que a leio por distracção e não para alimentar convicções), é bom que seja cristão.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A essência dos judeus


Na última “Courrier internacional” (Junho 2009), diz Shlomo Sand, em entrevista: “Ser judeu não é uma essência, é viver numa grande religião”.

Eu pensaria exactamente o contrário, baseando-me na experiência daqueles que, convertidos ao judaísmo, nunca parecem realmente judeus (estou a pensar em Miguel Esteves Cardoso – como pensar que a sua conversão foi sincera, ainda que também não possa disso duvidar? – e noutra pessoa que não conheço, mas de quem me disseram que por muito que se esforçasse, era tida como judeu de segunda pelos judeus mais antigos). Baseando-me no não-proselitismo que, afinal, o mesmo Shlomo Sand desmonta. Houve épocas de proselitismo judaico. E, ainda, baseando-me no princípio: Judeu é aquele que nasce de mãe judia.

Cristo e os cristãos

No "Público" de hoje:

Eu gosto de Cristo. Eu não gosto de vocês, cristãos. Vocês, cristãos, são tão diferentes de Cristo.

Mahatma Gandhi (1869-1948).

Clássicos 2 – “Tratado da Oração, do Jejum e da Esmola”, de Frei Luís de Granada


"Para conclusão desta obra [o Livro da Oração], pareceu-me necessário tratar, no final, dos frutos e proveitos da oração, para mover os corações dos leitores para o exercício desta virtude e para os trabalhos que, na sua continuidade, se hão-de passar. Porque assim como os que pregam jubileus e indultos apostólicos procuram declarar e encarecer as graças e os favores que neles se concedem, para que não recusem os homens fazer o que para isso se lhes pede, dado o muito que se lhes promete; assim também, como no exercício da oração, que aqui se pede, haja trabalho e dificuldade – como logo diremos -, é necessário adoçar esta purga com algum mel, pondo ante os olhos os frutos e os grandes efeitos desta virtude; para que, com este gosto e esperança, se esforcem os homens para querer tomar esta purga. E chamamo-la purga porque, como disse um daqueles insignes Padres do Deserto, uma das coisas mais trabalhosas que há na vida espiritual é o exercício contínuo da oração, o qual veremos claramente pelas seguintes razões".

Tratado da Oração, do Jejum e da Esmola | Frei Luís de Granada | Paulinas, 2006, 254 páginas

Luís Sarria nasceu em de Granada, em 1504. Vem para Portugal em 1550-51 e vive em Lisboa, no convento de S. Domingos (Rossio), até à morte, no dia 31 de Dezembro 1588. Este “Tratado…” é uma parte do “Livro de la Oración y meditación”, obra que suscitou a oposição da Inquisição e do grande teólogo (e confrade de Frei Luís) Melchior Cano. A principal crítica que lhe faz é que Frei Luís propõe um “caminho de perfeição comum e geral a todos os estados”.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Rembrandt como Paulo


Auto-retrato de Rembrandt.
Como Paulo, com o livro e a espada (que se vê melhor clicando na imagem).

Rembrandt, pintor paulino


Rembrandt (1606-1669), o maior pintor holandês do séc. XVII, é um caso sério de interesse (obsessão?) pela figura de São Paulo. Quando os pintores começavam a abandonar os temas religiosos, o mestre holandês continuava a inspirar-se na Bíblia, ao ponto de existir uma edição bíblica conhecida por “Bíblia de Rembrandt”, completamente ilustrada com as suas pinturas. Ora, Rembrandt, pintou pelo menos cinco vezes a figura de Paulo.

Protestante, embora haja divergências quando à confissão em concreto, não há dúvida de que conhecia bem a Bíblia (num dos seus quadros representa a sua mãe a lê-la).

Rembrandt teve fases da vida muito instáveis e cheias de dramas. Morrem-lhe dois filhos e, após oito anos de casamento, a mulher. Sobrevive apenas um filho, que o apoia na velhice. Chama-se… Tito – nome de um dos discípulos de Paulo.

Num dos seus auto-retratos (de 1661), Rembrandt representa-se como Paulo, com um turbante do Médio Oriente, a espada e o livro (que dizem ser a Carta aos Efésios), símbolos tradicionais do Apóstolo (aqui).

Entre as outras pinturas sobre Paulo (“Paulo Apóstolo”, de 1635; “Paulo Apóstolo”, de 1647; “São Paulo à secretária”, de 1629) destaca-se “São Paulo na Prisão”, de 1627, acima reproduzida. Paulo está possuído por uma mensagem (uma Pessoa!) maior do que vida, perante a qual as palavras são sempre limitadas. O seu olhar não engana.

Catequese paroquial

É curioso o uso do adjectivo “paroquial” com sentido pejorativo. Quando num artigo sobre política se fala de “visão paroquial”, “mentalidade paroquial”, “dimensão paroquial” ou se usam expressões semelhantes, quer-se referir a algo de vistas curtas, fechadas, limitadas, tacanhas. No entanto, “paróquia” tem subjacente a ideia de proximidade. É a igreja mais próxima das pessoas. “Paróquia” é quase sinónimo de comunidade. É onde uma pessoa se sente conhecida, querida. “Paróquia”, pelo menos para mim, tem um conteúdo positivo. Opõe-se a multidão, a indiferenciados, a massa, rebanhada. Quando se muda de terra, por exemplo, é quase sempre na paróquia que criamos laços.

Ontem no "Público" (15-06-2009), Isilda Pegado dava usa similar à palavra “catequese” e seus derivados, a propósito das últimas eleições: “Muitos foram os que catequizaram [contra o neoliberalismo]…”; “…outros, com o medo de se oporem a tão “brilhante” catequese, ficaram mudos…”; “…O povo, nas europeias, disse não à «catequese» socialista”. “A catequese serôdia do Estado intervencionista…”

“Catequese” tem claramente um sentido negativo: ideologia perniciosa, algo que se pretende inculcar, martelar, impingir, tentativa de manipulação, de engano. É outra palavra que no contexto religioso é positiva, mas a que se dá um uso negativo em contexto profano. Por mim, preferia que não dessem às palavras de origem conotações negativas. Que paroquial, catequese, missa, missão, sermão, capela… não tivessem conotações negativas. Que ao uso religioso dessas palavras não chegassem os sentidos negativos que têm quando são usadas em contextos profanos. Mas em relação a algumas delas já será impossível evitar que o sentido profano não se sobreponha ao uso genuinamente religioso.

Clássicos - 1: "Apologia", de Cardeal Newman


“Facilmente se compreende a grande provação que para mim representa ter de escrever a minha própria história; mas não posso furtar-me a este dever. As palavras Secretum meum mihi ecoam aos meus ouvidos; mas à medida que os homens se aproximam do fim, menos lhes custa fazer confidências. E não é menos provação antever que os meus amigos, ao leram pela primeira vez o que escrevi, lhe encontrem muito de irrelevante em face do que se pretende. No entanto, considerando o conjunto, insisto em pensar que, transmiti-lo ao público, é servir os meus propósitos”.

Apologia | Título original: Apologia pro Vita Sua | Cardeal Newman | Verbo, 1974, 382 páginas

John Henry Newman (Londres, 21 de Fevereiro de 1801 – Edgbaston, 11 de Agosto de 1890), anglicano inglês convertido ao catolicismo em 1845, foi nomeado cardeal pelo papa Leão XIII, em 1879. É considerado precursor do ecumenismo e do personalismo. Ordenado sacerdote da Igreja Católica em Roma (1847), abriu e dirigiu em Birmingham um oratório de São Filipe Néri e foi ainda reitor da Universidade Católica da Irlanda (1854). A “Apologia” é uma autobiografia espiritual.

Introdução aos clássicos

Durante as próximas semanas, enquanto a minha biblioteca o permitir, vou transcrever no Tribo de Jacob os primeiros parágrafos de clássicos do catolicismo, daquelas obras que de alguma forma tenham marcado o pensamento católico. Podem ser obras de Teologia, autobiografias, ensaios, testemunhos. Será sempre um cânone discutível e muito limitado. Mas talvez desperte em alguém o gosto por descobrir alguma dessas obras.

As culpas da Igreja Católica no processo

O actor Virgílio Castelo, numa entrevista à revista “Plenitude”, que saiu com o “Público” no início de Junho de 2009, afirma a dado passo, ao responder a “quais são as ideias-chave [do livro que escreveu e que se intitula “O Último Navegador]”?:

“Diz, basicamente, que a culpa de isto funcionar mal não é de ninguém a não ser de nós próprios; a Igreja Católica tem culpas neste processo «até dizer chega»; as elites políticas saídas do 25 de Abril são incapazes; o País é governado por corporações e filtrado por jornalistas. É evidente que o livro foi votado ao silêncio”.

Li o resto da entrevista (quatro páginas) à procura de uma justificação da responsabilidade da Igreja Católica. Não encontrei. Mas li que o actor aceitava ser primeiro-ministro. “Uma legislatura bastaria para acabar com o País oficial e dar espaço ao País real”, afirma. Fiquei elucidado. Sugiro que no seu programa político recolha medidas contra a Igreja Católica. Uma inquisiçãozinha, pelo menos. É o mínimo que pode fazer para “dar espaço ao País real”. Por outro lado, uma reinterpretação da sua frase pode levar-nos a supor que ele se inclui na Igreja Católica (a culpa é “de nós”… “a IC tem culpas neste processo”…). Mas não me parece que seja isso que queira dizer.

Também li na mesma revista (que suponho ligada à IURD) que Virgílio Castelo quer escrever um livro sobre o amor (dentro de um ou dois anos) e outro sobre Deus (sem data). Entretanto, define Deus com estas palavras: “A possibilidade de tentarmos não nos enganar a nós próprios”. Parece-me bem. Deus tem muito a ver com acertamos nas nossas grandes opções. São Paulo dizia isto de outra maneira: “Feliz de quem não se condena a si mesmo, devido às decisões que toma” (Rm 14,22).

Subir à fonte

É preciso reencontrar Deus: a própria Fonte, para além das ideologias e das escravizações de hoje. Reencontrar, em Deus, inspiração, verdade e liberdade, para além das armadilhas e feridas aqui na terra. Trata-se de reencontrar a unidade por meio da caridade. Reencontrar humildemente uma filosofia realista para além de filosofias excitantes, mas que nos afundam. Reencontrar, com a realidade da terra, a realidade última de Deus: verdadeiro pólo da nossa magnetização e do nosso amor. Numa palavra, reencontrar a Eucaristia, onde Deus, morto e ressuscitado por nós, Se dá a Si próprio em alimento, intimamente, orgânica e totalmente. É este o segredo do amor. O amor não cansa. Não passa. Ele respeita e vivifica todas as diferenças. O amor existe. Apesar do ritmo frenético das nossas existências, não esqueçamos de O reencontrar.

René Laurentin, “A Igreja do Futuro”, Edições Paulistas, pág. 283-284.

Para quando a primeira cardeal?

É inovação do Papa a nomeação de cardeal de um bispo auxiliar? O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um de...